Mãe é mãe

12 maio 2012 | deixe seu comentário (0)

Quem tem mãe tem tudo — é frase que ouvimos desde criança. E não há quem não a reverencie, tenha sido ela boa ou má. Mas existirá alguma mãe que possa ser designada como má?

Naquela tarde, no Café Severino, propusemos o tema. Que cada um falasse sobre a própria mãe. Principalmente, do que mais lhe devia como gratidão.

— Com a minha mãe aprendi a ser paciente, a saber esperar — disse o Chico. — Devo isso a ela.

— Com a minha, o amor pelas viagens — declarou a Suzana.

— A minha me incentivou a ler. Fazia sugestões. Colocava um livro na minha mão e dizia: “Leia este, é bom, você vai gostar” —
garantiu a Carla.

E assim foram se sucedendo as virtudes que cada um de nós destacava e louvava em sua própria mãe.
Quanto a mim, sempre admirei na minha mãe a tolerância, a piedade, a misericórdia. Ela não acreditava no mal. Por isso, não acreditava no inferno. Dizia sempre:

— Ah, Deus se compadece de todos! Não há de condenar ninguém ao fogo eterno!

Gostaria de ter seguido seus passos, exercitado com mais fervor essas virtudes que nela eram naturais, como se nem virtudes fossem.
As mães são um assunto inesgotável. Não há, entre os seres humanos, nenhum que tenha deixado de sentir — ainda que por um segundo — o calor dos braços de uma mãe. Ou sofrido com a ausência deles. E a frase mais definitiva, aquela que encerra todas as discussões, é a que diz apenas: mãe é mãe.

E todos citaram também as imagens maternais que guardavam na memória e que representavam um gesto de extrema bondade. E lembrou-se de tudo, muitas vezes com emoção e sempre com saudade. Para mim, o gesto maternal mais comovente é o da mãe que vai à cama do filho, quando a noite esfria, para ver se ele está agasalhado, protegido. E ajeita a coberta sobre ele, ternamente.
Foi nesse momento que chegou o Raul.

— Do que é que vocês estão falando? — quis ele saber.

— Falamos de mães — informou o Gabriel.

— A favor ou contra?

Então ouvimos uma voz perguntar:

— Posso participar?

Nós nos entreolhamos, surpresos. Não conhecíamos aquele homem que aparentava uns 60 anos e nos olhava da mesa vizinha. Sem esperar a resposta, ele aproximou uma cadeira, sem deixar a mesa que ocupava:

— Só quero dizer a vocês que o que eu mais lembro e louvo em minha mãe, que já morreu há muitos anos, foi uma surra de vassoura que ela me deu.

Novamente nos entreolhamos, surpresos e divertidos. Ele continuou:

— Acreditem. Uma surra de vassoura. Melhor: com o cabo de uma vassoura!

— Pode-se saber a razão da surra? — perguntou a Carla, escancarando os olhos, como sempre.

— Porque fui reprovado na escola — respondeu o desconhecido. — Éramos pobres, órfãos de pai, e com muito trabalho minha mãe pagava uma escola particular, que era a melhor da cidade em que morávamos. Ela me batia e dizia, enquanto eu gritava: “Você não tem o direito de ser reprovado e com isso me obrigar a pagar um ano a mais de escola! A viver um ano a mais de sacrifício!”.

E concluiu, levantando-se:

— Não pensem que ela era cruel. Não. Ela me dava também muitos beijos e me contava histórias na hora de dormir. Mas sabia dividir seu amor entre o carinho e o cabo de uma vassoura. Não me esqueci nem de um, nem de outro. Aos dois eu devo a minha formação. Desculpem a intromissão. Boa tarde para todos.

E ele partiu. Foi o nosso momento de descontração naquela linda tarde de outono. A reunião acabou depois de um brinde que fizemos a todas as mães, vivas e mortas. Àquelas que nos ensinaram com beijos e com cabos de vassoura.
Mais tarde, caminhando no Leblon, as luzes das ruas já acesas, como a me protegerem — maternais — da escuridão da noite, repeti para mim mesmo: mãe é mãe.
* * *
O pensador francês Roland Barthes (1915-1980), em seu Diário de Luto, conta que deixou de temer a própria morte depois que a mãe morreu. Descobriu que o que temia, na verdade, era pensar no sofrimento que causaria caso morresse antes dela.
Vale repetir: mãe é mãe. E está dito tudo.

