Praça Cacilda Becker e o Quadrado da Urca

25 junho 2014 | 2 comentários

Enquanto o restante da zona sul transborda em agitação e caos, a Urca, o trecho mais pacato da região, continua vivendo dias de sossego à beira-mar


O Quadrado da Urca. Atracadouro em pleno coração do bairro é contíguo à Praça Cacilda Becker.

por Pedro Paulo Bastos

O bairro da Urca resiste bem. Enquanto a região vizinha, Botafogo, se entrega às transformações impostas pelo mercado imobiliário, a Urca segue com a sua vidinha pacata com ares de ilha de Paquetá na efusiva zona sul da cidade. Paraíso da calmaria, suas ruas são um verdadeiro convite ao descanso à beira-mar. Veja a Praça Cacilda Becker, por exemplo, no comecinho da Urca, onde não há espreguiçadeira alguma (aquele tipo de cadeira geralmente encontrado em clubes, perto das piscinas), embora devesse ter. Neste inverno sutilmente acalorado, agraciado por zéfiros imprevisíveis mas constantes, acostar-se em algum lugarzinho cômodo na referida praça seria nada mau após uma boa refeição. Explico-me.

A Praça Cacilda Becker, meus caros, está diante de um dos maiores cartões-postais da cidade: a Baía de Guanabara. Além da baía, é possível observar dali, igualmente, a sinuosidade da enseada de Botafogo e os jardins monumentais do Parque do Flamengo entremeados pelas pistas da avenida que o margeia. Ao abrigo de uma amendoeira, contemplar este horizonte em pleno junho carioca é uma tarefa pra lá de prazerosa. Você se esquece da vida, sente os raios solares incidindo airosamente na pele, desvia o rosto vez ou outra para vigiar o entorno (estamos no paraíso, mas ainda assim é um paraíso na urbe, o que requer prevenções) e regressa novamente o olhar a tal deslumbrante cenário, enquanto o mar reluz sob o céu das duas da tarde.


A Baía de Guanabara cheia de pequenas embarcações do Quadrado da Urca: o atracadouro chama a atenção dos transeuntes.


O panorama da Praça Cacilda Becker com o playground e o painel que homenageia a atriz.

No entanto, toda essa visão é secundária. A hipnose, ali, não se deve ao simples fato de termos a Baía de Guanabara como elemento de encanto: estamos, em primeiro plano, à frente de um atracadouro! A Praça Cacilda Becker é contígua ao Quadrado da Urca, uma espécie de marina que abriga vários barcos, caiaques e outros tipos de embarcações de pequeno porte. Não há luxo algum no Quadrado apesar da vizinhança ilustre, como o Iate Clube, situado naquelas proximidades. Ascético, o Quadrado da Urca reflete também um panorama bastante simplório fixado num dos bairros mais valorizados do Rio. Penso que a graça do passeio reside precisamente aí, nessa possibilidade de se distrair com a genuinidade ainda conferida ao espaço.

Como em toda praça há um jardim, por lá não seria diferente. Fincado sobre gramíneas não tão bem cuidadas, um painel acimentado mantém incólume a figura de Cacilda Becker, a famosa atriz pirassununguense morta diante de seu público em 1969, e, como vocês já desconfiavam, a personalidade que ilustra o nome deste logradouro. Duas imagens da artista, em diferentes momentos da vida, aparecem junto a um quadro emoldurado que sintetiza um pouco da sua biografia. Tratando-se de uma prestigiosa celebridade como Cacilda, essa homenagem poderia ter sido um pouquinho mais monumental. Paciência.


Intervenções artísticas divertem os fradinhos da praça, enquanto um furgão, carro difícil de se ver por aqui, estava paradinho ali na Rua Elmano Cardim.


Uma das discretas mansões da Praça Cacilda Becker próxima às calçadas floridas.

Paciência também para a precariedade estética da praça. É um ambiente acolhedor e bucólico, mas estamos falando da Urca, oras, onde todo o seu espaço urbano deveria fazer jus à beleza natural que o circunda. Diria que é uma praça inexpressiva, muito embora o seu parquinho pareça ser bem utilizado pela meninada local, assim como a sua área dispõe de certa notoriedade entre fotógrafos e artistas em geral. O cenário fabuloso dali demonstra ser um lugar interessante para aulas de fotografia ao ar livre. Os fradinhos, por sua vez, esse mobiliário urbano meio grotesco que a gente tem, receberam o apoio de grafiteiros que, através da arte, os transformaram em cabeças de bonecos Playmobil e outras caricaturas risonhas.

