Praça Martins Leão, Alto da Boa Vista

28 maio 2013 | 2 comentários

Acolhedor, fresquinho, verdejante, mirante: chegamos a um dos esconderijos do Alto!


Alto da Fé. Pequena praça no Alto da Boa Vista é reduto de católicos e de residências luxuosas.

por Pedro Paulo Bastos

Rodeada por uma arborização densa e tranquilizante ao espírito urbanoide, uma pequena estrada se desenha pelos meandros do Alto da Boa Vista, na zona norte do Rio. Não há indícios de vida; apenas uma via de mão-dupla para o trânsito de automóveis. Uma das saídas do Parque Nacional da Tijuca vai ficando para trás e só o que podemos ver adiante são árvores, galhos, um ou outro animal silvestre pelo meio-fio e a infinitude de uma rua que não nos dá muito certeza sobre o local onde findará. A umidade típica da floresta invade o carro e a nossa primeira reação é ou fechar as janelas ou devolver a manga da blusa comprida à altura do pulso. Mais uma curva aqui, outra acolá, muros vão surgindo, telhados de casas românticas brotam entre as árvores até então muito concentradas. Folhagens coloridas vão figurando entre o verde predominante da floresta, o sol penetra melhor pelo asfalto, e eis que chegamos ao suposto fim.

Estamos na Praça Martins Leão, no coração do Alto da Boa Vista, e ao mesmo tempo, num de seus esconderijos. Talvez este seja um dos recantos mais difíceis de ser alcançado dentro do bairro, sem falar que é um dos mais bonitos também. O carioca que não é aficionado pela floresta e suas cachoeiras só costuma visitar o Alto em eventos sociais como casamentos e festas de grande porte nas igrejas e mansões que ainda restaram por lá. Quando cheguei à Praça Martins Leão e avistei a simpática Capela Santo Cristo dos Milagres, bateu a dúvida crucial: já estive aqui antes, não? Particularmente não recordo. O panorama noturno associado às cerimônias religiosas em certos locais não facilita o reconhecimento dos mesmos durante o dia, ainda mais em ruas que não temos o costume algum de transitar. E é aí que surgem aquelas lamentações de “sou carioca há tanto tempo e nunca vim aqui”. Não preciso nem dizer que brotaram sentimentos deste tipo em mim, algo de culpa até, afinal, eu me dedico a um projeto chamado As Ruas do Rio, não é mesmo? A Praça Martins Leão é linda demais para eu nunca tê-la visitado por lazer como naquela manhã de domingo.


A capela. A Capela Santo Cristo dos Milagres congrega fiéis das adjacências do Alto da Boa Vista nos dias de missa
.


Casas luxuosas. A área residencial no entorno da praça é pouco habitada mas BEM habitada: portões como esses separam o espaço público do privado.

Quando chegamos lá (a primeira pessoa do plural se refere a mim e a minha família), fiz questão de checar o Google Maps do celular para me certificar em que “buraco” tínhamos nos metido. Meus pais já conheciam a praça e a capela graças a um casal de amigos recém-casados, porém eu e meu amigo tcheco, que fugiu do mestrado em São Paulo para desfrutar alguns dias em solos cariocas, ficamos surpresos em estar nesse bucólico refúgio. De imediato, percorremos o entorno da capela para observar melhor as residências da Estrada da Paz e da Estrada do Soberbo, que são vias adjacentes à Praça Martins Leão. Sem muitas perspectivas de enxergar além dos muros verdejantes, nos dirigimos à escadaria da capela.

Minha família não é católica e nem temos seguido nenhum preceito religioso nos últimos anos, mas de fato me instiga a relação que os católicos praticantes têm com suas igrejas e tradições. A missa da Capela Santo Cristo dos Milagres nos domingos de manhã é uma congregação de fiéis em sintonia pra lá descontraída com o padre que ministra as sessões. A impressão que tivemos era a de ser mais uma conversa informal do que uma missa, ou melhor, o estereótipo de uma missa. Os fiéis, por sua vez, são famílias que chegam à Praça Martins Leão em seus carrões – não há outro meio de transporte se não o automóvel – e estacionam-os ao redor da diminuta praça. Não se sabe a procedência deles, mas certamente de alguma região próxima, como o Itanhangá e a Barra.


Lanche e mirante. Tendas na Praça Martins Leão vendem café e lanches, enquanto o saguão da capela proporciona belas vistas da zona oeste
.