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De médico e de louco…

28 abril 2012 | 2 comentários

 

Marcamos no Café Severino a comemoração pelo retorno do Gustavo ao nosso grupo. Nosso amigo de muito tempo, Tavinho andou arredio, devido a um turbulento divórcio que enfrentou por mais de um ano e que o deixou deprimido. Com isso, afastou-se de tudo e de todos, indo morar um largo tempo em Petrópolis. Agora, dissipadas as negras nuvens da turbulência e já vivendo novamente em paz, eis que ele retornava a nós e ao nosso reino. Não é a primeira vez que um divórcio penaliza algum membro do nosso grupo. Afinal, todos nós já cruzamos a faixa dos 60 anos e contabilizamos mais de um casamento, à exceção de alguns poucos, como Carla e Gabriel, ambos na casa dos 30. Eles fazem parte da nova geração de frequentadores da nossa roda de vinho e grana padano. Gosto dessa presença jovial, pois impede que as reuniões fiquem lacrimosas, cheias de recordações, e que os assuntos mais frequentes sejam os incômodos na lombar e na cervical, além do medo do diabetes e a comparação entre os níveis de colesterol e glicose. Com a mocidade, fala-se da vida, não de doença e morte.

Mas nessa tarde, mesmo com a presença deles, o assunto perigoso voltou a imperar, enquanto nós cinco esperávamos a chegada da turma toda, inclusive do festejado Gustavo.

— Minha glicose está em 105 — anunciou o Raul.

— É alta. Você já está diabético — sentenciou Alfredo, que é um assumido hipocondríaco.

— Pré-diabético — corrigiu Raul, já um pouco irritado.

— Acima de 99… — tentou argumentar o Alfredo, com um sorriso maldoso.

Raul cortou:

— Ah, não vai atacar de médico, que você, até onde eu sei, é funcionário aposentado da Caixa Econômica.

E tentou encerrar a discussão:

— O importante é a saúde como um todo. O fundamental é sentir-se saudável. E é como eu me sinto. Caramba! Você só sabe falar em doença!

Alfredo contra-atacou:

— Só me diz uma coisa: o seu colesterol quanto está?

Olhei o Raul e percebi que ele estava a ponto de apelar. Antes que eu pudesse fazer alguma coisa, o Alfredo puxou da carteira os resultados do seu último hemograma, propondo um sinistro desafio:

— Vamos comparar os nossos hemogramas! Você tem o seu aí?

— Claro que não. Não sou louco como você!

— Pelo menos sabe de cor os principais índices?

E enumerou alguns:

— Eritrócitos, hemoglobina, leucócitos e plaquetas. Vai, me diz. Aposto que você está anêmico!

Raul saltou da cadeira. Houve uma inquietação no café, já se prevendo uma luta de moleques entre homens da terceira idade, o que seria, no mínimo, ridículo.

— Chega — bradou ele, batendo com a palma da mão na mesa.

— Calma — disse eu. — Estamos aqui para festejar. Daqui a pouco chega todo mundo e vocês…

Mas Raul emendou, virando-se para o Alfredo, o indicador quase encostando no rosto do amigo:

— Que você seja hipocon­dría­co, não tenho nada com isso. Que veja em você todas as doenças, imaginárias ou não, o problema é seu. Mas colocar doenças nos outros, aí não está certo!

E voltou a sentar-se, bufando. Um tempo de silêncio. Olhei o casal jovem. Gabriel passava os olhos num jornal, indiferente à contenda, e Carla olhava a cena, sorrisinho maroto nos lábios. Percebendo que a reunião estava agonizando por sua culpa, Alfredo amenizou:

— Me desculpem. Acho que exagerei. Vou embora. Vou ver um carro para comprar, que o meu já está num bagaço de dar pena. Rateando. Como um coração a ponto de enfartar. Quem é que tem uma sugestão para me dar? Pensei numa Pajero esporte…

Foi quando Carla, sempre tão tímida e até um pouco cerimoniosa, cortou em cima, numa voz suave e com os olhos brilhando:

— Por que você não compra uma ambulância?

