Largo do Machado

11 maio 2012 | deixe seu comentário (0)

Um passeio pelo Largo do Machado enquanto a sessão no Cinema São Luiz não começa


Um dos acessos para a estação Largo do Machado do metrô, na praça de mesmo nome: inaugurada em 1981 em um dos endereços mais antigos da zona sul.

por Pedro Paulo Bastos

Meu primeiro contato, pequenininho, com o Largo do Machado foi no filme “A filha dos Trapalhões”, assistido incansavelmente em VHS na década de 90. Numa das cenas, o personagem de Renato Aragão, o Didi, numa tarde ensolarada, desembarca de uma estação de metrô no Rio de Janeiro. A câmera, do alto, filma o letreiro com o nome da estação e, logo em seguida, todo o panorama de uma praça aparentemente movimentada, mas cheia de graça por suas árvores, seu chafariz e, por que não, seus pombos! A imagem ficou marcada para mim durante anos, principalmente no período em que comecei a alimentar esse meu hobby por ruas, praças e afins. Depois de passar certa época da adolescência pegando sessões no São Luiz, comendo pizza no Gambino e revisitando diversas vezes o Museu da República, meu favorito, agora eu trabalho praticamente ao lado do Largo, o que me permite, diariamente, observar melhor como essa simbólica praça carioca se movimenta e se sustenta no tempo.

A Igreja Nossa Senhora da Glória, em conjunto com outros prédios históricos do entorno - como o lindíssimo Colégio Estadual Amaro Cavalcanti, de 1874 -, faz com que o Largo do Machado pareça uma verdadeira pracinha de cidade pequena do interior. Claro, o caótico trânsito das ruas do Catete e da Laranjeiras quebra um pouco dessa sensação com buzinas e freadas histéricas, embora um passeio pelo centro do Largo resguarde ainda certa tranquilidade e nostalgia. Por parecer um campo, com árvores centenárias apenas nas extremidades, o Largo do Machado tem paisagem aberta. O céu é visto e é incrivelmente bonito por ali, podendo ficar ainda mais encantador com os pombos voando e pousando sobre a estátua em mármore Carrara da Imaculada Conceição, localizada sobre um pedestal no centro do chafariz. Poético, em volta de tantas palmeiras. Apesar da beleza toda do espelho d’água, a cena se repete como em muitas outras praças do Rio que possuam esse mesmo equipamento. Água parada, suja, sacos plásticos que boiam… Os mendigos parecem se distrair com a circulação de dejetos pela fonte. Muitos deles, inofensivos, ficam ali, parados, esperando por algo ou alguém que nunca virá.


O panorama do Largo do Machado com seu chafariz, desativado, e a o detalhe da Igreja Nossa Senhora da Glória, de 1872.


Os bancos sinuosos do Largo com o Colégio Estadual Amaro Cavalcanti ao fundo.

Ao lado, o cruzamento do Largo do Machado com a Rua Ministro Tavares de Lira.

Os bancos sinuosos, que contornam as curvas dos jardins, são lotadas de pessoas, muitas delas já de idade. Aliás, ainda preciso confirmar essa minha teoria: a minha geração, galera que está na faixa dos vinte e poucos anos, parece não curtir muito o espaço oferecido pelas praças. Ou não há tempo, ou não há atratividade para curti-las. Em outros lugares que tive a oportunidade de viajar, vi a presença de um público mais juvenil pelas praças, como em Boston e em Buenos Aires. Até mesmo meu irmão, que mora em Milão, virou um assíduo frequentador de praças e parques por lá. Falando por mim, realmente não há tempo, mas a sensação de insegurança de muitas delas no Rio ainda é um fator de repulsão para lazer. Os jovens que estavam pelo Largo do Machado, parados e descansados, aparentavam estar ali por outras razões, como, por exemplo, naquele momento de fuga básica do trabalho para “espairecer” os nervos. Outros, menores, pareciam não estar assistindo às aulas. Digo isso porque muitos estavam uniformizados. “Gazeteiros”, diria meu avô.

