Ocupai os muros da cidade: o Wallpeople volta ao Rio!

11 maio 2013 | deixe seu comentário (0)

Projeto de arte colaborativa nascido em Barcelona aportará no Rio pela 3ª vez com a temática “Music Edition”


Barcelona. Detalhe do muro ocupado em Barcelona, em 2011, sob a temática “O que é a felicidade?”.

por Pedro Paulo Bastos

Em grandes metrópoles como o Rio de Janeiro é muito difícil andar por aí e não se deparar com espaços públicos de lazer vazios com muralhas abandonadas. Muitas das vezes estes locais podem ser extremamente movimentados pelos afazeres do dia-a-dia, ou por serem zonas de passagens importantes, embora sejam pouco “presenciados” de fato. Com base nesse panorama é que o Wallpeople, um projeto de arte colaborativa nascido em Barcelona há quatro anos, tem como razão de existência a reivindicação do espaço público como meio de expressão e de interação cidadã através da arte. Nada mais justo que aplicarmos esta proposta pelas ruas do Rio!

O Wallpeople tem tido sua edição carioca nos últimos dois anos e cada vez mais ganhando adeptos em mais de quarenta cidades do mundo. Criado pela dupla de publicitários, o espanhol David Marcos e o mexicano Pablo Quijano, o Wallpeople se baseia em organizar exposições coletivas em espaços urbanos, onde qualquer um possa exibir suas próprias obras der arte. O projeto promove uma oportunidade para todos aqueles que têm algo a mostrar para o mundo e que dificilmente conseguiriam tal feito em uma galeria ou em um museu. Eis que surge a materialização do Wallpeople: a ocupação de um muro abandonado da cidade com obras de arte minhas, suas, nossas, deles, delas… Qualquer um pode participar, independente de ser artista ou não. Expressão é a palavra-chave do projeto!

É com grande honra que o As Ruas do Rio virou um dos veículos oficiais de divulgação do evento aqui no Rio (em São Paulo, é o pessoal do Choco la Design), que vai acontecer no próximo sábado 1 DE JUNHO, a partir das 14 horas, na Tijuca (ver localização exata mais abaixo). A temática se chamará “Music Edition” neste ano; o participante deverá reinterpretar uma música em um formato artístico da sua escolha: ilustração, fotografia, texto, pintura, colagem, lona… Pode ser um tributo a um artista, a um concerto, a um momento musical particular que você tenha tido, seu tipo musical favorito, origens musicais, e por aí vai.


Exemplos. O tema Music Edition incursionará o Wallpeople no mundo da música. Use a criatividade e traga materiais artísticos próprios que tenham a ver com o mundo musical. Ocuparemos um muro abandonado com diferentes amostras de trabalhos artísticos que tenham a ver com música.

Já do ponto de vista geográfico, a ideia de dar vida ao Wallpeople na Tijuca é justamente a proposta de levarmos eventos artísticos de qualidade – e gratuitos – para regiões do Rio nem sempre englobadas por este circuito, geralmente restrito entre a Lapa e a zona sul. Escolhemos a Tijuca por ser um bairro de simbólica representatividade urbana na cidade e com vários aparatos culturais nem sempre estimados pelos cariocas, como o Teatro Ziembinski, por exemplo, que fica bem ao lado do muro em que iremos ocupar. Temos o apoio também da galera do Norte Comum, que é uma rede de articulação cujo objetivo é restabelecer meios de circulação e expressão cultural entre os bairros da zona norte do Rio de Janeiro.

Para mais informações sobre o Wallpeople: Music Edition no próximo sábado 1 de Junho, acompanhe as informações e os formatos artísticos que serão aceitos na página do evento no Facebook: http://goo.gl/DjsMk. Vá lá e confirme sua participação!

 

As cidades participantes até agora são:

 Barcelona · Madrid · Valencia · Bilbao · Santander · Gijón · Córdoba · León · Málaga · Palma de Mallorca · Lisboa · Porto · Funchal · Roma · Dublin · Budapeste · Amsterdã · Berlim · Belgrado · Zagreb · Rijeka · Istambul · Nova York · Miami · Cidade do México · Guadalajara · Monterrey · Buenos Aires · Rosario · Corrientes · Rio de Janeiro · São Paulo · Santiago do Chile · Lima · Quito · Guayaquil · Bogotá · Medellín · Barranquilla · San Juan Porto Rico · Caracas · Maracay · Panamá · Santo Domingo · Cochabamba


Wallpeople Rio. Detalhe do muro do Wallpeople carioca, que aconteceu na Tijuca em 2012 sob a temática “Express Yourself”.


Criatividade a mil. Os participantes do Wallpeople Rio em 2012 levaram trabalhos pra lá de criativos. Dispusemos também lápis de cera coloridos e folhas de papel para quem quisesse criar ou montar algo na hora. Várias ideias bacanas vieram à tona.


