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Rita Fernandes

Por Rita Fernandes, jornalista Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Um olhar sobre a cultura e o carnaval carioca

Pierrôs, colombinas e arlequins na novíssima Orquestra da Rua

Com resgate de fantasias e repertório baseado em muita pesquisa musical, novo bloco quer reviver a magia de antigos carnavais

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Atualizado em 3 abr 2025, 12h39 - Publicado em 3 abr 2025, 12h38
Pierrôs e colombinas para relembrar antigos carnavais, entre outras fantasias tradicionais na Orquestra da Rua.
Pierrôs e colombinas para relembrar antigos carnavais, entre outras fantasias tradicionais na Orquestra da Rua. (@georgiasouzafotografia/Divulgação)
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Pierrôs, colombinas, piratas e arlequins reapareceram no carnaval de rua do Rio. São personagens que podem soar estranho para as novas gerações, mas foi exatamente por saudade da poesia de carnavais antigos, com suas fantasias e brasilidades, que surgiu a Orquestra da Rua, projeto que ocupou, em fevereiro, espaços recém recuperados do Museu de Arte Moderna, o MAM.

O músico Marcelo Cebukin, a atriz e produtora Tatyanne Meyer e o empresário Fabio Carvalho buscaram inspiração nos carnavais do passado para criar um bloco que promete reviver, nas fantasias e no repertório, muito do que foi sendo diluído ao longo do tempo, como explicam na conversa em que analisamos as transformações do Carnaval de rua do Rio.

Cebukin é músico profissional e está à frente do Céu na Terra, como maestro, há 14 anos. Também se apresenta em outros blocos, como o Cordão do Boitatá. Ele conta que vinha percebendo um distanciamento dos blocos e dos foliões, de alguns significados muito próprios do Carnaval. Tanto musicalmente, na constatação dos mesmos repertórios em praticamente todos os blocos, quanto no quesito fantasia, que as pessoas praticamente pararam de usar.

Para onde teriam ido os piratas, as melindrosas, as baianas, os malandros, entre tantas outras que marcaram nossos carnavais? Foi a partir desta pergunta que Cebukin e Tatyane, casados há dez anos, decidiram mergulhar numa intensa pesquisa e fazer algo diferente. Fabio, folião inveterado e amigo do casal, se juntou a eles nessa missão.

“Houve um processo visível de desaparecimento das fantasias, em que elas foram dando lugar aos “looks” de carnaval, que não representam absolutamente nada. Vários fatores podem estar ditando esse processo de esvaziamento, talvez um pouco em função do medo que as pessoas foram tendo de dar gafe e usar fantasias ‘fora de moda’. Há também uma vontade da galera de se produzir pra ‘ficar gata, gato’. Acho válido, mas também esvazia aquele sentido de você se tornar um personagem por um dia, sabe?”, analisa Cebukin.

Com bonecos gigantes e fantasias tradicionais, Orquestra da Rua desfilou no MAM pela primeira vez.
Com bonecos gigantes e fantasias tradicionais, Orquestra da Rua desfilou no MAM pela primeira vez. Foto @georgiasouzafotografia/Divulgação (@fotografosfolioes/Divulgação)
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A proposta da Orquestra da Rua é promover uma volta ao passado. Um retorno à fantasia, aquelas bem tradicionais, que com o passar do tempo foram sendo tidas como óbvias. “Queremos os piratas, as bailarinas, os marinheiros, as melindrosas, os mágicos, as banhistas, os pierrôs, as colombinas, entre outras. Pra fazer esse resgate, criei uma pasta no Pinterest com inspirações para o nosso primeiro desfile. As pessoas amaram a ideia e experimentar essa volta no tempo”, conta Taty.

 

Repertório de clássicos

Cebukin destaca também questões ligadas aos repertórios, outro ponto importante na construção da Orquestra da Rua. “Chega-se ao ponto de a pessoa ir a um bloco e o que menos ouve – ou não ouve – é música popular brasileira. Talvez nas levadas e ritmos tenha uma brasilidade, mas no repertório nem sempre. Nada contra músicas internacionais, por exemplo, ou ainda as de ocasião, que estão na moda, como pisadinhas, sertanejos, pops e afins. Mas tem uma hora em que eu gostaria de estar ouvindo outra coisa no Carnaval”, diz.