A gargalhada foi geral, contaminando o Raul e o próprio Alfredo. Nesse mesmo momento, começaram a chegar os velhos amigos, com Gustavo à frente, sorridente, feliz.

E fez-se a paz no reino do Café Severino.

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Horário nobre

14 abril 2012 | 5 comentários

Alguns anos atrás, considerava-se nobre na televisão o horário que começava às 19 e se estendia até as 22 horas. Hoje, todos sabem, esse tempo é medido das 18 horas à meia-noite. É quando o espaço comercial é mais caro e, consequentemente, os programas considerados mais importantes são apresentados. É também onde se encontra o nicho que abriga a teledramaturgia, principalmente as novelas e, no caso da TV Globo, o Jornal Nacional. A classificação é absolutamente comercial, já que o Programa do Jô, que às vezes entra depois da meia-noite, faz dessa hora tardia uma hora nobre. Assim também o Altas Horas, do Serginho Groisman, e as entrevistas da Marília Gabriela, para citar mais dois exemplos, entre os poucos casos que podem ser lembrados. E, ampliando a classificação para as emissoras a cabo, vamos encontrar o Estúdio I, da Maria Beltrão, e o Sarau, do Chico Pinheiro. Dois programas imperdíveis, apresentados na Globo News.

Era esse — o do horário chamado nobre na TV — o assunto abordado naquela tarde, no Café Severino, enquanto degustávamos um bom tinto californiano que o Raul trouxera de casa. E, a cada gole que bebíamos, ele perguntava com ansiedade:

— Não é mesmo maravilhoso? Safra 2007, a melhor dos últimos vinte anos!

E tínhamos de concordar com ele, já que o precioso líquido descia pela garganta como uma fita rubra de veludo.

Ah, como são bons esses encontros de amigos, em que todos se manifestam sem egoísmo, dando e recebendo informações que enriquecem generosamente a relação de amizade, diria mesmo de amor! E essa exclamação de alegria quase juvenil me leva novamente a mencionar o Estúdio I, com sua pauta variada, na qual convivem, democraticamente, esporte, saúde, economia, literatura, tecnologia, cultura, comportamento… Tudo passa por ali, despretensiosamente, como em nossos encontros no Café Severino. Só não temos, entre nós, uma Flávia de Oliveira, um João Paulo Cuenca e um Artur Xexéo, para citar apenas três entre os muitos nomes estrelados do programa da Maria Beltrão. Mas no Severino, como no Estúdio I, todos ensinam, todos aprendem, sem que ninguém tenha a pretensão de saber mais do que o seu parceiro de roda.

Da mesma maneira, o tema me levou ao Sarau, no qual Chico Pinheiro faz um trabalho que emissora nenhuma de televisão está fazendo: o de exibir o talento, a força, a vitalidade permanente da música brasileira. Vejo o programa duas vezes, pois não perco as reprises.

Bato palmas para os dois: Maria e Chico, que reinam, gloriosos, com seus programas, fazendo da hora em que se apresentam dois exemplos do verdadeiro horário nobre da televisão. Só levamos uma vantagem sobre eles: a degustação de bons vinhos durante nossos encontros.

Já no finzinho da tarde, a garrafa vazia e os primeiros frequentadores da noite chegando, o Raul fazia graça com o tema da reunião:

– Fora da TV, o exemplo também pode ser aplicado. Querem encontros mais nobres do que esses que fazemos durante a tarde?