O que se vê. A Pedra da Gávea e o litoral da Barra da Tijuca.

Como toda praça carioca que se preze, há o guardador de carros, que ultimamente designado, pejorativamente, de flanelinha. Na Praça Martins Leão, quem nos abordou foi um senhor muito simpático, no entanto, diferentemente daqueles flanelinhas que estamos acostumados a lidar nas ruas ao nível do mar. Além disso, a praça concentra dois pólos gastronômicos improvisados em tendas que protegem uma mesa com bules de café, condimentos, paninhos cobrindo outros produtos comestíveis e um isopor. Acredito que as duas senhoras que comandam essas cantinas ambulantes apareçam ali apenas nos horários mais badalados da igreja ou nos fins de semana.

Muito mais do que uma bonita capela e o verde intenso da vizinhança, o grande barato ali são as vistas. O motorista quando vai se embrenhando pelo Alto da Boa Vista perde um pouco a noção de espaço e sentido. São tantas curvas e árvores em estradas, muita das vezes, não tão bem sinalizadas, que se acaba perdendo a noção se para cá está mais perto da Tijuca, ou se ali é mais próximo de São Conrado, por aí vai (se você não entender, acesse um mapa e visualize). A melhor forma de se localizar na Praça Martins Leão em relação à cidade é através de um breve passeio pelo interior da Capela Santo Cristo dos Milagres, que fica numa posição mais alta que a praça. Dentro dela há um saguão com janelões de vidro perfeitos para estabelecer qualquer contato visual com o Rio. Foi lá onde, de fato, nos localizamos: em meio a fiações e ipês, conseguíamos admirar a Pedra da Gávea e, de outro ângulo, a Barra da Tijuca. É desses passeios simples e sufocantemente bonitos que eu gosto.

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Ocupai os muros da cidade: o Wallpeople volta ao Rio!

11 maio 2013 | deixe seu comentário (0)

Projeto de arte colaborativa nascido em Barcelona aportará no Rio pela 3ª vez com a temática “Music Edition”


Barcelona. Detalhe do muro ocupado em Barcelona, em 2011, sob a temática “O que é a felicidade?”.

por Pedro Paulo Bastos

Em grandes metrópoles como o Rio de Janeiro é muito difícil andar por aí e não se deparar com espaços públicos de lazer vazios com muralhas abandonadas. Muitas das vezes estes locais podem ser extremamente movimentados pelos afazeres do dia-a-dia, ou por serem zonas de passagens importantes, embora sejam pouco “presenciados” de fato. Com base nesse panorama é que o Wallpeople, um projeto de arte colaborativa nascido em Barcelona há quatro anos, tem como razão de existência a reivindicação do espaço público como meio de expressão e de interação cidadã através da arte. Nada mais justo que aplicarmos esta proposta pelas ruas do Rio!

O Wallpeople tem tido sua edição carioca nos últimos dois anos e cada vez mais ganhando adeptos em mais de quarenta cidades do mundo. Criado pela dupla de publicitários, o espanhol David Marcos e o mexicano Pablo Quijano, o Wallpeople se baseia em organizar exposições coletivas em espaços urbanos, onde qualquer um possa exibir suas próprias obras der arte. O projeto promove uma oportunidade para todos aqueles que têm algo a mostrar para o mundo e que dificilmente conseguiriam tal feito em uma galeria ou em um museu. Eis que surge a materialização do Wallpeople: a ocupação de um muro abandonado da cidade com obras de arte minhas, suas, nossas, deles, delas… Qualquer um pode participar, independente de ser artista ou não. Expressão é a palavra-chave do projeto!

É com grande honra que o As Ruas do Rio virou um dos veículos oficiais de divulgação do evento aqui no Rio (em São Paulo, é o pessoal do Choco la Design), que vai acontecer no próximo sábado 1 DE JUNHO, a partir das 14 horas, na Tijuca (ver localização exata mais abaixo). A temática se chamará “Music Edition” neste ano; o participante deverá reinterpretar uma música em um formato artístico da sua escolha: ilustração, fotografia, texto, pintura, colagem, lona… Pode ser um tributo a um artista, a um concerto, a um momento musical particular que você tenha tido, seu tipo musical favorito, origens musicais, e por aí vai.