Material. Detalhe dos materiais artísticos que pintaram no nosso muro ano passado. Após a foto oficial do muro completo, os participantes puderam trocar entre si estes materiais.


Localização. Na Tijuca, ocuparemos um muro extenso grafitado, de uso público, numa praça nem sempre utilizada pela população, nem sempre bem preservada pela prefeitura.

Local: Esquina da Avenida Heitor Beltrão com a Rua Alzira Brandão, na Tijuca

Referências: Bem próximo do Teatro Ziembinski e a poucos metros da estação São Francisco Xavier do metrô. Fácil de chegar e sair para quem more no centro, zonas norte, sul ou oeste.

Dia e Horário: 1/06/13 (sábado), 14 horas – 18 horas. Precisamos da luz do sol para dar vida ao Wallpeople. Em caso de chuva, avisaremos nosso posicionamento na página do evento no Facebook: http://goo.gl/9VHrE.

Contato: rio@wallpeople.org. Ou pela página do evento no Facebook!

Tags: | Publicado em: Intervenções Urbanas

Rua dos Oitis, Gávea

09 maio 2013 | 1 comentário

Enquanto à noite o Baixo Gávea se transforma em um dos locais mais boêmios da cidade, eu fui passear pela Rua dos Oitis logo em seu momento do dia mais calmo: a manhã.


Braseiro. Restaurante tradicional na Gávea, ele fica na esquina da Praça Santos Dumont com a Rua dos Oitis.

por Pedro Paulo Bastos

Quando cruzei a Praça Santos Dumont na última terça-feira 7, o chafariz no centro daquele espaço ajardinado ainda não estava em funcionamento nem mesmo as crianças das escolas municipais ali perto faziam algazarra pelas calçadas da Gávea. A esquina da praça com a Rua dos Oitis pouco lembrava a intensa badalação que tem em determinados dias da semana – é um dos locais mais boêmios da zona sul. Os restaurantes Hipódromo e o Braseiro, vizinhos da Rua dos Oitis e amistosamente rivais de público, iniciavam suas atividades do dia timidamente, sem a grande aglomeração de clientes que lhes é particular. A partir do encontro com a Rua José Roberto de Macedo Soares, a Rua dos Oitis apresentava-se em uma reta de árvores de diferentes tamanhos e modelagens margeadas por residências. De comércio por ali, ou melhor, de restaurante, o único sobrevivente é o restaurante Sushimar. O cheiro dos peixinhos crus chegava à calçada da Rua dos Oitis. Não sei se era um bom ou mau sinal, mas que me abriu o apetite, ah, isso sim.

De bairro operário à bairro preferido de arquitetos e moderninhos, a Gávea tem toda uma energia cativante dos bairros pequenos e aconchegantes, e o melhor, sem perder a sua identidade. Ao longo da Rua dos Oitis isso pode ser comprovado: é um dos poucos lugares da zona sul onde as casas originais foram preservadas, mesmo as menos sofisticadas. Grande maioria, é claro, porque já se levanta muito prédio por lá. Inclusive, ali próximo da Rua dos Oitis é possível ver os resquícios de uma antiga vila operária, que na verdade nunca chegou a se concretizar de fato por questões políticas, segundo o livro “150 anos de subúrbio carioca” (Lamparina editora; Editora da UFF), um compilado de pequenos artigos de diferentes autores organizados por Márcio Piñon de Oliveira e Nelson da Nóbrega Fernandes. As escolas Júlio de Castilhos e Manuel Cícero são um exemplo deste marco histórico. Ao mesmo tempo que essa preservação toda é fantástica, também mostra-se curioso o fato de ser uma das regiões mais caras da cidade sem que ofereça um luxo associado a esses valores estratosféricos. A geografia carioca influencia muito mais nestas questões do que o espaço urbano em si.


O trecho boêmio. Até o encontro com a Rua José Roberto de Macedo Soares, a Rua dos Oitis concentra simbólicos estabelecimentos comerciais, como alguns restaurantes, uma banca de jornal e drogaria
.


Caráter residencial. Calçadas espaçosas e ajardinadas são passeio para as residências de lá. Poucos os edifícios que são altos.

Simplicidade deveria ser o sobrenome da Rua dos Oitis. Uma casinha detonada ganha cores fortes e um muro é criteriosamente grafitado, já tornando-se um atrativo à parte. Ou então uma reles janela de madeira, que ganha uma mãozinha de tinta em vermelho forte, contrastando com o branco de sua fachada. Ou então um muro rosa, pertencente a uma escola de ballet. Ou o mais jocoso – fofinho, na linguagem feminina – dos detalhes nunca antes visto por mim em uma rua: um boneco grande do personagem belga Tintim bisbilhotando o movimento da Rua dos Oitis através de um janelão de vidro. Milu, o fox terrier de pêlo branco, é claro, não podia estar longe de seu dono. Esse ambiente divertido, compartilhado com os olhos do público, pertence ao escritório do arquiteto Chicô Gouvêa, que é fascinado pelo personagem. A fachada da casa é toda composta de amarelo, laranja e branco, o que comprova a proposta despojada do imóvel.

