Relato de austríaco joga luz sobre o Rio de 200 anos atrás

O livro Viagem ao Brasil traz a visão de Franz Joseph Frühbeck, um jovem que acompanhou a chegada da imperatriz Leopoldina

› A imperatriz Leopoldina desembarcou aos pés do Morro de São Bento em 6 de novembro de 1817. Artista amador, Frühbeck retratou o momento de forma menos suntuosa do que o clássico registro de Debret (Franz Joseph Fruhbeck/ Acervo IMS/Divulgação)

Inspirada em pinturas e escritos deixados por artistas, naturalistas e outros visitantes do passado, a novela Novo Mundo recriou com esmero o Rio colonial, tal como a imperatriz Leopoldina (1797-1826) o encontrou há 200 anos. Bem-sucedido, o folhetim teve seu último capítulo exibido pela TV Globo no dia 25. Para quem estiver disposto a mergulhar nas origens dessa história, é boa-nova o lançamento de Viagem ao Brasil (Camera Books, 66 págs., R$ 30,00). O livro traz, traduzido pela primeira vez para o português, um relato do austríaco Franz Joseph Frühbeck publicado treze anos após a viagem feita por ele em 1817. Na edição, parceria do Museu Histórico Nacional com a ONG Instituto Oldemburg de Desenvolvimento, são descritos tipos e cenas da capital do império português, sede da corte, instalada por aqui em 1808. Sem mostrar grande compromisso com o rigor científico, o que torna a leitura da obra ainda mais divertida, Frühbeck era um jovem aventureiro e sonhador de 22 anos que entrou de gaiato na nau D. João VI, construída para levar a jovem Maria Leopoldina ao Brasil — e aos braços de dom Pedro I, com quem ela já havia se casado por procuração.

› Outeiro da Glória. Reproduzida com traço de estilo simples, a igreja era referência para os navegadores e delimitava o sul da cidade. A partir daquele ponto, chegava-se a Botafogo, subúrbio repleto de cafezais (Franz Joseph Fruhbeck/ Acervo IMS/Veja Rio)

 (Franz Joseph Fruhbeck/ Acervo IMS/Veja Rio)

Provavelmente por insistência de uma tia­-avó, dama de companhia de Leopoldina, Frühbeck, após duas recusas, conseguiu embarcar na última hora. Viajou como assistente de bibliotecário, função para a qual não tinha nenhuma experiência. As anotações do pioneiro penetra na corte reunidas em Viagem ao Brasil foram feitas junto com diversos desenhos e aquarelas, hoje pertencentes às coleções do Instituto Moreira Salles e da Sociedade Hispânica, sediada em Nova York. São paisagens do Rio (usadas para ilustrar esta reportagem), à época com pouco mais de 100 000 habitantes e algumas dezenas de ruas na região do Centro. “É surpreendente nos encontrarmos no meio de uma cidade na qual se pode distinguir perfeitamente cada viela, cada casa”, descreve, do alto de um monte. Com traço de toque simples, o jovem austríaco volta seu olhar para aspectos do cotidiano. Ele se vangloria de ser um dos primeiros a descrever as lonjuras de Botafogo, repleto de cafezais, e São Cristóvão, onde morou ao longo dos seis meses de rotina carioca. O trajeto entre sua casa e o Paço Imperial, hora e meia de viagem, era feito a bordo de uma canoa.

 (Franz Joseph Fruhbeck_ACERVO IMS/Divulgação)

O pintor Thomas Ender e o biólogo e explorador Von Martius eram dois dos nomes de prestígio na comitiva da imperatriz. Frühbeck carregava uma vantagem em relação a seus ilustres companheiros de viagem: como a embarcação de Leopoldina também trouxe sua biblioteca, o “assistente” incumbido de cuidar dos livros foi o único cronista do grupo a acompanhar de perto a principal passageira durante os 85 dias de travessia. Em alto-mar, ele testemunhou cenas como a Festa da Passagem da Linha (do Equador). “Não poderia deixar de desenhar essa festa tão cômica. Depois de Netuno ter chegado em sua carruagem e de ter subido em cima de um banco do navio, ele mandou sua guarda pessoal se apoderar do timão”, contou. Já em terra firme, registrou imagens preciosas, a exemplo do Passeio Público original, concebido por Mestre Valentim na segunda metade do século XVIII, e de uma concorrida praça de touros perto do Campo de Santana. Antes de se aventurar pelas páginas do livro, uma dica: fique atento às notas de rodapé. Nelas, a pesquisadora Maria Isabel Lenzi corrige tropeços e imprecisões cometidos pelo viajante acidental — e salva o leitor de tomar por verdade histórica alguma ficção típica de roteiro de novela.

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