Morre um ator

15 agosto 2014 | deixe seu comentário (0)

A morte do ator Robin Williams chocou o mundo inteiro, num grau de emoção até mesmo surpreendente:

— Nem mesmo a morte do Marlon Brando, mais popular do que Williams, repercutiu tanto, disse o Raul no fim da tarde de quinta, numa das mesas do Café Severino.

Houve quem discordasse dessa comparação entre os dois. Para a Carla, por exemplo, Brando era mais admirado pelo público bem informado. O povão mesmo o conhecia pelos jornais e revistas, nem tanto pelos seus filmes, que já nasciam cult.

Já Williams era mais famoso pelo trabalho diante das câmeras. Daí podermos até dizer que ele era mais popular do que o ator de Último Tango em Paris.

— Também senti isso — disse o Alfredo, que havia muito tempo não aparecia. — Mas concordo com a Carlinha —adulou ele, de olho nas pernas da nossa amiga.

E completou:

— Como comparar Uma Babá Quase Perfeita, do Williams, com Apocalypse Now, do Brando?

Para o povão, a babá ganha de dez a zero!

Eu ponderei:

— De uma maneira ou de outra, a morte de um ator atinge todos nós, já que em algum momento, em um dos seus filmes, ele nos deu uma nova vida ao representar determinado personagem com quem nos identificamos. Eu me lembro do sucesso de Sociedade dos Poetas Mortos. De como essa história mexeu com todo mundo, que passou a repetir os versos de Carpe Diem, de Horácio, o grande poeta da Roma antiga, que viveu quase 100 anos antes de Cristo. Eu mesmo, que me lembre, reproduzi o poema neste espaço, há cinco ou seis anos.

— Mas Sociedade dos Poetas Mortos era um filme mais para Marlon Brando do que para Robin Williams — palpitou o Nilton, também presente.

Aí se abriu uma discussão diante do vinho e dos nacos do grana padano que nos serviam. Gabriel deixou o jornal de lado e entrou na discussão, com argumentos que pareciam não aceitar nenhuma contestação:

— O Marlon Brando dizendo poemas para uma turma de alunos de uma escola americana tradicional ia ficar pedante, impostado, enquanto o nosso bom Robin citava os poetas com naturalidade, sem arrogância. Eu me lembro de que, quando assisti ao filme, pensei que um professor de literatura como aquele em cada escola preparatória para jovens poderia mudar o mundo.

A partir daqui, generalizou-se a discussão, que virou um Fla-Flu literário. Ao fim da reunião e esgotadas três garrafas de um tinto chileno, deixamos de lado as comparações e saudamos, com um último gole, os dois grandes artistas.

E, em homenagem a eles, repito aqui o poema Carpe Diem (Aproveita o Dia) que tem mais de 2 000 anos:

Aproveita o dia, confia o mínimo no amanhã.

Não perguntes (saber é proibido) o fim que os deuses darão a mim ou a você.

É melhor apenas lidar com o que encontramos no caminho.

Seja sábio, beba o seu vinho e reescale as suas esperanças para um curto prazo, pois mesmo agora, enquanto falamos, o tempo ciumento está fugindo de nós.

Por isso, aproveita o dia, confia o mínimo no amanhã.

Tags: Publicado em: Uncategorized

Sarau

01 agosto 2014 | deixe seu comentário (0)


Parece que estou ouvindo a voz cristalina de Carlos Galhardo, o rei da valsa, cantando estes versos:

Eu vi numa vitrine de cristal
Sobre um soberbo pedestal
Uma boneca encantadora

Em São Paulo, no começo dos anos 60, eu participava dos saraus na casa de um amigo, o Lélio de Castro Andrade, então diretor da Livraria Francisco Alves. Acontecia aos domingos, após o programa Brasil 60, que fazíamos na TV Excelsior, apresentado pela Bibi Ferreira, e que reunia alguns dos maiores nomes da música brasileira. Esses encontros musicais duraram até 1963, período em que estive à frente do programa.

