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Rita Fernandes Por Rita Fernandes, jornalista Um olhar sobre a cultura e o carnaval carioca

Prainha: novidades de uma praça cheia de bossas

Com bares, música, museu e muito mais, o Largo de São Francisco da Prainha está se tornando o lugar da maior retomada cultural e da memória carioca

Por Rita Fernandes Atualizado em 9 ago 2021, 20h08 - Publicado em 9 ago 2021, 19h53

Não por acaso João do Rio escreveu tanto e tão bem sobre a rua, especialmente a do Rio de Janeiro. É que a rua encanta mesmo. E quem tem tido a oportunidade de visitar o Largo de São Francisco da Prainha pode ver de perto toda vitalidade que ressurge nessa “rua”, lugar de encontros e afetos, tudo tão prejudicado pela pandemia da Covid-19. Agora, pouco a pouco e na medida em que a vacinação vem permitindo, a Prainha e seu entorno dão um banho de demonstração do que pode fazer uma comunidade conectada com a sua história e suas origens.

A praça, que já foi a “casa” do Bloco Escravos da Mauá e suas fabulosas rodas de samba nas primeiras duas décadas dos anos 2000, segue se revitalizando com a ação de produtores culturais locais, como Raphael Vidal, que vem revolucionando o local, mesmo com todas as restrições de um período de pandemia. Hoje, além da Casa Porto e do Bafo da Prainha, Vidal comanda mais seis projetos por ali, vários em parcerias com outros moradores locais.

Tomado por mesinhas dos oito bares que se espalham ao seu redor, o largo tem recebido público de todas as regiões da cidade, acentuando seu espírito pra lá de democrático, com shows diretamente da sacada do sobrado do Bafo da Prainha, com DJs como Doni e Julio Himself, ou de artistas como Chico Alves, que fez uma linda apresentação relembrando Belchior, no domingo passado. Já estão previstos shows de Nina Rosa, Moyseis Marques e de Moacyr Luz para setembro. Um alento à alma de quem andava com tanta saudade desse espírito Zé Pelintra que essa cidade tem.

A Casa Porto oferece um menu pra lá de especial, mas é preciso fazer reserva para conseguir sentar.
A Casa Porto oferece um menu pra lá de especial, mas é preciso fazer reserva para conseguir sentar. Rita Fernandes/Arquivo pessoal

A gastronomia ali é o forte, especialmente em menus incríveis da Casa Porto, mas já aviso que precisa de reserva. A casa segue com restrições necessárias ao distanciamento e poucas mesas disputadíssimas, que funcionam como espécie de camarote para o que acontece lá embaixo. Para ocupar também uma das mesas do Bafo da Prainha ou do Armazém Zero 4, o mais aconselhável é chegar cedo por lá.

As opções passam pelo melhor da gastronomia de rua, com porções de pasteis bem generosas e a preços acessíveis (Armazém Zero 4), releituras de clássicos como o pão de alho só que agora na versão alho porró e que ganha o nome divertido de Sacaralho. Tem também aquele aperitivo antiguinho, que mistura no palito ovo de codorna, tomate e azeitona, chamado de Sacanagem (Bafo da Prainha). Opções de almoço existem várias, desde os grelhados até as “marmitex”, com feijão da Néia, farofa e outras gostosuras.

Generosas porções de pastéis de vários sabores, cerveja muito gelada e a vista dos shows na sacada do Bafo da Prainha.
Generosas porções de pastéis de vários sabores, cerveja muito gelada e a vista dos shows na sacada diretamente do Armazém Zero 4. Rita Fernandes/Arquivo pessoal

Pequeno Museu Carioca

Além de tudo o que já está rolando por lá, Raphael Vidal, o produtor/empreendedor cultural mais conhecido do local e agora diretor de Gastronomia do Polo da Região Portuária, planeja outras ações bem especiais. Vem aí o Pequeno Museu Carioca, um projeto inovador e necessário, que vai dar visibilidade a todo um capital simbólico, material e imaterial, de coisas do nosso cotidiano e dessa “rua”.

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“A ideia do museu começa como uma provocação para que as pessoas entendam que há um conceito de arte urbana que vai além das grandes obras, dos grandes artistas, e que envolve essas ‘miudezas’ do cotidiano. Um exemplo são os jogos e as festas populares, como o jogo de botão, o carrinho de rolimã, a festa de São Cosme e São Damião, os artistas naif da comunidade. Precisamos transformar em acervo toda essa memória da rua, coisas que a gente convive no dia-a-dia. O Largo de São Francisco da Prainha, o Morro da Conceição e Pedra do Sal são exemplos desses lugares de memória”, diz Vidal.

O Pequeno Museu Carioca vai ocupar o imóvel de número 19 da praça com exposições de artistas locais.
O Pequeno Museu Carioca vai ocupar o imóvel de número 19 da praça, com exposições de artistas locais. Rita Fernandes/Arquivo pessoal

Com planos de três mini galerias, o imóvel de número 19 do Largo da Prainha vai abrigar o Pequeno Museu Carioca, que já tem data prevista de inauguração, dia 2 de setembro, com a exposição de Tia Lucia, artista autodidata, negra, griô, que morava na região. Em dezembro, já está marcada uma exposição sobre o samba, lembrando que a Região Portuária é o berço do gênero e de grandes nomes como Tia Ciata, Tia Perciliana, Donga, João da Baiana, entre outros mais. A curadoria do museu estará a cargo do fotógrafo Ierê Ferreira, que há anos registra as festas populares, os espaços de cultura e de memória ligados à história carioca.

Outra ação importante já acertada será a realização da 5a edição do FIM – Fim de Semana do Livro no Porto, festival literário que acontece nos dias 20 e 21 de outubro de 2022, no Morro da Conceição, com bate-papos, oficinas e programação infantil.

Tendinha: uma start up de projetos da rua

E, recém-inaugurada, tem também a Tendinha, o projeto mais provocador desse rol de maravilhas criadas por Vidal e sua turma. “É um projeto de start up de tecnologia de rua. Vamos mostrar para o prefeito que a Região Portuária precisa de um projeto para incentivar o que já existe ali, projetos da sabedoria popular. A tendinha, em qualquer vizinhança, é onde tem de tudo, todos se ajudam e tudo acontece. Daí o nome para essa incubadora de projetos do cotidiano”, explica Vidal.

Não por acaso a Tendinha está localizada no Beco João Inácio, local onde Hilário Jovino criou o rancho Rei de Ouros, o primeiro a desfilar no carnaval do Rio, no final do século 19. É que os ranchos, trazidos pelos negros baianos, desfilavam em janeiro, no Dia de Reis, e não nos festejos de Momo.

O multi produtor/empreendedor Raphael Vidal, que está devolvendo `à cidade a alegria da ocupação criativa do Largo da Prainha.
O multi produtor/empreendedor Raphael Vidal, que está devolvendo `à cidade a alegria da ocupação criativa do Largo da Prainha. Tiago Petrik/RioEtc/Divulgação

“Quero dizer que não estou reinventando nada. O que estou fazendo é devolvendo à cidade a vida que sempre existiu no Largo da Prainha. Tudo já estrava ali, naquele chão, na sua história. E o mesmo pode ser feito em qualquer outro lugar”, resume o empreendedor que está turbinando a alma da rua carioca. Esse exemplo me faz lembrar o conceito de comunidade e de vizinhança, e de como ele vai muito além dos gabinetes e escritórios da cidade.

Rita Fernandes é jornalista, escritora, roteirista e pesquisadora de cultura e carnaval.

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