 O Largo, além de ser uma região densamente ocupada por consultórios médicos, farmácias, lanchonetes populares e postos de saúde, é também referência em colégios, o que permite introduzir à sua dinâmica essa boa dose de crianças e adolescentes de passagem. Uma saída do metrô também colabora muito para criar pequenas multidões, de maneira organizada. Incrivelmente as barracas de flores são apreciadas, e não apenas meros enfeites. Algumas delas colaboram até mesmo para o paisagismo do Largo do Machado ao utilizarem o tronco grosso e antigo de uma árvore para expor vasos de plantas com placas de bambu. Ficou charmoso e elegante.


O Largo do Machado conta com várias barracas de flores, mas o que mais chama a atenção mesmo por lá é a reunião de senhores para jogo de baralho.


Prédio elegante na Rua das Laranjeiras é apenas mais um dos edifícios históricos nessa região do Catete.

Os pombos voam tanto quanto as pessoas que se exercitam nos novos aparelhos de ginástica – são dois elementos que não param nunca pelo Largo do Machado. Minto: o carteado é que parece não parar nunca. As mesas ficam todas cheias de senhores, naquele estereótipo mesmo da figura do avô, nas proximidades da Rua Bento Lisboa, onde está o restaurante Adega Portugália. Todos alegres, enturmados e entusiasmados. Já pelos lados da Rua do Catete, a ideia que todo mundo torceu o nariz no começo mas que agora é um sucesso está lá, ainda toda laranjinha. O posto do Bike Rio no Largo tem boa rotatividade de bicicletas, enquanto um saxofonista tenta ganhar a vida na esquina com a Rua Dois de Dezembro. O São Luiz tem movimento tímido durante uma tarde de dia de semana, mas é requisitadíssimo de noite com sua galeria refigerada. A Rotisserie Sírio-Libanesa está ali na Galeria Condor; é referência. Uma barraca de frutas, todas em tons fortes amarelados, como laranjas, abacaxis e bananas, complementam a paisagem, em meio às árvores e aos raios solares que ultrapassam seus galhos, quase como um belo quadro no gênero natureza-morta. Tudo isso na confluência do Flamengo e de Laranjeiras com o Catete.

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Parque Madureira

01 maio 2012 | 4 comentários

Previsto para inaugurar em junho, o Parque Madureira ainda está um pouco no “esqueleto”. E mais: uma volta pelo comércio agitado do bairro.

por Pedro Paulo Bastos

O plano de trazer Madureira ao blog pela primeira vez foi por água à baixo, literalmente, ao nos depararmos, eu e meu primo Raphael, com o chuvaréu que caiu repentinamente sobre Madureira ontem, dia 30. A ideia era fotografar o entorno do que será o novo Parque Madureira, às margens da Rua Conselheiro Galvão, alongando-se pelo bairro de Turiaçú até chegar ao viaduto da Avenida dos Italianos, já na região de Rocha Miranda. O parque tem previsão de inauguração para daqui a um mês, segundo reportagem do jornal O Globo da semana passada, o que me parece um pouco pretensioso. Ainda há muito o que fazer. Quem passa por lá consegue ver apenas um esboço do que será o parque. No entanto, há um desejo de que o Parque Madureira esteja pronto no tempo certo ao evento Rio+20, que ocorrerá por aqui também no mês de junho.

Prometida como a terceira maior área verde urbana do município, atrás apenas da  Floresta da Tijuca  Quinta da Boa Vista e do Aterro do Flamengo, a funcionalidade proposta para o Parque Madureira entusiasma: terá centro de visitantes com iluminação gerada por energia solar, sistema de irrigação que evitará desperdícios, reutilização de água da chuva e lâmpadas do estilo LED, que são mais econômicas. Sem mencionar os impactos socioespaciais em Madureira, que é uma verdadeira selva de concreto. No verão é bem provável que a nova área de lazer da cidade dê a sua contribuição à redução temperatura média local.

Para ler mais sobre o parque, leia a publicação do As Ruas do Rio, de 9/02/12: Madureira menos cinza e mais ameno.


A placa que indica uma das entradas do Parque Madureira, na Rua Soares Caldeira: a construção de um parque sustentável no Rio, que pretende cumprir os requisitos para conquistar o selo Aqua (Alta Qualidade Ambiental).

