Hei de vencer

12 setembro 2014 | deixe seu comentário (0)


Fui vendedor ambulante de pequenas placas de um plástico chamado galalite, material do qual nunca mais ouvi falar. Eu caminhava diariamente pelas ruas de São Paulo, entrando em casas comerciais e oferecendo as placas coloridas que ostentavam dizeres de uma proclamada sabedoria popular, tais como “Deus lhe pague”, “O Senhor é meu pastor”, “Que Deus lhe dê em dobro o que você me desejar”, “Rir é o melhor remédio”, “Conte até 10 antes de brigar”, “Fiado só amanhã”… Esse último dístico é ainda bastante visível em bares de todo o país, como eu mesmo tenho constatado quando viajo de carro pelo Brasil afora.

Essa informação pitoresca da minha modesta biografia já era do conhecimento dos meus amigos mais antigos e chegados, mas a Carla, nossa charmosa e muito querida companheira do Café Severino, não sabia e ficou surpresa:

— Jura que você foi vendedor ambulante???

Assim mesmo, com três pontos de interrogação.

Posso garantir aos meus possíveis leitores que a Carla não é preconceituosa, e a reação que revelou não foi por considerar menor esse tipo de atividade na escala profissional informal da economia brasileira.

— Com que idade você fez esse trabalho, se com 18 anos já estava na televisão? — quis saber ela.

— Mais ou menos 16 anos. Logo em seguida ao internato de padres espanhóis agostinianos. Na mesma época fui vendedor de assinaturas de revistas e sementes para jardim, além de ter sido também office boy do Banco Noroeste e baleiro do Cinema Rialto, no bairro em que eu morava com meus pais e irmãos.

A Carla nem sequer imaginava o que era um baleiro. Ficou encantada em saber que eu circulava pela sala do cinema antes de a sessão começar e no intervalo entre dois filmes das sessões duplas, e que usava um cesto com as guloseimas, onde prevaleciam as balas de hortelã e anis, que eram um discreto convite aos beijos de hálito perfumado dos casais de namorados.

Voltando ao ambulante, expliquei não ter feito esse trabalho para ajudar minha família, como tantos adolescentes que eu conhecia, mas por espírito juvenil de aventura. O pouco que eu ganhava de comissão gastava em seguida, finda a jornada, com um lanche exigido pela exaustiva caminhada diária.

Era, na pior das hipóteses, um exercício saudável.

Continuando com as informações sobre a venda de porta em porta, contei à Carla que, entre todos esses dísticos da filosofia rudimentar, o campeão era uma plaqueta branca onde se lia a frase de autoajuda que vem atravessando gerações e que é atribuída a Arthur Riedel: “Hei de vencer”.

E, para arrematar, contei que, quando desisti desse trabalho, que se constituiu num grande fracasso comercial, fiz uma imensa fogueira no quintal de casa, onde queimei todas as placas que restavam estocadas. Não aguentava mais olhar para aquelas paredes que pareciam rir de mim, gritando:

“Hei de vencer, Hei de vencer, Hei de vencer…”.

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Getúlio

29 agosto 2014 | deixe seu comentário (0)


Não percam Getúlio, um belo filme de João Jardim, produzido com rigor pela Carla Camurati. A história me toca profundamente, como a todas as pessoas da minha geração. Getúlio Vargas era um assunto permanente na casa da minha família, onde todos o detestavam, sem que disso guardassem segredo ou remorso. Nem mesmo após sua morte, oferecida a todos os brasileiros. Muitos choraram. Muitos disseram “já foi tarde”.

O elenco do filme é bom, com destaque para Tony Ramos e Alexandre Borges, respectivamente Getúlio e Carlos Lacerda, protagonista e antagonista desse pungente episódio da política brasileira. Lacerda era também assunto obrigatório na minha casa, ainda que nem todos o admirassem como oposição a Getúlio. Meu pai, por exemplo, o chamava de farsante, mas um dos meus tios o colocava nas nuvens.
O mesmo tio que, numa conversa familiar — pouco antes de morrer —, nos contou que torcera pelos nazistas durante a II Guerra. A bem da verdade, devo dizer que não nos escandalizamos com essa confissão, já que conhecíamos outros simpatizantes de Hitler, que assim se mantiveram mesmo depois de 1945. Não sei se essas pessoas todas se redimiram dessa infeliz admiração, mas meu tio reconheceu seu erro, seu engano, sua ignorância, sua cegueira diante dos fatos. E, na minha família, toda ela de formação católica, erros reconhecidos eram perdoados, como os pecados levados ao confessionário dos franciscanos da Igreja de Santo Antônio, em São Paulo. Um Pai-Nosso e três Ave-Marias afastavam qualquer pessoa das chamas do Inferno.

No livro Mortes Imaginárias, de Michel Schneider, o autor se confessa um leitor voraz de biografias. De escritores, preferencialmente. A história da vida deles, e, mais do que desta, da morte, de seus últimos dias.

