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Lu Lacerda

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Jornalista apaixonada pelo Rio

Teatro, por Claudia Chaves: “Ensaio sobre a cegueira”

A parceria de Rodrigo Portella com Federico Puppi é daquelas em que imaginamos que os dois se entendem por um olhar

Por Daniela 16 out 2026, 09h00
Quatro atores em cena, com maquiagem de palhaço, sorriem e fazem caretas atrás de uma mesa com um bolo de chocolate decorado com bandeirinhas do Brasil, uma garrafa de espumante e uma faca. A mulher à direita segura uma maleta e uma casca de banana
 (./Divulgação)
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“Ensaio sobre a cegueira”, na versão teatral, é de uma simplicidade aparente. Um palco sem objetos de cena marcantes, figurinos neutros, uma música daquelas que sabemos que conhecemos, mas jamais ouvimos. Aliás, a parceria de Rodrigo Portella com Federico Puppi é daquelas em que imaginamos que os dois se entendem por um olhar.

Um grupo de pessoas, algumas com olhos vendados, observa um homem sem camisa deitado sobre uma mesa, com expressão de dor ou êxtase, em uma cena teatral com iluminação dramática
(./Divulgação)
Um homem de meia-idade com cabelo grisalho e casaco xadrez cinza senta à esquerda, olhando para frente. À direita, uma mulher de cabelo escuro, blusa branca e lenço vermelho toca um acordeão, sorrindo levemente. Ambos estão sob luzes de palco, com fundo escuro
(./Divulgação)

O livro é a obra-prima de um comunista daqueles que resistiram às circunstâncias da própria história: José Saramago. Não se sabe a origem da cegueira, nem como ou por que ela acontece. E muito menos por que a mulher do médico é a escolhida.

Assim, o Grupo Galpão, que constrói espetáculos grandiosos, escolhe um diretor externo que não lhe dá uma nova roupagem, mas mantém o conceito de um grupo coeso e coerente, com todos interpretando, com o mesmo destaque, os personagens escolhidos na adaptação.

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Agora, a forma que Rodrigo Portella escolheu para nos fazer crer que o palco está repleto de pessoas é genial. A montagem oferece três modalidades de participação: um grupo fica com vendas nos olhos, portanto cego durante a maior parte da peça; outro participa com cegueira parcial; e um terceiro acompanha tudo da plateia.

Três mulheres no palco, sorrindo e fazendo caretas com as mãos ao redor dos olhos. A da esquerda veste camisa branca e calça preta, a do centro usa camisa mostarda e calça cinza, e a da direita, um vestido azul. O fundo é escuro com um retângulo claro ao centro
(./Divulgação)
Pessoas com vendas nos olhos, vestindo roupas simples, caminham em fila com as mãos nos ombros umas das outras. Dois homens sentados no chão observam a cena, que se passa em um palco escuro com iluminação focada. Peças de roupa e tecidos espalhados pelo chão completam o cenário.
(./Divulgação)
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Fui às três. E tive uma das maiores experiências da minha vida.

Na cena em que os cegos, prisioneiros, ficam amarrados a uma corda, esperando o resgate da comida, enquanto os carcereiros riem, me vi como uma pessoa escravizada ou em algum campo de concentração. Um arrepio de pavor, dor, enjoo.

E, quando vi a cena da plateia, percebi que a risada vinha de outro tipo de texto. Uma das maiores cenas da história do teatro para quem participa dela.

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E há a mulher do médico, a única que não fica cega. Por que ela? Saramago não nos oferece uma explicação. Ela vê o que os outros não veem, testemunha a degradação humana e carrega o peso de enxergar sem conseguir impedir tudo o que acontece.

E o espectador? Também vê. Ou não, dependendo da experiência que escolheu viver no espetáculo do Grupo Galpão. Quem está de olhos vendados precisa confiar nos outros sentidos; quem tem a visão parcialmente comprometida percebe de outra maneira; quem está na plateia vê o que acontece diante de si. Três posições diferentes diante do mesmo horror.

A mulher do médico vê, posto que não ficou cega. O espectador vê, pois o teatro lhe dá essa possibilidade. Mas nenhum dos dois está a salvo do que vê. É aí que Rodrigo Portella faz uma escolha extraordinária: não se limita a nos contar a história de Saramago. Faz da própria condição de quem assiste parte da experiência teatral.

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Pessoas em um palco escuro, algumas com vendas nos olhos, observam uma pessoa deitada sobre uma mesa. A cena sugere uma performance teatral ou ritualística
(./Divulgação)

É essa capacidade de incorporar a plateia que faz do Grupo Galpão e de Rodrigo Portella dois dos maiores nomes do nosso panteão teatral.

O Grupo Galpão reúne Antonio Edson, Arildo de Barros, Beto Franco, Chico Pelúcio, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia, Paulo André e Simone Ordones. Um elenco de artistas que constrói, junto com Rodrigo Portella, essa experiência teatral em que a participação do espectador é parte essencial do espetáculo.

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A montagem já foi reconhecida com o prêmio de Melhor Espetáculo da APCA. Rodrigo Portella recebeu o Shell de Melhor Direção, e o trabalho também foi premiado pela APTR em Produção e com o Prêmio Marília Pêra. Fernanda Vianna concorreu ao Shell de Melhor Atriz, e Federico Puppi, ao de Melhor Música.

A experiência de ver o Grupo Galpão com Rodrigo Portella vai além de ir ao teatro. É, de cara, sacar como o espetáculo não caiu na armadilha de ser literal e está muito longe de se limitar ao dilema de traduzir ou trair. É a capacidade de artistas excepcionais entregarem o que esperamos: a mística da arte, capaz de nos fazer sentir com o coração e a mente.

Serviço:
Teatro Carlos Gomes
Sexta-feira, às 19h
Sábado e domingo, às 17h

Claudia Chaves
(Arquivo/Arquivo pessoal)
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