No ar em quatro programas, Felipe Bronze multiplica seus negócios

O chef faz até quinze eventos por mês, investe em aplicativo, assina projetos para marcas diversas e se prepara para abrir casas em São Paulo e Portugal

Metáforas futebolísticas têm a virtude de funcionar em vários campos. Na gastronomia, por exemplo, pode-se dizer que Felipe Bronze, torcedor do Fluminense, é uma espécie de Fenômeno das panelas. Como o original, o artilheiro Ronaldo Nazário, o chef carioca tem trajetória recheada de grandes conquistas e tombos retumbantes, seguidos por belos exemplos de superação. Na biografia do craque cabem Copas do Mundo, vexames com a Amarelinha, jogadas inesquecíveis em grandes times da Europa, lesões trágicas, voltas por cima e uns micos de tamanhos variados. Bronze pega mais leve, vamos convir, mas também alternou caneladas com gols de placa. O momento, porém, é de glória: dono de restaurantes premiados e bem-sucedidos, estrela de programas de TV com ótimos índices de audiência, o cozinheiro de 40 anos agora acerta os detalhes para inaugurar em Portugal seu primeiro negócio estrangeiro. Após uma tentativa frustrada de levar seu endereço de alta gastronomia, o Oro, para Miami, a ideia da carreira internacional ganhou novos contornos na terrinha. Curiosamente, o projeto tomou forma através de uma tabelinha com outro mestre da bola: Anderson Luís de Souza, o Deco, ex-jogador brasileiro que, naturalizado, brilhou na seleção portuguesa ao lado de Cristiano Ronaldo.

Em maio de 2017, Felipe Bronze visitou Lisboa para participar de um festival com chefs renomados de países da América Latina e da Península Ibérica. A vibrante cena cultural na capital lusitana despertou o velho desejo de abrir um restaurante além-mar. Obstinado, ele voltou à cidade em seis ocasiões para pesquisar imóveis. Em uma delas, foi sur­preendido por um telefonema de Deco. “A gen­te tem amigos em comum. Ele ficou sabendo dos meus planos e propôs entrar no negócio”, resume Bronze. O ex-jogador conseguiu mais do que isso: convenceu o mestre-cuca a mudar seu destino para o Porto, cidade também fervilhante, mas sem a saturação de Lisboa. Em maio próximo, o chef embarca novamente. Na principal cidade da região do Douro, vai assinar o contrato de locação para montar um restaurante com o novo sócio. Ainda está decidindo se exporta o modelo do Pipo, mais descontraído, ou o do requintado Oro. A definição dependerá muito do lugar escolhido. “Sempre quis levar o estilo despojado do Rio para o mundo. Quero usar design e trilha sonora brasileiros, mas sem aquela coisa temática, com arara e folha de bananeira na decoração”, conta. O projeto da dupla é expandir a empreitada por outros países da Europa. O empurrão que falta para tamanha ambição pode vir da parceria com a empresa de revestimentos espanhola Consentino, perto de se firmar. Bronze, em contrapartida, deverá ser o novo embaixador da marca. Ele está com aquela confiança do atacante que, de qualquer lugar, chuta e acerta o gol.

Reprodução

Reprodução (Reprodução/Veja Rio)

Razões para tanto não faltam. Na contramão de um cenário de retração particularmente penoso no ramo de restaurantes, prepara-se para abrir, no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, dentro de três meses, a primeira filial do Pipo. Em outra arena, a da TV, Felipe Bronze está jogando fácil. No ar em quatro programas de culinária, é o cozinheiro brasileiro mais requisitado nos canais por assinatura. O apresentador não tem o carisma de uma vovó Palmirinha, a pioneira estrela paulistana das cozinhas de estúdio, nem o charme do colega francês Claude Troisgros, mas compensa tudo com muita dedicação. “Felipe é inquieto, louco por novidades e briga por isso nos programas. Dá palpites, do cenário ao roteiro, envolve-se e, assim, foi conquistando espaço”, explica Mariana Koehler, diretora artística do GNT. Fontes no meio calculam que o trabalho na TV em 2018 vá render ao chef algo em torno dos 500 000 reais. Bronze já havia participado de quadros no Fantástico, a partir de 2004, e de uma produção curta, Tá na Época, exibida no canal a cabo, mas foi com Que Seja Doce, campeão de audiência do GNT, que ganhou status de estrela do time. Ele deu o pontapé inicial, procurando a diretora do canal, Daniela Mignani, e, na falta de coisa melhor, foi convidado a comandar o reality show de confeitaria. “Não entendi nada na época, mas aceitei”, lembra. A boa campanha desde a fase inicial, em 2015 — Que Seja Doce já ultrapassou os 160 episódios e segue em cartaz —, o levou à convocação para o The Taste Brasil, que estreia a quarta temporada na quinta (26).