E cita vários livros que tratam especificamente desses derradeiros momentos, como no caso do filme Getúlio, que mantém o foco nos últimos dezenove dias de uma vida dramática e singular, que se encerrou voluntariamente há exatos sessenta anos. Se o leitor desta crônica se interessar, procure pelos livros que tratam da morte de Kant, Púchkin, Baudelaire, Pascal, Maupassant e muitos outros, já que, mais do que pela vida, é pelo fim dela que nos interessamos. Mas Schneider nos ensina que é nos livros que esses autores escreveram que sua morte é contada com mais precisão, já que o escritor é alguém que passa a vida a morrer.

Nas frases longas e nas palavras curtas.

Sendo assim, a morte voluntária de Getúlio não está apenas, ou principalmente, no puxar do gatilho de uma arma que ele encostou em seu coração, mas nos seus atos políticos — nos seus quase vinte anos de poder, seja como ditador, seja como presidente eleito democraticamente.

Temos de conhecer melhor o país em que vivemos.

Num ano de eleições gerais, isso pode nos ajudar muito e nos formar cidadãos, mais do que meros e involuntários eleitores. E Getúlio é um bom começo para quem ainda não começou.

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Morre um ator

15 agosto 2014 | deixe seu comentário (0)

A morte do ator Robin Williams chocou o mundo inteiro, num grau de emoção até mesmo surpreendente:

— Nem mesmo a morte do Marlon Brando, mais popular do que Williams, repercutiu tanto, disse o Raul no fim da tarde de quinta, numa das mesas do Café Severino.

Houve quem discordasse dessa comparação entre os dois. Para a Carla, por exemplo, Brando era mais admirado pelo público bem informado. O povão mesmo o conhecia pelos jornais e revistas, nem tanto pelos seus filmes, que já nasciam cult.

Já Williams era mais famoso pelo trabalho diante das câmeras. Daí podermos até dizer que ele era mais popular do que o ator de Último Tango em Paris.

— Também senti isso — disse o Alfredo, que havia muito tempo não aparecia. — Mas concordo com a Carlinha —adulou ele, de olho nas pernas da nossa amiga.

E completou:

— Como comparar Uma Babá Quase Perfeita, do Williams, com Apocalypse Now, do Brando?

Para o povão, a babá ganha de dez a zero!

Eu ponderei:

— De uma maneira ou de outra, a morte de um ator atinge todos nós, já que em algum momento, em um dos seus filmes, ele nos deu uma nova vida ao representar determinado personagem com quem nos identificamos. Eu me lembro do sucesso de Sociedade dos Poetas Mortos. De como essa história mexeu com todo mundo, que passou a repetir os versos de Carpe Diem, de Horácio, o grande poeta da Roma antiga, que viveu quase 100 anos antes de Cristo. Eu mesmo, que me lembre, reproduzi o poema neste espaço, há cinco ou seis anos.

— Mas Sociedade dos Poetas Mortos era um filme mais para Marlon Brando do que para Robin Williams — palpitou o Nilton, também presente.

Aí se abriu uma discussão diante do vinho e dos nacos do grana padano que nos serviam. Gabriel deixou o jornal de lado e entrou na discussão, com argumentos que pareciam não aceitar nenhuma contestação:

— O Marlon Brando dizendo poemas para uma turma de alunos de uma escola americana tradicional ia ficar pedante, impostado, enquanto o nosso bom Robin citava os poetas com naturalidade, sem arrogância. Eu me lembro de que, quando assisti ao filme, pensei que um professor de literatura como aquele em cada escola preparatória para jovens poderia mudar o mundo.

A partir daqui, generalizou-se a discussão, que virou um Fla-Flu literário. Ao fim da reunião e esgotadas três garrafas de um tinto chileno, deixamos de lado as comparações e saudamos, com um último gole, os dois grandes artistas.

E, em homenagem a eles, repito aqui o poema Carpe Diem (Aproveita o Dia) que tem mais de 2 000 anos:

Aproveita o dia, confia o mínimo no amanhã.

Não perguntes (saber é proibido) o fim que os deuses darão a mim ou a você.

É melhor apenas lidar com o que encontramos no caminho.

Seja sábio, beba o seu vinho e reescale as suas esperanças para um curto prazo, pois mesmo agora, enquanto falamos, o tempo ciumento está fugindo de nós.

Por isso, aproveita o dia, confia o mínimo no amanhã.

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Sarau

01 agosto 2014 | deixe seu comentário (0)


Parece que estou ouvindo a voz cristalina de Carlos Galhardo, o rei da valsa, cantando estes versos:

Eu vi numa vitrine de cristal
Sobre um soberbo pedestal
Uma boneca encantadora

Em São Paulo, no começo dos anos 60, eu participava dos saraus na casa de um amigo, o Lélio de Castro Andrade, então diretor da Livraria Francisco Alves. Acontecia aos domingos, após o programa Brasil 60, que fazíamos na TV Excelsior, apresentado pela Bibi Ferreira, e que reunia alguns dos maiores nomes da música brasileira. Esses encontros musicais duraram até 1963, período em que estive à frente do programa.