A impessoalidade que comumente os edifícios têm – um sem-fim de apartamentos, muita reserva -, por alguma razão não fazia parte do contexto da Rua dos Oitis. Pelo menos naquela manhã. Percebi uma interação muito forte de alguns moradores, do alto de suas janelas, com quem vinha passando pela rua. Até porque muitos são edifícios não tão altos, com poucos pavimentos, alguns dispõem de varandas, então a aproximação com o espaço da rua é maior. Vendedores ambulantes ou aquelas kombis no estilo “compro-tudo”, anunciando-se em megafones que deixam a voz do locutor meio esganiçada, passavam tranquilamente ao longo da rua. Cena rara de se ver em uma rua da zona sul. Pelas calçadas o movimento era baixo, embora quem passasse ali tivesse toda uma identidade muito bem marcada: a babá negra uniformizada com uma criança lourinha à tiracolo; um casal de senhores, bengala numa mão e a outra dada à esposa; jovens bonitos, de aparência cosmopolita; uma atriz jovem de telenovelas, em companhia de um amigo.


Detalhes. O personagem Tintim observa todo o movimento da Rua dos Oitis de forma atenta com seu fox terrier, enquanto casas geminadas muito bem tratadas representam o caráter operário da Gávea no século passado
.


Vistas. O Corcovado é avistado graças ao gabarito limitado da rua, preenchida por muitas casas ao longo de sua extensão.

O mais legal de se caminhar por uma rua de gabarito limitado é poder observar o desenho do Maciço da Tijuca, que é muito bonito visto desta região da Gávea. Se o Cristo Redentor dá as suas costas à Rua dos Oitis, o que não o deixa menos bonito, o contorno do Corcovado, por sua vez, fica bem mais em evidência do que na orla da Baía de Guanabara. E acaba que esse gabarito limitado vai se representando em outros tipos de imóveis interessantes, como uma série de casas geminadas, já nas proximidades da Rua das Acácias, e uma vila bem charmosa no número 52, adornada por uma alta palmeira. As janelas que dão diretamente para a rua são exemplos de um Rio que ficou para trás, já que hoje vivemos enclausurados entre grades, portões, subportões, e muitos outros aparatos de separação (e proteção) do espaço público com o privado. Na Rua dos Oitis são muitas as janelas que ainda convivem com a rua.


Outros detalhes. Flor brota de uma árvore “pelada”; ao lado, um dos únicos imóveis modernosos da rua.

A arborização abundante – afinal, é a rua “dos Oitis” – perfura as calçadas, descompõe a estrutura dos canteiros e invade a própria, e excessiva, fiação da rua, loteada de pequenas mudinhas espalhadas por ela, de onde ainda pende uma antiga lamparina. Uma senhora não dava conta de varrer a calçada que, de minuto em minuto, via encher-se de folhas a cada passagem de vento. As árvores de lá proporcionam sombras confortáveis, ainda mais no outono. Se por aqui as folhas não costumam ficar alaranjadas, pelo menos temos o privilégio de sentir o sol embrenhando-se pelos espaços vazios entre os galhos e folhas e, assim, refletindo-se sobre a calçada. Em alguns trechos da Rua dos Oitis a cobertura de folhas é tão densa que o ambiente parece sombrio em plena manhã. Não é à toa que uma simples ida à rua transforma-se em um programa dos mais agradáveis para os que moram pelas redondezas. Mesmo com toda a mercantilização dos espaços urbanos da zona sul nestes últimos anos, a Rua dos Oitis, pelo menos, ainda conserva um certo laço de intimidade com o pedestre. Penso que isso é graças à preservação de suas raízes, não só a das árvores centenárias, mas as comerciais, familiares e sociais também.

Quer ver mais fotos da Rua dos Oitis?

Acesse a página do As Ruas do Rio no Facebook! Não esqueça de curtir a página!

