Cartomantes

18 julho 2014 | deixe seu comentário (0)

Ler e reler os contos de Machado de Assis tem sido um exercício que faço há muitos anos. Uma fonte inesgotável, na qual se bebe o que há de melhor na literatura universal. De alguns deles guardo na memória trechos inteiros. Em muitas das minhas novelas coloquei, entre os personagens, uma dessas mulheres que saciam e seduzem os curiosos do futuro: ficarei rico? Serei amado? Conseguirei o emprego? Serei ou estarei sendo traído? Nos postes do Leblon podem-se ler anúncios com a promessa de uma cartomante de trazer de volta, em menos de 24 horas, os amantes perdidos. É um sucesso. Na pesquisa que foi realizada para uma das minhas novelas — Por Amor, se não me engano —, garante-se que as mulheres é que formam o maior número de interessados.

No último fim de semana reli “A cartomante”, que está entre os meus contos preferidos. E após a releitura me lembrei — como sempre acontece — de uma história no mínimo intrigante pelo desfecho inesperado, ainda que oposto, que eu trago agora até vocês.

Tive um amigo que me contou ter ido um dia a uma cartomante, curioso em saber o que lhe reservava o futuro.

A mulher pôs as cartas na mesa, deu as respostas desejadas e, já no final da consulta, ele quis saber sobre o tempo de vida que ainda teria pela frente. A cartomante demorou alguns segundos olhando as cartas e depois fixou os olhos nele.

— Quer saber mesmo?

— Claro, pode dizer.

— Fique atento ao mês de maio dos anos pares.

— O que você vê nesse período?

— A morte. Não tenho como lhe dizer quando será, mas posso lhe garantir que maio será o mês e o ano será par. E, antes que ele perguntasse mais alguma coisa, ela ainda especificou:

— Entre os dias 5 e 9.

Roberto (era esse o nome dele) me disse que saiu de lá não propriamente preocupado, mas com aquelas informações teimando em permanecer na sua cabeça: maio. Ano par.

Entre os dias 5 e 9.

Estávamos em 1963, alguns dias antes do Natal.

Tínhamos então 30 anos. Ainda que ele não acreditasse nas cartomantes de fundo de quintal, como chamava essas mulheres que se fingem de ciganas, viu passar muitos maios, experimentando sempre certa ansiedade que só acabava no dia 1º de junho.

Era casado duas vezes e tinha três filhos: um menino da Eunice, a primeira mulher, duas meninas da segunda, a Vilminha. E na época em que me contou essa história estava de romance firme com Cristina, com quem pretendia se casar pela terceira vez.

— Ela é a verdadeira mulher da minha vida inteira.

A que veio para ficar. As outras só passaram.

Um mês antes de completar 40 anos, ao lado da Cris, num domingo de Fla-Flu e após um churrasco com amigos, Roberto fechou os olhos para dar um cochilo, mas aconteceu de pegar no sono. Num longo sono do qual nunca mais acordou.

Quando eu soube da sua morte, consultei o calendário para me certificar.

Estávamos em maio de 1973.

Dia 9, precisamente.

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Enfim, a Copa!

04 julho 2014 | 1 comentário

 

Caminhando no calçadão sou parado por um leitor que me pergunta sem rodeios: “E aí, cara, não vai escrever nada sobre a Copa?”  Apesar de amável, recebi o puxão de orelhas como uma crítica ao cronista, que enquanto a bola rola nos gramados e nos corações de todos os brasileiros, enfartando e provocando crises nervosas, fica ocupando este precioso espaço com assuntos sem a atualidade da Copa.

 

Garanto a vocês que não foi por indiferença ao clamor nacional e nacionalista que percorre a nossa pátria. Nem insensibilidade à emoção do hino cantado à capela, mil vezes exaltado pelo rádio e a televisão à cada partida. Posso garantir que não. Nem indiferença, nem insensibilidade. Apenas fui desfiando temas que me atraiam desde muito antes do evento mundial, deixando para segundo plano uma saudação aos nossos heróis.