Enquanto isso…

A volta que demos pelas ruas mais comerciais do bairro provou que o sucesso da novela “Avenida Brasil”, da TV Globo, não é à toa. O comércio do fictício bairro do Divino foi belamente inspirado nos arredores da Avenida Ministro Edgard Romero e Rua Carvalho de Souza, onde o caos de pedestres reina em todo o período comercial. É como se fosse um coração pulsando de pessoas, sons, mercadorias, outdoors e buzinas. Na esquina da Rua Carolina Machado com a Edgard Romero, a música ambiente de uma loja (não tão ambiente assim, afinal, estava mais alto do que deveria) se misturava ao do vizinho. Numa se escutava Exaltasamba. Na outra, o eterno clássico oitentista de Cyndi Lauper, The Goonies ’R’ Good Enough, tema do filme Os Goonies (1985). O espírito consumista era o mesmo que o de época de Natal, atraído principalmente pelos locutores, como o da novela, que ficam na calçada atiçando a clientela.

Madureira é um bairro querido para mim pois é lá, e somente lá, que eu consigo comprar pacotes gigantes de marshmallow por preços camaradas. Incrível; a Rua Conselheiro Galvão é dotada de verdadeiras lojas-galpões especializadas em doces, não só os conhecidamente caseiros, como pé de moleque, doce de abóbora, bananadas, bem como os industrializados – chicletes, aquelas balas de café, balas de goma, e o marshmallow, é claro! Vale a pena. Uma famosa marca de balas, que chamamos de drops, vendida a R$ 1,00 na esquina da sua casa, ou por até R$ 3,00 nos cinemas de shoppings, vinha em uma pequena caixa fechada com pelo menos 18 unidades pela barganha de R$ 7,00. A gente paga caro e nem desconfia… Sem mais propagandas, galera. E pela prevenção das cáries!

A intenção era trazer o cotidiano todo de Madureira para cá, incluindo o parque. Infelizmente a tromba d’água não permitiu. Fica para a próxima. Mês que vem, quem sabe, quando o Parque Madureira seja inaugurado.


Essa é a Praça Paulo da Portela, na Estrada do Portela, na divisa entre Madureira, Oswaldo Cruz e Turiaçú: outro ponto simbólico da região e do samba.

 

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Travessa Guimarães Natal & Rua Assis Brasil

26 abril 2012 | deixe seu comentário (0)

Coladas ao Parque Estadual da Chacrinha, essas duas ruas de Copacabana esbanjam bucolismo e silêncio em meio ao trânsito da Rua Tonelero


A Travessa Guimarães Natal, em Copacabana, é uma rua pequena e estreita, que se inicia numa curvinha no final da Rua Guimarães Natal, onde está a entrada para o Parque Estadual da Chacrinha.

por Pedro Paulo Bastos


“Misericórdia, parece que você tomou um banho!”, exclamou uma senhorinha de cabelos brancos ao me ver. Eu vestia uma camisa social toda engomadinha, azul, de tonalidade escura. Raios de sol bem nocivos ao humor de qualquer pessoa incidiam diretamente sobre a Travessa Guimarães Natal, em Copacabana, e, consequentemente, sobre todas as cabeças de pedestres que passavam ali naquela hora. A camisa estava colada ao corpo, favorecida pela mochila preta que eu carregava nas costas. A calça caqui já apresentava a evidência de filetes de água pelas pernas. A câmera, presa ao pescoço, fugia à regra. Era uma manhã de quarta-feira, eu é quem não podia fugir à regra de vestir qualquer roupa para ir à faculdade, e logo depois, ao trabalho. Essa transpiração toda em poucos minutos de chegada ao local. O motivo é: a Travessa Guimarães Natal é uma ladeirona. Sem árvores – logo, mais assoleada do que deveria -, e com paralelepípedos que dificultam um pouco a caminhada se você não subi-la pela estreita calçada. Mas que é a exceção da exceção da exceção das ruas de Copacabana, ah, isso é.