Por lá, é tudo muito sóbrio. Mesmo sendo época de Copa do Mundo, onde os ânimos estão compreensivelmente mais sobressaltados, das janelas dos apartamentos naquele eixo só quem fazia barulho eram as bandeiras brasileiras desabrigadas e, portanto, expostas à brisa da Guanabara. Das casas modestas, não ecoava um pio sequer, apenas o destaque de um ou outro candeeiro iluminado. As mansões são tão silenciosas e discretas que percebê-las não foi algo imediato. Camufladas por galhos e folhas, além da fiação torpe que ainda jaz na cidade, o traço clássico e sofisticado dos portões e das fachadas só encontravam poesia perante o rastro das pétalas vermelhas despedaçadas ao longo de suas calçadas.


A Noivinha, esse pássaro pequenino, diante da ponte da Avenida Portugal.


Ângulos da praça mostram tanto o bondinho do Pão de Açúcar em pleno funcionamento, assim como a disposição das casinhas simples ao longo da Rua Urbano Santos.

Apanhei a bicicleta que descansava intacta próxima às caçambas da Comlurb, por onde uma Noivinha inquieta e meio perdida sobrevoava. Dei algumas voltas no quarteirão formado pela praça, a Avenida Portugal e as ruas Urandi e Elmano Cardim disposto a admirar os diferentes ângulos possíveis de serem vistos dali. Logo atrás da Praça Cacilda Becker, por exemplo, resplandece o Pão de Açúcar, que dispensa apresentações, com seus bondinhos indo de lá pra cá em curtos intervalos de tempo. Já na estreita ponte da Avenida Portugal, onde alguns pescadores lançavam suas varas ao canal que desemboca no Quadrado da Urca, dividi espaço com alguns ônibus e automóveis enfileirados, incerto de se o clima pacato da Urca também se estendia à cultura do tráfego local.

E entrando à esquerda na Rua Elmano Cardim, na terceira ou quarta volta pedalando, esses meus míopes olhos de lince avistaram um pequenino azulejo na fachada do prédio situado naquela esquina. “Ave Maria”, era o que estava escrito, junto ao desenho de uma coroa que remetia ao símbolo da Família Real portuguesa. Estes signos católicos, tão lusitanos, estão sempre presentes nas arquiteturas mais antigas. Não sou de misturar religião com cidade, muito menos com literatura, mas acho que um lugar perfeito e hospitaleiro, assim, como a Urca, só pode ser coisa de Deus mesmo.

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Rua Roquete Pinto

03 março 2012 | 8 comentários

Zona sul não é só um mar de prédios em meio a um trânsito caótico. A Rua Roquete Pinto, na Urca, prova o contrário.


Nada muito vertical, sombra, árvores, e um vistaço para o Pão de Açúcar. Eis a Rua Roquete Pinto, na Urca, que exala um gostoso clima de interior.

por Pedro Paulo Bastos

Se Jô Penteado vivesse em 2012, a emblemática personagem de Christiane Torloni na novela “A gata comeu” (1985) não circularia mais pelas ruas da Urca, na zona sul. Provavelmente a TV Globo teria recriado o bairro como parte de sua cidade cenográfica no Projac, deixando os mais saudosistas, como eu, na mão. Afinal, as novelas atuais quase não são mais gravadas em áreas externas públicas, tornando as produções mais antigas em grandes fontes de pesquisa e de observação no que tange às modificações urbanas ao longo do tempo. (Dica: dê uma assistida na novela “Barriga de Aluguel”, transmitida pelo Canal Viva. Tem muita cena gravada em Copacabana, de onde se vê a pintura beeeem antiga dos ônibus, além de linhas que nem existem mais!)

A novela em questão é mais velha do que eu (nasci três anos depois), mas lembro-me de tê-la assistido na reprise há pouco tempo e achava um barato que a história fosse gravada na Urca, bairro que lhes trago hoje em fotos. Personagens que caminhavam pelas ruas, as crianças que se encontravam em uma das pracinhas, a cena final em que Jô e Fábio estão sentados na mureta… Todas essas cenas estão eternizadas, sendo impossível ir à Urca sem resgatar “A gata comeu”.