Para contato direto | asruasdorio.contato@gmail.com

Tags: | Publicado em: Bairro a Bairro | Geografia Carioca | Rua a Rua

Largo Rio de Janeiro, Milão

06 maio 2013 | deixe seu comentário (0)

Mesmo de constituição urbana muito anterior à nossa, a histórica cidade de Milão, na Itália, também homenageia o Rio de Janeiro dando-lhe seu nome a um dos logradouros da comuna


Rio à milanesa. De férias por Milão, deparei-me com o simpático Largo Rio de Janeiro, nos arredores da Cidade Universitária.

por Pedro Paulo Bastos

O que eu menos podia esperar andando pelas ruas da histórica cidade de Milão, na Itália, era um logradouro com o nome de Rio de Janeiro. Veja bem: a comuna, que é capital da Lombardia, conta com prédios incrivelmente antigos em meio a alguns resquícios medievais. Sem falar na estrutura urbana e viária de Milão. Logo, como assim um logradouro – no caso, um largo – receber o nome de uma cidade comparativamente tão recente como o nosso querido Rio? Não cheguei a fazer pesquisas mais profundas, porque isso me tomaria um pouco mais de tempo e algo de complicação. Alguma razão há de existir, afinal, volta e meia também modificamos os nomes de nossas ruas. Além disso, ruas badaladas como o Corso Buenos Aires, corredor de lojas famosas de roupas, acessórios e livrarias, também leva o nome de uma cidade latino-americana. Apenas detalhes curiosos de uma cidade de constituição muito anterior à nossa e que ao mesmo tempo é também muito contemporânea.

O Largo Rio de Janeiro fica nos arredores da Città Studi (Cidade Universitária) que, diferentemente do Rio, se localiza numa área mais integrada à cidade, junto a um conjunto de ruas residenciais razoavelmente próximas do Centro Histórico. Milão conta com praças belíssimas e floridas, especialmente agora na primavera do hemisfério norte, embora o Largo Rio de Janeiro, para o nosso lamento, estava um verdadeiro canteiro de obras. Foi algo excepcional de ter visto com base na minha experiência (e andanças) por Milão nestas duas últimas semanas, em que estive visitando o meu irmão, estudante de mestrado de Design do Politecnico di Milano – ele escreve o Disegno à Milanesa, para quem tiver interesse. A cidade é muito bem estruturada e arrumada, principalmente as praças, muitas rotatórias. Então foi uma infeliz surpresa ver o Largo Rio de Janeiro cheio de tapumes e interdições.


O largo. Observe que na imagem à direita há uma espécie de gradil margeando a calçada, assim como no lado oposto
. É em função das obras no local.


Detalhes. O interfone classudo leva o nome dos proprietários do apartamentos ao invés de números. Ao lado, os “pés” artísticos das varandas.

Tendo em vista este panorama, o Largo Rio de Janeiro é unicamente percorrido por uma via estreita, que beira a simpática Viale Romagna entre as vias Plinio e Andrea del Sarto. O que mais chama a atenção são os edifícios. Não têm um estilo diferente do que é predominante na cidade – eclético, do final do século XIX -, mas são encantadores! Quem vive no Rio tem precisado se acostumar com uma série de lançamentos imobiliários pouco criativos e, por que não, medíocres. Bairros como Ipanema, por exemplo, têm dividido seu espaço urbano com edifícios lindos de meados da década de 50, por exemplo, com outros grotescos de data mais recente baseados em muito espelho e pouca estética. São os “tempos modernos”.

No Largo Rio de Janeiro de Milão, o pedestre depara-se com edifícios fantásticos cheios de detalhes. Na fachada, vêem-se diferentes camadas decorativas preenchidas com uma série de varandinhas que nem sempre estão presentes em todos os pavimentos. Cores neutras, como o pastel, o amarelo e o bege, harmonizam-se junto de arcos e janelonas compridas que dão para a rua. Não há indícios de grades nem portões ocupando o espaço público como medida de segurança. Aqui no Rio vivemos em outro contexto social, é claro, mas não posso deixar de dizer que se não tivéssemos essas portarias seríamos uma cidade bem mais simpática do ponto de vista urbanístico. Um detalhe interessante também são os interfones. Na ausência de porteiros ou zeladores, eles ficam instalados na própria fachada, muitos em estilo classudo, antigão mesmo, na cor dourada. Ao invés do número dos apartamentos, fica em evidência o nome dos proprietários ou das instituições e escritórios que os ocupam.


Interdições. A vista para o largo, que funcionava como uma praça, mas hoje está em interdição e com mato alto
. Ao lado, outro exemplo do estilo dos edifícios na rua. Não há grades e as entradas são monumentais.


Florido. As flores estão na janela dos apartamentos ou no mato ordinário da rua. Dele brotam margaridas ou flores com pelotas que parecem algodão.

Ao longo do estreito caminho que beira o largo, há um gramado de onde brotam margaridas e flores parecidas a bolinhas de algodão. As margaridas em Milão, aliás, são como as nossas ixoras aqui no Rio: surgem em qualquer jardinzinho, em qualquer fiapo de planta. Dá um visual todo romântico à dinâmica da urbe. Não só os jardins é que têm flores – no Largo do Rio de Janeiro, elas aparecem de forma mais tímida em relação à cidade -, mas as janelas também! Parece ser uma prática bastante difundida na Itália a decoração das janelas com vasos de flores de todos os tipos. Os edifícios, mesmo os não tão bem conservados, ganham um ar bem poético. No largo, aquela cor meio ocre dos prédios orquestra-se com a cor viva de rosas e o amarelo de umas florzinhas diminutas.

