Samuel Morse, Senador Euzébio e Cruz Lima

03 janeiro 2012 | 3 comentários

Conjunto de ruas no coração do Flamengo conserva e retrata bem os tempos áureos do Rio


O ano é 2012, mas a paisagem de algumas ruas do Rio ainda poderia corresponder aos anos 30 e 40 se não fossem os automóveis do século XXI e o vestuário descolado dos pedestres. Basta jogar um efeito vintage do Photoshop em fotos atuais da Rua Samuel Morse, no Flamengo, que o leitor poderá se convencer rapidamente de que o registro se passaria perfeitamente como antigo. Não, não é. Graças à belíssima arquitetura do conjunto de ruas formado pela Samuel Morse, Senador Euzébio e Cruz Lima, é possível caminhar por um Rio de Janeiro daqueles tempos áureos, que esbanja história, sem precisar de máquina do tempo.

A esquina da Rua Samuel Morse com a Avenida Osvaldo Cruz, para mim, é uma das mais simpáticas da cidade. Não só porque a iluminação local parece estar sempre nublada, devido ao mar de árvores que proporciona sombras em todas as épocas do ano, como também pelo desenho ímpar dos edifícios do Flamengo. Na citada esquina, a imponência da portaria do edifício que fica ali me causa certa excitação pela beleza estonteante. Sustentada por duas colunas, tem um vão interno por onde supostamente passariam os automóveis a fim de que os passageiros desembarcassem. O desenho do portão de ferro é todo moldado em detalhes sinuosos, agraciado por uma escadaria de quatro degraus que vai se abrindo de cima para baixo, margeada por corrimãos de bronze. Edifício muito classudo. Desse tipo, só se vê no Flamengo ou em Copacabana, lá pelos lados da Avenida Rainha Elizabeth.

A Rua Samuel Morse é bem pequenina e termina na confluência das ruas Gabriela Mistral, outra ruazinha simpática e bem miúda, e Senador Euzébio, por onde continuei minha expedição, embasbacado pelo que via adiante. Desculpem-me os pouco apreciadores de arquitetura, mas não posso deixar de falar dos edifícios gêmeos Hicatú e Itaiúba, construídos em 1933, que são os mais bonitos e elegantes que já vi do gênero art déco. Uma vez li sobre um arquiteto que falava sobre a hipervalorização da arquitetura antiga em detrimento da atual, principalmente nessa polêmica das grandes urbes em demolir ou não imóveis antigos para levantar novos. Que não era bem assim, que o que se projeta e constrói hoje tambem é digno de valor e de beleza. Há controvérsias, é claro, e depois desse relato eu comecei a ser mais tolerante com esses blocos de concreto espelhados que andam pululando pelo Rio. Mas nada, nada vai tirar nem substituir o charme do art déco carioca, por mais ultrapassada e pouco sustentável a sua estrutura possa ser para a época de agora.



E não é só a fachada dos edifícios que te traz a sensação de estar no Rio de meados do século XX. Esse pedaço do Flamengo, apesar do luxo exaltado, tem cheiro e cores de ruas velhas, que beiram a decadência. Os próprios gêmeos, Hicatú e Itaiúba, por exemplo, carregam um aspecto encardido, e mesmo assim são os dois cheios de pompa. Quanto ao olfato, o odor do velho lembra naftalina, paira no ar e torna-se mais acentuado quando os portões das garagens se abrem ou fecham. É como se fosse bafejado um hálito nostálgico de dentro desses prédios. Isso contamina toda a Rua Senador Euzébio, já escurecida pela ação dos anos em suas marquises e postes. Essa essência não é captada facilmente, e talvez nem exista, podendo ser fruto da minha imaginação. Como eu me aprofundo demais em cada detalhe das ruas que visito – só na Samuel Morse, a rua pequenininha, fiquei uns 30 minutos olhando, olhando e olhando –, meus sentidos acabam ficando mais aguçados, modéstia à parte.

No final da Rua Senador Euzébio, vê-se o resquício de uma antiga luminária toda cheia de estilo, destoando dos postes cinzentos e feios mais atuais, e a fachada do Hotel Argentina, bonitinho, mas pouco badalado. Aliás, os hotéis do Flamengo têm esse aspecto meio low budget. Gosto de todos eles, principalmente do Paysandú, na rua de mesmo nome, que serviu de hospedagem para a seleção do Uruguai na copa de 50. Se fosse turista no Rio, optaria por quartos nessa região do Flamengo. Não tem jeito, meu lado conservador fala mais alto nessas horas.