Exemplos. O tema Music Edition incursionará o Wallpeople no mundo da música. Use a criatividade e traga materiais artísticos próprios que tenham a ver com o mundo musical. Ocuparemos um muro abandonado com diferentes amostras de trabalhos artísticos que tenham a ver com música.

Já do ponto de vista geográfico, a ideia de dar vida ao Wallpeople na Tijuca é justamente a proposta de levarmos eventos artísticos de qualidade – e gratuitos – para regiões do Rio nem sempre englobadas por este circuito, geralmente restrito entre a Lapa e a zona sul. Escolhemos a Tijuca por ser um bairro de simbólica representatividade urbana na cidade e com vários aparatos culturais nem sempre estimados pelos cariocas, como o Teatro Ziembinski, por exemplo, que fica bem ao lado do muro em que iremos ocupar. Temos o apoio também da galera do Norte Comum, que é uma rede de articulação cujo objetivo é restabelecer meios de circulação e expressão cultural entre os bairros da zona norte do Rio de Janeiro.

Para mais informações sobre o Wallpeople: Music Edition no próximo sábado 1 de Junho, acompanhe as informações e os formatos artísticos que serão aceitos na página do evento no Facebook: http://goo.gl/DjsMk. Vá lá e confirme sua participação!

 

As cidades participantes até agora são:

 Barcelona · Madrid · Valencia · Bilbao · Santander · Gijón · Córdoba · León · Málaga · Palma de Mallorca · Lisboa · Porto · Funchal · Roma · Dublin · Budapeste · Amsterdã · Berlim · Belgrado · Zagreb · Rijeka · Istambul · Nova York · Miami · Cidade do México · Guadalajara · Monterrey · Buenos Aires · Rosario · Corrientes · Rio de Janeiro · São Paulo · Santiago do Chile · Lima · Quito · Guayaquil · Bogotá · Medellín · Barranquilla · San Juan Porto Rico · Caracas · Maracay · Panamá · Santo Domingo · Cochabamba


Wallpeople Rio. Detalhe do muro do Wallpeople carioca, que aconteceu na Tijuca em 2012 sob a temática “Express Yourself”.


Criatividade a mil. Os participantes do Wallpeople Rio em 2012 levaram trabalhos pra lá de criativos. Dispusemos também lápis de cera coloridos e folhas de papel para quem quisesse criar ou montar algo na hora. Várias ideias bacanas vieram à tona.


Material. Detalhe dos materiais artísticos que pintaram no nosso muro ano passado. Após a foto oficial do muro completo, os participantes puderam trocar entre si estes materiais.


Localização. Na Tijuca, ocuparemos um muro extenso grafitado, de uso público, numa praça nem sempre utilizada pela população, nem sempre bem preservada pela prefeitura.

Local: Esquina da Avenida Heitor Beltrão com a Rua Alzira Brandão, na Tijuca

Referências: Bem próximo do Teatro Ziembinski e a poucos metros da estação São Francisco Xavier do metrô. Fácil de chegar e sair para quem more no centro, zonas norte, sul ou oeste.

Dia e Horário: 1/06/13 (sábado), 14 horas – 18 horas. Precisamos da luz do sol para dar vida ao Wallpeople. Em caso de chuva, avisaremos nosso posicionamento na página do evento no Facebook: http://goo.gl/9VHrE.

Contato: rio@wallpeople.org. Ou pela página do evento no Facebook!

Tags: | Publicado em: Intervenções Urbanas

Rua dos Oitis, Gávea

09 maio 2013 | 1 comentário

Enquanto à noite o Baixo Gávea se transforma em um dos locais mais boêmios da cidade, eu fui passear pela Rua dos Oitis logo em seu momento do dia mais calmo: a manhã.


Braseiro. Restaurante tradicional na Gávea, ele fica na esquina da Praça Santos Dumont com a Rua dos Oitis.

por Pedro Paulo Bastos

Quando cruzei a Praça Santos Dumont na última terça-feira 7, o chafariz no centro daquele espaço ajardinado ainda não estava em funcionamento nem mesmo as crianças das escolas municipais ali perto faziam algazarra pelas calçadas da Gávea. A esquina da praça com a Rua dos Oitis pouco lembrava a intensa badalação que tem em determinados dias da semana – é um dos locais mais boêmios da zona sul. Os restaurantes Hipódromo e o Braseiro, vizinhos da Rua dos Oitis e amistosamente rivais de público, iniciavam suas atividades do dia timidamente, sem a grande aglomeração de clientes que lhes é particular. A partir do encontro com a Rua José Roberto de Macedo Soares, a Rua dos Oitis apresentava-se em uma reta de árvores de diferentes tamanhos e modelagens margeadas por residências. De comércio por ali, ou melhor, de restaurante, o único sobrevivente é o restaurante Sushimar. O cheiro dos peixinhos crus chegava à calçada da Rua dos Oitis. Não sei se era um bom ou mau sinal, mas que me abriu o apetite, ah, isso sim.

