O tijucano e o metrô

14 janeiro 2013 | 3 comentários

A (divertida) perspectiva de quem pega o metrô diariamente na Tijuca em direção ao Centro… além de ser uma homenagem aos amigos tijucanos leitores do blog!


por Pedro Paulo Bastos

Bate sete, oito, nove da manhã, e lá vai uma penca de tijucanos e agregados descendo as escadas da estação da Praça Saens Peña. O corre-corre começa quando ainda se está comprando o bilhete, ou recarregando o pré-pago, ao primeiro ruído sobre os trilhos. Trem chegando. Na plataforma estreita, executivos, estudantes, secretárias, vovôs e vovós, aglomeram-se em frente à faixa amarela que determina o posicionamento das portas dos vagões. O trem, por sua vez, invade a via, desmanchando o penteado dos recém-banhados, que, para o azar dos ansiosos e supostamente bem situados, nunca para no local sinalizado.

Tensão. A aglomeração fica ainda mais densa. As portas demoram a destrancar-se. Mais tensão. Aquela senhorinha da esquerda quase deixou escapar algo pela boca, mas ficou quieta. Mesmo assim, sabemos o que falaria. “Pronto, perdi meu lugar, fiquei para trás. Droga!”. Engravatados aferram suas mochilas contra o corpo numa forma de disparar a mil por hora no momento de ataque. O desejo por um assento é quase animal. Na Linha Dois, numa análise do que comumente se vê, essa animalização é exteriorizada. Na Tijuca, a vontade de dar aquela cotovelada no cara ao lado fica só em pensamento. E arde por dentro.

A composição é prontamente invadida e, dali, exaltam reações, muitas delas faciais. Os que perdem a disputa para sentar, disfarçam, mas não conseguem. Adquirem a chamada cara de bunda. Outros olham feio para os espertinhos da Afonso Pena e São Francisco Xavier, que voltaram no sentido zona norte a fim de viajar sentados. Uma vez mais as reclamações e os xingamentos ficam em pensamento, e a irritação vai aumentando à medida que se nota que o trem só partirá da Saens Peña quando ele já estiver bem cheio. E ainda faltam as outras estações tijucanas.

Os passageiros da São Francisco Xavier e Afonso Pena que preferiram encarar o metrô do jeitinho que ele é quando chega por lá, no sentido zona sul, entram sempre com a mesma cara de resignação. Já se acostumaram com o fato de que nunca vão acomodar seus traseiros na expedição ao trabalho embarcando nessas paradas metroviárias. Em geral, carregam um desses jornais Metro ou Destak no punho, em forma de canudo. Para eles, tentar é um verbo recorrente. Tentam abrir o jornal e não conseguem, pela saturação precoce de ocupação do metro quadrado. Caso positivo, tentam lê-lo, mas são impedidos por alguma freada brusca, que joga todo mundo em cima do outro. Tentam encontrar uma forma confortável de posicionamento, mas sabem que o pior está por vir: a estação Central do Brasil.

A tensão regressa, e potencializada. Ela se propaga entre todos os passageiros tão logo se vislumbre, pela janela enfeitada de propagandas, o panorama da plataforma na Central. Um oceano de gente que vai se engalfinhar com o outro oceano já presente e acomodado dentro do vagão. Há o ditado que, em casa de pobre, onde come um, comem dois. No metrô, sentido zona sul, 8 horas da manhã, parado na Central, onde cabem 5, cabem 30. E não se sente mais o ar condicionado.

Esse é o momento em que os tijucanos mais chiam e mais se entrosam uns com os outros. É como se fosse um bloco único de pessoas lutando pelo mesmo interesse contra o objetivo rival – o deles, de viajar “em paz”, numa onda meio separatista, e a galera da Central, de entrar e tirar vantagem de algum lugar ali dentro, que lhes favoreça durante o percurso. Mergulhando no mundo das expressões populares, esse é o vulgo “mal chegou e já quer sentar na janela”.