Fui embora do Largo Rio de Janeiro em êxtase por ver o nome da minha cidade natal estampado nas placas de rua de Milão e nos seus mapas, e principalmente por ser um local bonitinho, não tão fascinante como a vizinhança e outros locais famosos da cidade, embora de arquitetura muito peculiar e apreciável. Minha maior reflexão foi em relação aos nossos valores de conservação e preservação. Esses edifícios, em especial, são tão antigos quanto os outrora elegantes sobrados da Rua do Ouvidor, caindo aos pedaços. No entanto, em Milão eles estão aí firmes e fortes, modernizando-se na medida do possível sem que percam suas características e funções originais. Como já comentei, somos países com contextos socioeconômicos diferentes, não dá para eu ficar lamentando aqui, apesar de acreditar na ideia de que podemos fazer mais pela nossa arquitetura, nossa história, nosso espaço urbano. São os nossos valores, eles, que precisam ser mudados.

Para ver mais referências urbanas cariocas fora do Rio, veja estas outras publicações:

Calle Río de Janeiro: onde o Chile e o Rio se encontram
Um passeio pela “rua” Rio de Janeiro, em Santiago do Chile. Localiza-se num bairro de depósitos têxteis, muros grafitados e alguns cafés. Publicado em 26/06/2012.

A rua é do Rio… mas fica lá em São Paulo!
Nessa postagem, fotografei a Rua Rio de Janeiro, no bairro de Higienópolis, zona de classe média alta da capital paulista. Prédios monumentais, árvores simpáticas e pracinhas com babás uniformizadas. Publicado em 24/05/2011.

O Rio de Janeiro no México
O tema deste post foi a Plaza Río de Janeiro, na Colonia Roma Norte, bairro moderninho da Cidade do México. A praça é rodeada por uma arquitetura que os mexicanos chamam de “porfiriana” (em alusão ao presidente Porfirio Diaz). A praça em si tem um chafariz imponente com uma réplica da estátua de Davi e jardins cheios de cactos. Publicado em 06/08/2010.

Quer ver mais fotos do Largo Rio de Janeiro, em Milão?

Acesse a página do As Ruas do Rio no Facebook! Não esqueça de curtir a página!

Para contato direto | asruasdorio.contato@gmail.com

Tags: | Publicado em: Arquitetura e Paisagismo

Avenida Fleming, Barra da Tijuca

20 abril 2013 | 2 comentários

Fora do eixo badalado da Barra, a Avenida Fleming se diferencia por condições climáticas amenas e residências menos chamativas do que se costuma ver pelo bairro


Córrego. Panorama da Avenida Fleming, na região da Barrinha, com o córrego que vem desde o Alto da Boa Vista.

por Pedro Paulo Bastos

Cheguei à Avenida Fleming por volta das 9 da manhã de um sábado, com os pêlos do braço bastante ouriçados diante da sensível diferença térmica dali com as imediações da Praça Desembargador Araújo Jorge, reduto de tradicionais restaurantes de frutos do mar da região antiga da Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio, mais conhecida como Barrinha. É nessa praça onde está todo o comércio desta microrregião, como se fosse o centro de uma cidadezinha do interior, além dos pontos dos poucos ônibus que transitam por este recanto da Barra. Para chegar à Avenida Fleming - nome dado em homenagem ao prestigiado sir Alexandre Fleming, britânico que descobriu a penicilina -, segui duas quadras ao longo da Estrada do Joá, que começa na praça, e entrei à direita. Caminhei até o seu final, o que me custou mais umas três quadras.

O final da Avenida Fleming é formado pela Praça Professor Velho da Silva, uma simpática praça em rotatória com árvores suntuosas e brinquedos antigos bem cuidados. Antes mesmo de iniciar oficialmente a minha expedição com a câmera, saquei imediatamente a blusa de flanela da mochila e a vesti. E eis a razão da mudança de temperatura: a Avenida Fleming parece mais uma floresta do que uma rua. Colada ao Alto da Boa Vista, a umidade do local era curiosamente sentida pelo corpo, mesmo que a Praça Desembargador Araújo Jorge estivesse a poucos metros dali sob uma sensação térmica bastante distinta. O caráter arbóreo da praça mal deixava refletir os feixes de luz natural por lá. Ficavam retidos entre os galhos e o diminuto espaço entre as folhas, proporcionando aquele visual sombrio, gélido para um dia de outono carioca. Por um momento me arrependi de não ter levado repelente para mosquitos.


A praça. A Praça Professor Velho da Silva fica na confluência da Estrada do Sorimã, da Avenida Fleming e da Rua Professor Ferreira da Rosa
.


