Umas & outras

11 abril 2014 | deixe seu comentário (0)

Os personagens que criamos falam além do palco ou do estúdio. Quando eles são criações suas, acabam pensando que são você. Apropriam-se do que você é de verdade, sem aceitar que são uma realidade fictícia. Não estou dizendo nada de novo. Todo mundo já disse isso ou coisa semelhante. Em umas e outras ocasiões cheguei a pensar que o que eu já escrevi para personagens dizerem é um volume maior do que eu falei em toda a minha vida.

***

Acredito que as pessoas se encontrem umas com as outras… como também se percam umas das outras. E eu sempre tive medo de não estar na hora certa e no lugar certo desse encontro, e então… perder alguém antes de encontrá-lo.

***

E eu — a quem será que eu puxei? Ao meu pai ou à minha mãe? Eu gostaria tanto de saber! Um dia eu vou ter de ir ao fundo do poço, para me encontrar! Por exemplo: esse gênio infernal que eu tenho e que ninguém aguenta: de quem será que eu herdei? E a pele? Os olhos, a boca? A maneira de rir e de falar. A gente sempre vem de alguém. Uma pessoa é um quebra-cabeça. Para cada espaço existe uma peça que se encaixa direitinho. Mas só uma. Não adianta teimar em colocar outra, que não entra.

***

Eu realmente li, quer dizer, folheei o seu diário. Abri a gaveta, vi e não resisti. Só li mesmo essa última anotação que você repetiu. Fiquei com o rosto vermelho de vergonha e fechei na mesma hora. Me perdoe. Mas certamente você, quando tiver a sua filha, ao encontrar o diário dela, também não vai resistir a dar uma olhada. Não é curiosidade. É amor. É como se eu quisesse saber os seus sonhos mais secretos para poder ajudar você a realizá-los, entende? E, se eu quase morri de vergonha por ter lido o seu diário, também fiquei feliz, porque vi que os seus sonhos estão ao seu alcance. E que uns e outros — não necessariamente todos —  serão realidade mais cedo ou mais tarde.

***

Tenho de te agradecer, que eu nunca recebi uma homenagem assim. É mais do que ganhar um presente ou receber flores. É uma coisa diferente, a que os artistas devem estar acostumados… Quando eu era criança… eu tinha medo de que um dia um presidiário colocasse uma foto minha dentro da cela, como muitos fazem. Mesmo em fotografia eu não queria estar presa. Eu sempre fui muito livre.

***

Eu queria saber por quê. Às vezes uma pessoa tá quieta, no seu canto, achando que tudo está bem… As contas estão pagas… o dinheiro tá dando… Vai a um cinema, come uma pizza. Namora. E aí então ela se apaixona e vê que tudo era péssimo antes dessa paixão. Só que ela não percebia. Entende? Sabe o que minha mãe diz? Que se apaixonar é sonhar… é fechar os olhos… Eu acho que é o contrário: é acordar, é abrir os olhos.

***

Por que não? Se imitamos as coisas feias, dos romances, dos filmes, deve dar pra ter um grande amor também. Eu não fico sonhando, divagando bobamente, mas às vezes eu vejo cada paixão bonita no cinema, e penso: por que não se pode viver uma paixão igual na vida da gente, se eles vivem no cinema e a gente acredita, chora, se comove…? Claro que é possível!

***

Quem foi mesmo que disse que a mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer?

Tags: Publicado em: Uncategorized

Aos pés do altar

29 março 2014 | 1 comentário

A partir do momento em que a minha novela mostrou um casamento que se desfazia tragicamente aos pés do altar, com o noivo sendo algemado e preso, comecei a receber algumas mensagens não apenas comentando a cena, mas me contando outros casos ocorridos na hora do “sim”.

Dos vários textos recebidos, destaquei um para contar aos meus possíveis leitores. Por que escolhi esse? Não sei precisamente, mas acredito que seja pela originalidade e por constituir mais uma prova de que as novelas repetem cenas reais, mesmo que elas beirem o improvável e jamais tenham aparecido na televisão. Vamos em frente.