Falar sobre televisão não está entre meus assuntos favoritos, ainda que eu viva de escrever e dirigir programas há mais de meio século. Talvez porque no Brasil a TV seja um tema dominante, que excede. Não apenas nas conversas familiares, e nem restrita às colunas especializadas, aos cadernos de entretenimento. Não. A TV reina em toda a mídia. Pode até ser bom para nós, que trabalhamos nessa área e vemos assim a valorização do nosso ofício, mas e o leitor de jornais e revistas? Não é empobrecedor, sem nobreza, encontrar numa primeira página de jornal a informação de que uma atriz trocou de namorado? E, na mesma semana, ver estampada nas revistas essa mesma notícia, com a foto da atriz na capa? Muitas vezes, a mesma foto?

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Presença do outono

31 março 2012 | 1 comentário

Foi no último dia 20 de março, pouco antes das 2 e meia da tarde. Eu estava em casa, me arrumando para sair em direção à Livraria Argumento, onde amigos me esperavam, quando percebi, ou melhor, quando senti que o outono havia chegado. Exatamente naquele momento. Posso garantir que não estava informado da mudança da estação para aquele dia e aquela hora. Sabia, claro, que o verão estava por acabar e que, depois dele, como sempre, chegaria o outono.

 

— Será que alguém sentiu isso alguma vez? A presença física de uma estação?
— Você está supondo que alguma manifestação sobrenatural possa ter ocorrido? — perguntou o Raul, no Café Severino, quando eu contei o que havia sentido.
— Não estou supondo nada. Estou apenas contando o que senti.
— Conta como é que foi isso — pediu a Carla, ansiosa, olhos brilhantes, ajeitando-se na cadeira.
E eu continuei, agora diretamente para ela, sem me preocupar com a descrença dos demais:
— Eu estava abotoando a camisa, de costas para a porta da cobertura, quando parei o movimento e me virei subitamente para o terraço. E senti, posso mesmo dizer que vi, o outono chegando e entrando na sala, como se fosse uma pessoa.
— Ah, não gosto desse tipo de assunto — interrompeu a Glorinha. — Me dá medo.
— Eu adoro tudo o que é mistério, que não tem explicação — cortou a Carla.
E eu completei:
— …como uma pessoa chegando à sala e parando diante de mim.
— Se era o outono, deveria ter a aparência de uma pessoa da terceira idade!
Não me aborreci com a piada. Sabia de antemão que ninguém ia acreditar quando eu contasse. Que diriam que era coisa de novelista de televisão, ficção delirante que não podia ser levada a sério.
— Quando você começou a contar essa história, pensei que outono fosse o nome de algum amigo novo que havia entrado no seu apartamento pelo terraço!
Agora era o Gabriel, engenheiro, marido da Carla, que se fazia de engraçado. E, mais uma vez, todos riram. Menos a Carla, que olhou feio para o marido, lascando uma direta:
— Você só acredita em números!
— Ah, deixa de ser boba. Não vê que isso é pura imaginação!
— E daí, se for? Sabe o que Einstein dizia? Que a imaginação é mais importante que o conhecimento!
— Ah, Einstein também só acreditava em números! Deve ter falado isso de gozação!
Carla não contra-atacou. E fez-se um súbito silêncio no Café Severino. O que eu percebi, então, era que todos estavam mexidos com o que eu acabara de contar e procuravam disfarçar o incômodo. Percebiam que eu falava sério.  Após um tempo em que renovamos os pedidos de mais uma porção de queijo e mais uma garrafa de vinho, Raul voltou a brincar, levantando a taça:
— Um brinde ao outono, que está presente e quer sentar-se entre nós. Uma cadeira, por favor.
E todos riram. Menos Carla, a única pessoa ali que acreditava na minha história. Provavelmente porque está começando a escrever pequenos episódios que coleciona no seu consultório de médica e tenha agido com a solidariedade de uma futura colega de ofício.

 

No fim da tarde, já se avizinhando a hora do crepúsculo, cada um foi para a sua casa, levando na cabeça e no coração certezas e incertezas, pitadas de realidade e de imaginação. Coisas do outono, para mim a mais bela estação do ano, pela afinidade que tem com a vida humana, sendo, ao mesmo tempo, declínio e colheita. Perda e proveito.
Foi Drummond que escreveu: “Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza”.
O que posso dizer é que pretendo deixar aberta a porta do terraço, para que o inverno entre, sem pedir licença, no próximo dia 20 de junho, precisamente às 20 horas, 8 minutos e 48 segundos. Será bem-vindo.

