COTIDIANO

A face oculta dos caveiras

Pesquisa inédita traça um perfil do Bope e chega a comparar a bravura de seus soldados com a de missionários religiosos

Por: Caio Barretto Briso - Atualizado em

Foto: André Nazareth
(Foto: Redação Veja rio)

Uma aura paira sobre a caveira com uma faca fincada, que é o símbolo do pelotão de elite da Polícia Militar do Rio de Janeiro. O Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) há muito tem seu nome associado a destreza, denodo e eficácia, virtudes poucas vezes usadas como referência às forças da lei fluminenses. Com seu papel relevante no projeto de pacificação das favelas cariocas, o Bope ganhou ainda mais destaque, a ponto de atrair a atenção até mesmo do mundo acadêmico. Entre os curiosos que procuram entender sua essência está o professor Marco Tulio Zanini, coordenador de mestrado em gestão empresarial da Fundação Getulio Vargas. Ao longo dos últimos quatro anos, ele comandou uma pesquisa com 128 homens daquele batalhão, que têm em média sete anos na unidade. Trata-se de um estudo de fôlego e abrangência inéditos, que perfaz um perfil da tropa mais famosa da nossa PM e revela os valores que lhe são mais caros. Entre as conclusões, Zanini salienta a forte relação afetiva e o vínculo de lealdade entre os companheiros ? algo raro no mundo corporativo atual ?, além do extremo orgulho que eles têm de pertencer a esse grupamento especial. "Eles não arriscam a vida por dinheiro. Fazem isso mesmo por vocação", afirma o professor. Corrobora essa tese o soldo nada sedutor que recebe um soldado do Bope: em torno de 3 000 reais. "A dedicação desses homens é quase missionária. Seu senso de comprometimento lembra o dos religiosos."

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(Foto: Redação Veja rio)

Ao revelar o pensamento dos caveiras pela primeira vez com tal amplitude, a pesquisa reflete um momento crucial da história recente do batalhão, que se tornou a ponta de lança da implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Quando questionados sobre a maior motivação durante uma operação de combate, 53% dos entrevistados destacaram a possibilidade de libertar pessoas do domínio do tráfico (veja o quadro na pág. 43). Como é notório, a reconquista de territórios sob o jugo de bandidos é o principal objetivo das UPPs. Outro ponto destacado no estudo revela que os soldados não estão imunes à violência testemunhada por eles com frequência. Ao relatarem casos de escravidão sexual de menores, torturas contra moradores e assassinatos cometidos pelos marginais, muitos policiais se emocionaram e choraram durante o depoimento. Zanini aproveita as estatísticas para fazer um paralelo com a Swat, a respeitada polícia de elite americana. Há diferenças acentuadas entre as duas corporações. Uma delas é que o policial de lá não convive com a barbárie em tamanha intensidade como ocorre com seus pares brasileiros. Não é só. "Na Swat, os integrantes são pessoas do convívio do americano médio. Já no Bope, normalmente os integrantes vêm de uma realidade social mais próxima daquela das pessoas que eles combatem."

Foto: Jonathan Wiggs/The Boston Globe via Getty Images
(Foto: Redação Veja rio)

A origem dos batalhões de operações especiais data da II Guerra Mundial. Mais compactas que os grupamentos convencionais, essas forças eram preparadas para agir com inteligência, fazendo uso de tecnologia avançada. Criado em 1978 e hoje com um efetivo de 450 componentes, o Bope extrapolou seu papel operacional e se transformou num centro de excelência que fornece mão de obra a diversas áreas. Alguns agentes que integram o núcleo da segurança pública do Rio são egressos de suas fileiras, como é o caso do subsecretário Roberto Sá e dos coronéis Alberto Pinheiro Neto, chefe do estado-maior operacional da PM, e Paulo Henrique de Moraes, atual coordenador das UPPs. Depois de ajudar a consolidar a pacificação, o Bope agora se vê diante de outros desafios. Com os grandes eventos no horizonte da cidade, a tropa trata de ampliar seu campo de atuação e, para dar vazão a tanto trabalho, deve ganhar reforço de 200 homens até a Olimpíada de 2016. Em nova fase de aprendizado, os caveiras começaram a receber treinamento de combate ao terror e de proteção a delegações estrangeiras. "Mesmo no posto de comandante, até hoje eu participo das operações", afirma o tenente-coronel René Alonso, atual líder do Bope. "Aqui todos põem a mão na massa, e o que nos move é o cumprimento das missões." Não faltarão oportunidades para essa confraria da força mostrar do que é capaz.

Fonte: VEJA RIO