 

Aproveito a ocasião para contar que sou de uma família não avessa, mas desinteressada de futebol. Meus pais e irmãos nunca foram o que se pode chamar de torcedores. Nem sequer eventuais aficionados. Um dia descobri uma carteirinha de sócio do Corinthians em nome do meu pai. Fiquei surpreso.

Não sabia que você era corintiano.

Não sou, respondeu. Comprei um título para ajudar o clube, a pedido de um amigo.

E era verdade. Da mesma maneira que era sócio do Jóquei Clube e não apostava nos cavalos.

 

Cresci assim. Na minha infância e adolescência fui palmeirense nem lembro porque razão. E o meu único ídolo dessa época foi Oberdan, o glorioso goleiro que morreu há uma semana, com 95 anos. Apesar disso, poucas vezes fui ver meu ídolo em ação. Tão desligado eu vivi sempre do assunto futebol, que agora, durante a Copa, quando muito se fala da campanha de 1950, percebo que não me lembro dela. E olha que eu tinha 17 anos! Nessa época eu já estava envolvido com um grupo de teatro amador e o futebol não estava entre os nossos interesses. Nem sequer me recordo de falarmos da Copa e do Uruguai.   Pensando bem, se fosse hoje, o nosso grupo de teatro bem que poderia se chamar Os Alienados.

 

A impressão mais forte que eu tenho de futebol no passado, depois do Palmeiras do Oberdan, já é da era Pelé. Foi aí que eu me dei conta do esporte como paixão nacional. Vi muitos jogos no Pacaembu (SP) e aqui no Maracanã. E tanta admiração eu tinha pelo jogador do Santos, que virei santista e dirigi um programa com ele, na TV Excelsior, já comentado por mim neste espaço, há três anos.

 

Agora estamos na era Neymar. O futebol precisa de um exemplo. Como tudo na vida. Tem que manter um ídolo de plantão para atrair o interesse. Maria Esther Bueno no tênis e Éder Jofre no boxe foram dois bons exemplos.

 

Tenho algumas contradições familiares na área esportiva.  Não só nela, claro. Eu peguei o caminho do me pai. O esporte que eu mais admiro é a natação e os saltos ornamentais. No entanto não sei nadar.

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Mas Deus fala!

19 junho 2014 | deixe seu comentário (0)

Leo Martins

Quando meu pai ficava sabendo de um crime brutal, principalmente os que envolviam crianças, perguntava, com desgosto, pelo paradeiro de Deus. Por onde andava o Todo-Poderoso no momento da tragédia? Como Ele foi permitir que tal desgraça acontecesse debaixo do céu que Ele mesmo criara? Em resumo: por que tantas vezes Deus se escondia, não se manifestava, não segurava a mão criminosa que se abatia sobre inocentes e indefesos? E minha mãe, fazendo o sinal da cruz e olhando para ele com piedade cristã, respondia, invariavelmente, que Deus não se escondia, que estava em todos os lugares, mas que dentro de nós só entrava quando lhe abríamos as portas do nosso coração e mente, pois dispomos do livre-arbítrio, que significa, muito simplesmente, a liberdade de escolher entre o bem e o mal.

Minha mãe tinha uma formação religiosa bastante coerente, embora não combinasse muito com o que ensina a Igreja Católica. Por exemplo: ela acreditava pacificamente no céu e no purgatório. Um para premiar os bons, o outro para castigar os maus até que bons se tornassem. O purgatório seria assim uma espécie de exame de admissão à entrada no céu. E a imagem que tínhamos — nós, crianças — dessa teoria era
de um corredor palmilhado de brasas, por onde teríamos de caminhar descalços ao encontro da felicidade do outro lado. Resumindo: não se alcança a Graça sem sofrimento. Inferno? Não. Minha mãe não acreditava.

