Fichas de plástico, tarifa em centavos, letreiros, vale-transporte de papel, experiências, itinerários… O relato da minha amizade com os ônibus da cidade.

Nostalgia: os ônibus ainda despadronizados no Castelo, Centro do Rio, em 2009 – publiquei essa imagem lá na página do Facebook. Algumas empresas ainda põem os ônibus antigos para circular assim, mas são poucas.
por Pedro Paulo Bastos
Eu estava hoje na Avenida Rio Branco, em um das novas paradas numeradas do Bus Rapid Service (BRS), e fiquei um pouco entediado ao passar por mim tantos veículos padronizados. Fiquei surpreso comigo mesmo pois fui um dos que defendi essa uniformização das cores, numa forma de proteção contra a poluição visual do Rio. Veio-me a lembrança dos “velhos tempos”, quando os ônibus multicoloridos eram os meus melhores amigos para me locomover pela cidade. Apesar da defesa, sempre achei interessante o seu jogo de cores e os símbolos utilizados para representar o nome das empresas, assim como as tipografias e os itinerários predominantes de cada companhia. A nostalgia bateu ainda mais forte depois de ler a crônica “Por que andar de ônibus faz bem ao seu caráter“, escrito por Fernanda Paiva, do blog Um Pop de Tudo. Foi um oceano de memórias invadindo meu corpo.
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Minha primeira experiência com os ônibus, antes deles se tornarem meus amigos íntimos (vou explicar o porquê mais adiante), foi bem pequenininho, embora fosse um tipo de amizade baseada no coleguismo. Minha avó fazia o sinal – às vezes permitia que eu o fizesse – e subíamos pela porta de trás. Nessa fase, lembro das fichas coloridas de plástico, que vinham com os nomes das empresas em molde. Assim se pagava ao trocador e a roleta era então liberada. Como ainda não tinha ganhado muito corpo, dava para passar por debaixo da roleta, cena clássica de toda criança pequena entrando em ônibus carioca. Essas saídas sempre eram relacionadas aos motivos de saúde; eu, pediatra, ela, algum pneumologista. Às vezes íamos até à Rua Debret, de onde voltávamos com saquinhos de coquinho ou amendoim torrado; em outras, à Dom Hélder Câmara, antiga Avenida Suburbana. Mesmo quando a forma de pagamento passou a ser feita em dinheiro, lembro dela ter conservado por anos no seu porta-níquel umas fichas encardidas da Viação Verdun.
Com dez anos de idade, na ausência de uma babá ou de um motorista particular, consegui a vitória (!!) de andar de ônibus pela primeira vez sozinho, duas vezes na semana, da Rua Dias da Cruz até o bairro do Maracanã. Era sempre um 239 (Água Santa-Praça XV, que hoje é Castelo), todo azul e branco. Às vezes ganhava uma nota de um real para dar ao trocador (gostava mais das trocadoras, me tratavam melhor), e como a passagem ainda era em centavos, sempre vinham umas moedinhas de troco que me serviam para comprar um Bubbaloo no baleiro. Às vezes eu ficava sem essas moedinhas porque minha mãe me dava, em caráter excepcional, vale-transportes em papel, que já continham o valor total da tarifa. Caramba, pausa para reflexão: tarifa em CENTAVOS e vale-transporte em PAPEL. Conforme foram passando os meses, a tarifa fora aumentando, até que chegou um dia a valer um real inteirinho. Absurdo, isso na virada do milênio.
Da janela dos ônibus aprendi a observar as ruas, os nomes que levavam, a diferença de paisagem entre bairros ricos e pobres, e o conhecimento dos diferentes itinerários. O 239 seguia a Rua São Francisco Xavier toda, enquanto o 247 entrava à esquerda na Avenida Maracanã. Sutilezas. Em casa, passei a estudar cautelosamente um Guia Rex 95. Com um lápis da escola, desses ilustrados de tabuada, ia lendo a relação de ruas que ônibus aleatórios percorriam e marcando no mapa. Até hoje conservo esse glorioso guia de ruas, todo rabiscado com os percursos do extinto 404 (Colégio Militar – Jardim de Alah), 157 (Estrada de Ferro – Gávea), 260 (Vila Valqueire – Praça XV), 691 (Méier – Alvorada)… Certo dia, já saindo da pré-adolescência, decidi que era hora de pegar tais ônibus já estudados na teoria para aprender na prática os lugares pelos quais passava. Tudo às escondidas, confesso, mas eram passeios incríveis. A janela do ônibus, mais uma vez, me apresentou para a cidade. E vice-versa.