De bairro operário à bairro preferido de arquitetos e moderninhos, a Gávea tem toda uma energia cativante dos bairros pequenos e aconchegantes, e o melhor, sem perder a sua identidade. Ao longo da Rua dos Oitis isso pode ser comprovado: é um dos poucos lugares da zona sul onde as casas originais foram preservadas, mesmo as menos sofisticadas. Grande maioria, é claro, porque já se levanta muito prédio por lá. Inclusive, ali próximo da Rua dos Oitis é possível ver os resquícios de uma antiga vila operária, que na verdade nunca chegou a se concretizar de fato por questões políticas, segundo o livro “150 anos de subúrbio carioca” (Lamparina editora; Editora da UFF), um compilado de pequenos artigos de diferentes autores organizados por Márcio Piñon de Oliveira e Nelson da Nóbrega Fernandes. As escolas Júlio de Castilhos e Manuel Cícero são um exemplo deste marco histórico. Ao mesmo tempo que essa preservação toda é fantástica, também mostra-se curioso o fato de ser uma das regiões mais caras da cidade sem que ofereça um luxo associado a esses valores estratosféricos. A geografia carioca influencia muito mais nestas questões do que o espaço urbano em si.


O trecho boêmio. Até o encontro com a Rua José Roberto de Macedo Soares, a Rua dos Oitis concentra simbólicos estabelecimentos comerciais, como alguns restaurantes, uma banca de jornal e drogaria
.


Caráter residencial. Calçadas espaçosas e ajardinadas são passeio para as residências de lá. Poucos os edifícios que são altos.

Simplicidade deveria ser o sobrenome da Rua dos Oitis. Uma casinha detonada ganha cores fortes e um muro é criteriosamente grafitado, já tornando-se um atrativo à parte. Ou então uma reles janela de madeira, que ganha uma mãozinha de tinta em vermelho forte, contrastando com o branco de sua fachada. Ou então um muro rosa, pertencente a uma escola de ballet. Ou o mais jocoso – fofinho, na linguagem feminina – dos detalhes nunca antes visto por mim em uma rua: um boneco grande do personagem belga Tintim bisbilhotando o movimento da Rua dos Oitis através de um janelão de vidro. Milu, o fox terrier de pêlo branco, é claro, não podia estar longe de seu dono. Esse ambiente divertido, compartilhado com os olhos do público, pertence ao escritório do arquiteto Chicô Gouvêa, que é fascinado pelo personagem. A fachada da casa é toda composta de amarelo, laranja e branco, o que comprova a proposta despojada do imóvel.

A impessoalidade que comumente os edifícios têm – um sem-fim de apartamentos, muita reserva -, por alguma razão não fazia parte do contexto da Rua dos Oitis. Pelo menos naquela manhã. Percebi uma interação muito forte de alguns moradores, do alto de suas janelas, com quem vinha passando pela rua. Até porque muitos são edifícios não tão altos, com poucos pavimentos, alguns dispõem de varandas, então a aproximação com o espaço da rua é maior. Vendedores ambulantes ou aquelas kombis no estilo “compro-tudo”, anunciando-se em megafones que deixam a voz do locutor meio esganiçada, passavam tranquilamente ao longo da rua. Cena rara de se ver em uma rua da zona sul. Pelas calçadas o movimento era baixo, embora quem passasse ali tivesse toda uma identidade muito bem marcada: a babá negra uniformizada com uma criança lourinha à tiracolo; um casal de senhores, bengala numa mão e a outra dada à esposa; jovens bonitos, de aparência cosmopolita; uma atriz jovem de telenovelas, em companhia de um amigo.


Detalhes. O personagem Tintim observa todo o movimento da Rua dos Oitis de forma atenta com seu fox terrier, enquanto casas geminadas muito bem tratadas representam o caráter operário da Gávea no século passado
.


