Quais serão os novos ares cariocas?

19 novembro 2011 | 10 comentários

Com os investimentos feitos na zona oeste, os cariocas continuarão preferindo morar próximos ao Centro ou irão aderir a um novo modelo de subúrbio?

Abertura do Túnel da Grota Funda: integração e desenvolvimento de bairros da zona oeste.

 

“A Copacabana começa a despertar a atenção e a curiosidade. Já se fala e se discute a respeito da linha de bondes que vai servi-la. Faz pouco, a viagem de Botafogo até o Leme se fazia em 20 minutos”. (ano 1881, p. 146)

“O assunto que está nas folhas e na boca do povo é o da construção da linha de bondes para a chamada Copacabana. Publicam-se as condições do edital referentes à construção das linhas e abertura de túneis para a zona sul. No Leme e no Rio Comprido. A firma Duvivier & Cia. pede prorrogação do prazo para apresentar estudos e planos. A iniciativa – como ocorre sempre – é criticada pela imprensa e o público”. (ano 1883, p. 170)

 

Os trechos acima pertencem ao livro “O dia-a-dia no Rio de Janeiro – segundo os jornais (1870-1889)”, de Delso Renault, cujo qual estive relendo nesses últimos dias e sublinhando passagens interessantes como essa. Primeiro de tudo, ler sobre Copacabana como um balneário distante, de aspecto duvidoso mas instigante, ainda totalmente separada do seu, então, badalado bairro vizinho de Botafogo, é quase uma piada para os dias de hoje, não é mesmo? Em segundo lugar, Renault aponta que já desde 1883, a população repreende qualquer decisão ou medida tomada por empresas prestadoras de serviço ao Estado. Ou seriam elas ineficientes desde sempre? Curioso e ainda bastante contemporâneo o comportamento de ambas as partes, mas isso é só um detalhe.

Esses fragmentos capturados do livro fizeram-me recordar uma conversa que tive com um amigo a respeito do futuro do Rio de Janeiro daqui a uns 100 anos. Menos, talvez, porque nos imaginávamos vivos ainda, como vovôs. A questão central era: continuarão sendo os lugares importantes de hoje, na cidade, os mesmos no futuro? Que funcionalidade um bairro Y, hoje, terá amanhã?

Essa é uma tendência já comprovada pela nossa história, até então. Com o desenvolvimento urbano carioca, a Rua do Ouvidor, por exemplo, deixou de ser a rua das butiques e chapelarias para entrar em um processo gradual de ordinarização no qual pouco lembra as suas origens. Em acirrada competição, Botafogo venceu São Cristóvão nos aspectos aristocráticos, tornando-o uma região industrial no século XX. Gávea e Jardim Botânico, bairros operários, sofreram uma “varredura arquitetônica e social” em função da valorização dos terrenos na zona sul.

Quando vejo a construção acelerada do Túnel da Grota Funda, na zona oeste, por exemplo, começo a esboçar um pequeno panorama de como poderemos enxergar o Rio nas próximas gerações. Consideremos aí também os investimentos nos acessos viários e de transporte à Guaratiba, Sepetiba, Santa Cruz, Campo Grande.  Não que estejamos falando de áreas inabitadas, como era a Copacabana do século XIX, hoje o maior símbolo na cidade de urbanização – exagerada, convenhamos –, mas sim de locais pouco explorados, tanto pelo poder público como pela mídia.

Uma das hipóteses discutidas nessa conversa – fruto da nossa imaginação, sem nenhum embasamento científico, embora ordenadas por uma certa lógica – é a de que o Rio sofrerá um novo processo de suburbanização. Não no sentido pejorativo, como o que foi adquirido o conceito de subúrbio por aqui; é a questão mesmo de se morar mais “distante” do Centro, incorporando um modelo estadounidense de moradia, em que o “Centro” é local para trabalhar,  e o “subúrbio”, o para se morar.

Como na maioria das cidades latinoamericanas, o núcleo central da cidade concentra, desde sempre, os melhores serviços públicos, de transporte, moradia, saúde e de entretenimento. Pobres e ricos tendem a viver dentro desse núcleo em busca de comodidade, o que se reflete na favelização e na verticalização excessiva no entorno do Maciço da Tijuca. Uma vez que a acessibilidade de bairros distantes melhore, acoplada ao recebimento de todos (todos mesmo, sem parcialidade) os serviços necessários e desejados por um cidadão a determinado lugar, ficaria ele tentado a mudar-se de bairro?