Apesar de ela estar colada ao Parque Estadual da Chacrinha, uma área aberta ao público, o seu acesso intimida a quem não mora ali porque a Rua Guimarães Natal (não confundir a travessa com a rua), sua vizinha, tem bem uma cancela na esquina com a Rua Tonelero. Uma medida necessária em tempos violentos como esse, ainda mais para ruas escondidas em bairros movimentados. Quem quiser visitar, no entanto, é passe livre, eu tirei a prova. Às vezes sou barrado em alguns lugares e por isso fico tão na defensiva… Tinha muita curiosidade de desbravar melhor essas ruas na encosta de Copacabana. Elas são bem diferentes das transversais à Barata Ribeiro e à Nossa Senhora de Copacabana. Muito mais bucólicas, calminhas e de clima muito familiar.

A Travessa Guimarães Natal, além disso, contém casas, coisa pouco comum pela zona sul. E pelo que pude comprovar, ela também faz jus ao padrão mais ou menos estabelecido de que são nas ruas mais interioranas de Copa onde está quase toda a totalidade de albergues (hostels). O trânsito de gente loira por ali era recorrente no momento em que percorri a via. Até eu me acostumar com a ideia de que a Guimarães Natal não era bem uma rua residencial, me surpreendia quando os gringos saíam de uma porta de madeira verde, que se confundia ao paredão da casa coberto por heras. No caso, o paredão do King George Hostel. Mais adiante, o Cabana Copa Backpacker Rio Hostel prolongou a altura do seu muro amarelo com bambus. Resultou num visual bem bonito.


Chão de paralelepípedo, pouca sombra efetiva e edifício antigo na Travessa Guimarães Natal.


Repare no topo da fachada dos edifícios à esquerda, que, interessantemente, vem em detalhes simétricos. Ao lado, o Copacabana Vert, recém-construído na esquina com a Rua Assis Brasil.

O lado ímpar da Travessa Guimarães Natal é todo constituído de prédios antigos, muitos com janelas venezianas. Um detalhe interessante de quatro prédios, nos números 7, 9, 11 e 13, é o topo deles, em formato simétrico, com três degraus – ou pelo menos uma espécie de – em cada lado. As luminárias chamativas contrastam com as portarias simplórias, como a do Edifício Tanucha, por exemplo. Agora o que entra em constraste mesmo com o resto da rua, que tem um aspecto mais de subúrbio, é o Copacabana Vert. É um edifício moderníssimo, com varandas espelhadas e um bom paisagismo de entrada. Foi construído em cinco pavimentos – quem checar pelo Google Street View verá que em janeiro de 2010 ele estava em fase de construção. Preciso nem dizer que o último andar, a cobertura, deve ter uma vista incrível para o bairro e para o Parque Estadual da Chacrinha, no terreno de trás.

À esquerda da Travessa Guimarães Natal começa a Rua Assis Brasil, uma das ruas mais requisitadas de Copacabana pela sua calmaria, bom nível imobiliário e proximidade com a estação Cardeal Arcoverde do metrô. Se vocês repararem nas fotos seguintes, esse pedaço que percorri é uma colcha de retalhos. Na Assis Brasil se vê um monte de nesgas de sol, tamanha a arborização da rua. Bem diferente da Guimarães Natal, que é praticamente um deserto do Saara. Esse panorama foi melhor apreciado através do trecho vazio da Rua Assis Brasil, à direita da Travessa Guimarães Natal, onde estão os fundos do Copacabana Vert e o Parque Estadual da Chacrinha. O aclive fica tão íngreme ali que em dias de chuva eu não me arriscaria descer, pela calçada de pedras portuguesas, com qualquer tipo de sapato. É sério!


A Rua Assis Brasil, no seu trecho superior, colado ao Morro de São João: sol, sombras, árvores e muitas plantas. Veja também que, diferentemente da maioria dos prédios do bairro, nos condomínios dali contam com vários andares de garagem.


Na esquina, o simpático edifício Montesano e, ao fundo, o restante da Rua Assis Brasil em direção à Rua Tonelero.