Vistas. O Corcovado é avistado graças ao gabarito limitado da rua, preenchida por muitas casas ao longo de sua extensão.

O mais legal de se caminhar por uma rua de gabarito limitado é poder observar o desenho do Maciço da Tijuca, que é muito bonito visto desta região da Gávea. Se o Cristo Redentor dá as suas costas à Rua dos Oitis, o que não o deixa menos bonito, o contorno do Corcovado, por sua vez, fica bem mais em evidência do que na orla da Baía de Guanabara. E acaba que esse gabarito limitado vai se representando em outros tipos de imóveis interessantes, como uma série de casas geminadas, já nas proximidades da Rua das Acácias, e uma vila bem charmosa no número 52, adornada por uma alta palmeira. As janelas que dão diretamente para a rua são exemplos de um Rio que ficou para trás, já que hoje vivemos enclausurados entre grades, portões, subportões, e muitos outros aparatos de separação (e proteção) do espaço público com o privado. Na Rua dos Oitis são muitas as janelas que ainda convivem com a rua.


Outros detalhes. Flor brota de uma árvore “pelada”; ao lado, um dos únicos imóveis modernosos da rua.

A arborização abundante – afinal, é a rua “dos Oitis” – perfura as calçadas, descompõe a estrutura dos canteiros e invade a própria, e excessiva, fiação da rua, loteada de pequenas mudinhas espalhadas por ela, de onde ainda pende uma antiga lamparina. Uma senhora não dava conta de varrer a calçada que, de minuto em minuto, via encher-se de folhas a cada passagem de vento. As árvores de lá proporcionam sombras confortáveis, ainda mais no outono. Se por aqui as folhas não costumam ficar alaranjadas, pelo menos temos o privilégio de sentir o sol embrenhando-se pelos espaços vazios entre os galhos e folhas e, assim, refletindo-se sobre a calçada. Em alguns trechos da Rua dos Oitis a cobertura de folhas é tão densa que o ambiente parece sombrio em plena manhã. Não é à toa que uma simples ida à rua transforma-se em um programa dos mais agradáveis para os que moram pelas redondezas. Mesmo com toda a mercantilização dos espaços urbanos da zona sul nestes últimos anos, a Rua dos Oitis, pelo menos, ainda conserva um certo laço de intimidade com o pedestre. Penso que isso é graças à preservação de suas raízes, não só a das árvores centenárias, mas as comerciais, familiares e sociais também.

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Largo Rio de Janeiro, Milão

06 maio 2013 | deixe seu comentário (0)

Mesmo de constituição urbana muito anterior à nossa, a histórica cidade de Milão, na Itália, também homenageia o Rio de Janeiro dando-lhe seu nome a um dos logradouros da comuna


Rio à milanesa. De férias por Milão, deparei-me com o simpático Largo Rio de Janeiro, nos arredores da Cidade Universitária.

por Pedro Paulo Bastos

O que eu menos podia esperar andando pelas ruas da histórica cidade de Milão, na Itália, era um logradouro com o nome de Rio de Janeiro. Veja bem: a comuna, que é capital da Lombardia, conta com prédios incrivelmente antigos em meio a alguns resquícios medievais. Sem falar na estrutura urbana e viária de Milão. Logo, como assim um logradouro – no caso, um largo – receber o nome de uma cidade comparativamente tão recente como o nosso querido Rio? Não cheguei a fazer pesquisas mais profundas, porque isso me tomaria um pouco mais de tempo e algo de complicação. Alguma razão há de existir, afinal, volta e meia também modificamos os nomes de nossas ruas. Além disso, ruas badaladas como o Corso Buenos Aires, corredor de lojas famosas de roupas, acessórios e livrarias, também leva o nome de uma cidade latino-americana. Apenas detalhes curiosos de uma cidade de constituição muito anterior à nossa e que ao mesmo tempo é também muito contemporânea.

O Largo Rio de Janeiro fica nos arredores da Città Studi (Cidade Universitária) que, diferentemente do Rio, se localiza numa área mais integrada à cidade, junto a um conjunto de ruas residenciais razoavelmente próximas do Centro Histórico. Milão conta com praças belíssimas e floridas, especialmente agora na primavera do hemisfério norte, embora o Largo Rio de Janeiro, para o nosso lamento, estava um verdadeiro canteiro de obras. Foi algo excepcional de ter visto com base na minha experiência (e andanças) por Milão nestas duas últimas semanas, em que estive visitando o meu irmão, estudante de mestrado de Design do Politecnico di Milano – ele escreve o Disegno à Milanesa, para quem tiver interesse. A cidade é muito bem estruturada e arrumada, principalmente as praças, muitas rotatórias. Então foi uma infeliz surpresa ver o Largo Rio de Janeiro cheio de tapumes e interdições.


