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Obra inédita de Portinari ganha exposição no MAM

Há seis décadas em um acervo particular, o painel 'Bodas de Caná' é exibido ao público pela primeira vez no museu, a partir de quinta (14)

Por Carol Zappa - Atualizado em 12 set 2017, 20h26 - Publicado em 8 set 2017, 16h11
O painel ‘Bodas de Caná’ será exposto ao público pela primeira vez Rafael Adorján/Divulgação

Em 1956, Candido Portinari (1903-1962) terminava, depois de mais de cinco anos de trabalho, sua criação mais magistral: o gigantesco díptico Guerra e Paz, cada parte com 140 metros quadrados, encomendado pelo governo brasileiro para decorar a sede da ONU, em Nova York. No mesmo ano da conclusão de sua obra-prima, Portinari iniciou a pintura de outro painel, de proporções bem menores mas de características semelhantes. Feito também por encomenda, desta vez do amigo Francisco Clementino de San Tiago Dantas (1911-1964), jurista e ministro das Relações Exteriores e da Fazenda no governo de João Goulart, Bodas de Caná foi instalado no ano seguinte na sala de jantar de sua residência, em Botafogo, onde permaneceu durante sessenta anos, restrito à visita de familiares e pessoas próximas. Após a morte da viúva do político, Edméa San Tiago Dantas, em 2010, a pintura, legada em testamento ao Museu de Arte Moderna do Rio, será exposta ao público pela primeira vez, a partir de quinta (14).

Pintura a têmpera sobre madeira, o painel de 4,08 metros por 1,7 metro retrata a passagem bíblica do primeiro milagre de Jesus, ao transformar água em vinho durante uma festa de casamento, a pedido de sua mãe, Maria. “Há correspondências entre meu tio e Portinari em que eles debatem temas, personagens e toda uma iconografia a ser incluídos na cena”, conta Francisco de San Tiago Dantas Barbosa Quental, sobrinho do jurista, que foi vice-presidente do MAM entre 1951 e 1956. Retirada do nicho onde estava embutida no último apartamento de Edméa, na Lagoa, a pintura passou por pequenos reparos para a correção de even­tuais rachaduras e partes desprendidas, e depois foi transferida para o MAM, onde será exibida até 19 de novembro, no foyer do museu. O processo de remoção, deslocamento e restauro, patrocinado pelo Projeto de Conservação de Arte do Bank of America Merril Lynch, custou 19 000 dólares (cerca de 60 000 reais). Bodas de Caná vai somar-­se a outras dez peças de Portinari que atualmente se encontram no Museu de Arte Moderna do Rio. “Trata-se de uma das mais im­portantes obras do acervo, se não a mais. Um colírio para os olhos do público, que poderá ter uma ideia do tamanho de Portinari, que foi não apenas um pintor e retratista maravilhoso, mas também muralista”, diz Carlos Alberto Gouvêa Chateaubriand, presidente da instituição.

Equipe trabalha no restauro e na remoção do painel: processo em torno de 60 000 reais Rafael Adorján/Divulgação

A ocasião é, sem dúvida, mais uma rara oportunidade de ver de perto o trabalho de um dos maiores nomes das artes brasileiras, já que, desde sua morte (vítima de intoxicação pelo chumbo das tintas, aos 58 anos), 95% de sua obra está restrita a coleções particulares. Em 2010, a mais célebre criação do artista nascido em Brodowski, no interior de São Paulo, o painel Guerra e Paz, causou furor em visita ao Rio para restauro, atraindo mais de 20 000 pessoas ao Theatro Municipal, onde ficou exposto por uma semana. Fundador do Projeto Portinari, em 1979, o filho João Candido Portinari vem mapeando e registrando, incansavelmente, mais de 5 300 obras do artista, além de 30 000 documentos, entre recortes de periódicos e cartas trocadas com personagens importantes da geração do pai, de Carlos Drummond de Andrade a Jorge Amado. O herdeiro celebra o acesso público ao painel inédito: “Portinari pintou com tanta devoção para o povo brasileiro e sua obra segue hoje toda fragmentada. Por isso, a doação é de importância extraordinária, um licor tão especial que chega finalmente a seu destino”.

 

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Arte/Veja Rio

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