Reprodução do meu Guia Rex 95, onde eu preenchia com lápis o percurso de determinados ônibus diretamente no mapa. Como essa planta é de Ipanema, os ônibus costumam seguir um caminho mais uniforme do que no Centro ou em Madureira, por exemplo.
Teve uma época que fui estudar em uma escola estadual, o que significava andar de ônibus “de grátis” e, ao mesmo tempo, competir com dezenas de estudantes um mesmo ponto de ônibus rechaçado por nove entre dez motoristas. Eles odiavam parar para nós, “a gratuidade juvenil”. A algazarra era inevitável, embora eu fosse quietinho, sempre na minha. Mesmo assim, quem tem direito à gratuidade sofre poucas e boas. Alguns passageiros faziam questão de dizer em alto e bom tom que não éramos dignos de tomar assento. Outros torciam o nariz quando aquele bando de crianças com mochilas e pastas adentravam os veículos. A maior humilhação, acredito, foi quando os ônibus passaram a ter a roleta na parte da frente, no fim de 2002. Ficávamos todos espremidos entre o motorista e a roleta, sem direito de ir para o outro lado, muitas das vezes, vazio. Aliás, muitos motoristas passaram a não parar mais, já que foi determinado um número máximo de pessoas para ficarem ali na frente. Lembro de todas as linhas cruéis que me deixavam na mão. Ah, 422 (Grajaú – Cosme Velho), vulgo quatro-doidão, da Transurb, como já te odiei…
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Houve uma fase que a obsessão com os ônibus era tanta que eu ficava da janela do apartamento dos meus tios, na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, observando todos os números de séries dos ônibus que passavam ou paravam por lá, com aquela freada bastante sonora e típica das nossas ruas caóticas. Virei uma enciclopédia ambulante; sabia grande parte dos itinerários de cor, entre outros detalhes inúteis. Passei a desenhar ônibus de vários tipos e letreiros nas páginas do caderno em meio às aulas monótonas de Química. Escrevia e-mails para empresas de ônibus, como a Alpha, onde ingenuamente eu os questionava por qual razão havia sido modificado o design dos seus veículos! Eram um jogo de cores quentes em listras, que ia do vermelho ao amarelo, bem agressivo, cafona, e que eu nutria uma paixão secreta (e esquisita) por aquilo.
Adorava também os ônibus da Madureira Candelária, os da Santa Sofia – que eu via raramente, por isso curtia tanto – e os amarelinhos clássicos da zona sul da Real Auto Ônibus, que vinham com aquela coroinha no logotipo. Aos quinze anos, aliás, uma das minhas maiores angústias era a seguinte: se as linhas que começam com 1 são as que conectam a zona sul ao Centro, por que diabos a linha 179 vem da zona oeste, no caso, a Barra da Tijuca?? Mermão, era uma doença, reconheço!, eu queria organizar aquilo tudo da forma mais lógica possível. Acabou que organizaram. Hoje a 179 é 309, com a inicial 3, que classifica os ônibus que saem da zona oeste ao Centro. E mais: indagava de que cor eram, de fato, os ônibus da Viação Vila Isabel, se abóboras ou vermelhos. Questionava a utilidade de existir uma linha São Salvador – Leblon (573), se já existia uma Glória -Leblon (572), e pior, para que uma linha Copacabana – Praça Quinze (119), se já havia dezenas de ônibus de Copacabana para a zona norte via Praça Quinze.

Em sentido horário: a linha 298 (Acari - Castelo), da Madureira Candelária; o famoso 485 (Penha – Praça General Osório), única linha a conectar a zona sul ao Fundão; o ex-amarelinho 126 (Rodoviária – Copacabana) da Real; e o antigo 571 (Glória – Leblon), hoje 161, da São Silvestre.
No período da faculdade lá na Ilha do Fundão, sofri com os atrasos e lotações constantes do 485 (Penha – General Osório). Vi gente sendo assaltada constantemente no 696A (Cidade Universitária – Del Castilho). Criei um caso de amor com o 438R (Leblon – Vila Isabel), que me transportava do Jóquei à Praça Varnhagen em 30 minutos pelo Túnel Rebouças. Excluí Copacabana da minha lista de bairros a circular nos sábados, domingos e feriados de sol – os ônibus ficam impraticáveis, mesmo os circulares que vão para o Cosme Velho. Vibrei com a suposta reorganização das linhas de ônibus da cidade em consórcios, mas logo em seguida me decepcionei em ver que isso não foi suficiente para melhorar a qualidade dos ônibus, que só foram ”maquiados”. Antes que me esqueça de comentar, apesar de já ter avançado aqui na linha do tempo, um dos episódios mais marcantes para mim foi a época dos ônibus incendiados, entre 2002 e 2003, naquelas guerras do tráfico. Nesse tempo, eu e uns amigos qualificávamos o grau de periculosidade de uma linha pelo seu índice de incêndio. Pegou fogo? Passa em lugar perigoso! Essa era mais ou menos a lógica.
Divido minhas viagens pelo Rio entre o metrô, os ônibus e, mais recentemente, os táxis. Mas os ônibus são especiais. Hoje, na Rio Branco, acabei embarcando num desses “Gávea” da vida, sem ter checado o número, como antes costumava fazer de maneira doentia. Sentei junto à janela. De acordo com a Fernanda Paiva, “janela de ônibus é praticamente a janela de sua alma“. Ali fui relembrando toda essa minha amizade com os ônibus, despreocupadamente, até que percebi que eu havia passado do meu ponto de descida. Ansioso, puxei a correntinha já quase arrebentada por algum vândalo, apertei a campainha, e dei um berro para o motorista “Pára aeeeeeeeeee…, passei do meu ponto!!!”. Duas galegas me olharam assustadas, pensando que na Suécia não existe esse tipo de comportamento. Após umas sacolejadas e algumas manobras teatrais, o motorista gentilmente parou, abriu as portas, e finalmente desci. Fora do ponto, umas duas quadras adiante. Ganhar uma ”moral” dessas é só para quem é íntimo da vida dos ônibus, só para quem é amigo de longa data. Pois é. Valeu, amigão!

E você? Qual sua relação de amizade com os ônibus da cidade? Quero saber! (:
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