Não faz mais do que um mês em que estive por lá de bicicleta. Pedalando é mais fácil de desbravar o bairro do que a pé, pois mais ruas são percorridas em menos tempo. No caso da Urca, que é uma pequena aldeia urbana, el recorrido é quase imediato. Num desses passeios despretensiosos, acabo por selecionar futuras ruas a serem retratadas por aqui. E geralmente as ruas menorzinhas e mais escondidas costumam ser mais interessantes. Na Urca, todos os logradouros são bem expostos, ligando sempre as extremidades. Não tem rua escondida ou menos importante na minha opinião. É tudo bonitinho, linear e calmo. É escolher uma, fotografar e escrever.

Escolhi a Rua Roquete Pinto, uma simpática via que começa na Avenida João Luis Alves, com uma das mais belas paisagens cariocas, terminando nos fundos do morro do Pão de Açúcar. Nem preciso dizer mais nada; a localização é uma das mais cobiçadas da cidade. O grande bônus é que ali, apesar da cobiça já comentada, o mercado imobiliário não tem como expandir-se. Muito difícil alguma casa ser desapropriada, bem como um edifício ser levantado.


Duas esquinas: a primeira, com a Rua Almirante Gomes Pereira, onde pode-se ver uma bela residência em estilo suíço; a segunda, com a Avenida João Luis Alves, que tem uma vista já bastante autoexplicativa

O verdadeiro estereótipo das ruas na zona sul do Rio é formado por um mar de prédios com um fluxo intenso de veículos para lá e para cá. Na Rua Roquete Pinto a tranquilidade é tanta que pode-se caminhar até mesmo pelo meio da via, de ponta a ponta. Isso facilita a vida (e a infância saudável) das crianças, que não precisam brincar trancafiadas em um play, como aconteceria no bairro vizinho, Botafogo. Na Urca, brinca-se na rua. Bicicletas são bem comuns, tenha o ciclista dez ou cinquenta anos.

É importante dizer que a Rua Roquete Pinto, apesar da beleza rústica, tem um aspecto meio decadente também, mas que não chega nem um pouco a ser chocante. Funciona mais como uma prova de que o lugar é conservado, no sentido de não ter sofrido grandes interferências, tão comuns aos grandes centros. Nesse contexto que as memórias de “A gata comeu” ficam ainda mais realçadas… 1985 poderia ser hoje e não veríamos grande diferença.


A Praça Raul Guedes, com o edifício Uyrapurú ao fundo, é ponto de encontro de babás e crianças durante as manhãs. Ao lado, um exemplo de como todas as casas têm um detalhe em especial que as torna ainda mais bonitas.


Embelezada pelo edifício Uyrapurú, vê-se a Praça Raul Guedes que, nas manhãs, vira ponto de encontro de babás e crianças. O parquinho parece ser bem aproveitado e respeitado, já que o número de usuários é bem restrito aos moradores do entorno. A mesma praça é rodeada por casas também muito simpáticas. Se não estão bem conservadas como um todo, pelo menos em algum detalhe se destacam, seja por um pequeno vaso de flores na janela ou por algum outro tipo de arte.

A visão para o Pão de Açúcar e os cabos que transportam os bondinhos é bem exclusiva quando se caminha pela Rua Roquete Pinto. Cenário mais ou menos parecido poderá ser visto na zona norte, mais especificamente no bairro do Grajaú, dono de uma rocha bem grande e charmosa, o Pico do Papagaio. Definitivamente a natureza é o maior dos atrativos do Rio de Janeiro. Sem ela seríamos apenas mais uma cidade, e não “a” cidade que encanta tantos nativos e estrangeiros. Orgulho!

Diria que o trecho final da Rua Roquete Pinto é o mais bonito e florido, ali entre as ruas Cândido Gafrée e Manuel Niobei. Flores brotam inesperadamente pelos longos galhos das árvores, enquanto casas lindíssimas despertam a inveja do pedestre, que está só de passagem, e não de entrada. A tranquilidade é, mais uma vez, letal de tão boa e positiva. A certeza que a gente tem quando se sai dali é a de que, sim, o Rio tem seu próprio paraíso.


O último trecho da Rua Roquete Pinto: uma das residências, e o encontro dela com a Rua Manuel Niobei

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