Vale lembrar que a rivalidade é apenas metafórica, pois ninguém odeia ninguém. Na verdade, ninguém passar a odiar mais ninguém só a partir do momento em que o metrô ultrapassa Uruguaiana, Carioca e Cinelândia, onde se elimina todo o excedente populacional de uma única composição. É como essa gordura da cintura, que nos pertence, mas que só vai embora depois de muito esforço, ginástica e suor. Exatamente como são as viagens do metrô carioca.

Na Glória, todo mundo já está de pazes feitas. As caras, antes esmagadas umas nas outras, agora são tampadas pelos mesmos jornais que não conseguiam ser lidos. Os ouvidos, antes livres para ouvir um mix de conversas alheias, agora são protegidos por fones de ouvido. As mãos, antes imóveis, já podem tatear aquele objeto do fundo da mochila ou as teclas do celular. Os meus olhos, até então criticamente observadores, unem-se aos movimentos da boca, e, num largo sorriso, constato a graça disso tudo.

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A cantoria do 409

15 outubro 2012 | 3 comentários

Era para ser uma viagem normal em um ônibus da linha 409 se não fosse pela trilha sonora, ao vivo, naquela noite de terça-feira…

por Pedro Paulo Bastos

Era uma terça-feira deste mês de outubro, umas oito da noite. Eu tinha acabado de sair de uma sessão de um cinema na Praia de Botafogo. Fui atravessando suas pistas diagonalmente até chegar ao ponto de ônibus no sentido Centro. Embarquei num 409 (Jardim Botânico-Praça Saens Peña, via Lapa) com todos os lugares ocupados e uma ou outra pessoa em pé agarrada às barras de ferro. A maioria dos passageiros era de universitários ou de trabalhadores de escritório – é fácil identificar, só ver o tipo de roupa que vestiam. Segurei a minha pasta e prendi-a debaixo do braço enquanto passava por um senhor que balbuciava palavras – ou versos – sem sentido. De certa forma, todos olhavam-no com curiosidade e um pouco de desdém.

Ele trajava um colete amarelo, bermuda também amarela e uma sandália desgastada. No ombro, uma bolsa esportiva do Fluminense. Debaixo do braço, assim como eu levava a minha pasta, ele carregava um mostruário de sorvetes e chocolates da Garoto. Pele parda, barba grisalha por fazer, sotaque particular. Vagaram os dois assentos antes da porta de desembarque e para lá fui, sentando-me na janela. Em seguida, acomodou-se um outro rapaz  mais ou menos da minha idade, portando uma mochila volumosa. Ambos abrimos nossos livros, dispostos a encarar a viagem até a Tijuca da maneira menos entediante possível, embora estivéssemos prestando mais atenção naquele senhor do que na leitura.

A mensagem indecifrável daquele velho bêbado – alguns de nós deviam estar referindo-se a ele assim – tomou forma melódica quando o ônibus perpassava pela Praça Cuautémoque, no Flamengo. Os passageiros se encaravam como que questionando que diabos era aquilo, que desordeiro era aquele que se atrevia a viajar conosco… “Índia seus cabelos nos ombros caídos, negros como a noite que não tem luar, seus lábios de rosa para mim sorrindo, e a doce meiguice desse seu olhar“… O garoto do meu lado levantou um pouco o pescoço para olhá-lo e sorriu amigavelmente. O senhor do mostruário de sorvetes – o velho, vamos chamá-lo carinhosamente assim - estava agora sentado. A senhora à frente olhava para trás com trejeitos de reprovação, sem intimidar nem um pouco o conforto em que se encontrava o velho, que continuava a cantar em alto e bom som.

Sete vidas tenho para viver,
sete chances tenho para vencer,
mas se não comer, acabo num buraco,
eu sou o negro gato, eu sou o negro gato“.

A essa altura do campeonato eu já tinha largado o livro e anotava os trechos das músicas que ele trazia à tona num caderninho que carrego para todos os lados. Uma moça, de uns trinta anos aproximadamente, viajava em pé e já se punha a coreografar com a amiga de cabelos curtos a canção do Rei. Tornaram-se também backing vocals do velho, enquanto alguns outros assoviavam e batiam palma, criando uma verdadeira festa dentro do 409. Olhei pela janela e estávamos no trecho boêmio da Avenida Mem de Sá, em frente ao Mofo Lapa. Não estava tão lotado quanto uma sexta-feira, mas a adesão às mesinhas ao longo da calçada era alta para uma terça. Observei que um homem sentado numa delas ficou felizmente estupefato ao avistar uma das meninas que descia do meu ônibus. “Não acredito, você aqui!”, exclamou. E abraçaram-se. Maior coincidência.

