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“Essa luta é de todos”, diz Malu Galli

Entre o sucesso popular na TV e um papel denso no teatro, a atriz carioca vive sua fase mais potente — e mais política

Por Renata Magalhães
27 fev 2026, 09h11 • Atualizado em 27 fev 2026, 09h13
Malu Galli _ foto Chico Cerchiaro _ Styling Jose Camarano Make Vini killesse _ 7465.jpg
 (Chico Cerchiaro/Divulgação)
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  • No mês de março, Édouard Louis volta ao Brasil com uma experiência inédita para os seus leitores: o aclamado escritor francês, reconhecido por sua literatura autobiográfica de forte cunho político e social, subirá ao palco da 11ª edição da MITsp para interpretar uma de suas obras. Durante a estadia, está prevista uma ponte aérea para encontrar a atriz Malu Galli, que estará interpretando a mãe do autor no Rio.

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    Na quinta (5), estreia no Teatro Firjan Sesi Centro a peça Mulher em Fuga, primeira adaptação nacional de Lutas e Metamorfoses de Uma Mulher e Monique se Liberta — dois de seus best-sellers. Sob a direção de Inez Viana, a carioca de 54 anos dá vida a uma personagem que sofre um ciclo de abusos, sempre subjugada à lógica da dominação patriarcal.

    De sua casa no Flamengo, Malu conversou com VEJA RIO sobre a virada do fenômeno Tia Celina, de Vale Tudo, para a trama política que lhe causou profunda emoção. “A melhor coisa para um artista é conseguir chegar até o público”, celebra ela, acumulando dezenas de papéis e prêmios em diferentes plataformas, como o recente Kikito do 53º Festival de Gramado pelo filme Querido Mundo, previsto para estrear no primeiro semestre de 2026.

    De onde vem o caráter extraordinário da sua nova personagem? A Monique tem a vida de muitas mulheres pobres ao redor do mundo: engravidou cedo e perdeu as oportunidades de criar autonomia, tendo a juventude roubada — como diz o próprio Édouard. Ainda assim, consegue manter viva uma chama que a faz se reinventar. Embora caia no mesmo erro de se ligar a homens que se mostram abusadores, ela tem coragem para tentar fugir em direção ao que sonha, sem pena de si mesma. 

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    Como a trama, que nasce de um material literário íntimo, se aproxima da nossa realidade? O Édouard parte da própria vivência para fazer uma análise crítica da sociedade e levantar reflexões extremamente políticas. Ele é um observador do mundo e usa as experiências para elaborar sua visão. Ao falar de si, trata também do coletivo — em qualquer lugar ou tempo. Histórias de silenciamento sempre existiram, sobretudo com mulheres. 

    Que tipo de silêncio mais te inquieta no nosso país? O trabalho não remunerado da dona de casa. Isso alimenta o patriarcado, pois faz com que ela não possa gerir a própria vida. Enquanto cria uma base sólida para que os outros possam construir as suas trajetórias, ela labuta de sol a sol e depende financeiramente. É uma discussão fundamental se queremos falar sobre igualdade e liberdade feminina. 

    Como foi a construção desta personagem? Todo o processo me abalou e isso segue quando enceno o espetáculo. Meu estado de emoção profunda contagia a plateia. Ao mesmo tempo, Monique tem um senso de humor e há momentos divertidos. E ela consegue se libertar com a ajuda do filho, então termina com uma mensagem de esperança. Há saída, sobretudo se os governos e a sociedade civil se mobilizarem e entenderem que essa é uma luta de todos. 

    Frente a todos os casos de feminicídios recentes, é possível falar que estamos melhorando? Estamos desnudando a dominação masculina de tal forma que o movimento on-line de grupos misóginos é uma resposta a isso. Urge uma regulação da internet e ações do poder público. O Governo acabou de lançar uma campanha direcionada aos homens, mas não é suficiente. Isso tem que ser ensinado na escola. Na Dinamarca, agora há uma matéria sobre empatia — é triste, mas necessário. 

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    Enquanto mãe, conseguiu se ver nela? Temos trajetórias muito diferentes, mas qualquer mãe se identifica com a saudade da própria vida e a busca por espaços para si no meio da confusão da maternidade. Esse redemoinho te suga e é fácil se perder. Monique vive o extremo disso ao ser arrancada dela mesma para uma realidade profundamente infeliz. Em algum percentual ínfimo, toda mãe sente isso — é a nossa tragédia e também a nossa redenção.

    Como foi a virada de uma burguesa em Vale Tudo para a perda de qualquer vaidade? Isso é o mais divertido da profissão: poder se emprestar a mundos diferentes. Adoro… Sinto como se fosse uma nômade. Quando entramos numa sala de ensaio e começamos a pesquisar aquele universo, automaticamente esquecemos do que aconteceu na semana anterior. 

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    A repercussão da Tia Celina mudou a forma como o público passou a te ver? Ela foi controversa em diversos momentos e ainda assim conseguiu criar empatia com os espectadores. Passei a receber um carinho grande nas ruas. As pessoas já me conheciam, mas foi diferente do que estavam acostumados a ver na TV. Tia Celina estabeleceu um espaço mais popular e abriu muitas portas, criando um lugar mais estabelecido. A melhor coisa para um artista é conseguir chegar até o público.

    Como foi a parceria com o diretor Miguel Falabella no filme Querido Mundo? Quando comecei a fazer teatro no final dos anos 1980, no Rio, Falabella era um sucesso absoluto e criava filas nas bilheterias. Depois, foi mais para a TV e eu segui acompanhando tudo o que ele fazia. Nunca podia imaginar que nosso encontro se daria no cinema. O longa é uma adaptação de uma montagem dele, então tem uma teatralidade forte. Vamos apresentá-lo no Festival Brasileiro de Paris, em abril, e a estreia nacional deve ser no fnal do primeiro semestre.

     Na peça, Monique decide recomeçar aos 50 anos. De que forma essa idade te transformou? Passei pela menopausa com todas as crises e a sensação de um rito de passagem. É o encerramento de uma fase para outra que não sabemos o que esperar, então dá um pouco de medo — ainda mais como a sociedade trata o assunto. A verdade é que não há “pausa” nenhuma, isso é algo que o patriarcado quer que a gente acredite. Entendi meu corpo no novo contexto e estou na fase mais potente da minha vida. 

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