Nova geração de talentos lota rodas de samba na cidade

Nomes como Pretinho da Serrinha, Juninho Thybau (sobrinho de Zeca Pagodinho) e Nego Alvaro levam adiante a tradição do samba e arrastam multidões

Alvaro Santos nasceu há 29 anos na comunidade do Catiri, em Bangu, e dia desses estava feliz da vida batucando entre estrelas da MPB, dentro de um baita apartamento com vista para a Praia de Ipanema. Levado pelo parceiro Pretinho da Serrinha para participar da Cantoria, tertúlia musical promovida na casa da empresária Paula Lavigne, Nego Alvaro, como é mais conhecido, gelou quando esbarrou com Gilberto Gil. “Vi o cara lá, tocando com a gente, queria dar meu CD para ele, mas, puxa vida, era o Gil, né? Não tive coragem”, lembra. Lançado há pouco mais de um ano, Cria do Samba, disco de estreia do jovem bamba, não foge ao gênero que o batiza, apesar de trazer no repertório versões para um rock (Extra II, o Rock do Segurança, do venerável Gil) e um rap (Hino Vira-Lata, do paulista Emicida). A nova geração, à qual pertencem Alvaro e Pretinho, é assim: ignora fronteiras entre estilos musicais e nem liga para distâncias como a que separa Catiri da Avenida Vieira Souto. Neste verão, para saber mais sobre essa turma, siga-a por aí. Na rua, nos palcos de clubes e casas noturnas ou no sofá de Paula Lavigne, a tradição das rodas de samba vai adiante, com público, repertório e protagonistas renovados.

Nego Alvaro Nego Alvaro, 29 anos: promessa, com um disco-solo lançado, o cantor e percussionista toca no Samba do Trabalhador, mas
já comanda as próprias noitadas

Nego Alvaro, 29 anos: promessa, com um disco-solo lançado, o cantor e percussionista toca no Samba do Trabalhador, mas<br / (Felipe Fittipaldi/Veja Rio)

Moacyr Luz é o fundador e líder do Samba do Trabalhador, um fenômeno das rodas que há doze anos leva multidões ao Renascença Clube, no Andaraí. Detalhe: sempre às segundas, e a partir das 4 da tarde, a festa frequentemente reúne mais de 1 000 pessoas. No conjunto que acompanha Moacyr, Nego Alvaro toca percussão e tem seu momento de brilho-solo quando canta o libelo contra o racismo Estranhou o Quê?. “O Alvaro é um grande instrumentista, intérprete de ótima dicção e está compondo muito. Aliás, a juventude está fazendo samba à vera”, atesta o chefe, antes de teorizar. “O pop é naturalmente, e por força do mercado, associado ao público mais novo. Para reagirmos a isso, é muito importante o surgimento, no mundo do samba, de uma garotada que fala a língua dos seus contemporâneos.” A “garotada” a que o mestre se refere ganha cada vez mais espaço e, em muitos casos, está no comando dos trabalhos. Nesse pelotão, que dá expediente o ano inteiro e sobressai às vésperas do Carnaval, o nome de Pretinho da Serrinha aparece na linha de frente.

+ 16 opções de rodas de samba (novas e tradicionais) na cidade

Cria de Madureira, nascido no Morro da Serrinha, que carrega no sobrenome artístico, Ângelo Vitor Simplício da Silva, 39 anos, está em todas. O começo foi duro, muito duro, mas o talento e a gana de fazer música o desviaram do destino triste de parentes e companheiros de infância. Sua mãe cumpriu pena por tráfico. “Da minha turma, lá atrás, o Thiago da Serrinha hoje toca com o (bandolinista) Hamilton de Holanda. Outros amigos morreram em troca de tiros com a polícia. De dezenove, restaram apenas cinco”, resume Pretinho. A ligação da família com o samba e o virtuosismo precoce na percussão lhe abriram as portas da bateria do Império Serrano aos 10 anos. Aos 13, o menino­­prodígio acompanhou uma excursão do tradicional Jongo da Serrinha pela Itália. Na volta da turnê, já era artista. “A música me salvou”, diz. Em rodas na cidade e em outros compromissos, esbarrou (e trabalhou) com gente como Dudu Nobre, Seu Jorge (de quem é parceiro em Burguesinha e Amiga da Minha Mulher, entre outros hits), Lulu Santos, Marcelo D2 e Paula Lavigne — ela foi sua empresária por três anos e segue amiga, anfitriã nas animadas sessões musicais da Cantoria.