Elementos naturais. Raízes grossas e sobressalentes ficam sobre um córrego ruidoso de água gelada, compondo o cenário da praça.

Descansei por uns instantes num dos banquinhos gelados de cimento da Praça Professor Velho da Silva para checar o ambiente, ver quem o frequentava, a forma como se relacionavam com aquele espaço. Não havia ninguém com exceção de um casal em trajes esportivos. Se a falta de convivência “humana” me fez falta naquele espaço, por outro notei a quantidade de flora presente. Aos olhos do leigo, tudo é “árvore”. Sim, tudo é árvore! No entanto, observe bem aquela ali, as tonalidades de marrom sobrepostas no seu tronco, ou então a grossura dos galhos daquela lá. E as raízes sobressalentes desta outra? Entendi imediatamente o porquê dos cartazes espalhados ao longo da Barrinha contra a Escola Suíço-Brasileira, instalada ali perto, na Estrada do Joá: acusam-na de desmatar parte destas árvores para que outro prédio da escola seja levantado.

“Esses são os macaquinhos. Eles ficam trepados por aí para roubar os ovos dos passarinhos”, avisou-me uma cinquentenária moradora da Estrada do Sorimã após um berro contínuo, quase ensurdecedor e muito bem orquestrado dos micos.

 

“Esses são os macaquinhos. Eles ficam trepados por aí para roubar os ovos dos passarinhos”, avisou-me uma cinquentenária moradora da Estrada do Sorimã após um berro contínuo, quase ensurdecedor e muito bem orquestrado dos micos. Estávamos comentando sobre a vizinhança e a tranquilidade do lugar diante do córrego ruidoso que passa por baixo da Praça Professor Velho da Silva. No declive, a queda d’água parecia a de uma verdadeira cachoeira – a trilha sonora perfeita para um descanso merecido de fim de semana metido em alguma rede confortável. Esse mesmo córrego vai sendo escoado ao longo da Avenida Fleming, perdendo sua força de acordo com o aplanamento da rua.


Paisagismo. Nas margens do córrego, uma série de plantas ornamentais compõem o cenário sofisticado, e ao mesmo tempo simplório, da Avenida Fleming
.


O córrego. O plano inclinado de acesso ao córrego coberto por musgos. Ao lado, a simpática ponte de madeira com a cadeia de montanhas ao fundo.

A margem do córrego é loteada de plantas e flores ornamentais, provavelmente inseridas ali pelos moradores da Avenida Fleming, o que constitui um belo projeto paisagístico; simples, porém integrado com a natureza ao redor. A parede entre o córrego e a via é coberta por uma camada de musgo num verde bem vivo, além de pétalas despedaçadas pelo vento. Há um gramado também ao longo do canteiro central, por vezes utilizado como banheiro canino. Aliás, isso era algo que eu gostaria de comentar. Fico sempre impressionado e amaravilhado com ruas lindas e tranquilas como a Avenida Fleming, embora seja sempre por elas onde surgem cachorros sem dono decididos a bisbilhotar o que você está fazendo. Desta vez, veio correndo em minha direção um vira-lata preto, logo na descida da praça. Mantive a postura ereta, mas ele era dócil demais para fazer qualquer coisa comigo. Ignorou-me, indo de encontro agora a um Samoieda branco aparentemente abandonado. Depois daquele episódio na Rua Filgueiras Lima, adquiri certo pânico por aparições caninas pelas ruas do Rio.

Diferindo do padrão da Barra da Tijuca, em que as residências tomam proporções estéticas pra lá de “miamianescas”, as casas da Avenida Fleming têm um estilo bastante simplório, beirando o “roceiro” em alguns trechos. As casas mais confortáveis, sob o ponto de vista do pedestre, são identificadas por aquelas de muros mais altos dotados de paisagismo vertical, com a cobertura de plantas por toda a extensão do paredão. Não se ouve absolutamente nada de dentro delas – a vizinhança pareceu-me muito silenciosa. Mesmo o córrego, principal fornecedor de ruídos, vai se aquietando em direção à Estrada do Joá.


Residências. Fugindo ao padrão de luxo ostentado pela Barra da Tijuca, a maioria das casas na Avenida Fleming são pouco chamativas, recriando um clima de “roça” em plena cidade grande
.


Perto do Joá. O prédio modernoso da Work Able e o cruzamento da Fleming com a Vitor Konder

Fora do eixo residencial, um elemento que destoa do ambiente  é um edifício modernoso onde funciona a agência de marketing Work Able, na esquina com a Avenida Vítor Konder, mostrando indícios de que a preservação das características genuínas da Avenida Fleming não está lá muito rígida. O mesmo para as casas de festa que pululam até o início da rua. Nesta altura, o córrego apresenta uma água muito clarinha, incrivelmente limpa, num jocoso contraste com as suas margens mal cuidadas, repletas de seixos, lixos de várias espécies e restos de oferendas. Uma pena, se você não vislumbrar o jogo de montanhas ao fundo, agora muito mais visível do que na Praça Professor Velho da Silva. A paisagem é de tirar o fôlego, o morro todo verdinho, a rocha visivelmente úmida. Prato cheio para as construtoras, se elas pudessem intervir ali com espigões, é claro, só que não podem. Alívio! Mas até quando?