A bebida era a batida (preferencialmente de limão ou coco) ou a cerveja. Uma garrafa de uísque aparecia por lá uma vez ou outra, levada por algum dos convidados, mas logo se acabava, pois o sarau reunia de 25 a trinta pessoas. Se fosse na base do uísque, meia dúzia de garrafas ainda seria pouco. Para comer, um único prato — quase sempre macarrão, picadinho, risoto ou estrogonofe, em grande quantidade —, que chegava a uma mesa de jacarandá em travessas imensas, renovadas permanentemente. E nada de garçons. Cada um cuidava do próprio prato.

Algumas duplas até então improváveis formavam-se ali, espontaneamente, como Lamartine Babo e Juca Chaves (vejam só!), Orlando Silva e João Gilberto, Vicente Celestino e Dick Farney. E havia muita música instrumental, com um desfile que chegava a reunir, num fantástico regional, Jacob do Bandolim, Luperce Miranda, Altamiro Carrilho e Pixinguinha.

Noites inesquecíveis aquelas em que se podiam ouvir, verdadeiramente ao vivo, as vozes e os instrumentos dos nossos maiores intérpretes. Noitadas em que se misturavam as idades e os repertórios, democraticamente. Entre as vozes femininas, as mais frequentes eram as de Dalva de Oliveira e Angela Maria.

Rodas de choro formavam-se também, improvisadamente, e a elegante sala de visitas da casa do Lélio transformava-se, em alguns minutos, num alegre fundo de quintal. E toda essa festa semanal não era mais do que o prolongamento de um programa de televisão! Diante dessas lembranças felizes que me assaltam muitas vezes, eu me pergunto a razão de a TV ter abandonado a música. Isso num país como o nosso, musical pela própria natureza! Chega a ser inacreditável. Assisto aos programas de televisão e não entendo por que não ouvimos em nenhum deles ao menos três modestos minutos de música popular brasileira. Não apenas dos grandes intérpretes já desaparecidos, mas dos que estão aí, em plena forma, produzindo continuamente, como Caetano, Gil, Chico, Edu, Milton e Djavan, para citar apenas alguns nomes. O que falta para chamá-los de volta?

Por essa e por todas as razões, eu costumo exclamar: viva o Sarau do Chico Pinheiro!

Tags: Publicado em: Uncategorized

Cartomantes

18 julho 2014 | deixe seu comentário (0)

Ler e reler os contos de Machado de Assis tem sido um exercício que faço há muitos anos. Uma fonte inesgotável, na qual se bebe o que há de melhor na literatura universal. De alguns deles guardo na memória trechos inteiros. Em muitas das minhas novelas coloquei, entre os personagens, uma dessas mulheres que saciam e seduzem os curiosos do futuro: ficarei rico? Serei amado? Conseguirei o emprego? Serei ou estarei sendo traído? Nos postes do Leblon podem-se ler anúncios com a promessa de uma cartomante de trazer de volta, em menos de 24 horas, os amantes perdidos. É um sucesso. Na pesquisa que foi realizada para uma das minhas novelas — Por Amor, se não me engano —, garante-se que as mulheres é que formam o maior número de interessados.

No último fim de semana reli “A cartomante”, que está entre os meus contos preferidos. E após a releitura me lembrei — como sempre acontece — de uma história no mínimo intrigante pelo desfecho inesperado, ainda que oposto, que eu trago agora até vocês.

Tive um amigo que me contou ter ido um dia a uma cartomante, curioso em saber o que lhe reservava o futuro.

A mulher pôs as cartas na mesa, deu as respostas desejadas e, já no final da consulta, ele quis saber sobre o tempo de vida que ainda teria pela frente. A cartomante demorou alguns segundos olhando as cartas e depois fixou os olhos nele.

— Quer saber mesmo?

— Claro, pode dizer.

— Fique atento ao mês de maio dos anos pares.

— O que você vê nesse período?

