Quem decide o valor de uma obra de arte?
Do Cosme Velho ao Museu do Pontal, a produção de artistas de diferentes regiões do Brasil ganha visibilidade e desafia as fronteiras da arte contemporânea
Odoteres Ricardo de Ozias começou a pintar aos 46 anos. Nascido no interior de Minas Gerais, trabalhou como pedreiro e ferroviário e, sem formação artística, utilizava os próprios dedos, palitos e até escovas de dentes para criar pinturas sobre placas de Eucatex. Em 2023, mais de uma década depois de sua morte, suas obras ganharam uma exposição individual na David Zwirner, uma das galerias mais prestigiadas do mundo, em Londres. Trabalhos que durante anos tiveram circulação restrita passaram a despertar o interesse de colecionadores e a aparecer em leilões, com valores estimados em dezenas de milhares de reais.
Conheci mais profundamente a produção de Ozias ao me aproximar do acervo do antigo Museu Internacional de Arte Naïf, no Cosme Velho, que deu origem à exposição Arte Naïf — Nenhum Museu a Menos, realizada em 2019, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. A experiência foi decisiva para a criação do Arte nas Estações, projeto que leva exposições a diferentes cidades brasileiras. Desde então, tenho procurado conhecer artistas que desenvolvem suas obras longe dos grandes centros culturais e compreender as circunstâncias em que trabalham. A trajetória de Ozias mostra o quanto ainda temos a descobrir sobre a produção artística do nosso país.
Na Z42, no Cosme Velho, a exposição Nossa Arte — Novos olhares sobre a pintura brasileira contemporânea, cuja curadoria assino ao lado de Paulo Tavares e Peralta, reúne nomes de diferentes gerações e regiões. Concebida em três atos, a mostra apresentou 20 artistas em sua primeira etapa, inaugurada em setembro. No dia 4 de novembro, uma nova montagem trará outros 20, ampliando o conjunto de repertórios e linguagens.
Do Amazonas a Santa Catarina, passando por Pernambuco, Paraíba, Bahia, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais e Rio de Janeiro, a exposição apresenta uma diversidade raramente encontrada nos espaços tradicionais. São artistas cujas obras nascem de relações particulares com o território, o trabalho, a religiosidade, as festas populares e o cotidiano. Cada um constrói seu próprio universo visual, a partir de referências culturais e experiências de vida distintas.
As trajetórias ajudam a compreender essa riqueza. Natural de São José de Ubá, no noroeste fluminense, Ademilson Felipe trabalhou no campo e na construção civil antes de começar a pintar com sobras de tinta de seu ofício. Em Bananeiras, na Paraíba, Matheus Matias iniciou sua produção ainda criança, desenhando com carvão nas paredes da casa onde vive na zona rural. Já Seo Antônio Ferreira, de Mato Grosso, encontrou na infância, ao observar a derrubada de árvores para o plantio, os primeiros motivos para seus desenhos. Hoje, pássaros, plantas, animais e paisagens povoam suas telas.
No Museu do Pontal, Véio — a escuta do sertão apresenta a obra de Cícero Alves dos Santos, artista sergipano que construiu, ao longo de mais de seis décadas, uma linguagem escultórica singular a partir de fragmentos de madeira encontrados na natureza. Sua trajetória demonstra como uma produção profundamente vinculada ao território e à cultura popular pode alcançar reconhecimento nacional e internacional. O museu apresenta ainda trabalhos de José Bezerra e de outros artistas do Vale do Catimbau, em Pernambuco, aproximando o público carioca de diferentes expressões da escultura popular brasileira.
Na ArtRio de setembro, a Galeria Estação levou obras de Agnaldo dos Santos, Conceição dos Bugres, Madalena Santos Reinbolt e outros artistas fundamentais para a compreensão de nossa diversidade artística. O programa Brasil Contemporâneo, com curadoria de Paula Borghi, reuniu galerias e artistas de diferentes estados, com destaque para práticas ligadas ao fazer manual. A presença desses trabalhos em uma das principais feiras de arte do país revela o interesse crescente por produções que, durante muito tempo, tiveram circulação limitada.
O mercado de leilões oferece outro indicador desse movimento. Obras de Odoteres Ricardo de Ozias já integraram pregões da Blombô, uma das principais plataformas de leilões de arte do Brasil, e aparecem em catálogos de outras casas do setor. A valorização de artistas como Chico da Silva e Heitor dos Prazeres é igualmente expressiva. Há cerca de 15 anos, suas pinturas eram comercializadas por até R$ 15 mil. Hoje, dependendo das dimensões, podem alcançar entre R$ 200 mil e R$ 450 mil. São exemplos de como o reconhecimento artístico se reflete no mercado e transforma o valor atribuído a obras durante muito tempo pouco valorizadas.
Mas o reconhecimento não se mede somente pelo valor comercial. Exige pesquisa, preservação, presença em coleções e um olhar crítico que considere a qualidade e a originalidade das obras, independentemente da formação ou da origem de seus autores.
Ao observar as obras reunidas na Z42, penso nos muitos artistas que continuam trabalhando em pequenas cidades, comunidades rurais e periferias, sem acesso aos meios de divulgação e circulação disponíveis nos grandes centros. A história de Ozias revela como esse cenário pode mudar quando uma obra encontra quem reconheça sua qualidade e crie condições para que seja vista. O talento artístico desconhece fronteiras geográficas ou sociais. O desafio é fazer com que o reconhecimento alcance essa mesma diversidade.