A Rua Assis Brasil compartilha seu espaço com edifícios antigos e outros mais recentes, como o do número 143, que é um megacondomínio, onde estacionamento parece ser o que não falta. Inclusive um dos acessos para a garagem lembra bem o de um shopping, margeado por um bonito jardim, com diferentes espécies de plantas. Toda a Assis Brasil é assim, embora nesse pedaço, particularmente, a presença de elementos da natureza seja mais forte, não só pelas árvores altas bem como pela proximidade com o Morro de São João logo atrás. O desenho curvilíneo da rua deixa em evidência a beleza e o posicionamento das árvores, além, claro, do contraste entre o paralelepípedo da via e as pedras portuguesas da calçada.


Um portal sob um dos prédios abre caminho para uma travessa que se conectará à Rua Otaviano Hudson.


Ao longo da Rua Assis Brasil é possível ver diferentes intervenções nos troncos das árvores, como ninhos improvisados, gaiolas e flores avulsas.

O restante da rua é previsível e retilíneo, mas não menos bonito. É um mar de prédios, típico da “Princesinha do Mar”, com muitas janelas e portarias bem arrumadas. Como a rua é parcialmente fechada, e a segurança, reforçada, não houve a necessidade de se colocar portões e grades nas calçadas, sem destinar um espaço público à exclusividade dos condomínios. Assim, as portarias, muitas delas de vidro, estão unicamente separadas da via por pequenos degraus. Ademais, um portal branco abre espaço sob um dos prédios da Assis Brasil, conectando-a com a Rua Otaviano Hudson por uma ruazinha também bastante simpática e residencial.

Na Assis Brasil, graças às sombras abundantes, a minha camisa social já voltava ao estado sólido após quase cinquenta minutos de puro encharque. Eu me misturava aos outros moradores que desciam a rua em direção aos seus trabalhos. Grande parcela dos homens tinha aquele jeito de executivo. Uns preocupados nas conversas telefônicas em seus iphones, enquanto outros, distraídos com o som de seus ipods, ajeitavam a mochila Wöllner nas costas. As mulheres, também com cara e roupa de meio empresarial, marchavam pelas calçadas da Rua Assis Brasil de maneira com que ouvíssemos bem o atrito de seus saltos com o chão. Os porteiros, de vassoura na mão, cumprimentavam com um “Bom dia!” a quem lhes acenasse, e os poodles, em coleiras, latiam amistosamente ao encontrarem outros mascotes. Um cenário de boa vizinhança, sem dúvida.


O encontro da Rua Assis Brasil, com sua cancela, e a Rua Tonelero, bem em frente à Praça Cardeal Arcoverde. Atente para a árvore de esquina, floridaça.

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As clássicas luminárias de Santa Teresa estão ameaçadas

18 abril 2012 | 2 comentários

 Santa Teresa poderá perder seus antigos postes de iluminação, contra a vontade dos moradores: desrespeito ao patrimônio da cidade?


A base das antigas luminárias do Estado da Guanabara, na Rua Triunfo, em Santa Teresa: luminárias em ameaça.

Na postagem do dia 27 de março foi publicado um especial sobre as ruas Fonseca Guimarães, Filadélfia e Triunfo, onde ressaltei a beleza dos postes antigos aqui do município, ainda preservados nesse trecho de Santa Teresa. Aliás, na maioria dos bairros no entorno da região central é possível avistar algumas dessas luminárias clássicas, embora em Santa Teresa elas se encontrem de forma mais abundante.

Desde então passei a receber e-mails de alguns moradores, como a Flávia Assis e a Gisela Flinte, que me avisaram sobre a ação da Rioluz em remover as tais luminárias  para substituí-las por outras mais modernas e eficientes. A troca dos postes faria parte de um programa da Rioluz em parceria com o Governo Federal, com a instalação de iluminação à base de vapor de sódio em detrimento dos pontos de luz a mercúrio. Além disso, outro argumento apresentado foi o de que essas antigas luminárias estão em processo de corrosão e que não seriam mais fabricadas nem disponíveis no mercado. Apontou-se ainda que o sistema de iluminação delas é obsoleto e de difícil manutenção. Disso ninguém pode negar.