— A morte. Não tenho como lhe dizer quando será, mas posso lhe garantir que maio será o mês e o ano será par. E, antes que ele perguntasse mais alguma coisa, ela ainda especificou:

— Entre os dias 5 e 9.

Roberto (era esse o nome dele) me disse que saiu de lá não propriamente preocupado, mas com aquelas informações teimando em permanecer na sua cabeça: maio. Ano par.

Entre os dias 5 e 9.

Estávamos em 1963, alguns dias antes do Natal.

Tínhamos então 30 anos. Ainda que ele não acreditasse nas cartomantes de fundo de quintal, como chamava essas mulheres que se fingem de ciganas, viu passar muitos maios, experimentando sempre certa ansiedade que só acabava no dia 1º de junho.

Era casado duas vezes e tinha três filhos: um menino da Eunice, a primeira mulher, duas meninas da segunda, a Vilminha. E na época em que me contou essa história estava de romance firme com Cristina, com quem pretendia se casar pela terceira vez.

— Ela é a verdadeira mulher da minha vida inteira.

A que veio para ficar. As outras só passaram.

Um mês antes de completar 40 anos, ao lado da Cris, num domingo de Fla-Flu e após um churrasco com amigos, Roberto fechou os olhos para dar um cochilo, mas aconteceu de pegar no sono. Num longo sono do qual nunca mais acordou.

Quando eu soube da sua morte, consultei o calendário para me certificar.

Estávamos em maio de 1973.

Dia 9, precisamente.

Tags: Publicado em: Uncategorized

Enfim, a Copa!

04 julho 2014 | 1 comentário

 

Caminhando no calçadão sou parado por um leitor que me pergunta sem rodeios: “E aí, cara, não vai escrever nada sobre a Copa?”  Apesar de amável, recebi o puxão de orelhas como uma crítica ao cronista, que enquanto a bola rola nos gramados e nos corações de todos os brasileiros, enfartando e provocando crises nervosas, fica ocupando este precioso espaço com assuntos sem a atualidade da Copa.

 

Garanto a vocês que não foi por indiferença ao clamor nacional e nacionalista que percorre a nossa pátria. Nem insensibilidade à emoção do hino cantado à capela, mil vezes exaltado pelo rádio e a televisão à cada partida. Posso garantir que não. Nem indiferença, nem insensibilidade. Apenas fui desfiando temas que me atraiam desde muito antes do evento mundial, deixando para segundo plano uma saudação aos nossos heróis.

 

Aproveito a ocasião para contar que sou de uma família não avessa, mas desinteressada de futebol. Meus pais e irmãos nunca foram o que se pode chamar de torcedores. Nem sequer eventuais aficionados. Um dia descobri uma carteirinha de sócio do Corinthians em nome do meu pai. Fiquei surpreso.

Não sabia que você era corintiano.

Não sou, respondeu. Comprei um título para ajudar o clube, a pedido de um amigo.

E era verdade. Da mesma maneira que era sócio do Jóquei Clube e não apostava nos cavalos.

 

Cresci assim. Na minha infância e adolescência fui palmeirense nem lembro porque razão. E o meu único ídolo dessa época foi Oberdan, o glorioso goleiro que morreu há uma semana, com 95 anos. Apesar disso, poucas vezes fui ver meu ídolo em ação. Tão desligado eu vivi sempre do assunto futebol, que agora, durante a Copa, quando muito se fala da campanha de 1950, percebo que não me lembro dela. E olha que eu tinha 17 anos! Nessa época eu já estava envolvido com um grupo de teatro amador e o futebol não estava entre os nossos interesses. Nem sequer me recordo de falarmos da Copa e do Uruguai.   Pensando bem, se fosse hoje, o nosso grupo de teatro bem que poderia se chamar Os Alienados.

