EXPOSIÇÕES

Entrevista: Evgenia Petrova

Uma das curadoras da exposição Visões na Coleção Ludwig (ao lado de Joseph Kiblitsky ? como ela, representante do Museu Ludwig no Museu Estatal Russo de São Petersburgo ? e Ania Rodríguez), que reúne obras do colecionador alemão Peter Ludwig (1925-1996) a partir do dia 6 no CCBB, Evgenia Petrova conversou com VEJA RIO sobre a mostra.

Por: Rafael Teixeira - Atualizado em

Quantas obras existem na Coleção Ludwig e onde elas ficam guardadas ou expostas?

A coleção Ludwig está estimada em mais de 20 000 obras. São vários museus e instituições que receberam o acervo, distribuído hoje entre onze cidades do mundo.

Quantos museus atualmente levam o nome de Ludwig? Eles abrigam apenas obras desta coleção?

Atualmente, o acervo Ludwig está distribuído por catorze instituições e museus no mundo todo. Em alguns casos, trata-se de doação de acervo a museus já existentes, que incorporam o nome Ludwig em reconhecimento à generosidade da doação. As instituições abrigam obras doadas por Ludwig e também outros trabalhos.

Quem administra a coleção desde a morte de Peter Ludwig?

Apos a morte de Peter, Irene Ludwig (sua mulher) continuou a desenvolver o trabalho iniciado pelo casal e criou a Fundação Irene e Peter Ludwig, sediada em Aachen, na Alemanha, que hoje apoia e coordena o trabalho das instituições que levam o nome Ludwig. Apos a morte dela, cada instituição ficou cuidando de parte do acervo sob sua custódia em coordenação com a fundação. Pelo testamento de Irene Ludwig, os museus de Aachen, Colônia e Koblenz, na Alemanha, e Basel, na Suíça, obtiveram a propriedade das obras que mantinham em exposição permanente.

A coleção, a partir da morte de Ludwig, é um acervo fechado? Ou obras são vendidas e outras são adquiridas ainda hoje?

A coleção ainda vem se transformando. Cada instituição tem seu próprio modo de ser administrada a partir dos acordos assinados com Ludwig. O Museu Russo, por exemplo, que é depositário do recorte da coleção que apresentamos na exposição, tem uma direção independente e foi livre para comprar novas obras e fazer crescer a coleção Ludwig com obras russas e internacionais.

Como podemos descrever a coleção? Há algum artista, época, nacionalidade ou movimento que seja mais presente?

A Coleção Ludwig e muito ampla, mas sem dúvida merecem destaque a coleção de arte de Picasso, considerada a terceira mais importante coleção deste artista no mundo, a coleção de pop art e de arte alemã. Ele colecionava a arte representativa de cada país e propiciava o intercâmbio e o conhecimento mútuo entre os países através da cultura.

Que tipo de colecionador era Peter Ludwig? Era um comprador compulsivo ou mais moderado? Comprava dos artistas, em leilões ou galerias? Era um apaixonado por arte ou colocava o faro de comerciante à frente?

Ele viajava muito à procura de novas expressões de arte. Era um apaixonado e um conhecedor do assunto. Comprava guiado pelo prazer de apreciar a arte. Visitava galerias, museus, ateliês de artistas. Não era um comerciante. Seu negócio estava na indústria do chocolate. Mas a arte fazia parte de seu dia a dia. Ele pensava que a arte era um modo de aproximar os povos. Guiado por essa convicção, inaugurou seu museu na Rússia. No início, eles (Irene e Peter) não tinham um plano pré-determinado sobre a expansão do acervo, mas a partir do aumento dele e com seus contatos com museus e instituições, foram levando a coleção a tomar a dimensão que tem hoje.

No que ele se baseava para escolher o que comprar, quais eram os seus critérios?

Ele tinha um conhecimento profundo da historia da arte e se baseava nos seus próprios critérios de relevância, quanto ao reflexo de um momento histórico, procurando as expressões mais inovadoras. Em dado momento, em sua colaboração com Hermann Schnitzler, diretor do Museu Schnütgen, em Colônia, teve um papel muito importante como consultor com relação às obras que deviam ser compradas pela instituição. Foi através dele que começou a colaboração de Ludwig com museus. Um objetivo de Ludwig foi preencher as lacunas existentes nas instituições públicas dentro e fora da Alemanha.

Com que artistas Ludwig se relacionou pessoalmente e, eventualmente, até ajudou suas carreiras?

Nos anos 60, surgiu o interesse de Ludwig pela arte contemporânea. A pop art americana foi um dos movimentos que chamaram sua atenção. Um dos artistas com quem ele se relacionou pessoalmente foi Andy Warhol, quem fez o retrato que se tornou a identidade visual da exposição.

Qual foi o papel de Ludwig na divulgação de artistas da pop art na Europa e de artistas do Leste Europeu?

Ele foi dos primeiros colecionadores privados europeus a se interessar pela pop art americana e a trazer exposições dessa obra para a Europa. Teve um papel fundamental na divulgação da pop art em um momento em que foi muito criticado por apoiar essas obras. Também no caso da arte do Leste Europeu, seu papel foi muito ativo. Ao incorporar à sua coleção obras desses artistas e ao levar a esses países uma seleção de sua coleção, Ludwig teceu uma ponte cultural muito importante que levou a derrubar fronteiras.

Qual era o papel da mulher de Ludwig, Irene, na coleção?

Irene Ludwig acompanhou Peter na sua paixão pela arte. Os dois se conhecerem quando ambos estudavam historia da arte na Universidade de Meinz. Ela era mais rigorosa, mais cética quanto aos planos de Peter, mas nunca o impediu de fazer qualquer aposta. Na maioria dos casos, eles tomavam as decisões em conjunto, mas enquanto Peter levava tudo mais à frente e mostrava mais suas opiniões, ela era mais cuidadosa, mais conservadora e se expunha menos. Após a morte de Peter, ela continuou as atividades dele e criou a Fundação Irene e Peter Ludwig para apoiar museus e organizações que levam o nome Ludwig, mantendo vivo o legado de toda uma vida. Após a morte dela, a fundação continua sua atividade apoiando as ideias contemporâneas e inovadoras no campo da arte.

Como foi feito o recorte do que vem para a exposição?

Foi feito a partir do próprio recorte que Ludwig fez como doação para fundar o Museu Ludwig no Museu Russo de São Petersburgo. Ele queria que fosse um reflexo da sua coleção, incluindo os núcleos mais relevantes do que acumulou enquanto colecionador de arte contemporânea. Tentamos trazer as obras mais significativas dessa coleção.

Fonte: VEJA RIO