Historinha familiar
24 maio 2013 | deixe seu comentário (0)
Na casa dos meus pais não se usava o verbo comer com o significado explícito de fazer uma refeição. Não. Tanto meu pai quanto minha mãe nos corrigiam:
– Não digam que vão comer, ao se sentarem à mesa, mas que vão almoçar ou jantar. Graças a Deus vocês não sentem fome.
O que vão fazer é alimentar-se para manter-se vivos e saudáveis.
Era uma maneira de afirmar que comer é matar a fome.
É sentir fome, portanto. E quem sente fome é o desvalido, o miserável. Por ser, esse sim, um faminto verdadeiro. Afinal, pessoas bem alimentadas nunca sentirão fome propriamente dita, mas apetite. No Aurélio encontramos as definições exatas das duas palavras que respaldam a implicância dos meus pais e minhas elucubrações: fome é urgência de alimento e se ramifica com penúria e miséria. Já apetite tem raiz em predileção e preferência por determinados alimentos.
Vista assim, a observação dos meus pais procede, ainda que possa soar antipática e elitista.
E, no entanto, vejam vocês, meus pais eram simples e todas as refeições em nossa casa eram frugais e informais. Tirando meu pai, que eu nunca vi se sentar à mesa sem paletó e sem gravata, todos ficavam à vontade, conversando, interrompendo-se uns aos outros, sem reprimendas. E as refeições, na maior parte das vezes, compunham-se de carne, arroz, feijão e batata. Um ovo também cabia desde que fosse almoço, já que ovo à noite era considerado indigesto. Esse, aliás, era outro capítulo na nossa chamada educação alimentar, que de educação não tinha nada: ovo só de dia, fosse frito ou cozido. Pepino e pimentão só para adultos e, mesmo para esses, também só nas refeições diurnas. Isso sem falar na maldição dos três “emes”: melão, melancia e manga. Cresci praticamente sem conhecer essas frutas e o sabor maravilhoso que elas têm. Minha avó materna não nos permitia esse prazer. Zelava pela nossa saúde, segundo pensava seu amor equivocado, recheado de boas intenções. Manga com leite então, bem… Já se podia esperar por uma missa de sétimo dia.
Lembro-me de uma vez, durante uma visita que fizemos, em que a dona da casa, ao me ver com os olhos cheios de vontade pela manga que um dos seus filhos chupava vorazmente, me falou em voz baixa, muito prudente:
– Pega uma e vai lá para o fundo do quintal, sem sua avó perceber.
Era como me aconselhar o uso de droga longe das vistas familiares! Hoje, ao lembrar-me desses episódios, lacrimejo diante da inocência desses cuidados. Desse amor desmedido, sempre aflito com o que pudesse acontecer às crianças.
Por conta disso, só na idade madura eu fui experimentar o prazer de comer.
Tive o bom-senso de não transmitir nenhum desses erros amorosos aos meus filhos e netos. Tanto assim, que acabei de pedir à Sofia, minha neta de 12 anos, que procure em VEJA RIO uma boa indicação de restaurante. E ela me respondeu:
– Mas não demora, vô, que estou morrendo de fome. Se não comer logo, desmaio!
Tive de sorrir, claro.
Bom apetite e tim-tim!