De que vale a minha boa vida de playboy,
Se entro no meu carro e a solidão me dói.
Onde quer que eu ande, tudo é tão triste,
Não me interessa, o que de mais existe.
Quero que você me aqueça neste inverno,
E que tudo mais vá pro inferno“.

Nesse momento a galera vibrou. Não lembro do motorista, embora o trocador estivesse tão sincronizado na música quanto os discípulos do velho. A ênfase no vá para o inferno era a mais divertida, funcionando como um descarrego após um dia de estresse e de trabalho. Até mesmo alguns daqueles que estavam incomodados no início passaram a cutucar, de forma bem-humorada, o companheiro ao lado a cada novo verso evocado. O velho estava em êxtase.

Na escura Rua Estácio de Sá, veio a vez de Martinho da Vila. “Procurei em todas as mulheres a felicidade, mas eu não encontrei e fiquei na saudade, foi começando bem, mas tudo teve um fim“. A cumplicidade já era parte da energia daquele ônibus. O velho sorria de satisfação. Ele se levantou, apertou a campainha e seguiu cantando. Desembarcou num ponto na esquina da Rua João Paulo I com a Avenida Paulo de Frontin, onde tem um posto de gasolina. Carregando sua bolsa tricolora e o mostruário da Garoto, o amarelo vivo do seu vestuário se sobressaía na rua mal iluminada. Acenou para nós, desengonçado, acompanhado de um “Vai com Deus!!”, desejado de forma igualmente desajeitada. Ali, muitos de nós percebemos que ele não se tratava de um velho bêbado mas sim de um verdadeiro presenteador de singelas alegrias.

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As melhores (e piores) lembranças dos ônibus do Rio

29 setembro 2012 | 4 comentários

Fichas de plástico, tarifa em centavos, letreiros, vale-transporte de papel, experiências, itinerários… O relato da minha amizade com os ônibus da cidade.


Nostalgia: os ônibus ainda despadronizados no Castelo, Centro do Rio, em 2009 – publiquei essa imagem lá na página do Facebook. Algumas empresas ainda põem os ônibus antigos para circular assim, mas são poucas.

por Pedro Paulo Bastos

Eu estava hoje na Avenida Rio Branco, em um das novas paradas numeradas do Bus Rapid Service (BRS), e fiquei um pouco entediado ao passar por mim tantos veículos padronizados. Fiquei surpreso comigo mesmo pois fui um dos que defendi essa uniformização das cores, numa forma de proteção contra a poluição visual do Rio. Veio-me a lembrança dos “velhos tempos”, quando os ônibus multicoloridos eram os meus melhores amigos para me locomover pela cidade. Apesar da defesa, sempre achei interessante o seu jogo de cores e os símbolos utilizados para representar o nome das empresas, assim como as tipografias e os itinerários predominantes de cada companhia. A nostalgia bateu ainda mais forte depois de ler a crônica “Por que andar de ônibus faz bem ao seu caráter“, escrito por Fernanda Paiva, do blog Um Pop de Tudo. Foi um oceano de memórias invadindo meu corpo.

Irmandade de Santo Antônio, construída em 1938, no Riachuelo

Minha primeira experiência com os ônibus, antes deles se tornarem meus amigos íntimos (vou explicar o porquê mais adiante), foi bem pequenininho, embora fosse um tipo de amizade baseada no coleguismo. Minha avó fazia o sinal – às vezes permitia que eu o fizesse – e subíamos pela porta de trás. Nessa fase, lembro das fichas coloridas de plástico, que vinham com os nomes das empresas em molde. Assim se pagava ao trocador e a roleta era então liberada. Como ainda não tinha ganhado muito corpo, dava para passar por debaixo da roleta, cena clássica de toda criança pequena entrando em ônibus carioca. Essas saídas sempre eram relacionadas aos motivos de saúde; eu, pediatra, ela, algum pneumologista. Às vezes íamos até à Rua Debret, de onde voltávamos com saquinhos de coquinho ou amendoim torrado; em outras, à Dom Hélder Câmara, antiga Avenida Suburbana. Mesmo quando a forma de pagamento passou a ser feita em dinheiro, lembro dela ter conservado por anos no seu porta-níquel umas fichas encardidas da Viação Verdun.

