Com nova exposição, Nelson Leirner fala com franqueza sobre tudo

Arte, política e até o Rio de Janeiro foram pauta para o artista de 86 anos

 

 

 

 (FABIO CORDEIRO/Veja Rio)

Próxima atração da Galeria Silvia Cintra + Box 4, a exposição A Nova Revolução Industrial abre as portas no sábado (17). A duas semanas do vernissage, Nelson Leirner, o nome à frente da mostra, ainda não foi apresentado aos construtores das obras que ele vai exibir no espaço da Gávea: artesãos cariocas fizeram as dez tapeçarias com dimensões e estampas definidas pelo artista, nascido em São Paulo há 86 anos. O trabalho com assistentes é comum na história da arte, vai de Da Vinci ao contemporâneo Damien Hirst, mas Leirner tem lá suas razões. “Confesso que estou um tanto preguiçoso, quanto menos me movimento, mais me é satisfatório”, diz. Há duas décadas radicado no Rio, o criador prestigiado, famoso pelo estilo experimental e provocador, está diminuindo o ritmo. Dificuldades de mobilidade o levaram a fechar o ateliê montado no prédio onde mora, no Jardim Botânico. Irrefreável, no entanto, o pensamento voa alto. Leirner já planeja a próxima exposição, com influência do cinema, e calcula ter dois anos de trabalho pela frente. “A vida é uma longa caminhada. Não vou voltar a criar com minhas próprias mãos, mas nem sei o que quer dizer parar. Só se encontrasse, nesta altura, outra coisa de que gostasse muito de fazer. Ou se desenvolvesse Alzheimer”, resume, com o humor ácido e franco que permeia suas obras, além das opiniões sobre tudo.

O enfant terrible da arte nacional ganhou notoriedade há meio século: em 1967, enviou um porco empalhado (e engaiolado) para o Salão de Arte Moderna de Brasília. Quando o suíno foi aceito pelo júri, seu criador decidiu questionar publicamente os critérios do concurso, dando início a um animado capítulo na eterna discussão sobre o que é (e o que não é) arte. “Quando você faz um hap­pening é impossível saber o que vai acontecer, mas o objetivo era mesmo desencadear um processo”, lembra (veja na galeria abaixo outras de suas históricas provocações). O cenário atual ainda instiga seu lado crítico. “Sinto-me como um papel-­carbono, minha arte é feita a partir do meu conhecimento. Hoje querer ser artista é um modismo, não consigo entender esse encanto”, avalia. Sua perplexidade se estende à política. Leirner desafiou a ditadura militar em edições da Bienal de São Paulo e em criações como a premiada série Rebelião dos Animais, de 1974. Agora, recolheu-se. “Fui de esquerda, não sou mais, de direita nunca fui. Nem com meu filho consigo conversar, acabou o diálogo”, lamenta.

 

O alvo das tapeçarias reunidas em A Nova Revolução Industrial é a presença opressiva da tecnologia. Nas criações de sua próxima individual, Nelson Leirner acena com o artesanal, inspirado pelo escritor Umberto Eco (1932-2016) e por bordados de Alighiero Boetti (1940-1994), ambos italianos. Na galeria, uma mesa vai exibir desenhos dos esboços do artista e fotos da rotina dos tapeceiros. “A nova Revolução Industrial pensada por ele é uma utopia. Não significa, no entanto, um recuo saudosista. É um ato de revolta contra a aceleração do trabalho”, opina a curadora, a historiadora Lilia Schwarcz. Quando não está criando, o artista leva a vida com tempero high-tech: curte seriados e filmes na Netflix, conversa com sua marchande, Silvia Cintra, pelo WhatsApp e lê jornais on-line. Na rua, prefere dois dedos de prosa ao vivo com o bicheiro vascaí­no que bate ponto na vizinhança. Liliana Leirner, com quem divide o lar e Dog, um cão da raça schnauzer, foi o motivo de sua mudança para o Rio. O casal se conheceu quando ele tinha 38 anos e ela, 18. Três décadas, seis casamentos, quatro filhos e quatro netos depois, ele a reencontrou e deixou São Paulo — mas não muito. Depois de duas décadas, ainda critica a cidade que adotou. “É muito provinciana, e o calor é terrível”, reclama. Uma figuraça. ß

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