COMIDA

Guerra fria

A abertura de novas lojas especializadas nos gelati italianos aquece o mercado carioca de sorvetes

Por: Fabio Codeço - Atualizado em

Otávio Silveira
(Foto: Redação Veja rio)

Fundada em 1998, a Mil Frutas representou um divisor de águas no consumo de sorvetes no Rio. Era a primeira vez que uma marca investia num processo artesanal de fabricação, sem o uso de corantes, conservantes ou outro aditivo químico. Responsável por sofisticar o gosto do consumidor carioca com gelados gourmets, feitos com uma variedade enorme de frutas brasileiras, a rede ocupou, por quase duas décadas, uma confortável posição no mercado. Tanto que, por doze anos consecutivos, sagrou-se a campeã da categoria na edição especial "Comer & Beber", publicada por VEJA RIO. No ano passado, no entanto, a prestigiada sorveteria, já indicada até pelo jornal americano The New York Times, perdeu sua invencibilidade para a novata Vero, inaugurada em 2010. E, ao que tudo indica, a disputa pelo prêmio deste ano, em outubro, será ainda mais acirrada. Quatro marcas de alto padrão fincaram os pés na cidade desde meados de 2013: a italiana Venchi e a argentina Freddo, dois gigantes do setor, e as recém-chegadas Momo e Officina del Gelato. As duas últimas abriram as portas em janeiro com um diferencial: além da qualidade dos sorvetes, investiram em ambientes espaçosos, de decoração arrojada, com mesas e poltronas para o cliente passar mais tempo na loja.

Em comum, esses novos estabelecimentos seguem o modo de preparo italiano, dando origem aos famosos gelati. A principal diferença para o sorvete com o qual estamos acostumados, que deriva do receituário americano, está na consistência. Ela resulta de um processo mais lento de fabricação, que diminui o ar na massa, deixando-a muito mais densa e cremosa. Além disso, como os potes são mantidos em uma temperatura acima da média, entre 11 e 13 graus negativos, o produto não chega a congelar, dando fim àquela velha batalha com a pazinha até que ele comece a derreter.

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(Foto: Veja Rio)

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A julgar pelas filas que vêm se formando no fim da tarde na porta dessas lojas, a fórmula importada da Itália tem feito sucesso com os cariocas. Aberta há menos de dois meses na Rua Dias Ferreira, a Momo atende cerca de 1?000 clientes a cada fim de semana. A maioria vai em busca dos clássicos creme e chocolate, mas muitas vezes acaba se arriscando por sugestões mais inventivas, como limão, manjericão e azeite ou caju com água de coco. Na concorrência o movimento não tem sido diferente, o que vem motivando a expansão das marcas pela cidade. Com 55 filiais espalhadas pela Ásia, pela Europa e pelo Brasil, a Venchi lançou, em dezembro, a segunda unidade no Rio, ao custo de 1 milhão de reais, sem contar o valor do ponto, e se prepara para abrir a terceira, em março. Enquanto isso, a Freddo, que num intervalo de dois meses inaugurou dois quiosques, fruto do investimento de 360?000 reais em cada um, promete abrir as portas de mais dois endereços até o próximo mês.

Outra característica compartilhada entre elas é o preço, quase indigesto para uma bolinha de sorvete que tem, em média, 80 mililitros. Na casquinha ou no copinho, ele vai de 9 reais na Venchi e na Officina Del Gelato, as mais baratas, até 11 reais na Momo. Para cobrar esse valor, a maioria defende que seu produto é artesanal, o que gera controvérsias no mercado. "Elas compram uma mistura em pó em vez de usar ovo, que é o que dá a liga naturalmente. É uma base semelhante à usada para fazer o frozen yogurt", ataca Renata Saboya, fundadora da Mil Frutas. Um dos donos da Momo, cujo investimento ronda a casa dos 2 milhões de reais, o carioca César Puga admite que usa, sim, o tal pozinho mágico. "Mas a versão que compramos é feita com substâncias naturais e corresponde só a 5% da receita", alega sua sócia, Kátia de Mattos.

Em tese, como acontece na Itália, o termo artesanal deveria ser empregado apenas em gelados cuja base (a mistura de substâncias que permitem controlar a cremosidade e a textura) é feita com todos os ingredientes in natura. Se usado qualquer preparo industrializado, o produto não poderia ganhar esse predicado. O que não quer dizer que não tenha qualidade. Com o acréscimo de ingredientes de primeira linha, sabores como o chocolate belga da Venchi, o pistache italiano da Momo e o doce de leite argentino da Freddo já têm uma legião de apreciadores na cidade.

Fonte: VEJA RIO