Entrei, por fim, na Rua Cruz Lima em direção à Praia do Flamengo. Essa rua também é tão bacana e aconchegante quanto as outras percorridas. No entanto, diferente do Hotel Argentina, temos ali o Golden Age Intelligent Flat, mais modernoso na aparência e no nome, em inglês – idioma obrigatório nessa “arquitetura contemporânea”. A sensação de velharia voltou logo em seguida ao passar pela vitrine do antiquário-brechó Andaças e Lembranças, no número 25 da Cruz Lima. Meti discretamente o rosto para dentro da simpática loja e por um momento pensei: “tudo o que esses prédios antigos do Flamengo já abrigaram de objetos e vestuários luxuosos devem estar aí”. São muitas roupas, castiçais e algumas bonecas de porcelana. À mulherada que curte, acho que vale a pena dar uma passeada por lá.

Chegando ao final da Cruz Lima, a calçada fica estreitinha, coberta por um antigo desenho de pedras portuguesas. Duas margens de pedras pretas recheadas por uma sucessão de losangos na cor vinho, realçadas pelo fundo branco das pedras brancas. De um lado, um fusca vermelho. E na minha frente, uma autêntica luminária antiga – dessa vez, inteirona! Não é possível… Que belezinha! Tudo combinando com o Edifício Dumont, o dono do pedaço, charmosão, mas meio decadente. O contraste da portaria elegante com os fios soltos de uma antiga lâmpada da própria fica ainda mais triste com a sujeira do entorno. Não faz mal, ele é bonito de qualquer jeito! E a luminária-belezinha, mais ainda. Saí de lá com várias fotos dela, de todos os ângulos.

 

 

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O Largo de Vaz Lobo (estava) na mira da Transcarioca

13 julho 2011 | 30 comentários

Um dos últimos cinemas de rua do subúrbio ganha defensores bastante engajados

por Pedro Paulo Bastos

 


Largo de Vaz Lobo, com o Cine Vaz Lobo ao fundo: intervenções paisagísticas e viárias repensadas.



Vaz Lobo é, de longe, um dos bairros menos badalados no Rio. Seja pelo seu perfil residencial ou pela sua localização geográfica, pouco se ouve falar sobre as suas particularidades. Isso acontece com muitos bairros do subúrbio, estigmatizados pela violência que caracteriza a parte do extremo norte do município. A história, os costumes e a paisagem de cada lugar acaba sendo generalizada pelo descaso que se tem, do Estado, para com as áreas menos ricas. O que seria tombado e preservado na Zona Sul ou no Centro, a demolição é um futuro quase certo para os imóveis históricos do subúrbio. O bairro de Vaz Lobo é testemunha.


A Transcarioca, a mais nova avenida da cidade que interligará a Barra da Tijuca à Penha, promete melhorar não só a estrutura viária do Rio como também a paisagem de muitas regiões pelas quais passará. O pedaço entre Campinho e Madureira já está interditado; um mergulhão está previsto por ali. O traçado da Transcarioca acompanharia a Avenida Edgar Romero até o Largo de Vaz Lobo, onde será preciso desapropriar diversos imóveis, incluindo aí o edifício do extinto cinema Cine Vaz Lobo.

Cine Vaz Lobo, na década de 70, quando ainda funcionava

Inaugurado em 1941, o proprietário do cinema, o português Antônio Mendes Monteiro, construiu a sala com capacidade para 1 800 pessoas, com referências ao art déco, tornando-se um dos pólos de cultura referenciais para aquela região. De acordo com informações do blog da vereadora Sonia Rabello, um dos primeiros em que li sobre o caso, a pré-estreia do Cine Vaz Lobo contou, inclusive, com a ilustríssima presença da primeira-dama da República Darcy Vargas. A época de ouro durou até meados da década de 80, como todos já sabem, período-chave para a falência dos cinemas de rua em função da violência urbana e da expansão dos shopping centers. Desde então o prédio viveu abandonado, entregue às inesperadas ações do tempo. Passeando pelo Google Street View, vê-se que o térreo do edifício é hoje ocupado por um botequim. A fachada, deteriorada, ainda preserva no topo o título, em caixa alta: “CINE VAZ LOBO”.