Por mais atraente que seja morar nesse tal núcleo central do Rio (centro, zona sul, parte da zona norte), existe um ônus enfrentado que só é abstraído pelo fato de que “não há lugares mais cômodos e práticos para se viver”. Residências cada vez menores e mais caras; ausência de áreas públicas livres, que poderiam tornar-se praças ou parques; formação das ilhas de calor, com o levantamento de prédios; engarrafamentos de veículos e de pedestres pelas calçadas; além de outros pequenos fatores que assistimos no nosso dia-a-dia. Mesmo assim, ainda acho que o fator econômico pesa na hora da decisão.

Analisando as suburbanizações recentes, como o povoamento da Barra e do Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste, podemos dizer que, sim, eles deram certo. Atualmente, figuram entre os bairros mais famosos da cidade por uma certa qualidade de vida que oferecem a quem resolve fixar moradia por lá. No entanto, pecaram por pertencerem a projetos de uma época de hipervalorização do transporte individual, sem adaptação para receber um eficiente transporte de massa, que facilitasse o ir-e-vir da população em direção ao local de trabalho. Ou seja, foram projetados para serem bairros exclusivamente automobilísticos. O “erro” está sendo revisto só agora, com a expansão (tímida) do metrô para a Barra. Todavia, ela continua pouco atraente para pedestres. Se nas regiões mais caras da zona sul existe um alto custo de moradia, na Barra, esse custo seria com combustível. Ter automóvel nesse núcleo do Rio é optativo; na Barra e Recreio, é altamente recomendado.

Acredito que esse tenha sido um fator fundamental para que o modelo de bairro como o da Barra não fosse amplamente aceito pelos cariocas, principalmente numa cidade em que as atividades ao ar livre são o maior atrativo. Logo, a suburbanização ainda continua rejeitada. Morar próximo ao Centro é a melhor das opções. Sem falar que o laço cultural dos moradores para com seus bairros de origem ainda é forte. Considera-se também o apelo turístico da zona sul, maior representante da cultura da cidade, que é um motivo de atração pelo seu simbolismo, como as praias e o Cristo Redentor. O carioca valoriza muito a orla como área de lazer, em detrimento dos parques e praças. Esses são outros fatores de aderência à moradia no núcleo.

A expansão para a zona oeste, nessa suburbanização pós-moderna, tem uma importante missão de redesenvolver os bairros de lá com os preceitos contemporâneos de urbanização. Sustentabilidade, arborização, designação de espaços livres e de ocupação, transportes de massa (vide o BRT), oferecimento de serviços públicos e privados de qualidade, enfim, bairros devidamente planejados e que sejam inflexíveis a quaisquer alterações que possam ser feitas em prol de interesses individuais. Um respeito à capacidade de absorção humana desses lugares, que poderão ser atrativos tanto para a elite quanto para as outras classes, seja lá o segmento social que ocupará esses novos subúrbios.

Eu, particularmente, acho que será a elite quem se sentirá atraída para ocupar esses novos sítios, mais cômodos e aprazíveis, como aconteceu em cidades dos Estados Unidos, da Inglaterra, e até mesmo na Barra e no Recreio, para onde foi parte da elite das zonas sul e norte da cidade nas décadas de 80 e 90. Minha aposta é que essa região do Centro e da zona sul carioca se integre, como um único bloco, formando uma área forte de trabalho e de turismo, embora caótico ou claustrofóbico demais para residência fixa.

Investimentos públicos de qualidade na zona oeste poderão melhorar a paisagem do Rio nessas regiões pouco divulgadas pela prefeitura e a imprensa. Em consequência, um ponto de equilíbrio no crescimento desordenado de outras regiões também conseguirá ser alcançado com esses investimentos. Lembrando que investimento não é só levantar prédio ou casa e tchau – o pacote tem que vir completo, não só para ser legal como para ser atrativo.

Da mesma forma que a Lagoa, há pouco mais de cinquenta anos, era local sombrio, pouco habitado, insalubre, eu também acho que Guaratiba ou Grumari, por exemplo, a longo prazo, poderão ser um novo modelo de bairros altamente desejados. Aliás, já a curto prazo, eu também acho que a zona portuária vai ser outro local bastante requisitado, porém mais no sentido turístico e de lazer, como já é o núcleo.

É… Só resta-nos esperar e ver a quais ares o Rio de Janeiro rumará. Quais são suas apostas?


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