— Deus é misericórdia — argumentava ela. — Como pode condenar alguém ao fogo eterno? Nada é eterno a não ser o próprio Deus.

Mesmo com essas discordâncias da Igreja, minha mãe era de uma fé inabalável em todos os ensinamentos da religião católica. A tal ponto que uma vez, quando eu participava de uma aula como congregado mariano, um religioso franciscano, amigo da família, confessou que tudo que ele queria e pedia a Deus para conseguir era a fé absoluta, total, sem questionamentos, da minha mãe.

— Mas ela questiona — provoquei. — Tanto que não acredita no inferno.

— Eu também não — respondeu ele. — Mas negar o inferno não é questão de fé, e sim de bom-senso.

Eu me lembro que isso mexeu com a minha cabeça de criança, abalando um pouco a minha fé, que era (só mais tarde percebi) uma homenagem que eu prestava à minha mãe.

E mesmo hoje — 22 anos depois de ela ter morrido — eu ainda faço coisas pensando apenas em agradar a ela e evito fazer outras que sei que ela não aprovaria.

Aprendemos muito com os nossos pais, mesmo, ou principalmente, quando discordamos deles. E o que aprendemos na infância sobrepõe-se ao que virá depois, na juventude e na idade madura. À medida que vou vivendo, vou me lembrando, mais nitidamente, do que ouvi deles — da minha mãe principalmente — sobre a vida e o viver.

Sobre a morte e o morrer.

— Deus fala — garantia minha mãe. — Quando não ouvimos, é porque estamos surdos.

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Ler para crer

06 junho 2014 | deixe seu comentário (0)

Desta mesma Vejinha, em crônica que saiu em setembro de 2009, recomendei aos meus leitores um livro precioso chamado O Silêncio de Deus, o primeiro volume da antologia do francês Charles Moeller Literatura do Século XX e Cristianismo, publicado pela editora Flamboyant, em 1958, numa tradução de Augusto Souza. Eu me lembro de que recebi muitas mensagens pedindo mais informações sobre essa publicação. Que eu saiba, não saíram novas edições no Brasil, e essa primeira — se ainda existir — será encontrada num sebo. Mas posso garantir que valerá a pena procurar por ela incansavelmente. Quem conseguir achá-la estará encontrando um tesouro.

Pois nesta semana voltei ao livro e à sua leitura. E reler um bom livro é renovar uma velha amizade, saudar um feliz reencontro, reviver um grande amor da juventude. Nessa antologia, encontram-se textos assinados por Albert Camus, André Gide, Aldous Huxley, Simone Weil, Graham Greene, Julien Green e Georges Bernanos. Um time que dispensa apresentações. Na crônica de 2009, privilegiei textos de Julien Green, o escritor francês autor de uma frase que li há muitos anos e que nunca me abandonou: “Tudo o que escrevi procede em linha reta da minha infância”. Foi de Green que se extraiu o nome desse livro. Escreveu ele:

“Que sabemos nós de Deus, do que ele quer, do que ele pensa? As civilizações desaparecem umas após outras e Deus guarda silêncio”. E é ele também que nos fala de um jovem internado num hospital que diz a um religioso: “Eu não quero conversar comigo mesmo e imaginar que é Deus que me fala. Deus não fala. Há o silêncio de Deus!”.

Hoje levo a vocês reflexões de Camus; algumas delas através dos seus personagens de ficção. Uma visão da presença e muitas vezes da ausência de Deus, mesmo sem mencionar seu santo nome. Afinal, Deus fala ao não falar.

Ele se manifesta e se faz visível ao ocultar-se. E é na escuridão que Ele brilha e ilumina.

1. Há no homem mais coisas a admirar do que a desdenhar.

2. No romance A Peste, um dos personagens fala:

“O único problema que hoje me preocupa é saber se um homem pode tornar-se santo sem Deus”.

3. No mesmo romance, alguém diz: “O homem é uma ideia, e uma ideia bem pobre a partir do momento em que se desvia do amor”.

