Livraria no Centro faz saldão de livros com grife

Em funcionamento provisório – o espaço definitivo, remodelado, deve reabrir em julho –, a tradicional Leonardo da Vinci oferece obras de seu acervo a 20 e 40 reais

Um dos debates na alentada programação do 1º Festival das Livrarias do Rio (que vai até o dia 31 e você confere aqui chama-se “A Cidade e os livros – homenagem à livreira Dona Vanna”. Em 1952, Vanna Piraccini, 89 anos, fundou a Livraria Leonardo Da Vinci, ao lado do marido, Andrei Duchiade. Imigrantes de origem romena, os dois fizeram história no universo das letras carioca, atendendo escritores como Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa, entre muitos outros. No ano passado, acossada pela concorrência digital, a casa ameaçou fechar, o que provocou comoção – e correria às prateleiras. Livreiro com dezessete anos de experiência na rede Saraiva, o gaúcho Daniel Louzada comprou o negócio, organizou saudável transição com as proprietárias (Dona Vanna e sua filha, Milena, tocaram o negócio a partir da morte do patriarca, em 1965) e promete reabrir a casa em julho, remodelada, mas preservando sua história. Entre os muitos preparativos para a reinauguração, que incluem o debate sobre Dona Vanna no corredor em frente à livraria, na sexta (27), às 19h, e uma atraente queima geral de estoque, já em vigor, Louzada conversou com VEJA RIO. A propósito, para quem chegou agora de Marte: a Da Vinci fica, desde 1956, na Avenida Rio Branco, 185, no subsolo do conhecido edifício Marquês do Herval.

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Quando a nova loja vai reabrir?Nossa previsão é no início de julho, com toda a estrutura renovada. Mas, desde 5 de maio, estamos atendendo em uma loja provisória, em frente, numa sala desocupada. Estamos vendendo o acervo remanescente da Da Vinci, e já inserindo o acervo novo, retomamos alguns fornecimentos, que não eram correntes.

Qual foi o patrimônio que você assumiu quando comprou a livraria?Houve uma queima geral a partir de maio de 2015, quando se tornou pública a ameaça de fechamento da livraria. O acervo não foi renovado desde então. Com o anúncio do fim, houve um fluxo enorme de clientes, gente que não vinha há anos. A livraria tinha milhares de livros com marcações de preço anteriores ao euro, em pesetas, marcos. No primeiro mês, naquela comoção, a livraria faturou quatro vezes mais do que num mês normal. No tempo subsequente, houve faturamento acima da média. O acervo foi diminuindo sensivelmente. Mesmo assim, herdei 15 000 exemplares. Há muitas preciosidades ainda, já que grande parte da coleção é composta de exemplares únicos. Até a abertura da nova loja, qualquer livro de literatura e ciências humanas estará à venda por 20 reais e os livros de arte estão a 40 reais. Tem muita coisa boa, um volume com obras completas de Oscar Wilde, por exemplo, e, como uma parte dos exemplares está encaixotada, nós renovamos o acervo exposto a cada quatro dias. É bom frisar: não são livros usados, são raridades que não tiveram giro, estão há muito tempo na loja. No acervo novo, que já está chegando em número considerável, também oferecemos promoções exclusivas.

A Da Vinci é um endereço histórico. O que muda na sua gestão?Pelas próprias dificuldades que a Da Vinci enfrentou, em razão de um modelo que precisava de atualização, conclui-se que alguns focos deveriam ser, não suprimidos, mas atenuados. Por exemplo: o foco em livros importados. O consumo de livros importados mudou, sobretudo com a entrada das redes, do comércio digital. Não vamos fazer importações em 2016, retomaremos essa ação em 2017, mas com um espaço menor. Vamos privilegiar o acervo de editoras brasileiras, produzido aqui. As áreas preferenciais, marcas registradas da casa, continuam as mesmas: ciências humanas, ciências sociais. Vamos aumentar seções como a de HQ, outra tradição local, além das áreas de interesse geral, como gastronomia, turismo. Daremos uma ênfase maior na literatura de ficção, que não é a tradição da Da Vinci, mas o recorte vai ser para um leitor mais experimentado, com mais repertório. A ênfase no best-seller não é racional do ponto de vista do nosso modelo de negócio. 

Best-sellers, definitivamente, não combinam com a Da Vinci.Não teremos restrição a nenhum livro. A Milena (Duchiade, filha dos fundadores e gerente da livraria por décadas) lembra-se de um cliente que dizia: “quando tenho um livro difícil eu venho aqui procurar”. A verdade é que a Da Vinci sempre teve também os livros “fáceis”, os mais vendidos, disponíveis junto com livros que ninguém tem no centro do Rio. Agora, somos uma livraria independente, não faz sentido ter pilhas de Padre Marcelo, de 50 Tons de Cinza, na porta da loja. Nós ocupamos um espaço que não é o de uma rede, podemos dar respostas rápidas, oferecer o que o cliente quer. Um bom exemplo dessa agilidade é a Blooks, um modelo que gosto muito. Procuraremos atender o cliente que busca surpresa, ele vai visitar a loja duas vezes seguidas e não vai encontrar os mesmos livros – nem vai encontrar os mesmos que já viu na concorrência.

A decoração da loja vai mudar muito?Estamos trabalhando sobre ombros de um gigante, somos a continuação de uma bela história, a da Dona Vanna, de sua filha Milena, livreiras que deram contribuição enorme à profissão. O desafio é conciliar continuidade e renovação. Levando isso em conta, vamos mudar completamente o espaço, que antes era labiríntico, com estantes até o teto. A livraria, indevassável, não era vista do corredor. Unimos as três lojas que compunham o complexo (a terceira vivia fechada, guardava o acervo vendido na Estante Virtual) e vamos oferecer um espaço contínuo de 270 metros quadrados. A loja vai ser aberta para o corredor, estará à vista dos passantes. Vamos ter um café, internet poderosa, dezoito pontos para o cliente sentar, entre poltronas, pufes, cadeiras. Vai haver mais conforto, um ambiente mais arejado que vai mostrar melhor a seleção do livreiro. Chega livro todo dia, devolvemos livro todo dia, verificamos o que deu certo e o que não deu, e agora vamos poder apresentar o resultado dessa curadoria diária em um espaço mais agradável. A Da Vinci fica em um ponto privilegiado do Centro, perto de equipamentos culturais, o VLT vai passar em frente. Temos potencial para virar ponto turístico.

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