Esse episódio me veio de um leitor e telespectador que assinou o e-mail como Olavo. Ele me contou que durante três anos namorou uma jovem (Olívia), com a intenção firme de levá-la ao altar. Marcaram a data, mas, seis meses antes do dia escolhido, por uma razão que ele não achou importante relatar, desfizeram o compromisso. A partir daí, cada um foi viver a sua vida e nunca mais eles se encontraram. Até que um dia, quatro anos depois, Olavo conheceu a jovem Angélica. Apaixonaram-se. E, mais uma vez, Olavo marcou a data do matrimônio. Um casamento que reunia dez pares, todos pertencentes, como eles, a uma comunidade evangélica.

No dia escolhido para a cerimônia, a igreja cheia, os dez casais se apresentaram: noivas de um lado, noivos de outro. O pastor fez a chamada pelos nomes e eles — Olavo e Olívia — se reconheceram como os ex-noivos de quatro anos atrás. Olharam-se, cada um na fila que se encaminharia ao altar, trocaram um sorriso, admirados com a coincidência. E, subitamente — é ele quem me conta —, sentiram o antigo amor renascer.

Não sabendo que atitude deveriam tomar, e amedrontados com a possível reação das duas famílias e do próprio pastor, fizeram o mais simples e radical dos gestos: saíram da igreja de mãos dadas, pegaram um táxi e desapareceram para sempre.

A história poderia acabar aqui, já que tem todos os lances de um fato raro, beirando o improvável. Mas não.

Continua nas linhas que o Olavo me mandou. Ele diz então que, um ano depois, a mulher ficou grávida e teve um casal de gêmeos: Antonia e Orlando.

Passados vinte anos, já morando numa outra cidade, seus filhos encontraram numa festa outro casal de gêmeos: Silvia e Renato, dois anos mais novos que eles. Namoraram e marcaram uma reunião para que os pais se conhecessem. Foi aí então que descobriram…

Pois é… Tenho certeza de que os meus leitores já adivinharam que o matrimônio dos dois casais uniu os filhos de Olavo e Olívia aos filhos de Angélica e de um rapaz que, a exemplo de J. Pinto Fernandes, do poema Quadrilha, do Drummond, não tinha até
então entrado na história.

Encerro com uma frase de Machado de Assis no romance Memorial de Aires: “A verdade pode ser, às vezes, inverossímil”.

Tags: | | | | Publicado em: Crônica da semana

Dia da poesia

17 março 2014 | deixe seu comentário (0)

O poeta é um fingidor,
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

Esses versos de Fernando Pessoa expressam a mais completa definição do que vem a ser alguém que possa ser chamado de poeta. Pelo menos em língua portuguesa.

Tenho quase certeza de que já escrevi aqui, nesses dez anos de crônicas de Vejinha, a decisão que tomei, ainda menino, sobre o ofício que passaria a professar dali por diante: a de ser um fazedor de versos. A de ser um poeta. Vamos pela ordem.

Numa antologia da língua portuguesa, certa vez, por um acaso, li que Castro Alves, o grande poeta da minha juventude, fazia aniversário no mesmo dia que eu.

Lembro o orgulho e a vaidade que me assaltaram naquele momento inesquecível da minha vida. Corri a contar a toda a família e a quem mais se dispusesse a ouvir o menino levado, malcriado, muitas vezes insuportável que eu fui, para desespero da minha pobre mãe, que vivia com o coração aos saltos me procurando nas correntezas do Tietê — naquele tempo um majestoso rio que cortava
São Paulo —, certa de ali me encontrar afogado, e que respirava fundo quando me via surgir vivo, como num milagre, pois nem nadar eu sabia.

Pois ela, apesar de toda a inquietação que eu lhe causava, ainda assim saudou a minha descoberta, dizendo qualquer coisa como: “Então, filho, isso certamente é um sinal divino que aponta para você um destino glorioso, o de poeta!”.

E, aproveitando-se do momento, ainda acrescentava: “E quem sabe assim você sossega um pouco e me dá alguma tranquilidade!”.

E a partir daquele dia, em que descobri minha vocação, passei a dizer quando perguntavam pelo meu futuro:

— Isso já está decidido desde agora: sou um poeta.