O largo. Observe que na imagem à direita há uma espécie de gradil margeando a calçada, assim como no lado oposto
. É em função das obras no local.


Detalhes. O interfone classudo leva o nome dos proprietários do apartamentos ao invés de números. Ao lado, os “pés” artísticos das varandas.

Tendo em vista este panorama, o Largo Rio de Janeiro é unicamente percorrido por uma via estreita, que beira a simpática Viale Romagna entre as vias Plinio e Andrea del Sarto. O que mais chama a atenção são os edifícios. Não têm um estilo diferente do que é predominante na cidade – eclético, do final do século XIX -, mas são encantadores! Quem vive no Rio tem precisado se acostumar com uma série de lançamentos imobiliários pouco criativos e, por que não, medíocres. Bairros como Ipanema, por exemplo, têm dividido seu espaço urbano com edifícios lindos de meados da década de 50, por exemplo, com outros grotescos de data mais recente baseados em muito espelho e pouca estética. São os “tempos modernos”.

No Largo Rio de Janeiro de Milão, o pedestre depara-se com edifícios fantásticos cheios de detalhes. Na fachada, vêem-se diferentes camadas decorativas preenchidas com uma série de varandinhas que nem sempre estão presentes em todos os pavimentos. Cores neutras, como o pastel, o amarelo e o bege, harmonizam-se junto de arcos e janelonas compridas que dão para a rua. Não há indícios de grades nem portões ocupando o espaço público como medida de segurança. Aqui no Rio vivemos em outro contexto social, é claro, mas não posso deixar de dizer que se não tivéssemos essas portarias seríamos uma cidade bem mais simpática do ponto de vista urbanístico. Um detalhe interessante também são os interfones. Na ausência de porteiros ou zeladores, eles ficam instalados na própria fachada, muitos em estilo classudo, antigão mesmo, na cor dourada. Ao invés do número dos apartamentos, fica em evidência o nome dos proprietários ou das instituições e escritórios que os ocupam.


Interdições. A vista para o largo, que funcionava como uma praça, mas hoje está em interdição e com mato alto
. Ao lado, outro exemplo do estilo dos edifícios na rua. Não há grades e as entradas são monumentais.


Florido. As flores estão na janela dos apartamentos ou no mato ordinário da rua. Dele brotam margaridas ou flores com pelotas que parecem algodão.

Ao longo do estreito caminho que beira o largo, há um gramado de onde brotam margaridas e flores parecidas a bolinhas de algodão. As margaridas em Milão, aliás, são como as nossas ixoras aqui no Rio: surgem em qualquer jardinzinho, em qualquer fiapo de planta. Dá um visual todo romântico à dinâmica da urbe. Não só os jardins é que têm flores – no Largo do Rio de Janeiro, elas aparecem de forma mais tímida em relação à cidade -, mas as janelas também! Parece ser uma prática bastante difundida na Itália a decoração das janelas com vasos de flores de todos os tipos. Os edifícios, mesmo os não tão bem conservados, ganham um ar bem poético. No largo, aquela cor meio ocre dos prédios orquestra-se com a cor viva de rosas e o amarelo de umas florzinhas diminutas.

Fui embora do Largo Rio de Janeiro em êxtase por ver o nome da minha cidade natal estampado nas placas de rua de Milão e nos seus mapas, e principalmente por ser um local bonitinho, não tão fascinante como a vizinhança e outros locais famosos da cidade, embora de arquitetura muito peculiar e apreciável. Minha maior reflexão foi em relação aos nossos valores de conservação e preservação. Esses edifícios, em especial, são tão antigos quanto os outrora elegantes sobrados da Rua do Ouvidor, caindo aos pedaços. No entanto, em Milão eles estão aí firmes e fortes, modernizando-se na medida do possível sem que percam suas características e funções originais. Como já comentei, somos países com contextos socioeconômicos diferentes, não dá para eu ficar lamentando aqui, apesar de acreditar na ideia de que podemos fazer mais pela nossa arquitetura, nossa história, nosso espaço urbano. São os nossos valores, eles, que precisam ser mudados.

