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Os desafios do Rio após a maior queda na curva de contágio da Covid-19

Segundo o economista Thiago de Moraes Moreira, o estágio 0,01 não pode estagnar e, muito menos, o gráfico tornar a disparar, como ocorreu em Miami

Por Carolina Barbosa Atualizado em 10 jul 2020, 21h10 - Publicado em 10 jul 2020, 21h08

Economista, consultor em planejamento estratégico e professor do IBMEC do Rio, Thiago de Moraes Moreira se debruça, desde maio, sobre cálculos exponenciais a fim de entender o estágio da curva de velocidade do novo coronavírus no Rio. Seus dados, atualizados diariamente, serviram de bússola para a prefeitura tomar decisões importantes na condução da pandemia. No último dia 6, o município finalmente atingiu o nível 0,01 da curva (leia-se 1%), a maior queda desde que o vírus surgiu por aqui. Foi esse índice que sinalizou o início da flexibilização das atividades em lugares como a Espanha e a Itália. No Rio, o plano da retomada, começou bem antes deste estágio. Há quatro dias, a cidade está estagnada nesta faixa do gráfico. À primeira vista, pode soar como um bom indício. Ledo engano. É aí que começa o desafio de controlar a aceleração deste inimigo invisível. Entenda na entrevista a seguir.

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O que podemos aprender com experiências bem-sucedidas mundo afora no processo de reabertura dos setores da economia?

A Covid-19 é uma doença completamente nova. Neste sentido, todo mundo ainda está um pouco no escuro no sentido de entender qual o momento certo para se tomar determinadas decisões. Tudo é muito frágil do ponto de vista das consistências, das hipóteses. Costumo dizer que o Brasil tem a vantagem de estar atrás na curva da epidemia, de ter sido afetado depois que vários outros países foram vastamente atingidos, a exemplo de Espanha e Itália. Pudemos, então, acompanhar o que aconteceu nestes países e poderíamos ter aproveitado para termos nos preparado melhor neste enfrentamento. Mas desperdiçamos muitas lições. Esses lugares adotaram políticas bem-sucedidas, a partir de uma coordenação central, tanto do ponto de vista de protocolos, quanto de planejamento, de expansão de número de leitos e de conduta rígida em relação à quarentena. Quando você descentraliza, você cria uma descoordenação entre as ações e gera insegurança à população.

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Deveríamos ter sido mais rígidos então? Como avalia a condução da pandemia por aqui?

Se tomarmos como referência a Espanha e a Itália, as restrições impostas foram levadas a sério. Isso fez toda a diferença na recuperação e na retomada. Óbvio que o lockdown é uma medida extrema e difícil de segurar e ela tem um período, um prazo de validade. Não pode durar três meses, fica inviável. Política bem-sucedida, atualmente, é aquela que toma uma medida extrema por tempo limitado, traduzido como um lockdown rigoroso, fechando o país, durante 35 a 40 dias. Isso se reflete nos números. Se eu considerar o montante de infectados na Itália de 1º de maio até 9 de julho, foram 36 700 casos, aproximadamente. Na Espanha, neste mesmo período, o acumulado foi de 39 000. De quarta (8) pra quinta (9) no Brasil foram 45 300. Olha que discrepância! O que quero dizer com isso? Seria muito melhor um lockdown à la Espanha ou Itália por um curto período a uma quarentena meia-boca que já dura mais de 100 dias.

Qual seria o momento da curva de contaminação ideal, a seu ver, para o início da reabertura das atividades?

Nestes lugares, o início da abertura começou quando a velocidade de contágio estava em 0,01 (leia-se 1%), estágio esse que atingimos nesta semana, em 6 de julho. No entanto, levamos mais de 100 dias para alcançar esta velocidade que foi atingida em 30 dias por aqueles países com muito menos impacto e mortes. Os movimentos de abertura e fechamento não são simétricos. Volto a dizer que estender um pouco mais a quarentena e reabrir com segurança ou optar por um lockdown rígido por um período entre 30 a 40 dias seria muito melhor tanto para o número de casos quanto para a economia. Começamos o plano de flexibilização no Rio por volta de 10 de junho, com velocidade de contágio de 0,03. E, para minha surpresa, essa velocidade caiu de forma consistente. Há um porém, que requer muita atenção. O que, mais uma vez, a experiência internacional nos ensina, acerca de uma possível ascensão da curva pós-reabertura? Espanha e Itália vêm coordenando uma reabertura gradual, sem surto nacional, com sucesso no controle. Com relação ao Rio há que se olhar para um exemplo parecido no cenário internacional: Miami, na Flórida. A despeito daqui, depois que começou a flexibilização, a curva ia bem, desacelerando, estagnou e logo, logo explodiu. O exemplo de Miami é tudo o que não podemos reproduzir por aqui. Neste momento, todo cuidado é pouco.

Gráfico de velocidade de contágio do coronavírus no Rio: 0,01 Reprodução/Reprodução

Ou seja, ao considerarmos  velocidade de contágio, deveríamos então estar no início da reabertura agora?