Pretinho da Serrinha Pretinho da Serrinha, 39 anos: estrela da nova geração, o músico esbanja prestígio levando convidados como Marisa Monte, Iza, João Bosco e Roberta Sá para cantar junto

Pretinho da Serrinha, 39 anos: estrela da nova geração, o músico esbanja prestígio levando convidados como Marisa Monte, Iza, João Bosco e Roberta Sá para cantar junto (Felipe Fittipaldi/Veja Rio)

Pretinho não perdeu nenhuma oportunidade e ampliou o leque. Em 2017, bancou o ator duas vezes. No teatro, dividiu o palco com Maria Ribeiro e Carolina Dieckmann no espetáculo Ensaio sobre Alguma Coisa que a Gente Ainda Não Sabe o que É. No cinema, fez o papel de China, irmão do personagem principal, no filme Pixinguinha — Um Homem Carinhoso, de Denise Saraceni, inédito no circuito. Ainda encontrou tempo para tocar cavaquinho no show da americana Alicia Keys, em pleno Palco Mundo do Rock in Rio, um dia depois de conhecer a cantora americana na casa de… Paula Lavigne. Mesmo mais pop do que nunca, o músico voltou à roda. Em novembro e dezembro do ano passado, levou ao Circo Voador edições do seu Samba Iaiá, apresentação com convidados ilustres do naipe de Marisa Monte, João Bosco, Iza e Roberta Sá, entre outros. As duas noites de casa cheia garantiram a continuidade do projeto: até o fim de janeiro, o Samba Iaiá volta a acontecer em novo endereço — e já estão confirmadas duas edições no Camarote Rio Exxperience, na Sapucaí, nos desfiles do Sambódromo. O estouro de Pretinho da Serrinha empolga músicos mais novos e, pelo menos por enquanto, menos conhecidos. Como cada um quer chegar lá à própria maneira, o samba agradece.

Dona de tranças cor-de-rosa e vozeirão exuberantes, Marcelle Motta, 32 anos, nasceu em Juiz de Fora e mudou-se para o Rio ainda criança. Por aqui, deu os primeiros passos musicais soltando a voz na Igreja Messiânica e, depois, ensaiando com uma banda de pop rock. O samba chegou tarde, mas ficou. Frequentadora da roda do Grupo Arruda no Centro Cultural Cartola, ela tornou-se amiga dos músicos, e certa vez foi convidada a dar uma palinha. “Entrei no grupo e não parei mais. No começo, sabia apenas três sambas, mas passei a estudar com afinco e me apaixonei por Cartola, Paulo César Pinheiro, João Nogueira, Dona Ivone, Jorge Aragão”, conta. A roda, hoje, é seu hábitat. “Sinto uma energia surreal, saio extasiada”, diz. Quem já a ouviu sabe que não é exagero: a moça é elogiada e incentivada por artistas como o violonista e produtor musical João de Aquino e o cantor e compositor Jorge Aragão. Marcelle bate ponto em batucadas variadas, do Beco do Rato, reduto concorrido na Lapa, à Festa da Raça, na Praça Tiradentes, passando pelos ensaios do Bloco Spanta Neném, na Lagoa. “A roda é acessível, é democrática e não custa caro. Tem de ser valorizada”, convida.

Marcelle Motta Marcelle Motta, 32 anos: a cantora solta seu vozeirão em eventos que vão desde batucadas na Lapa até ensaios do bloco Spanta Neném, na Lagoa

Marcelle Motta, 32 anos: a cantora solta seu vozeirão em eventos que vão desde batucadas na Lapa até ensaios do bloco Spanta Neném, na Lagoa (Felipe Fittipaldi/Veja Rio)

Solidariedade é uma marca da nova geração nas rodas de samba cariocas. A relação bem próxima de toda a turma lembra Quadrilha, o famoso poema de Drummond. Exemplo: Pretinho da Serrinha produziu o disco de Nego Alvaro, que costuma dividir o palco com Marcelle Motta, que, por sua vez, é apaixonada pelo repertório de João Martins — assim como Nego Alvaro e Pretinho. João, 33 anos, filho de músico (o cavaquinista Wanderson Martins, que tocou com Martinho da Vila por 25 anos), foi criado no samba de raiz. Já deu expediente no Renascença Clube, na quadra do Cacique de Ramos — influência maior das rodas a partir dos anos 80, com o surgimento do grupo Fundo de Quintal — e no Pagode da Ciça, no Irajá. Hoje, diverte-se na Pedra do Sal, no Terreiro do Crioulo, “roda com muita energia, num quintal arborizado, em Realengo”, na Pede Teresa e na Feira da Glória, entre outros cantos. “Minha mulher bota comida em várias rodas, então acabo frequentando os lugares com ela, para ajudar, e dou minhas canjas”, conta, modesto (ou malandro) demais para quem já tem dois discos lançados e duas canções gravadas com a inigualável Dona Ivone Lara.