4. E, quando alguém lhe diz que não é vergonhoso ser feliz, ele responde que pode ser vergonhoso ser feliz sozinho.

5. Os crimes, a morte, tudo isso nos envelhece depressa. Nunca mais voltaremos a ser crianças. Ao primeiro assassinato, a infância foge.

6. Nós matamos para edificar um mundo onde ninguém matará. Concordamos em ser criminosos para que a terra enfim se cubra de inocentes.

7. Eu só posso compreender em termos humanos.

O que eu toco é o que eu compreendo.

***

Da leitura dessa antologia pode-se chegar facilmente à conclusão com que todo ser humano sonha e deseja alcançar:  “Não se deve procurar Deus senão em toda parte”.

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Amor começa tarde

23 maio 2014 | deixe seu comentário (0)


Foi numa sexta-feira, dia da semana que meu amigo Raul chama de “mais ou menos sábado”.

— Reparem: na sexta já não fazemos planos de trabalho, só de diversão — justifica ele. — O cinema, o almoço na churrascaria, o futebol. Há, portanto, no movimento das ruas e no frescor de todos os rostos, uma sensação de sábado. Quase.
Era como vivíamos aquele fim de tarde de maio, o mais belo e um dos mais tristes meses do ano. Estávamos no Café Severino e éramos cinco pessoas: Raul, Carla e o marido, Gabriel, eu e Saulo, 70 anos, um amigo paulista que nos visitava. E foi ele quem inspirou esta crônica, quando subitamente confessou:

— Estou amando!

Diante do nosso olhar surpreso, completou:

— Estou amando como nunca amei!

Nossa surpresa aumentou, já que ele vinha carregando uma viuvez sofrida havia mais de dez anos! Continuou:

— Parodiando Drummond, posso dizer: na curva perigosa dos 70 derrapei neste amor.

—Você com vinte anos de vantagem sobre o Drummond — disse eu —, que escreveu esse verso aos 50!

— Pode contar ou ainda é segredo? — quis saber a Carla.

— Posso contar, e vou apresentar esse meu grande amor a vocês, já que ela ficou de vir me buscar daqui a pouco.

— Ela é carioca?

— Paulista. Viemos para o fim de semana no Rio. Estamos juntos há quase um ano.

— Que idade tem?

— Cinquenta. Nunca pensei que amar fosse tão bom!

Todos ali eram mais novos do que o Saulo.  E eu, o mais velho entre todos. Não tenho essa experiência dele. Meu último amor — digamos assim — aconteceu quando eu tinha menos de 50 e dura até hoje, mas entendi o significado do que ele queria dizer. Aos 70, ganhar e perder passam a ter novas cores. Como a dor das perdas que sofremos, o dia do nosso aniversário que se repete e quando pensamos, em meio aos abraços e votos de felicidade: “Até quando?”. O nascimento
de um neto que é quase certo que não veremos na idade adulta. Enfim: quando a morte estiver entre os pensamentos do dia a dia, constante e definitivamente instalada entre nós, como a parceira que nos abraça e não nos larga mais.

— Pense na vida, meu filho — dizia minha mãe, aos 90 anos.

E eu pensava na morte, a maneira mais fiel de pensar na vida.

Uma hora depois, o grande amor do Saulo entrou no Severino para buscá-lo. Ele apresentou:

— Sílvia, meu grande amor.

Era franzina. Mignon, como dizem os franceses. O sorriso tímido e sincero, a voz um pouquinho rouca.

— Vamos, meu bem, a sessão de cinema é às 6 — disse ela.

— Meus amigos, amor não é coisa para a juventude. Amor é para profissionais — falou Saulo, já de pé, pronto para sair.

E, sob a inspiração de Drummond, nosso poeta maior, disse dois versos — o que abre e o que fecha o soneto Amor e Seu Tempo:

Amor é privilégio de maduros.

Amor começa tarde.

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