 

A impressão mais forte que eu tenho de futebol no passado, depois do Palmeiras do Oberdan, já é da era Pelé. Foi aí que eu me dei conta do esporte como paixão nacional. Vi muitos jogos no Pacaembu (SP) e aqui no Maracanã. E tanta admiração eu tinha pelo jogador do Santos, que virei santista e dirigi um programa com ele, na TV Excelsior, já comentado por mim neste espaço, há três anos.

 

Agora estamos na era Neymar. O futebol precisa de um exemplo. Como tudo na vida. Tem que manter um ídolo de plantão para atrair o interesse. Maria Esther Bueno no tênis e Éder Jofre no boxe foram dois bons exemplos.

 

Tenho algumas contradições familiares na área esportiva.  Não só nela, claro. Eu peguei o caminho do me pai. O esporte que eu mais admiro é a natação e os saltos ornamentais. No entanto não sei nadar.

Tags: Publicado em: Uncategorized

Mas Deus fala!

19 junho 2014 | deixe seu comentário (0)

Leo Martins

Quando meu pai ficava sabendo de um crime brutal, principalmente os que envolviam crianças, perguntava, com desgosto, pelo paradeiro de Deus. Por onde andava o Todo-Poderoso no momento da tragédia? Como Ele foi permitir que tal desgraça acontecesse debaixo do céu que Ele mesmo criara? Em resumo: por que tantas vezes Deus se escondia, não se manifestava, não segurava a mão criminosa que se abatia sobre inocentes e indefesos? E minha mãe, fazendo o sinal da cruz e olhando para ele com piedade cristã, respondia, invariavelmente, que Deus não se escondia, que estava em todos os lugares, mas que dentro de nós só entrava quando lhe abríamos as portas do nosso coração e mente, pois dispomos do livre-arbítrio, que significa, muito simplesmente, a liberdade de escolher entre o bem e o mal.

Minha mãe tinha uma formação religiosa bastante coerente, embora não combinasse muito com o que ensina a Igreja Católica. Por exemplo: ela acreditava pacificamente no céu e no purgatório. Um para premiar os bons, o outro para castigar os maus até que bons se tornassem. O purgatório seria assim uma espécie de exame de admissão à entrada no céu. E a imagem que tínhamos — nós, crianças — dessa teoria era
de um corredor palmilhado de brasas, por onde teríamos de caminhar descalços ao encontro da felicidade do outro lado. Resumindo: não se alcança a Graça sem sofrimento. Inferno? Não. Minha mãe não acreditava.

— Deus é misericórdia — argumentava ela. — Como pode condenar alguém ao fogo eterno? Nada é eterno a não ser o próprio Deus.

Mesmo com essas discordâncias da Igreja, minha mãe era de uma fé inabalável em todos os ensinamentos da religião católica. A tal ponto que uma vez, quando eu participava de uma aula como congregado mariano, um religioso franciscano, amigo da família, confessou que tudo que ele queria e pedia a Deus para conseguir era a fé absoluta, total, sem questionamentos, da minha mãe.

— Mas ela questiona — provoquei. — Tanto que não acredita no inferno.

— Eu também não — respondeu ele. — Mas negar o inferno não é questão de fé, e sim de bom-senso.

Eu me lembro que isso mexeu com a minha cabeça de criança, abalando um pouco a minha fé, que era (só mais tarde percebi) uma homenagem que eu prestava à minha mãe.

E mesmo hoje — 22 anos depois de ela ter morrido — eu ainda faço coisas pensando apenas em agradar a ela e evito fazer outras que sei que ela não aprovaria.

Aprendemos muito com os nossos pais, mesmo, ou principalmente, quando discordamos deles. E o que aprendemos na infância sobrepõe-se ao que virá depois, na juventude e na idade madura. À medida que vou vivendo, vou me lembrando, mais nitidamente, do que ouvi deles — da minha mãe principalmente — sobre a vida e o viver.

Sobre a morte e o morrer.

— Deus fala — garantia minha mãe. — Quando não ouvimos, é porque estamos surdos.

Tags: Publicado em: Uncategorized