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Rita Fernandes Por Rita Fernandes, jornalista Um olhar sobre a cultura e o carnaval carioca

A cultura respira por pequenas frestas

Projetos como Natura Musical, lançado hoje, e Nortear Educ, criado por dois jovens da Baixada Fluminense, dão a certeza de que a humanidade tem salvação

Por Rita Fernandes 1 set 2020, 15h22

Em um país em que a cultura ocupa último lugar nos projetos de desenvolvimento, é preciso dar visibilidade às boas iniciativas, trincheiras de resistência de um Brasil que anda sofrido, tão sem esperança. Por isso, acho necessário falar de empresas que ainda apostam em editais de fomento e patrocínio cultural, quase uma ilha.

A Natura acaba de lançar o Natura Musical. E, não bastasse manter vivo o projeto mesmo em tempos de pandemia, praticamente dobrou o valor. Lançado hoje, o edital vai oferecer R$ 8,5 milhões contra R$ 5,4 milhões investidos ano passado. Um respiro nesse mar de incertezas em que vivemos.

Principal plataforma de cultura da marca, já recebeu cerca de R$ 159 milhões para o patrocínio de 467 projetos desde o seu lançamento, em 2005. E há uma lista imensa de artistas, grupos e projetos beneficiados, inclusive em diferentes estágios de carreira. Mas destaco alguns que, mesmo mais distantes de interesses comerciais do mercado, foram beneficiados. É o caso, por exemplo, de Jongos Do Brasil e Mestres da Guitarrada, em 2006; do documentário sobre a Velha Guarda da Portela, “Mistério Do Samba”, em 2008; de Lia de Itamaracá, em 2018; do bloco carnavalesco paulista Ilu Obá de Min, ano passado, que envolveu a produção de CD, show e documentário.

Tulipa Ruiz é uma das artistas revelada pelo edital Natura Musical e que ganhou muitos prêmios Foto Rodrigo Schimdt/Divulgação

Outra característica que chama atenção é a projeção de artistas fora do mainstream, como Siba (2011), Johnny Hooker (2016), Xenia França (2016), Francisco, El Hombre (2017), Luedji Luna (2017), Mariana Aydar (2018), Mateus Aleluia (2019 e Letrux (2019), só para citar alguns. Um dos exemplos mais emblemáticos é Tulipa Ruiz, que teve dois discos patrocinados pela marca e com eles concorreu e venceu diversos prêmios. Em 2011, “Tudo Tanto” venceu o Prêmio Multishow de Música Brasileira na categoria “Melhor Disco (Superjúri)” e o Prêmio Contigo! MPB FM de Música na categoria “Melhor Álbum Pop”, e ganhou o Troféu APCA na categoria “Melhor Disco”. Em 2014, foi indicada a cinco prêmios com o disco “Dancê” e levou dois deles, o Grammy Latino de 2015 na categoria “Melhor Álbum de Pop Contemporâneo Brasileiro” e o 27º Prêmio da Música Brasileira na categoria “Artes Visuais”.

No campo das mostras, não posso deixar de mencionar a “Mostra de Música da Maré”, em 2019, que promove encontros entre músicos locais e de outras cidades do país, com eventos mensais gratuitos dentro do território de favela. Com essas parcerias, a Maré busca também dar voz aos ritmos musicais que a comunidade tem no próprio DNA, como xote, xaxado e frevo, vindo dos imigrantes nordestinos que moram no lugar.  No projeto, a comunidade recebeu shows de nomes como Mart’nalia, Liniker e os Caramelows, o grupo Tambores de Olokun e a cantora Letrux.

A cantora Letrux e seu disco “Aos Prantos”, projeto de 2019 Sillas Henrique/Divulgação

Diversidade de formatos

Para quem quiser se candidatar, as propostas podem ter diversos formatos, como álbum, show, turnê e clipe, além de programas de formação, iniciativas de empreendedorismo cultural, circuitos culturais, laboratórios de inovação, experiências imersivas, pesquisas, séries de vídeos ou podcasts, documentários, mostras, residências artísticas, intercâmbios, oficinas, pontos culturais, casas de show e conferências. Ou seja, há uma gama de oportunidades para quem está fervilhando de ideias nessa quarentena.

“Em 2020, a plataforma Natura Musical passou por uma grande revisão de categorias, formatos e critérios para que siga relevante diante do cenário atual”, afirma Fernanda Paiva, Head of Global Cultural Branding. “Além da criação artística, buscamos por propostas que promovam a inclusão e a representatividade em todo o seu âmbito, do artista a equipe técnica. Projetos que ampliam o impacto do setor cultural, por meio de capacitações profissionais, desenvolvimento de novos modelos de produção, distribuição e articulação”, completa.

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Há ainda mais duas novidades: será a primeira vez que haverá investimento dedicado exclusivamente para a região Amazônica, um dos pilares da marca; e a abertura para atuação internacional da plataforma. Dentro das categorias criação artística e inovação, serão estimulados novos formatos de interação entre artistas e público, seja no digital ou no presencial, com experimentação de novas redes e novos territórios, como ações e intercâmbios com a América Latina.

As inscrições podem ser feitas até o dia 21 de setembro pelo site natura.com.br/naturamusical.

Boas iniciativas para nos inspirar

Se por um lado destaco a iniciativa de grandes empresas, como a Natura, para manter viva a nossa cultura, por outro preciso falar de um projeto feito por dois jovens estudantes, moradores da Baixada Fluminense, que decidiram arregaçar as mangas e ir à luta. E estão realizando um projeto incrível, pelos objetivos e pelo conteúdo proposto.

Júlia Pontes, 26, e Samuel Souza, 20, promovem na próxima segunda, 31 de agosto, a partir das 17h, a Nortear Educ. Será um circuito online de bate-papos e palestras sobre temas atuais para alunos de ensino médio, principalmente da Baixada. Julia e Samuel correram atrás e trazem para essa primeira edição convidados de peso, como a cantora Letrux, o professor e mestrando em Ensino de História, Napoleao Junior, a apresentadora Alinne Prado, a DJ Tamy Reis e o ator e cientista social Rodrigo França.

A DJ Tamy Reis é uma das convidadas do Norte Educ, evento idealizado por dois jovens da Baixada Fluminense Acervo do Projeto/Divulgação

A ideia é ampliar o espaço da sala de aula através do debate e reflexão de assuntos que ajudarão na formação da cidadania e do pensamento crítico do aluno. “A gente sabe que para muitos alunos a escola é um lugar de sociabilidade e acolhimento, às vezes o único, e estamos vendo como está fazendo falta no dia a dia. Por isso decidimos fazer esta edição, para mostrar que estamos juntos nessa e que eles são peça fundamental de nossa sociedade”, comenta Júlia Pontes, diretora-geral da Nortear Educ.

O projeto é um desdobramento do CIEPx, projeto que vem sendo realizado por eles desde 2017 em escolas públicas da Baixada Fluminense e que foi inspirado no TEDx’s Talks, que são realizados em todo o mundo. “Nós sempre assistimos as palestras do TEDx e vimos como era inspirador e importante ouvir aquilo, mas não tão acessível para todos. Por isso, decidimos criar uma versão que acontecesse dentro das escolas e no período de aula dos alunos e discutindo temas que eles escolhem”, comenta Samuel Souza, diretor criativo da instituição.

A transmissão ao vivo será feita pelo canal no Youtube da Nortear Educ.

Essa coluna de hoje me traz a certeza de que a humanidade ainda tem salvação. Sigamos! Boa semana a todos.

Rita Fernandes é jornalista, escritora, presidente da Sebastiana e pesquisadora de cultura e carnaval.

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