Exposição e festival de música celebram 50 anos do tropicalismo

Inspirada por disco-manifesto, a mostra no CCBB reúne obras de artistas ligados ao movimento, além de shows de Tom Zé, Pato Fu, Céu e Pedro Luís

Pato Fu: releituras da época e sucessos próprios na abertura do festival Quanto Mais Tropicália Melhor (Nino Andres/Divulgação)

Em 21 de outubro de 1967, a plateia do 3º Festival de Música Popular, da TV Record, foi arrebatada pela modernidade contestadora de Alegria, Alegria, interpretada por Caetano Veloso, e pela intrepidez das guitarras de Domingo no Parque, defendida por Gilberto Gil com Os Mutantes. Na mesma época, o artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980) exibiu a instalação Tropicália — um labirinto de madeira, areia, plantas tropicais e araras —, cujo nome batizaria o movimento que desnorteou a cultura brasileira em plena ditadura. Lançado no ano seguinte, o álbum-manifesto Tropicália ou Panis et Circensis reuniu, além dos artistas citados, Gal Costa, Tom Zé, Nara Leão e os poetas Torquato Neto e José Carlos Capinam. O LP dessa turma, não por acaso, é a espinha dorsal da exposição Tropicália — Um Disco em Movimento, celebração dos cinquenta anos do tropicalismo, que ocupa o CCBB a partir de sexta (18). Como o assunto é música, a praça vizinha do Centro Cultural Correios vai abrigar shows de Pato Fu e Céu, no dia de abertura, e de Pedro Luís e A Parede com Tom Zé, no sábado (19).

Na mostra, as doze faixas daquela histórica bolacha de vinil serão associadas a obras de artistas plásticos ligados ao movimento, trechos de filmes, recortes da imprensa e arranjos sonoros variados. A intenção é jogar luz sobre um fenômeno que se encaixa como poucos na famosa máxima do apresentador Chacrinha (outra inspiração para os tropicalistas): “Eu vim para confundir, não para explicar”. O desafio é grande. “A tropicália é um termo presente no imaginário, mas nunca foi bem definido. Alguns dizem que foi mais um momento do que um movimento. Esse recorte físico ajuda a entender o contexto”, diz Isabel Seixas, curadora da exposição ao lado de Diogo Rezende, seu sócio no estúdio M’Baraká, e do historiador Fred Coelho. A tropicália será recontada por meio de obras de, entre outros, Rubens Gerchman — autor da capa do disco e da tela Lindonéia, que inspirou a canção de Caetano e Gil imortalizada na voz de Nara Leão —, Artur Barrio, Antonio Dias, Wanda Pimentel, Glauco Rodrigues e Claudio Tozzi. Deste último, o quadro Guevara, Vivo ou Morto, escolhido para dialogar com a canção Três Caravelas, será exibido pela primeira vez em circuito público no Brasil. Oiticica está representado pela bandeira Seja Marginal, Seja Herói, de 1968, estampada com o corpo do bandido Cara de Cavalo, a primeira vítima ilustre de uma chacina policial.

Tom Zé: um dos fundadores da tropicália, o irreverente baiano passeia por seus clássicos no sábado (19) (Andre Conti/Divulgação)

O baiano Tom Zé, 80 anos, talvez seja o mais tropicalista dos tropicalistas, mas mantém a modéstia: dá todo o crédito a seus conterrâneos célebres e diz que “só estava por perto” quando tudo aconteceu. “Nos anos 60, diante da ditadura, houve sacrifícios muito significantes e doloridos, mas, no campo das atividades artísticas, o tropicalismo de Gil e Caetano provou que a forma podia ser muito mais subversiva que o esforço e até que a beleza do discurso engajado. Foi libertário”, teoriza Tom Zé. Atração maior da parte musical da festa, organizada pela jornalista Monica Ramalho, o cantor e compositor vai lembrar ao vivo seus clássicos da época, a exemplo de Parque Industrial, ou 2001, parceria dele com Rita Lee, feita em 1969, e uma versão inédita de Tropicália. Na véspera, o palco será inaugurado pela banda mineira Pato Fu, da cantora Fernanda Takai. No repertório do grupo estão garantidas Ando Meio Desligado, dos Mutantes, e Lindonéia, que a intérprete gravou no seu belo projeto-solo em homenagem a Nara Leão. “Quando fui fazer shows no Japão, Lindonéia era um momento emocionante, pois nunca foi mostrada ao vivo pela Nara. Ver a reação provocada pela canção em um povo do outro lado do mundo, que nem fala a nossa língua, diz muito sobre a história brasileira que estava sendo escrita naquele período”, conta Fernanda. Após cinquenta anos, e depois de dar a volta ao mundo, a tropicália continua muito viva.

(Arte/Veja Rio)

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