Parceiro de João Martins no samba Minha Meta, Juninho Thybau, 31 anos, é cantor e compositor. Há um ano, pensando em “levantar algum dinheiro para investir na carreira”, inaugurou uma roda na rua, de graça, bem em frente à própria casa. O retorno financeiro viria da venda de bebida — além de vodca e uísque, latinhas de cerveja acondicionadas em baldes de plástico cheios de gelo, prática comum nas batucadas por aí. “Hoje em dia tudo é filmado e cai na rede. Acho que o pessoal, depois de ver na internet, ficou curioso”, arrisca Thybau, tentando entender o enorme sucesso do festejo, conhecido como Na Porta de Casa. Em frente ao número 20 da Rua Marinho Pessoa, no bairro do Irajá, todo segundo domingo do mês, a massa feliz interdita a via para cantar junto dos músicos. Nomes ilustres, como Diogo Nogueira, Monarco e Zeca Pagodinho, tio de Juninho, já deram canjas históricas ali. Empolgado, ele acha que o bom momento não tem hora para acabar. “Estávamos precisando disso para o samba voltar a se democratizar, em vez de ficar restrito a shows com ingresso caro ou ao Carnaval”, analisa.

Juninho Thybau Juninho Thybau, 31 anos: o sobrinho do bamba Zeca Pagodinho criou a roda Na Porta de Casa, no Irajá, fenômeno de público que já ganhou canjas do tio ilustre e do veterano Monarco

Juninho Thybau, 31 anos: o sobrinho do bamba Zeca Pagodinho criou a roda Na Porta de Casa, no Irajá, fenômeno de público que já ganhou canjas do tio ilustre e do veterano Monarco (Felipe Fittipaldi/Veja Rio)

Além de democráticas, as rodas andam em sintonia com as questões (e conquistas) de hoje. Sem perderem a reverência por Cartola, Candeia e outros ídolos de tempos idos, os novos bambas arriscam-se por temas atuais, despindo-se de preconceitos de outrora. É bom exemplo dessa linha Eu Vos Declaro, parceria de Fernando Procópio com Flávio Galiza. Sobrinho e neto de integrantes da Velha Guarda da Portela (Serginho Procópio e Osmar do Cavaco, respectivamente) e bisneto de Lalau do Bandolim, nome respeitado no choro, Fernando Procópio orgulha-se de representar “a quarta geração de artistas da família”. É dele a letra que diz “Eu vos declaro marido e marido / Eu vos declaro mulher e mulher / Hoje a união tem um novo sentido / Tudo é permitido, casa quem quiser”. Fã de Candeia e Jorge Aragão, mas também de Gabriel, o Pensador e Racionais MCs, Procópio não se considera ousado. “Fazemos samba, não estamos inventando a pólvora, mas a linguagem que a gente usa é a do nosso tempo”, diz. Eu Vos Declaro foi testada e aprovada na roda Aos Novos Compositores, realizada no Beco do Rato duas terças-feiras por mês. Nos encontros, o público é apresentado a canções recém-criadas por um grupo de 26 autores e reunidas em um caderno.

Só que a cada quatro meses o caderno é trocado e entram em cena mais inéditas. “Há um entendimento geral de que não existe renovação. Você sempre vai ouvir Candeia, Zeca, Fundo de Quintal, mas isso não quer dizer que não estejam sendo produzidas novidades”, opina João Grand Jr., funcionário do Instituto Pereira Passos, órgão da prefeitura dedicado a projetos de desenvolvimento para a cidade. Grand Jr. defendeu uma premiada tese de doutorado em geografia econômica, batizada de “Cultura, criatividade e desenvolvimento territorial na cidade do Rio de Janeiro — O caso da Rede Carioca de Rodas de Samba”. Também um dos fundadores da Rede Carioca de Rodas de Samba, organização da sociedade civil voltada para o estudo e o aprimoramento das condições da batucada no Rio, ele reuniu dados expressivos em seu trabalho acadêmico. Um mapeamento iniciado em 2015 registrou 150 rodas espalhadas pela cidade. Outro estudo, de 2016, feito com cinquenta rodas, apontou potencial de consumo, apenas nesse universo, em torno de 1,3 milhão de reais por mês. “A crise diminuiu esse valor, mas posso afirmar que a intensificação do número de rodas continua. Acaba uma, surgem duas, três”, diz.

Além de efetivamente contribuir para a economia local e garantir diversão nos quatro cantos do Rio, a roda é um patrimônio cultural. No Dicionário da História Social do Samba (Civilização Brasileira), de Nei Lopes e Luiz Antonio Simas, o verbete dedicado à expressão roda de samba assim a define: “o fenômeno verifica-se desde antes de seu desenvolvimento como gênero e da organização das agremiações do tipo escola de samba”. Ela merece respeito, portanto, mas às vezes ainda é tratada como nos primórdios, no começo do século XX, quando batidas da polícia interrompiam a festa na casa de Tia Ciata, a matriarca do samba brasileiro. Em julho do ano passado, Nego Alvaro, o promissor talento citado no início desta história, saía do Beco do Rato, seu local de trabalho, quando, após algum bate-boca sem sentido, foi levado à 5ª DP por agentes do projeto de segurança Lapa Presente. A cena kafkiana incluiu quarenta minutos de espera na delegacia e mais nada, nenhuma explicação. “Fiquei mal, com medo, depois passou. É um episódio que parece ridículo, mas, infelizmente, ainda acontece todo dia com algum dos nossos”, diz o músico. Desse enredo ninguém vai sentir falta.

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