Quer ver mais fotos da Avenida Fleming?

Acesse a página do As Ruas do Rio no Facebook! Não esqueça de curtir a página!

Para contato direto | asruasdorio.contato@gmail.com

Tags: | Publicado em: Canteiros e Jardins | Parques e Praças | Rua a Rua

Rua Paula Frassinetti e Praça Doutor Del Vecchio, Rio Comprido

10 abril 2013 | 5 comentários

Na rota para o Sumaré e para as Paineiras, um recanto do Rio Comprido que ainda resguarda um pouco dos tempos áureos do bairro, gradualmente degradado a partir da abertura do Túnel Rebouças


Reocupação de vias. A Praça Doutor Del Vecchio foi reincentivada como rota de acesso ao Sumaré, Santa Teresa e Paineiras, após a ocupação da polícia nos morros do Rio Comprido.

por Pedro Paulo Bastos

Quem costuma passar pela Rua do Bispo já percebeu que a via recebeu novas sinalizações há pouco tempo, indicando nome de lugares até então pouco imaginados de serem acessados pelo Rio Comprido, bairro entre o Centro e a zona norte da cidade. Um exemplo? Sumaré. O local, situado em uma parte alta da Floresta da Tijuca, era mais comumente alcançado pelas estradas do Alto da Boa Vista ou pelas ruelas do Cosme Velho, na zona sul. Com a ocupação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) nos morros do Rio Comprido em 2010, antigas rotas do bairro estão sendo reincentivadas pela Companhia de Engenharia de Tráfego do Rio de Janeiro como alternativas de escape ou acesso, graças à melhoria na segurança destas ruas, que passaram por uma fase tenebrosa quanto à violência urbana.

Na Rua do Bispo, as setas indicando “Sumaré” apontam para a Rua Paula Frassinetti, que logo no seu início abarca uma cabine da polícia com letras bastante visíveis representando a atuação da UPP do Morro do Turano na região. Esta evidência de “segurança” já é um motivo de acolhimento para o pedestre pouco familiarizado com o bairro. Porém, é adentrando a Rua Paula Frassinetti que vamos descobrindo como o Rio Comprido foi injustiçado e maltratado pelo poder público durante décadas. Atualmente, ele tem lugar no nosso imaginário como um sítio feio, cinza e sombrio pelo Elevado do Túnel Rebouças, e de residências destroçadas e ruas sujas. A Rua Paula Frassinetti, no entanto, ainda consegue resguardar o que sobrou daquele bairro bucólico, cercado por mata verde e cheiro de terra úmida.


Acolhimento. A cabine da UPP do Morro do Turano na esquina com a Rua do Bispo representa a melhoria da segurança instaurada na região e nos acessos à Praça Doutor Del Vecchio e Sumaré através da Rua Paula Frassinetti
.


O estilo. Os tempos áureos do Rio Comprido se mostram resguardados pelo estilo pomposo das residências, muitas bem conservadas.

A rua é predominantemente residencial e horizontalizada. Ao longo da sua reta, as árvores com seus galhos e folhas formam uma cobertura aérea de visual bastante interessante, muito estético. O chão de paralelepípedo recria um ambiente de subúrbio com casas dispostas em centro de terreno com quintais espaçosos e ajardinados. Cada residência é mais bonita do que a outra. Os estilos, então, mostram como o Rio Comprido de outrora era refinado. Uma casa em estilo suíço, por exemplo, muito bem conservada, é o contraste principal entre todos os outros imóveis da Rua Paula Frassinetti. Cores vivas mesclam-se ao encardido de alguns pequenos edifícios que não recebem uma mãozinha de pintura há algum tempo. Enquanto as casas têm muros baixos, como se se atrevessem a ir de encontro às imposições de proteção contra a violência, os edifícios se destacam com janelas excessivamente gradeadas, descaracterizando em muito o estilo arquitetônico que lhes foi projetado.

Por ser via de acesso ao morro da Matinha, o único ruído que se escuta pelas calçadas da Rua Paula Frassinetti é o das mototáxis. Elas passam disparadas em atrito aos blocos de pedra do chão. Apesar disso, os ruídos são intercalados, o que permitia, nos intervalos, ouvir um pouco do que acontecia no interior das janelas e portas semicerradas. E as indagações não saíam da cabeça: como viviam esses moradores em épocas mais tenebrosas? Há quanto tempo moram ali? Se sentem mais seguros para um passeio a pé, dia ou noite? Os ares mais decadentes de algumas janelas, apartamentos ou casas, também foram pretextos para imaginar de que forma as transformações urbanas impactaram na aparência das propriedades privadas. E eis que corre pela Rua Paula Frassinetti uma kombi, com aquele seu motor ora choroso, ora meio desgovernado. É uma versão mais agregadora de passageiros em comparação às mototáxis.