O projeto da Transcarioca pretendia demolir o Cine Vaz Lobo para dar espaço a uma das pistas da avenida, incluindo a construção de uma praça. Foi aí que surgiu o Movimento Cine Vaz Lobo, um grupo formado por moradores, simpatizantes e pesquisadores que se uniram para combater a destruição de um local que não só deve ser preservado como reestabelecido. E deu certo! Assinaturas foram recolhidas no Mercadão de Madureira no início desse ano e o traçado será revisto a fim de manter o cinema.

Simulação de como ficaria o Largo de Vaz Lobo, sem o largo, para dar passagem à Transcarioca. Em troca, a preservação do Cine Vaz Lobo com intervenções paisagísticas.



Considero o movimento como um belo exemplo de cidadania. Está mais do que comprovado de que é no engajamento das pessoas em prol de um objetivo a possibilidade mais próxima de alcançá-lo. O Rio está passando por uma fase de mudança, bastante favorável à recuperação de áreas degradadas e que podem – e devem – entrar no circuito cultural e turístico da cidade. Isso dependerá de uma organização das comunidades para que elas próprias se fortaleçam. Ainda mais no subúrbio, que não conta muito com o respaldo do Estado e muito menos do empresariado.


Lamento muito que o triunfo desse grupo perante a Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro não seja nem um pouco noticiado pela mídia. De qualquer forma, meus parabéns ao Movimento; não os conheço, embora lhes ofereça todo o meu apoio. O Movimento tem potencial, é inegável, tendo mais êxito do que as mais organizadas associações de moradores da Barra e da Zona Sul contra a nova Linha 4 do Metrô. Esse é um ótimo exemplo para outros bairros da Zona Norte, do Subúrbio e da Zona Oeste se inspirarem e lutarem pela preservação dos seus patrimônios históricos e culturais!

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Em tempo: a arquiteta e urbanista Fernanda Costa é uma das líderes do movimento. Em vídeo,  ela fala sobre seu projeto de TGF da UFF, baseado no caso do Cine Vaz Lobo, além das propostas para o local. Ainda mostra o depoimento de outros participantes e do dia da coleta de assinaturas no Mercadão de Madureira. O vídeo está no blog Subúrbio Carioca – link para lá.

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O elegante da Tijuca nos anos dourados

07 julho 2011 | 11 comentários

Conjunto de ruas ao lado do Colégio Militar resguarda o melhor da arquitetura no bairro


por Pedro Paulo Bastos

Mesmo numa das partes mais barulhentas da Tijuca, a Rua Professor Lafayette Côrtes consegue ser silenciosa.

Mapa do entorno
Em um dos trechos mais movimentados da Rua São Francisco Xavier, na Tijuca, um pequeno posto de gasolina de esquina abastece um montão de carros, no meio de outros que, ao serem lavados, também acabam recebendo algum tipo de serviço mecânico. Do outro lado da calçada, lojinhas familiares compartilham o térreo de um edifício alto, composto de pastilhas em diferentes tonalidades de azul. Não há a existência de placa-pirulito que identifique a rua, mesmo que ela desemboque na São Francisco Xavier, a principal da região. Aliás, ninguém daria nada pela rua, pois, verdade seja dita: ela não leva a lugar algum… relevante.

Essas ruas são as melhores, pois são menos previsíveis do que as já muito circuladas e badaladas. E também, até onde o meu conhecimento de geografia-urbana-carioca me permite afirmar, eram justamente nesses “cantinhos” onde se construíam as melhores casas no passado, de forma a oferecer uma certa qualidade de vida e um ar mais interiorano, de serra, oferecido pela natureza própria da cidade. A rua em questão é a Professor Lafayette Côrtes, incrustada entre o terreno verde do Colégio Militar e a sua pedra, a Pedra da Babilônia, melhormente conhecida pelos tijucanos do que pelo resto dos cariocas. Já conhecia a rua, mas, ao fotografá-la e observar melhor os seus detalhes, pude comprovar a tal teoria de que alguns cantinhos do Rio realmente são bem aprazíveis e surpreendentes.


O conjunto de ruas formado pela Professor Lafayette Côrtes, General Marcelino e, mais adiante, a Rua Dulce, é abraçado pela Pedra da Babilônia (à esquerda, ao fundo).

Linhas retas,
janelas grandes
Tenho fascínio por prédios antigos, desses construídos em meados do século XX. Na minha opinião, são bonitos, têm desenho sofisticado e com apartamentos gigantescos. Tá certo que muitos estão ultrapassados em relação às exigências atuais, como falta de elevador e garagem; mesmo assim, continuam sendo muito mais elegantes que esses edifícios surgidos recentemente, na década de 90, com varandas de vidro e/ou espelhadas. A Rua Professor Lafayette Côrtes consegue livrar-se da esquisitice da sua esquina com a São Francisco Xavier em poucos passos adentro, onde estão, consideraria eu, os melhores edifícios da Tijuca dentro do critério descrito inicialmente.