Pobre de mim que sonhava com isso. Rico de mim que ainda sonhava!

De qualquer modo, se não fiz carreira de poeta, experimentei uma juventude de boemia e de excessos, como a vida dos poetas românticos do Brasil e do resto do mundo. Até hoje é a poesia minha leitura de todos os dias. Não deixo que um dia se acabe sem ler — por meia hora que seja — alguns versos. E para isso vivem à cabeceira de onde durmo alguns dos meus autores preferidos, entre eles Manuel Bandeira e Drummond, para citar apenas dois brasileiros.

Jamais me esqueci, desde então, de que o dia 14 de março era o aniversário de Castro Alves, e que isso apontava, como sonhava minha mãe, para um futuro glorioso como poeta, o poeta que não fui.

O fingidor que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.

Mais tarde, muitos anos depois, não sei, descobri que essa data — a do meu aniversário e de Castro Alves — era também consagrada como o Dia Mundial da Poesia.

Não me lembro se minha mãe chegou a saber de mais essa coincidência. De qualquer modo sei que ela diria (ou será que disse?): “É mais um sinal, filho, do futuro que você tem pela frente!”.

Uma prova cabal de como se enganam tanto o destino quanto as mães.

Tags: | | | | | | Publicado em: Crônica da semana

Retiro espiritual

27 fevereiro 2014 | 6 comentários

Carnaval é brincar, pular, se divertir ou então encarar um retiro espiritual. Já fiz, quando jovem, o retiro de praxe. Eu e alguns amigos nos fechávamos num convento e ficávamos lá, meditando, falando sobre o que nos afligia e nos contentava — e sempre ouvindo boa música: Bach, Corelli, Vivaldi… Entre os muitos grupos de amizade a que pertenci, alguns eram de jovens com vocação religiosa.

Eu mesmo, em algum momento da minha vida, sonhei com o convento, o que seria a alegria e a felicidade da minha mãe. Mas me casei cedo, com 19 anos, e as minhas irmãs mexiam comigo:

— Você preferiu ser padre de uma freira só.

Passou o tempo desses sonhos, mas guardo certa reserva no Carnaval. Fui algumas poucas vezes ver os desfiles, achei muito bonitos, mas a minha preferência para esses dias de Carnaval ainda é o retiro espiritual. Não mais o do convento, mas um outro refúgio. Para dentro. Uma viagem a bordo de mim mesmo. Um livro. E neste ano elegi os Diários do grande e inesgotável Lúcio Cardoso, que venho lendo durante todo o ano. São quase 800 páginas. Uma aventura espiritual. E deixo aqui, neste Carnaval, algumas reflexões extraídas desses diários, que tenho certeza de que gostarão de ler:

***

Envelheço como as tempestades — encaminhando-me sem ressentimento para as cores alvas da bonança. Perco os meus relâmpagos e as minhas violências — entrego-me à luz que nasce, humilde e de cabeça baixa. Mas, dos céus revoltos por onde andei, conservo o segredo de uma melodia que não é feita somente de paz, mas que, na sua última aquiescência, relembra ainda o amontoado negro das paisagens devastadas.

***

Ao contrário do que disse o romancista, ser homem é que é perigoso. Viver é um simples acontecimento.

***

Sim, viver acontece. Mas não é importante. O certo é crescer: feito de galhos, de quinas, de erosões. Sobretudo o clássico conselho: crescer para o lado de lá. É no quintal vizinho que se morre bem — sem ter raízes.

***

Não se sabe ao certo o que é o sonho, se bem que muita gente tenha tentado defini-lo. Explicação erudita ou pura demonstração de poesia, a verdade é que ele escapa a todas as definições. E convenhamos: sua qualidade específica é exatamente a de ser indefinível.

***

Viagens, prêmios de Deus. Estradas, caminhos e descampados — quantos, para mim, são testemunhos de mim mesmo e do meu sangue. Ouço a mata como quem escuta uma música. Aqui o tempo fica — e se abre em flor.

***

O homem de maior espírito não é o de uma única resposta, nem o da resposta mais constante, mas o de várias respostas ao mesmo tempo, e o mais mutável quanto à certeza delas.