Para ver mais referências urbanas cariocas fora do Rio, veja estas outras publicações:

Calle Río de Janeiro: onde o Chile e o Rio se encontram
Um passeio pela “rua” Rio de Janeiro, em Santiago do Chile. Localiza-se num bairro de depósitos têxteis, muros grafitados e alguns cafés. Publicado em 26/06/2012.

A rua é do Rio… mas fica lá em São Paulo!
Nessa postagem, fotografei a Rua Rio de Janeiro, no bairro de Higienópolis, zona de classe média alta da capital paulista. Prédios monumentais, árvores simpáticas e pracinhas com babás uniformizadas. Publicado em 24/05/2011.

O Rio de Janeiro no México
O tema deste post foi a Plaza Río de Janeiro, na Colonia Roma Norte, bairro moderninho da Cidade do México. A praça é rodeada por uma arquitetura que os mexicanos chamam de “porfiriana” (em alusão ao presidente Porfirio Diaz). A praça em si tem um chafariz imponente com uma réplica da estátua de Davi e jardins cheios de cactos. Publicado em 06/08/2010.

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Avenida Fleming, Barra da Tijuca

20 abril 2013 | 2 comentários

Fora do eixo badalado da Barra, a Avenida Fleming se diferencia por condições climáticas amenas e residências menos chamativas do que se costuma ver pelo bairro


Córrego. Panorama da Avenida Fleming, na região da Barrinha, com o córrego que vem desde o Alto da Boa Vista.

por Pedro Paulo Bastos

Cheguei à Avenida Fleming por volta das 9 da manhã de um sábado, com os pêlos do braço bastante ouriçados diante da sensível diferença térmica dali com as imediações da Praça Desembargador Araújo Jorge, reduto de tradicionais restaurantes de frutos do mar da região antiga da Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio, mais conhecida como Barrinha. É nessa praça onde está todo o comércio desta microrregião, como se fosse o centro de uma cidadezinha do interior, além dos pontos dos poucos ônibus que transitam por este recanto da Barra. Para chegar à Avenida Fleming - nome dado em homenagem ao prestigiado sir Alexandre Fleming, britânico que descobriu a penicilina -, segui duas quadras ao longo da Estrada do Joá, que começa na praça, e entrei à direita. Caminhei até o seu final, o que me custou mais umas três quadras.

O final da Avenida Fleming é formado pela Praça Professor Velho da Silva, uma simpática praça em rotatória com árvores suntuosas e brinquedos antigos bem cuidados. Antes mesmo de iniciar oficialmente a minha expedição com a câmera, saquei imediatamente a blusa de flanela da mochila e a vesti. E eis a razão da mudança de temperatura: a Avenida Fleming parece mais uma floresta do que uma rua. Colada ao Alto da Boa Vista, a umidade do local era curiosamente sentida pelo corpo, mesmo que a Praça Desembargador Araújo Jorge estivesse a poucos metros dali sob uma sensação térmica bastante distinta. O caráter arbóreo da praça mal deixava refletir os feixes de luz natural por lá. Ficavam retidos entre os galhos e o diminuto espaço entre as folhas, proporcionando aquele visual sombrio, gélido para um dia de outono carioca. Por um momento me arrependi de não ter levado repelente para mosquitos.


A praça. A Praça Professor Velho da Silva fica na confluência da Estrada do Sorimã, da Avenida Fleming e da Rua Professor Ferreira da Rosa
.


Elementos naturais. Raízes grossas e sobressalentes ficam sobre um córrego ruidoso de água gelada, compondo o cenário da praça.

Descansei por uns instantes num dos banquinhos gelados de cimento da Praça Professor Velho da Silva para checar o ambiente, ver quem o frequentava, a forma como se relacionavam com aquele espaço. Não havia ninguém com exceção de um casal em trajes esportivos. Se a falta de convivência “humana” me fez falta naquele espaço, por outro notei a quantidade de flora presente. Aos olhos do leigo, tudo é “árvore”. Sim, tudo é árvore! No entanto, observe bem aquela ali, as tonalidades de marrom sobrepostas no seu tronco, ou então a grossura dos galhos daquela lá. E as raízes sobressalentes desta outra? Entendi imediatamente o porquê dos cartazes espalhados ao longo da Barrinha contra a Escola Suíço-Brasileira, instalada ali perto, na Estrada do Joá: acusam-na de desmatar parte destas árvores para que outro prédio da escola seja levantado.