A bebida era a batida (preferencialmente de limão ou coco) ou a cerveja. Uma garrafa de uísque aparecia por lá uma vez ou outra, levada por algum dos convidados, mas logo se acabava, pois o sarau reunia de 25 a trinta pessoas. Se fosse na base do uísque, meia dúzia de garrafas ainda seria pouco. Para comer, um único prato — quase sempre macarrão, picadinho, risoto ou estrogonofe, em grande quantidade —, que chegava a uma mesa de jacarandá em travessas imensas, renovadas permanentemente. E nada de garçons. Cada um cuidava do próprio prato.

Algumas duplas até então improváveis formavam-se ali, espontaneamente, como Lamartine Babo e Juca Chaves (vejam só!), Orlando Silva e João Gilberto, Vicente Celestino e Dick Farney. E havia muita música instrumental, com um desfile que chegava a reunir, num fantástico regional, Jacob do Bandolim, Luperce Miranda, Altamiro Carrilho e Pixinguinha.

Noites inesquecíveis aquelas em que se podiam ouvir, verdadeiramente ao vivo, as vozes e os instrumentos dos nossos maiores intérpretes. Noitadas em que se misturavam as idades e os repertórios, democraticamente. Entre as vozes femininas, as mais frequentes eram as de Dalva de Oliveira e Angela Maria.

Rodas de choro formavam-se também, improvisadamente, e a elegante sala de visitas da casa do Lélio transformava-se, em alguns minutos, num alegre fundo de quintal. E toda essa festa semanal não era mais do que o prolongamento de um programa de televisão! Diante dessas lembranças felizes que me assaltam muitas vezes, eu me pergunto a razão de a TV ter abandonado a música. Isso num país como o nosso, musical pela própria natureza! Chega a ser inacreditável. Assisto aos programas de televisão e não entendo por que não ouvimos em nenhum deles ao menos três modestos minutos de música popular brasileira. Não apenas dos grandes intérpretes já desaparecidos, mas dos que estão aí, em plena forma, produzindo continuamente, como Caetano, Gil, Chico, Edu, Milton e Djavan, para citar apenas alguns nomes. O que falta para chamá-los de volta?

Por essa e por todas as razões, eu costumo exclamar: viva o Sarau do Chico Pinheiro!

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Cartomantes

18 julho 2014 | deixe seu comentário (0)

Ler e reler os contos de Machado de Assis tem sido um exercício que faço há muitos anos. Uma fonte inesgotável, na qual se bebe o que há de melhor na literatura universal. De alguns deles guardo na memória trechos inteiros. Em muitas das minhas novelas coloquei, entre os personagens, uma dessas mulheres que saciam e seduzem os curiosos do futuro: ficarei rico? Serei amado? Conseguirei o emprego? Serei ou estarei sendo traído? Nos postes do Leblon podem-se ler anúncios com a promessa de uma cartomante de trazer de volta, em menos de 24 horas, os amantes perdidos. É um sucesso. Na pesquisa que foi realizada para uma das minhas novelas — Por Amor, se não me engano —, garante-se que as mulheres é que formam o maior número de interessados.

No último fim de semana reli “A cartomante”, que está entre os meus contos preferidos. E após a releitura me lembrei — como sempre acontece — de uma história no mínimo intrigante pelo desfecho inesperado, ainda que oposto, que eu trago agora até vocês.

Tive um amigo que me contou ter ido um dia a uma cartomante, curioso em saber o que lhe reservava o futuro.

A mulher pôs as cartas na mesa, deu as respostas desejadas e, já no final da consulta, ele quis saber sobre o tempo de vida que ainda teria pela frente. A cartomante demorou alguns segundos olhando as cartas e depois fixou os olhos nele.

— Quer saber mesmo?

— Claro, pode dizer.

— Fique atento ao mês de maio dos anos pares.

— O que você vê nesse período?

— A morte. Não tenho como lhe dizer quando será, mas posso lhe garantir que maio será o mês e o ano será par. E, antes que ele perguntasse mais alguma coisa, ela ainda especificou:

— Entre os dias 5 e 9.

Roberto (era esse o nome dele) me disse que saiu de lá não propriamente preocupado, mas com aquelas informações teimando em permanecer na sua cabeça: maio. Ano par.

Entre os dias 5 e 9.

Estávamos em 1963, alguns dias antes do Natal.

Tínhamos então 30 anos. Ainda que ele não acreditasse nas cartomantes de fundo de quintal, como chamava essas mulheres que se fingem de ciganas, viu passar muitos maios, experimentando sempre certa ansiedade que só acabava no dia 1º de junho.

Era casado duas vezes e tinha três filhos: um menino da Eunice, a primeira mulher, duas meninas da segunda, a Vilminha. E na época em que me contou essa história estava de romance firme com Cristina, com quem pretendia se casar pela terceira vez.

— Ela é a verdadeira mulher da minha vida inteira.

A que veio para ficar. As outras só passaram.

Um mês antes de completar 40 anos, ao lado da Cris, num domingo de Fla-Flu e após um churrasco com amigos, Roberto fechou os olhos para dar um cochilo, mas aconteceu de pegar no sono. Num longo sono do qual nunca mais acordou.

Quando eu soube da sua morte, consultei o calendário para me certificar.

Estávamos em maio de 1973.

Dia 9, precisamente.

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