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Alô, alô, M.

16 março 2012 | 3 comentários

 

Para mim, a solidariedade foi sempre uma das maiores virtudes humanas. E eu, felizmente, tenho sido testemunha de muitos exemplos, não apenas por conta das minhas novelas na televisão, mas também pela atenção que possam chamar, de vez em quando, estas crônicas quinzenais. Vejo como as pessoas, de maneira geral, se inte­ressam em ajudar quem precisa de ajuda, consolar a quem de consolo precisa. São muitos os exemplos que eu poderia citar, mas fico com um apenas, mais recente: o do desencontro de M. e R., explícito em cartas que me foram enviadas através da TV Globo, e que estampei aqui na intenção de ajudar o desafortunado casal. Pois bem: se M. continua lendo minhas crônicas, já terá lido as muitas mensagens de solidariedade que me chegaram. E isso, de alguma maneira, a terá consolado.

 

Relembrando a história, começamos com a carta que M. me enviou, contando sua relação com R., um espanhol vinte anos mais velho do que ela. E que a oposição dos seus pais acabou causando a separação do casal. Em seguida, já livre da oposição da família, tenta reencontrar o ex-namorado, desejando reatar com ele, não apenas movida pelo arrependimento, mas também — ou principalmente — para lhe contar que está grávida de um filho seu. A esperança de M. era que R. lesse a crônica e voltasse a procurá-la, uma vez que nos lugares em que contava encontrá-lo não conseguiu notícias do seu paradeiro.

A crônica atraiu a atenção de vários leitores que se interessaram pela história e se manifestaram prestando solidariedade à jovem grávida apaixonada. Seguiu-se um tempo de silêncio, até que uma nova carta de M. nos contava que R. havia morrido na Espanha e que essa notícia lhe chegara de Madri, em carta enviada pela irmã dele. Terminava a correspondência por me convidar para padrinho de Matias, filho delae de R., nascido nesse intervalo entre as cartas.

A morte de R. despertou nova onda de solidariedade entre os leitores, movidos pela tristeza e pela piedade. Muitos sentiram-se pessoalmente atingidos, como se R. fosse uma relação próxima: um amigo, um parente.

Disso tudo dei conta na crônica seguinte, aguardando uma nova comunicação, mas M. até agora se mantém calada. Se conto isso é para dar uma satisfação aos leitores que se preocupam e querem saber se a história de amor já teve um final e se esse final foi feliz. Por outro lado, também acho que o episódio já está de bom tamanho e o melhor é mandar uma última mensagem a M., acreditando que ela continue minha leitora: Alô, alô, M., comunique-se. Comunique-se de maneira a me permitir que lhe dê retorno. Ou mandando e-mail para a revista ou para mim, diretamente, através do endereço que aparece no fim de cada crônica quinzenal. Ou escreva uma carta (já deu para perceber que você prefere as cartas, envelopadas e seladas),mas coloque seu nome e endereço, para que eu possa lhe dar retorno.

Combinado?

Se isso não for feito, não terei como continuar a manter essa relação virtual. Virtual, tudo bem, está mais do que comum, mas virtual e anônima não dá.

Encerrando a crônica, deixo aqui os versos de John Donne (1572-1631), um dos grandes poetas ingleses do século XVI,  na tradução de Homero de Castro Jobim. Muitos o conhecem, pois é nome de um dos romances mais cultuados de Ernest Hemingway: Por Quem os Sinos Dobram. Não à toa, esse poema está entre os maiores exemplos de solidariedade entre os homens. Leiam ou releiam. E guardem para sempre.

Nenhum homem é uma ilha, um todo, completo em si mesmo. Todo homem é o pedaço de um continente, uma parte do conjunto. Se o mar carrega um punhado de terra, a Europa é diminuída, como se as ondas tivessem levado um promontório, o solar de teus amigos e o teu. A morte de qualquer homem me diminui, porque pertenço ao gênero humano.Assim, nunca mandes perguntar por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti.

 

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