Com dez anos de idade, na ausência de uma babá ou de um motorista particular, consegui a vitória (!!) de andar de ônibus pela primeira vez sozinho, duas vezes na semana, da Rua Dias da Cruz até o bairro do Maracanã. Era sempre um 239 (Água Santa-Praça XV, que hoje é Castelo), todo azul e branco. Às vezes ganhava uma nota de um real para dar ao trocador (gostava mais das trocadoras, me tratavam melhor), e como a passagem ainda era em centavos, sempre vinham umas moedinhas de troco que me serviam para comprar um Bubbaloo no baleiro. Às vezes eu ficava sem essas moedinhas porque minha mãe me dava, em caráter excepcional, vale-transportes em papel, que já continham o valor total da tarifa. Caramba, pausa para reflexão: tarifa em CENTAVOS e vale-transporte em PAPEL. Conforme foram passando os meses, a tarifa fora aumentando, até que chegou um dia a valer um real inteirinho. Absurdo, isso na virada do milênio.

Da janela dos ônibus aprendi a observar as ruas, os nomes que levavam, a diferença de paisagem entre bairros ricos e pobres, e o conhecimento dos diferentes itinerários. O 239 seguia a Rua São Francisco Xavier toda, enquanto o 247 entrava à esquerda na Avenida Maracanã. Sutilezas. Em casa, passei a estudar cautelosamente um Guia Rex 95. Com um lápis da escola, desses ilustrados de tabuada, ia lendo a relação de ruas que ônibus aleatórios percorriam e marcando no mapa. Até hoje conservo esse glorioso guia de ruas, todo rabiscado com os percursos do extinto 404 (Colégio Militar – Jardim de Alah), 157 (Estrada de Ferro – Gávea), 260 (Vila Valqueire – Praça XV), 691 (Méier – Alvorada)… Certo dia, já saindo da pré-adolescência, decidi que era hora de pegar tais ônibus já estudados na teoria para aprender na prática os lugares pelos quais passava. Tudo às escondidas, confesso, mas eram passeios incríveis. A janela do ônibus, mais uma vez, me apresentou para a cidade. E vice-versa.


Reprodução do meu Guia Rex 95, onde eu preenchia com lápis o percurso de determinados ônibus diretamente no mapa. Como essa planta é de Ipanema, os ônibus costumam seguir um caminho mais uniforme do que no Centro ou em Madureira, por exemplo.

Teve uma época que fui estudar em uma escola estadual, o que significava andar de ônibus “de grátis” e, ao mesmo tempo, competir com dezenas de estudantes um mesmo ponto de ônibus rechaçado por nove entre dez motoristas. Eles odiavam parar para nós, “a gratuidade juvenil”. A algazarra era inevitável, embora eu fosse quietinho, sempre na minha. Mesmo assim, quem tem direito à gratuidade sofre poucas e boas. Alguns passageiros faziam questão de dizer em alto e bom tom que não éramos dignos de tomar assento. Outros torciam o nariz quando aquele bando de crianças com mochilas e pastas adentravam os veículos. A maior humilhação, acredito, foi quando os ônibus passaram a ter a roleta na parte da frente, no fim de 2002. Ficávamos todos espremidos entre o motorista e a roleta, sem direito de ir para o outro lado, muitas das vezes, vazio. Aliás, muitos motoristas passaram a não parar mais, já que foi determinado um número máximo de pessoas para ficarem ali na frente. Lembro de todas as linhas cruéis que me deixavam na mão. Ah, 422 (Grajaú – Cosme Velho), vulgo quatro-doidão, da Transurb, como já te odiei…

