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Amor em tempos de pandemia

Cineminha e jantarzinho embalam os encontros virtuais em época de isolamento social

Por Leticia Quadros e Maria Lethicia Solanés* - Atualizado em 14 jul 2020, 18h02 - Publicado em 8 jun 2020, 19h30

Se, no início da quarentena, os casados contavam vantagem em cima dos solteiros, o jogo parece virar com o uso crescente dos aplicativos de relacionamento. Desde o início das medidas de restrição, serviços como Tinder, Bumble e Happn têm atraído mais gente. Só o Tinder registrou, dia 29 de março, o recorde de 3 bilhões de swipes (reação favorável ou contrária à foto de uma ou um pretendente). Embora uma parte das pessoas não necessariamente interessada em namoro, mas em compensar de alguma forma o isolamento social, a maioria recorre à tecnologia para não deixar suas vidas amorosas paradas. As facilidades recém-lançadas por esses aplicativos e as dinâmicas criativas para esquentar os primeiros encontros virtuais têm embalado a paixão nos tempos da pandemia.

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A fotógrafa Tati F. foi uma das pessoas que contribuíram para o salto de 15% nos acessos ao Tinder (o do Happn beirou os 18%). A liberação temporária do recurso passaporte, antes limitado a assinantes, respondeu por uma parcela desse aumento. Ao usar o recurso, Tati se transportou para os Estados Unidos e encontrou seu match americano, com quem tem conversado quase diariamente. A carioca de 26 anos e o novo amigo ou namorado combinaram de pagar um cineminha no primeiro encontro. Um cineminha, claro, adaptado aos novos tempos. Combinaram de ver o mesmo filme e depois conversar sobre a escolha comum. A ideia deu tão certo, que eles repetem o programa toda semana.

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Encontros remotos como os de Tati e seu par americano vem sendo correspondido entre os cariocas. O Rio é a terceira cidade mais visitada no Tinder, atrás só de São Paulo e Nova Iorque, à frente de Los Angeles e Londres, por exemplo. O desejo de buscar novos romances na quarentena foi contatado numa pesquisa realizada no mês passado pelo Happn. Para 62% dos brasileiros, a fuga da solidão é o principal motivo dessa busca. Na opinião do antropólogo Michel Alcoforado, sócio do Gro Consumoteca, a relação entre a vida amorosa e as novas tecnologias tende a se naturalizar. Ele projeta um avanço no uso dos aplicativos de relacionamento mesmo depois da pandemia. Acredita que se incorporem ao grupo de plataformas cotidianas, como Instagram, Facebook, Twitter e Tik Tok.

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Se antes os affairs eram formados em baladas, bares ou rodas de amigos, agora as alternativas digitais ajudam a impulsionar a vida amorosa e a sair do tédio. Pelo menos é o que diz a farmacêutica Ana Almeida, de 24 anos. Ela baixou um desses apps durante a quarentena e já soma quatro primeiros encontros virtuais.

Uma das experiências, conta Ana, desmistificou a ideia de que encontros virtuais são frios e distantes. Considerado “o encontro mais romântico de sua vida”, o date marcado pelo aplicativo teve direito a um delivery especial, direto do restaurante do seu match. O fundo de tela simulava um parque. Eles entraram no clima e aproveitaram a descontração e a leveza do encontro virtual para compensar as dificuldades impostas pela pandemia. Apesar da experiência memorável, Ana ressalva que “é preciso deixar todas as intenções bem claras, para que as conversas possam fluir de maneira agradável”.

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A psicóloga Carla Leitão, professora do Departamento de Psicologia da PUC-Rio, acredita que “a priorização desse espaço durante a pandemia pode amenizar os preconceitos em relação a ele”. Carla acredita que um dos legados desse período, para as relações virtuais, seja a redução das “barreiras críticas”.

Há muito, o estudante de administração Vitor Vidal já desmistificou a construção de relacionamentos por meio das plataformas digitais. Adepto dos aplicativos já antes da pandemia, o carioca segui a tática durante a quarentena. Acabou surpreendido, lembra ele, por uma proposta de um primeiro encontro virtual. No início Vitor achou o convite estranho, mas decidiu aceitar para ver se dava certo. E deu.
Depois de alguns encontros com a mesma parceira, o estudante avalia que um dos atrativos dos encontros virtuais é “poder conversar de uma forma mais livre”. A liberdade se converteu numa maratona on-line. Ele passou mais de oito horas conversando com seu date. Mesmo distantes, estão cada vez mais próximos.

Tati percebe a mesma vantagem: encontros digitais não raramente aprofundam o relacionamento. Para a fotógrafa, antes da quarentena “as pessoas se encontravam de maneira muito rápida, sem muita troca, e agora podem ter uma conversa mais longa e se conhecer melhor”.

Carla Leitão prevê uma redução da quantidade de pessoas receosas em usar aplicativos de relacionamento. No mundo pós-pandemia, projeta a psicóloga, haverá uma fluidez maior entre os ambientes digitais e presenciais.

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Coragem: não tenha medo de se jogar na nova experiência!

Leticia Quadros e Maria Lethicia Solanés*, estudantes de comunicação, sob supervisão dos professores da universidade e revisão de Veja Rio

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