A polêmica criada fica por conta da preservação do patrimônio histórico, que será desrespeitado. Essa situação tem criado um conflito de interesses e funcionalidades no que tange às medidas – afinal, o que seria mais importante, a manutenção das luminárias ou a implementação de uma nova iluminação? Uma iluminação reconhecidamente mais fraca, embora historicamente preservada, ou uma iluminação mais modernosa e eficaz, mas de estética duvidosa, que destoaria do ambiente urbano de lá? Ambas as questões são importantes para o Rio, tanto para o turismo como para a qualidade de vida da população.

Este é um assunto que deveria ser melhor conversado com os moradores e simpatizantes do bairro, que são contrários à remoção. A reação é compreensiva; depois da extinção dos bondes, no ano passado, será que outro símbolo de Santa Teresa também será perdido?


Protesto pela volta dos bondes, no Largo dos Guimarães.

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Avenida Gastão Sengés

16 abril 2012 | 2 comentários

Conheça mais da rua com paisagismo impecável no coração da Barra


Essa é a Avenida Gastão Sengés, na Barra da Tijuca, que conta com poucos prédios e pouco movimento, mas com muitos jardins, palmeiras, entre outras espécies de plantas e flores

por Pedro Paulo Bastos


Não tem jeito. A Barra da Tijuca, na zona oeste, é realmente uma cidade à parte. Essa semana mesmo saiu uma reportagem fictícia-piadista, do portal Sensacionalista, do Multishow, com a manchete: “Barra da Tijuca é decretada oficialmente outro país” (vale a pena ler, é divertido). Não digo isso exatamente pelo fato de ser um bairro mais luxuoso e sem favelas por perto, o que não é comum por aqui, mas sim pelo ponto de vista mais estrutural. É incrível como o desenho das ruas é diferente do resto da cidade. Eu vivo na parte “velha” do Rio de Janeiro, onde todas as ruas são estreitas para o padrão das grandes urbes. Logo, para um apaixonado por ruas como eu, fico sempre embasbacado em ver como a Barra é toda planejadinha (para o automóvel, diga-se de passagem), cheia de pistas largas, canteiros centrais, retornos, tudo direitinho… Enfim, tudo o que uma cidade grande altamente rodoviarista necessita para fluir.

Na Barra, até mesmo as ruas residenciais têm porte de avenida grande. Um exemplo é a Avenida Gastão Sengés, onde fui fotografar no sábado, sob um sol de rachar. Ela fica nos fundos do Barra Garden Shopping. Sua entrada é loteada de canteiros centrais bem arrumados, um paisagismo digno de revista. As palmeiras só não são mais altas que os espigões modernosos da rua, cada qual bem afastado um do outro. Eis uma diferença da parte “velha” do Rio, onde todos os edifícios colam-se uns aos outros, formando aquele corredor de prédios típico da Rua Barata Ribeiro. Na Barra eles ficam mais afastados pois estão dentro de condomínios, com mil e um aparatos de lazer, sem mencionar as garagens à ceu aberto.


Com canteiro central impecável, a Avenida Gastão Sengés tem porte de avenida com grande fluxo de trânsito, mas ela é calminha à beça. À direita, a entrada para o condomínio Jardim Ibiza.


O shopping Home Facilities Center concentra lojas pequenas de conveniência, de importância regional.

Na Gastão Sengés, entretanto, a atração principal mesmo é o canteiro central, como eu já havia comentado. Eu imagino que eles sejam mantidos por iniciativa privada, porque, não querendo falar mal, mas já falando, a Prefeitura do Rio, até onde minha experiência permite dizer, não tem muito essa capacidade de cuidar, com esmero, dos jardins urbanos. Quem é carioca sabe. Adiciona-se a isso a questão da educação também das pessoas em preservar ou não, e aí nesse ponto eu imagino que na Barra as pessoas sejam mais conscientes. É só ver como são bonitinhos e bem cuidados os jardins da Avenida Gastão Sengés. Vi muitos tipos de flores e plantas diferentes por lá, todas bem posicionadas. Um belo trabalho de paisagismo, de verdade.