Linha 415, Viação Alpha, foto de Roberto Marinho

Houve uma fase que a obsessão com os ônibus era tanta que eu ficava da janela do apartamento dos meus tios, na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, observando todos os números de séries dos ônibus que passavam ou paravam por lá, com aquela freada bastante sonora e típica das nossas ruas caóticas. Virei uma enciclopédia ambulante; sabia grande parte dos itinerários de cor, entre outros detalhes inúteis. Passei a desenhar ônibus de vários tipos e letreiros nas páginas do caderno em meio às aulas monótonas de Química. Escrevia e-mails para empresas de ônibus, como a Alpha, onde ingenuamente eu os questionava por qual razão havia sido modificado o design dos seus veículos! Eram um jogo de cores quentes em listras, que ia do vermelho ao amarelo, bem agressivo, cafona, e que eu nutria uma paixão secreta (e esquisita) por aquilo.

Adorava também os ônibus da Madureira Candelária, os da Santa Sofia – que eu via raramente, por isso curtia tanto – e os amarelinhos clássicos da zona sul da Real Auto Ônibus, que vinham com aquela coroinha no logotipo. Aos quinze anos, aliás, uma das minhas maiores angústias era a seguinte: se as linhas que começam com 1 são as que conectam a zona sul ao Centro, por que diabos a linha 179 vem da zona oeste, no caso, a Barra da Tijuca?? Mermão, era uma doença, reconheço!, eu queria organizar aquilo tudo da forma mais lógica possível. Acabou que organizaram. Hoje a 179 é 309, com a inicial 3, que classifica os ônibus que saem da zona oeste ao Centro. E mais: indagava de que cor eram, de fato, os ônibus da Viação Vila Isabel, se abóboras ou vermelhos. Questionava a utilidade de existir uma linha São Salvador – Leblon (573), se já existia uma Glória -Leblon (572), e pior, para que uma linha Copacabana – Praça Quinze (119), se já havia dezenas de ônibus de Copacabana para a zona norte via Praça Quinze.


Em sentido horário: a linha 298 (Acari - Castelo), da Madureira Candelária; o famoso 485 (Penha – Praça General Osório), única linha a conectar a zona sul ao Fundão; o ex-amarelinho 126 (Rodoviária – Copacabana) da Real; e o antigo 571 (Glória – Leblon), hoje 161, da São Silvestre.

No período da faculdade lá na Ilha do Fundão, sofri com os atrasos e lotações constantes do 485 (Penha – General Osório). Vi gente sendo assaltada constantemente no 696A (Cidade Universitária – Del Castilho). Criei um caso de amor com o 438R (Leblon – Vila Isabel), que me transportava do Jóquei à Praça Varnhagen em 30 minutos pelo Túnel Rebouças. Excluí Copacabana da minha lista de bairros a circular nos sábados, domingos e feriados de sol – os ônibus ficam impraticáveis, mesmo os circulares que vão para o Cosme Velho. Vibrei com a suposta reorganização das linhas de ônibus da cidade em consórcios, mas logo em seguida me decepcionei em ver que isso não foi suficiente para melhorar a qualidade dos ônibus, que só foram ”maquiados”. Antes que me esqueça de comentar, apesar de já ter avançado aqui na linha do tempo, um dos episódios mais marcantes para mim foi a época dos ônibus incendiados, entre 2002 e 2003, naquelas guerras do tráfico. Nesse tempo, eu e uns amigos qualificávamos o grau de periculosidade de uma linha pelo seu índice de incêndio. Pegou fogo? Passa em lugar perigoso! Essa era mais ou menos a lógica.

Divido minhas viagens pelo Rio entre o metrô, os ônibus e, mais recentemente, os táxis. Mas os ônibus são especiais. Hoje, na Rio Branco, acabei embarcando num desses “Gávea” da vida, sem ter checado o número, como antes costumava fazer de maneira doentia. Sentei junto à janela. De acordo com a Fernanda Paiva, “janela de ônibus é praticamente a janela de sua alma“. Ali fui relembrando toda essa minha amizade com os ônibus, despreocupadamente, até que percebi que eu havia passado do meu ponto de descida. Ansioso, puxei a correntinha já quase arrebentada por algum vândalo, apertei a campainha, e dei um berro para o motorista “Pára aeeeeeeeeee…, passei do meu ponto!!!”. Duas galegas me olharam assustadas, pensando que na Suécia não existe esse tipo de comportamento. Após umas sacolejadas e algumas manobras teatrais, o motorista gentilmente parou, abriu as portas, e finalmente desci. Fora do ponto, umas duas quadras adiante. Ganhar uma ”moral” dessas é só para quem é íntimo da vida dos ônibus, só para quem é amigo de longa data. Pois é. Valeu, amigão!