Mais da Paula Frassinetti. A idade de determinados imóveis se reflete na deterioração dos gradis ou na falta de pintura, enquanto outros se destacam pelas cores vivas ainda muito presentes
.


A praça. A chegada à Praça Doutor Del Vecchio, que passou por uma revitalização em meados de 2012. O playground, por exemplo, encontra-se em perfeito estado de utilização.


O entorno. Gangorra, banheiros públicos, quiosque e quadra poliesportiva estão inseridas num parque margeado por edifícios dos anos 50 e 60.

A Rua Paula Frassinetti, que recebeu tal nome em homenagem à Paola Frassinetti, religiosa italiana morta em 1882, desemboca na Praça Doutor Del Vecchio, que tem formato retangular e é margeada igualmente pelas ruas Infante de Sagres e do Citiso e a Estrada do Sumaré, fazendo jus àquela placa de trânsito lá da Rua do Bispo; agora, a Estrada do Sumaré é sinalizada como caminho também para Santa Teresa e as Paineiras. A Praça Doutor Del Vecchio é cercada por edifícios nos moldes dos da Rua Paula Frassinetti, proporcionando um clima aprazível e de aconchego. A decadência dos imóveis no entorno da praça é notória e ao mesmo tempo sutil, o que me fez observá-los com mais cuidado e admiração. Repetindo: poderia ser apenas mais uma reles praça e mais um conjunto ordinário de prédios. Porém, tratando-se do Rio Comprido, é uma ótima surpresa deparar-se com “cápsulas” de bucolismo e boa vizinhança em meio a um bairro consideravelmente detonado.

Às três da tarde de uma terça-feira nublada, a Praça Doutor Del Vecchio estava deserta, exceto por uma dupla de policiais em vigia constante, estrategicamente parados à Rua Infante de Sagres, e um casal de namorados que pouco se importou com os flashes da máquina fotográfica deste que vos escreve. O estilo da praça mostra evidências de requinte tanto quanto sua vizinhança – um requinte antigo, não muito contemporâneo – apesar do lixo deixado pelo caminho e dos canteiros cobertos apenas por um gramado ralo, pouco denso. O centro da Praça Doutor Del Vecchio, por estar em um plano inclinado, permite ter uma visão geral bem bacana da arquitetura ao redor. Algumas venezianas deixavam à mostra um pouco do interior dos apartamentos. Dali, projeções de hábitos e comportamentos, como um aparelho de televisor sintonizado em um canal de filmes ou uma conversa de telefone audível aos transeuntes graças ao sossego e ao silêncio da praça.


O entorno II. Detalhe de residência à Praça Doutor Del Vecchio, com a imagem de uma santa no topo da fachada interna. Ao lado, a vista da Rua Paula Frassinetti com a praça à direita.


Observações. A meninada que descia a Rua Infante de Sagres adentrando a praça estava animada em sair na foto, até que avistamos o Club do Curió e ficamos indagados sobre um clube tão escondidinho e pouco famoso no meio de um matagal.

O cheiro de mata e de terra úmida ao qual me referi anteriormente é resgatado em uma das extremidades da Praça Doutor Del Vecchio, coberta por um bando de árvores perfurado por dois caminhos mambembes sem sinalização. Enquanto um trio de meninas nos abordava amistosamente [eu estava na companhia de uma amiga, a Alessandra] para que as fotografássemos, observávamos aquele matagal com certa curiosidade, principalmente pelo letreiro “Club do Curió” em letras garrafais antigas no topo de uma escadaria estreita de pedra. Vim a descobrir que se trata de um clube cuja atração principal consiste na paixão por passarinhos e suas cantorias, postas à prova em torneios estaduais que mobilizam diversos outros clubes deste segmento, desde que tenham o aval do IBAMA. Nem preciso dizer que a surpresa foi ainda maior: além de um recanto como esse no Rio Comprido, existe um clube tradicionalíssimo especializado em passarinhos! Como imaginar? É desbravando o desconhecido que se expande a cultura citadina, meu melhor passatempo.

Quer ver mais fotos da Rua Paula Frassinetti e Praça Doutor Del Vecchio?

Acesse a página do As Ruas do Rio no Facebook! Não esqueça de curtir a página!

Para contato direto | asruasdorio.contato@gmail.com

Tags: | Publicado em: Bairro a Bairro | Parques e Praças | Rua a Rua