Exatamente. Olhando para o que fizemos, com esta quarentena adotada, a reabertura deveria ter sido iniciada no início de julho, com um mês de diferença. A não ser que tivéssemos adotado uma postura mais rígida anteriormente, aí certamente teríamos saído mais rápido dessa e com muito menos casos até então.

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Muita gente confunde taxa de reprodução (ou contágio) do vírus com a velocidade de contágio. Poderia nos explicar as diferenças destes termos técnicos atualmente utilizados como base de dados por aqui?

A velocidade de contágio e a taxa de contágio são dados bastante diferentes, embora complementares. A taxa de contágio, também chamada de taxa de reprodução (representada por RT), que busca medir o número médio de pessoas que cada infectado contamina, é um cálculo epidemiológico, supercomplexo, com variáveis que incluem probabilidades até subjetivas e que muitas não são de fáceis acesso, sobretudo quando queremos fazer comparações internacionais, o que nos deixa na dependência de instituições renomadas como a Imperial College. Esse cálculo médico funciona como um efeito multiplicador da doença, ou seja, apenas quando reduz para níveis inferiores a 1 é que o controle da pandemia é de fato alcançado. Quando falo em velocidade de contágio, me refiro a um cálculo matemático de velocidade de crescimento de processos exponenciais. Grosso modo, essa inclinação usa como referência um período de catorze dias, caracterizado como o “ciclo da doença”, para medir a velocidade de contágio. Esse valor varia entre zero e um, sendo zero a situação ideal, em que o montante de contaminados para de evoluir.

Quais são nossos desafios a partir de agora, seja no âmbito econômico ou na segurança a fim de evitar que possamos retroceder?

O ideal seria uma reabertura faseada e cautelosa sem antecipações, como vem acontecendo. Entre uma fase e outra não adianta apenas alcançar as metas ou critérios estabelecidos para os parâmetro por um ou dois dias. Seria importante definir um período maior (de no mínimo sete dias) de alcance dos valores requeridos como requisito para passagem de fase, porque aí teríamos mais segurança para garantir que aquele patamar foi de fato consolidado. O atropelamento de fases gera incertezas e insegurança tanto no empresariado quanto na população, em geral.

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Abrir e depois fechar os setores da economia é pior do que mantê-los fechados até que se tenha de fato um controle ou é uma medida necessária para não afundarmos de vez?

Para a recuperação econômica teria sido muito melhor uma quarentena mais rígida e de menor duração. O abre e fecha, muitas vezes, é pior do que manter fechado, ouso dizer. Porque para abrir, o setor precisa cumprir uma série de protocolos, que já exige vários gastos de adequação. O movimento de abrir e fechar é terrível porque mata qualquer horizonte de planejamento ao empresariado. Você não consegue planejar o fluxo de caixa que está gerando. Várias empresas chegaram à conclusão de que economicamente não vale a pena abrir neste momento inicial. Ou seja, em muitos casos é pior reabrir do que manter fechado. Isso se torna ainda mais nocivo quando se fala em bares e restaurantes que lidam com mercadorias perecíveis. Como fazer esse planejamento com alimentos para dali duas semanas sem saber o que vem pela frente? É melhor ter lucro zero do que prejuízo. Tal instabilidade pode provocar danos irreversíveis à economia, capaz de quebrar de vez diversos negócio. No Rio, o assunto torna-se ainda mais relevante porque a participação dos serviços associados ao consumo social no PIB fluminense é muito significativo.

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De acordo com suas projeções, qual será o impacto desta pandemia na economia fluminense?

Bom, a economia fluminense tem algumas características peculiares. Algumas ajudam na contenção dos impactos, outras aprofundam os efeitos. Se pensarmos no turismo, alguém poderia dizer que a economia fluminense seria a mais afetada do país. No entanto, o setor de serviços é bastante diversificado, representando cerca de 80% do PIB do estado, proporção inclusive à do segmento em nível nacional (74%). O Rio, no entanto, tem a “vantagem” de não ter uma indústria forte (com exceção do petróleo e gás). Isso porque os efeitos diretos do isolamento recaem sobre os serviços, se propagando para as atividades industriais. No caso do Rio, o peso do setor industrial é pequeno. Logo a propagação e o efeito multiplicador da crise é menor. Os estados que são fortes tanto nos serviços quanto na indústria serão os mais atingidos, como São Paulo. No caso do petróleo e gás, está sendo dos mais afetados pela pandemia no mundo todo, uma vez que trabalha com mobilidade. A queda esperada atualmente na produção deste ano é de cerca de 10%, mas essa projeção poderá melhorar em função do forte crescimento nas exportações de petróleo, sobretudo pra China, que no acumulado até maio já cresceu 25% em relação a 2019. Outro diferencial a favor do Rio é a maior participação do setor público em sua economia (bem maior que a média nacional), o que acaba funcionando como uma espécie de amortecedor de crises, dada a maior estabilidade no emprego e renda. Enfim, o difícil é saber a resultante final de tantos vetores. A única certeza é que a queda no PIB será histórica!

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