Reprodução

Reprodução (Reprodução/Veja Rio)

Em meio a um caldeirão de programas do gênero, o cozinheiro-apresentador ainda conseguiu tirar do chapelão ideias originais. A experiência com preparos na brasa, no dia a dia do restaurante Oro, o inspirou. “Ficava com água na boca. A cebola tostando, o barulho, a fumaça, nenhuma outra técnica de cozinha fica tão instigante na TV. É tesão do início ao fim”, decreta. Prova de que Bronze tinha razão, Perto do Fogo estreou em março de 2017, em edições semanais. O projeto ganhou presença diária na programação, inspirou o lançamento de um livro e, no segundo semestre, terá uma temporada gravada em Portugal. Uma explicação para tamanho acerto foi a conquista de público-alvo menos explorado nesse ramo: o espectador masculino. Esse cidadão contemporâneo, ajustado aos princípios da sociedade atual, que já não passa horas acompanhando futebol, vai encontrar um meio-termo em Jogada de Chef, uma série de encontros com seis jogadores brasileiros que vivem na Europa. A quarta e mais recente produção televisiva estrelada por Felipe Bronze estreou no GNT, passa no dominical Esporte Espetacular, da TV Globo, e chega ao SporTV em 6 de maio. A produção para a exibição em canais e horários variados, cada um com seu perfil de público, é insana. “As entrevistas duravam cerca de quatro horas, com intervalos de quinze minutos. Às vezes íamos das 20 horas até a 1”, conta o jornalista Luís Nachbin. Diretor do Jogada de Chef, ele acha que a experiência de jogar no limite foi proveitosa. “O cansaço natural deu ao Felipe uma adrenalina interessante, tanto que vários bons momentos dos episódios surgiram depois de três horas de gravação”, diz o técnico Nachbin.

No programa que vai ao ar na segunda (23), Bronze dá seu toque ao fish and chips, clássico da cozinha inglesa, enquanto bate papo com Philippe Coutinho e a esposa, em Liverpool — o jogador, promessa brasileira na Copa da Rússia, trocaria, em seguida, o time local pelo Barcelona, em uma transação de 163 milhões de euros, contada em primeira mão durante a gravação. Como outros craques no topo, Felipe Bronze trata de não perder as oportunidades. A exposição na TV abriu as portas para a realização de eventos, de doze a quinze por mês, a preços que variam de 40 000 a 100 000 reais. Diversificada, a agenda já abrigou um jantar para 1200 comensais em uma comemoração do Banco Bradesco e números de pirotecnia com nitrogênio líquido e outras técnicas de vanguarda em shoppings. Em uma apresentação que envolveu receitas na brasa, sua mais recente aposta, ele dividiu com os lutadores de UFC Rodrigo Minotauro, Lyoto Machida e Amanda Nunes o preparo de um churrasco de frutas, vegetais e frutos do mar. “O chef de cozinha virou uma atração. O que faço é conectar seu talento ao mercado corporativo, propondo eventos criativos”, explica seu agente, Fabio Moreira. Outro profissional do gênero, Pedro Tourinho, da agência MAP, que tem entre seus clientes a cantora Anitta e a atriz Fernanda Paes Leme, foi contratado para desbravar o segmento publicitário. O trabalho, ainda no início, rendeu uma ação digital para uma famosa marca de carros. Mais para um Neymar do que para um Fenômeno, na hora de faturar, Bronze ataca em várias outras frentes (veja o quadro ao lado). Sua assinatura aparece em livros, linha de louças e até café premium.

A promissora estreia do chef, aos 24 anos, foi no Zuka, reduto de comida contemporânea no Leblon. Depois vieram alguns tombos bastante pedagógicos: seus primeiros restaurantes, por exemplo, foram fracassos exemplares. O Z Contemporâneo, em Ipanema, oferecia comida arrojada e inovações no serviço, o que talvez tenha sido ousadia demais para o público de 2002. Essas características, aliadas ao preço alto, afundaram o negócio em dez meses. Outra investida, o Mix by Bronze, no mesmo bairro, durou um ano. Como a torcida não perdoa, as derrotas, na conta de um jovem cozinheiro com opiniões fortes e sem papas na língua, desenharam um personagem arrogante, pouco simpático, já desmitificado. Em 2010, surgiu a proposta do empresário Eurico Cunha para a abertura do Oro. Bronze era, então, funcionário da casa. O primeiro ano foi difícil. “Estávamos prestes a fechar. O Eurico queria oferecer almoço com bufê, serviço à la carte no jantar e menu degustação”, lembra. Alguns prêmios conquistados, justiça seja feita, tanto com raça quanto com criatividade, trouxeram a tranquilidade necessária para o trabalho seguir. Após cinco anos, Bronze rompeu com o empresário, mas ficou com as marcas Oro e Pipo.

O resto é história, daquelas com desfecho feliz. “Com os erros, que foram fundamentais para o seu crescimento, ele encontrou seu lugar. Hoje reconhecemos o estilo Felipe Bronze na primeira mordida”, atesta o mestre Claude Troisgros, seu adversário no reality show The Taste Brasil. “Felipe é competitivo, não gosta de perder. Quando o dia não vai bem pra ele, ele fica arrasado, conversa pouco. Quando é bom, quer sair para jantar, bater papo, beber”, revela o chef francês. Essa vida de estrela deixa pouco tempo para a rotina com a mulher, a sommelière argentina Cecilia Aldaz, e o filho, Antonio, 4 anos, no apartamento em que moram, alugado, no Leblon. A churrasqueira na varanda, igual à do programa Perto do Fogo, anda sem muito uso. Bronze não tira férias há cinco anos e dorme cinco horas por noite, alternadas com jornadas de até dezoito horas de trabalho. “Nos últimos três meses, a gente deve ter se visto uns quatro dias”, provoca Cecilia, que também estava às voltas com a gravação de seu programa, Um Brinde ao Vinho. “Não consigo achar isso horrível. Nesse período, lancei um livro fora da minha cidade e a Cecilia foi gravar na Europa. São sonhos realizados ao mesmo tempo”, ele retruca, em fase mais serena, apesar do corre-corre profissional. “Eu achava um baita elogio quando me diziam que eu estava à frente do meu tempo. Hoje, tenho plena consciência de que estar à frente ou estar atrasado constitui o mesmo defeito”, reconhece. O importante mesmo talvez seja sempre seguir jogando.

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