A partir daí veio a vontade de introduzir clássicos da MPB, como músicas do primeiro disco de Nara Leão, de 1964, por exemplo, como “Marcha da Quarta Feira de Cinzas”, de Carlinhos Lyra e Vinicius, e “O Sol Nascerá”, de Cartola, além de outras duas que fizeram parte do show Opinião, “Carcará” e “A Voz do Morro”, com João do Vale e Zé Keti, respectivamente. Além de “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinicius, que ganhou o Festival da Canção de 1965 e que fez Elis Regina ficar famosa nacionalmente, outro marco da MPB. Sem contar “Noite dos Mascarados”, de Chico Buarque, “uma das marchas-rancho mais lindas que existem e que fiz questão trazer”, como Cebukin faz questão de frisar.

Nesse repertório sofisticado, não ficaram de fora sambas mais antigos, alguns de Ary Barroso, como “Na Baixa do Sapateiro” e  “Aquarela do Brasil”. “Enquanto vejo um monte de gente procurar um repertório da moda, resolvi olhar pro passado. Fui percebendo que, para além de uma ‘homenagem aos carnavais’, nossa ideia inicial, foi se desenhando uma grande homenagem à música popular brasileira”, completa ele.

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Tatyanne Meyer com o filho Tom, e Fabio Carvalho, dois dos criadores do bloco.
Tatyanne Meyer com o filho Tom, e Fabio Carvalho, dois dos criadores do bloco. Foto @georgiasouzafotografia/Divulgação (@fotografosfoliões/Divulgação)

Quem estuda o assunto sabe que há um fenômeno sobre o hype que o Carnaval de rua ganhou de uns 10 anos para cá. Muita gente começou a aprender um instrumento, sendo os de sopro mais na moda, o que acabou garantindo para muitos a participação nos blocos. Esse movimento havia sido iniciado com as escolas de percussão, no início dos anos 2000, e desaguou nas fanfarras, movimento mais atual. Mas o excesso de músicos iniciantes e amadores nos blocos acabou gerando um outro fenômeno que é o dos blocos de whatsapp, surgidos na combinação de pessoas que querem ir pra rua tocar, sem nenhum ensaio.

“Vários blocos acabaram virando escola musical pra muita gente. Rolou um boom de oficinas por aí, o que levou um exército de músicos iniciantes para as ruas. Por um lado, eu acho que isso é muito válido, mas não pode ser só isso nas ruas. Músicos profissionais foram parar nas festas privadas, batalhar pelos seus cachês, e músicos iniciantes ocupando as ruas. Muitos blocos não ensaiam, esse fenômeno em que eles surgem via convocatória por grupos de WhatsApp ou a partir de memes de internet, efêmeros”, analisa o maestro.

Segundo ele, as pessoas têm se queixado de que a qualidade musical nos blocos do Rio, na maioria das vezes, tem deixado a desejar. “Por isso quisemos fazer o contrário: um bloco que ensaia, que toca um repertório de música brasileira, com músicos profissionais, em que as pessoas se fantasiam mesmo, e que foi pensado pra durar muito tempo e sobreviver aos modismos”, afirma.

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Foliãs na Orquestra da Rua
Foliãs na Orquestra da Rua. Foto @georgiasouzafotografia/Divulgação (@fotografosfoliões/Divulgação)

Levantar um projeto deste tamanho, com tanta pesquisa e do jeitinho que Cebukin e Taty idealizaram, precisou de tempo e dedicação, além de dinheiro. Foram meses pensando o repertório, preparando arranjos musicalmente elaborados, arregimentando músicos profissionais. Teve também preparação de bonecos gigantes com personagens como Cartola, Carmen Miranda, e convites a artistas de outras áreas como dança, performance, pernaltas. Um trabalho que envolveu um coletivo de muitas ideias e muita gente talentosa.

Demorou anos para preparar tudo isso, mas no último carnaval, nas imediações do MAM, colocaram o bloco na rua trazendo novos horizontes e muita poesia para uma festa que insiste, sempre, em se reinventar. Bora preparar a fantasia – eu tenho uma que é minha predileta –  e que venha logo o próximo Carnaval.

Rita Fernandes é jornalista, escritora, presidente da Sebastiana e pesquisadora de cultura, música e carnaval.

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