Conversando com o meu irmão, que é arquiteto (logo, melhor entendedor no assunto do que eu), ele estava me mostrando que embora os prédios da Lafayette Côrtes sejam bonitinhos – apesar dos ares decadentes -, nenhum deles é pertencente a um estilo arquitetônico muito definido. Confesso que não sei identificá-los muito bem; para mim, toda casa ou edifício de linhas mais retas simétricas, um vitral comprido ao longo da fachada com nome do imóvel em letras meio animadas ou em anagrama, eu já acho logo que é art déco. Nem sempre é assim. Possuir elementos de um determinado estilo não quer dizer que ele seja totalmente incorporado nele. Nessa rua da Tijuca, por exemplo, muitos prédios têm elementos, mas poucos se afirmam como tal.


Prédio com varanda em coluna e arcos contém elementos ecléticos, mas precisa de recuperação. Ao lado, edifícios siameses já quase no encontro com a Rua General Marcelino.

Poderia até me atrever a dizer que alguns nasceram como art déco ou em estilo eclético, embora, hoje, estejam descaracterizados a ponto de não se reconhecer mais a sua proposta inicial. Isso se reflete na substituição de janelas diferentes das originais, destoando do desenho-padrão; na inserção de grades nessas mesmas janelas; no fechamento das varandas abertas com vidro, uma reação compreensível perante a violência urbana; na má conservação das fachadas… Enfim, perderia uma tarde aqui enumerando todos esses detalhes.


Os azulejos são herança portuguesa. No topo, uma espécie de galo em chapa de ferro enfeita, como se estivesse cantando ao amanhecer.

Edifício Cibrasil
Entretanto, lá na curvinha da Rua Professor Lafayette Côrtes com a Rua General Marcelino está uma das maiores preciosidades já vistas por mim nessa região: o edifício Cibrasil, no número 156. De estilo eclético, a sua entrada é ornamentada por um portão elegante, de ferro, com detalhes dourados em formato de ondas. Ora lembram um caracol, ora uma série de bigodes bem penteados, ou o que a sua imaginação preferir. Esse parte da entrada se assemelha a uma torre, com ondulações na fachada sob o portão, além de um vitral que se estende até o seu topo. Os espaços entre as ondulações são preenchidos por azulejos floridos, dando um aspecto bem lusitano ao conjunto. Para completar, lá em cima, no telhado em formato de círculo, um galo de ferro com bico apontado para o céu. Aviso logo: se vagar apartamento ali, é meu!

Observe o esmero com que foi produzido os detalhes do portão. É uma obra de arte, numa época onde cada imóvel construído era distinto dos demais, reforçando as suas particularidades.

Panorama da Rua General Marcelino, com a Praça Dulce ao fundo.

Acrescentando, por ser uma rua de imóveis antigos, não poderia deixar de lhes dizer que é uma rua idosa também. Estava por ali no período da manhã, e um monte de senhorinhas passavam arrastando seus respectivos carrinhos de feira com sacolas e frutas. A movimentação fica por conta também dos alunos do Colégio Militar, impecavelmente uniformizados, a boina vermelha caída levemente para a direita da cabeça. Em tempos de frio e chuva como agora, eles andam com umas botas pretas até um pouco abaixo do joelho, daquelas típicas de quem pratica hipismo. Além disso, os seguranças e os porteiros de prédios da rua foram muito simpáticos e brincalhões comigo. Eu, inclusive, passei ali dois dias depois de ter tirado essas fotos e mesmo assim eles me reconheceram, cumprimentando-me e fazendo poses de como quem está fotografando.

Para finalizar, insisto no meu discurso: é preciso preservar a arquitetura das ruas. Não se pode descuidá-las, nem substitui-las por qualquer outra coisa. O que seria de muitas cidades europeias se seus edifícios não fossem preservados nos mínimos detalhes? Essa consciência precisa brotar aqui pelo Rio. Ainda que estes não sejam prédios públicos, eles fazem parte da nossa história e merecem receber uma atenção especial, assim como um melhor esclarecimento aos seus moradores sobre sua importância.

Opiniões diretas: asruasdorio.contato@gmail.com


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