***

O corpo de Cristo, sua presença, seu sangue e suas chagas. Ele é o próprio centro do mistério e da razão da fé, o que nos demonstra insofismavelmente, a unidade existente entre Deus e o homem, pois, sendo Deus, é na forma de homem que se apresenta aos nossos olhos.

***

Bom Carnaval para todos que gostam de Carnaval.

E bons livros para quem prefere o retiro espiritual.

Tags: | | | | | | | Publicado em: Crônica da semana

Santos & santas

14 fevereiro 2014 | deixe seu comentário (0)

Minha mãe tinha grande intimidade com os santos da Igreja. Muitos deles eram tratados sem a menor cerimônia, como velhos amigos. Católica fervorosa, de fé inabalável, era assídua da Igreja de Santo Antônio, em São Paulo, que ficava a menos de 500 metros da casa em que morávamos. Meu pai não participava dessa comunhão espiritual entre minha mãe e seus santos de predileção. E via com suave ironia os inúmeros pedidos que ela fazia diante dos altares:

­— Quando sua mãe entra na igreja, os santos pegam papel e lápis para anotar os pedidos.

Ele tinha razão. Minha mãe pedia muito aos seus santos de devoção, mas sabíamos que grande parte dos pedidos não era em benefício próprio. Pedia para os outros. Aceitava encomendas. Era uma intermediária de prestígio. Muitas vezes ouvi de pessoas que iam à nossa casa especialmente para isso:

— Peça por mim. — E ela pedia, empenhava-se, voltava à igreja para cobrar:

— Antônio, me atende. Não vai querer que eu fique mal com a Rafaela.

E a Rafaela, nossa vizinha, aparecia para ter notícias:

— Falou com ele?

E esse ele (ou ela) podia ser não apenas Antônio, mas Francisco de Assis ou Benedito. Margarida ou Rita de Cássia. Ela entrava na igreja como quem entra na própria casa.

— E não é minha também?

E, quando era criticada pelo excesso, justificava:

— Mas os santos estão aí pra isso. Pra ajudar, interceder por nós junto a Deus.

E eles, santos e santas de tantas devoções, pareciam gostar desse trabalho sem trégua que a minha mãe lhes dava, já que atendiam a seus pedidos com frequência.

A intimidade com santos e santas não é tão rara quanto pode parecer. Aquela impassividade de barro e gesso com que nos olham dos seus altares é só para fotografia. Na verdade, são emotivos e vertem lágrimas sinceras quando as portas da igreja se fecham.

Nessas ocasiões brincam com o Menino Jesus, como no poema de Fernando Pessoa:

Num meio-dia de primavera / Tive um sonho como uma fotografia / Vi Jesus Cristo descer à terra / Veio pela encosta de um monte / Tornado outra vez menino / A correr e a rolar-se pela erva / E a arrancar flores para as deitar fora / E a rir de modo a ouvir-se longe.

Não são todas as pessoas que podem contar com a generosidade dos santos. Nem podem chamá-los por você e assim quebrar o protocolo. Sobre isso guardo na memória um episódio entre minha mãe e a imagem de São Francisco de Assis que ficava num pequeno altar erguido em seu quarto.

Por muitos domingos seguidos ela renovou seu pedido para que o santo restabelecesse a saúde a um menino, vítima de grave doença, que era filho de uma amiga, moradora no nosso bairro. Diante do não atendimento às suas preces, pois o garoto morreu, minha mãe se dirigiu à imagem do santo, exclamando:

— Papelão, hein, Francisco?

Manuel Bandeira, poeta maior, se aborrece também com Santa Tereza, num dos seus mais belos poemas:

Fiz tantos versos a Terezinha / Versos tão tristes nunca se viu! Pedi-lhe coisas. O que eu pedia era tão pouco! / Não era glória, nem era amores, nem foi dinheiro… / Pedia apenas mais alegria: Santa Tereza nunca me ouviu!

***

Ouço dizer que quem dá sempre um jeitinho é Judas Tadeu.

Tags: | | | | | | | | | | | Publicado em: Uncategorized