“Esses são os macaquinhos. Eles ficam trepados por aí para roubar os ovos dos passarinhos”, avisou-me uma cinquentenária moradora da Estrada do Sorimã após um berro contínuo, quase ensurdecedor e muito bem orquestrado dos micos.

 

“Esses são os macaquinhos. Eles ficam trepados por aí para roubar os ovos dos passarinhos”, avisou-me uma cinquentenária moradora da Estrada do Sorimã após um berro contínuo, quase ensurdecedor e muito bem orquestrado dos micos. Estávamos comentando sobre a vizinhança e a tranquilidade do lugar diante do córrego ruidoso que passa por baixo da Praça Professor Velho da Silva. No declive, a queda d’água parecia a de uma verdadeira cachoeira – a trilha sonora perfeita para um descanso merecido de fim de semana metido em alguma rede confortável. Esse mesmo córrego vai sendo escoado ao longo da Avenida Fleming, perdendo sua força de acordo com o aplanamento da rua.


Paisagismo. Nas margens do córrego, uma série de plantas ornamentais compõem o cenário sofisticado, e ao mesmo tempo simplório, da Avenida Fleming
.


O córrego. O plano inclinado de acesso ao córrego coberto por musgos. Ao lado, a simpática ponte de madeira com a cadeia de montanhas ao fundo.

A margem do córrego é loteada de plantas e flores ornamentais, provavelmente inseridas ali pelos moradores da Avenida Fleming, o que constitui um belo projeto paisagístico; simples, porém integrado com a natureza ao redor. A parede entre o córrego e a via é coberta por uma camada de musgo num verde bem vivo, além de pétalas despedaçadas pelo vento. Há um gramado também ao longo do canteiro central, por vezes utilizado como banheiro canino. Aliás, isso era algo que eu gostaria de comentar. Fico sempre impressionado e amaravilhado com ruas lindas e tranquilas como a Avenida Fleming, embora seja sempre por elas onde surgem cachorros sem dono decididos a bisbilhotar o que você está fazendo. Desta vez, veio correndo em minha direção um vira-lata preto, logo na descida da praça. Mantive a postura ereta, mas ele era dócil demais para fazer qualquer coisa comigo. Ignorou-me, indo de encontro agora a um Samoieda branco aparentemente abandonado. Depois daquele episódio na Rua Filgueiras Lima, adquiri certo pânico por aparições caninas pelas ruas do Rio.

Diferindo do padrão da Barra da Tijuca, em que as residências tomam proporções estéticas pra lá de “miamianescas”, as casas da Avenida Fleming têm um estilo bastante simplório, beirando o “roceiro” em alguns trechos. As casas mais confortáveis, sob o ponto de vista do pedestre, são identificadas por aquelas de muros mais altos dotados de paisagismo vertical, com a cobertura de plantas por toda a extensão do paredão. Não se ouve absolutamente nada de dentro delas – a vizinhança pareceu-me muito silenciosa. Mesmo o córrego, principal fornecedor de ruídos, vai se aquietando em direção à Estrada do Joá.


Residências. Fugindo ao padrão de luxo ostentado pela Barra da Tijuca, a maioria das casas na Avenida Fleming são pouco chamativas, recriando um clima de “roça” em plena cidade grande
.


Perto do Joá. O prédio modernoso da Work Able e o cruzamento da Fleming com a Vitor Konder

Fora do eixo residencial, um elemento que destoa do ambiente  é um edifício modernoso onde funciona a agência de marketing Work Able, na esquina com a Avenida Vítor Konder, mostrando indícios de que a preservação das características genuínas da Avenida Fleming não está lá muito rígida. O mesmo para as casas de festa que pululam até o início da rua. Nesta altura, o córrego apresenta uma água muito clarinha, incrivelmente limpa, num jocoso contraste com as suas margens mal cuidadas, repletas de seixos, lixos de várias espécies e restos de oferendas. Uma pena, se você não vislumbrar o jogo de montanhas ao fundo, agora muito mais visível do que na Praça Professor Velho da Silva. A paisagem é de tirar o fôlego, o morro todo verdinho, a rocha visivelmente úmida. Prato cheio para as construtoras, se elas pudessem intervir ali com espigões, é claro, só que não podem. Alívio! Mas até quando?

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