O perfil de pedestres pela Avenida Gastão Sengés era praticamente o mesmo: quase todos com algum tipo de prática esportivas. Bicicleta, corrida, patins, skate. Tinha também os praieiros, é claro, figurinhas carimbadas pelos bairros da orla em dias abafados como esses últimos. A exceção populacional consistia em poucos gatos pingados, como eu, de máquina na mão, abordado pelo menos umas três vezes. “Você é paparazzi?”, perguntou um gaiato, aos berros, quando me viu do outro lado da calçada. Em outro trecho da rua, se aproximou uma moça, com sua filha pequena. “Que legal, você é fotógrafo?”. Respondi que, profissionalmente, não… “Ah tá, é que meu sonho é fazer um book“. Sorri. Já nos jardins perto da Rua Rosalina Brand, uma outra moça, dessa vez loira, bonita e despretensiosamente bem vestida, se abraçava às árvores e às flores enquanto um amigo a fotografava com a câmera do celular. A graça ali foi confirmar o que eu já tinha achado – os jardins da Gastão Sengés realmente são lindos, dignos de fotografias.


O estilo dos prédios da Avenida Gastão Sengés é modernoso, assim como é a Barra da Tijuca, de urbanização mais recente do que o resto da cidade. A proximidade com a praia e o ambiente bucólico favorece a prática de atividades físicas e a despretensão ao vestir-se.


Novamente os jardins da avenida, em dois momentos. Ali há uma variedade respeitável de espécies vegetais, todas bem posicionadas, algo não muito comum para as ruas do Rio.

Desculpem-me os barrenses, sei que vocês não aguentam mais ouvir essa piadinha dos anos 90, quando se falava que a Barra era a Miami do Rio, os Estados Unidos na América do Sul, que a Barra era uma “Beverly Rio’s”… Desculpa mesmo, mas não tem como não dizer o quão americanizado o bairro de vocês é. O estilo é legal, mas… os nomes dos lugares também incorporam esse american way of life. Além do Barra Garden Shopping, nas proximidades, com nome bem longe da língua portuguesa, encontra-se também por ali o Home Facilities Center. Assim mesmo, em inglês – Home Facilities Center. É uma espécie de shopping-galeria com lojinhas de apelo regional, compras de última hora e lanches. Até o estilo arquitetônico é americanizado, nem parece que você está no Rio de Janeiro. Mas… Home Facilities Center, assim, mesmo?!?! Pior que se isso fosse traduzido e implantado em português haveria gente dizendo que é “brega”. Já pensou um Centro de Facilidades para o Lar escrito no letreiro o impacto esquisito que provocaria? A questão é que não há nada mais cafona do que usar palavras e frases em inglês em território brasileiro assim, desnecessariamente. Opinião minha. Não sou radical, muito menos antiamericano, embora me considere um grande defensor do nosso idioma. Momento desabafo, pessoal, voltamos à nossa programação normal!


O encontro da Avenida Gastão Sengés com a Rua Rosalina Brand e a Avenida Prefeito Dulcídio Cardoso, onde está o canal da Lagoa de Marapendi.

A nossa rua de hoje desemboca lá na Avenida Prefeito Dulcídio Cardoso, que margeia a Lagoa de Marapendi. O que posso dizer para vocês, com muita sinceridade, é que esse trechinho é um dos lugares mais bonitos aqui do Rio no que diz respeito ao espaço urbano. Além dos jardins lindos, como vocês podem ver pelas imagens, essa avenida, a Prefeito Dulcídio Cardoso, comporta uma ciclovia compartilhada, com muitas árvores e ainda mais jardins! O diferencial ali, imbatível, fica por conta da lagoa, que nesse trecho é estreita, mais parecendo um canal. Uma pequena e simpática ponte verde conduz pedestres, devidamente autorizados, a embarcar no barquinho que os transportará à outra porção de terra da Barra da Tijuca, separada pelo canal. É neste outro lado onde está a Avenida Sernambetiba (atual Avenida Lúcio Costa, mas ninguém lembra…), a praia e a parte sul do Oceano Atlântico. O Leblon que se cuide, mas de luxo a Barra entende bem.

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