E você? Qual sua relação de amizade com os ônibus da cidade? Quero saber! (:

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Linha 524: do lixo ao luxo

09 novembro 2011 | 14 comentários

Linhas de ônibus da zona sul conhecidas pelo mau serviço prestado têm a frota renovada


Linha 524 na Rua Nelson Mandela, em Botafogo: veículo novo em substituição aos antigos.

 

Era uma vez um ônibus velho, cheio de baratinhas, assentos com fendas soltas, ferros internos oleosos e campainha desregulada. Um belo dia, ele reaparece pelas ruas cariocas de roupagem nova: letreiro digital, piso rebaixado, acesso para deficientes e motor traseiro. Eis a pequena história da linha 524 (Metrô Botafogo x Barra da Tijuca), da Intersul, uma das mais rejeitadas em questões de limpeza, frequência e pontualidade da circulação.

Já há cerca de um mês que este novo modelo de ônibus surgiu pelas ruas da zona sul, região pela qual tais veículos começaram a circular inicialmente. Em 2010, quando houve a reorganização do sistema de ônibus por consórcios, designando-lhes cores, uma das exigências era que os ônibus seguissem este padrão, chamado de low entry (esses nomes em inglês são ótimos…), que facilita o acesso de pessoas com deficiência física e idosos. Não só facilita a subida deles, como a de todos os outros passageiros, independente da idade ou condição física. Os degraus dos ônibus “comuns” são muito altos em relação ao nível da rua.

Curiosamente, as linhas, até então, mais asqueirosas em qualidade de serviço e conforto, que circulam pela zona sul, foram as primeiras a receber o novo desenho. Entre elas, além da 524, temos a 176 (Central x São Conrado) e 592 (Leme x Gávea), todas da antiga (e em processo de falência) Amigos Unidos S.A., agora operadas pela Translitorânea Turística Ltda.

Salve, salve.


O piso rebaixado é uma das exigências para os novos ônibus, que estão circulando, por enquanto, em caráter experimental em apenas algumas linhas. É, também, o padrão de ônibus para o BRT.


# 21.11.11 – Agradecimento ao Dimithri Vargas, pela correção do nome da nova empresa que faz a gestão das três linhas citadas e do número de uma delas, a 176 (Central x São Conrado), antiga 175.


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Mergulhões

12 outubro 2011 | 3 comentários

Os novos BRTs cariocas trarão melhorias significativas à estrutura viária da cidade, numa parceria do transporte público com o individual


Fonte: Cidade Olímpica.com
A construção do mergulhão na Avenida das Américas, na zona oeste, vai
permitir que ônibus expressos passem sobre a pista e carros sigam por via subterrânea

por Pedro Paulo Bastos

Um dos cruzamento mais movimentados (e congestionados) do Centro está com os dias contados. O encontro das avenidas Rio Branco com Presidente Vargas deverá ser transformado em um mergulhão, o segundo da região, até o ano de 2015. A causa desta mega intervenção urbana será a construção do BRT Transbrasil (Bus Rapid Transit), que vai interligar o bairro de Deodoro, na Zona Oeste, com o Centro do Rio, através das avenidas Brasil e Francisco Bicalho.

“Na Avenida Francisco Bicalho, teremos que construir um novo viaduto, exclusivo para a passagem do BRT. Na chegada à Presidente Vargas, ele ficará entre a via original e o viaduto da linha férrea. Já na Avenida Brasil, teremos que alargar o trecho entre Irajá e Guadalupe, implantando as faixas laterais”, detalhou o secretário municipal de Obras, Alexandre Pinto, em reportagem do jornal O Globo de hoje, 12/10/11.

A Avenida Presidente Vargas terá cinco estações a cada 700 metros, com paradas em frente à prefeitura, ao sambódromo, à Central do Brasil, ao mercado popular da Saara e à Igreja da Candelária, onde será realizado o retorno dos veículos.

Além do Centro, as zonas norte e oeste também vão receber novos mergulhões, graças aos outros projetos de BRTs, como a Transoeste (Jardim Oceânico-Santa Cruz), Transolímpico (Barra-Deodoro) e Transcarioca (Barra-Penha). O mergulhão da Avenida das Américas, na Barra, já está em obras. O próximo da fila será o de Campinho, que permitirá uma conexão mais rápida com o bairro vizinho de Madureira. E, claro, um melhor fluxo do trânsito e dos ônibus rápidos.

Considerações
A impressão que eu tinha, quando obras desse porte eram pouco discutidas e até mesmo validadas, era a de que existia uma forte barreira em “grandificar” a estrutura viária da cidade do Rio. Talvez porque o Rio tenha um caráter menos cidade-grande (embora o seja!) do que São Paulo, Belo Horizonte ou Brasília. Essa valorização dos espaços verdes, da praia, das montanhas, enfim, das paisagens naturais, na minha percepção meio fantasiada, ia um pouco de encontro com o porte monumental dessas obras de engenharia, lotadas de concreto e de uma alta valorização do transporte particular. É claro que a falta de interesse político por esses projetos teve um peso gigantesco para a contribuição da estagnação da mobilidade urbana nas últimas décadas.

Fico contente de que esse assunto tenha sido retomado e que as coisas estejam entrando em execução, que é o melhor. Mesmo, ainda, de que tudo isso seja por causa das Olimpíadas. Ademais, é de se reconhecer o amadurecimento das decisões da administração pública ao promover tais melhorias viárias com interesses primários voltados ao transporte público; o BRT, no caso. Bem diferente da Linha Amarela, inaugurada em 1997, no estilo das highways estadounidenses, pouco sustentáveis a longo prazo.

Embora o metrô continue sendo o meio de transporte de maior aceitação social, e, mesmo que ainda erre-se muito nesse processo de redesenhamento do Rio, dá gosto de ver que a perspectiva em relação a ele está mudando. Fazemos parte de uma cidade  linda, cheia de belezas, de paisagens deslumbrantes, mas… precisamos estar atentos ao fato de que não somos só um balneário. O Rio vai muito além dos encantos turísticos da zona sul. Somos uma grande cidade grande, cheia de potenciais. Intervir em Madureira, por exemplo, com mergulhão, significa encurtar distâncias e melhorar a qualidade de vida de quem mora ou passa por lá. No Centro, a mesma coisa; quanto tempo perde-se nesse cruzamento da Rio Branco com a Presidente Vargas?

Embora o metrô continue sendo o meio de transporte de maior aceitação social, e, mesmo que ainda erre-se muito nesse processo de redesenhamento do Rio, dá gosto de ver que o olhar, em relação a ele, está mudando. Fazemos parte de uma cidade linda, cheia de belezas, de paisagens deslumbrantes, mas… precisamos estar atentos ao fato de que não somos só um balneário. O Rio vai muito além dos encantos turísticos da zona sul. Somos uma grande cidade grande, cheia de potenciais. Intervir em Madureira, por exemplo, com mergulhão, significa encurtar distâncias e melhorar a qualidade de vida de quem mora ou passa por lá. No Centro, a mesma coisa; quanto tempo perde-se nesse cruzamento da Rio Branco com a Presidente Vargas?

Está mais do que na hora de mergulharmos nesses mergulhões, pontes estaiadas e túneis que a engenharia contemporânea nos oferece. A diferença é que contamos hoje, em 2011, com muito mais informações e inovações tecnológicas nestas técnicas do que na época do processo de urbanização maciça de São Paulo, que tornou-a uma cidade cinza, pouco atrativa, fria. A parceria entre planejamento urbano e engenharia tem andado de mãos dadas – ou, pelo menos, esta é a tendência. Isso é ótimo! Só é necessário que essas considerações sejam levadas a sério para que dêem certo e se sustentem.

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