Luz Del Fuego é tema do Baile do Sarongue, em noite de dourado e serpentes
No Monte Líbano, baile promete 'cabaré contemporâneo cheio de experiências carnais', numa criação de Cabelo com os espanhóis da Penique Productions

Luz Del Fuego é personagem que desperta, acima de tudo, curiosidade. Logo que vi o anúncio do Baile do Sarongue, que acontece na próxima quinta (27), no Clube Monte Líbano, corri para revisitar a história de Luz Del Fuego. A artista e dançarina que revolucionou costumes nas décadas de 1940 e 1950, assinada aos 50 anos em sua ilha, foi uma pioneira do feminismo e do naturismo na América Latina. Com sua fantasia de Eva – cobras enroladas no corpo desnudo –, tornou-se uma atração à parte no Carnaval do Rio, ao ser barrada na porta do Theatro Municipal, onde seguidamente tentou e não conseguiu entrar no famoso baile carioca. Transformou o incidente em evento, e isso lhe deu ainda mais notoriedade. Esperada pelo público, fazia daquele momento sua performance. É justamente Luz Del Fuego, com sua coragem e audácia à frente do seu tempo, quem inspira esta edição do Baile do Sarongue, que completa 17 anos.
Essa é a primeira vez que o Baile do Sarongue faz homenagem a uma pessoa. A artista veio como fonte de inspiração para Marcus Wagner, idealizador, diretor e curador do projeto, em um encontro com Javier Montes, biógrafo espanhol que escreveu sobre Luz Del Fuego. “Eu queria trabalhar com fogo há muito tempo, e por acaso conheci este biógrafo, um espanhol que estava no rio. Ele me deu um livro de presente. E eu fiquei sabendo de um fato que me interessou muito. Todo ano ela ia ao Baile do Municipal e era barrada. Isso virou um evento em si. Ela ia de Eva, com as cobras enroladas no corpo nu. Aquilo acabou virando uma performance e passou a ser manchete de jornal – ‘A Eva do Municipal mais uma vez barrada’. Foi dali que veio a ideia de homenageá-la, como numa fábula urbana”, conta Marcus Wagner.
Como seria se no Baile do Municipal, em 1950, Luz Del Fuego fosse ela mesma a homenageada? O que teria acontecido? Em dezembro, Marcus Wagner publicou no Instagram uma ucronia com esse mote, em um desafio que fez a Pedro Garcia, criador da página Carnavais Artificiais. Garcia foi convidado a recriar, com uso da Inteligência Artificial, o que teria acontecido se isso tivesse ocorrido. “Isso mudaria de alguma forma a sociedade?”, provoca Wagner, referindo-se a essa história inventada. A resposta, acreditem, foi que, mesmo no universo AI, toda nudez também é barrada.
“Ucronia é sempre uma especulação, “e se”. E se Luz Del Fuego tivesse sido aceita e festejada no Baile de Gala do Municipal? Pedi pro Pedro construir um prompt como se ela fosse o tema do Baile do Municipal de 1950. O Baile em que, de fato, ela foi barrada. A missão não foi fácil, a nudez também não é aceita pela Inteligência Artificial. A imprensa da época acabou apelidando Luz Del Fuego como Eva do Municipal. Como 2025 é o ano da Serpente no horóscopo chinês, achei que tudo isso dava ainda mais sentido para a homenagem à personagem”, diz Wagner.
Chaves e mistérios
Na entrada do clube, uma serpente se conectará diretamente com o tema, e será por onde o público chegará. Ao contrário do ano passado, que teve cortinas diáfanas formando um labirinto, com projeções e referências à temática da AI, este ano a concepção é muito mais física e corporal, como a nossa personagem, segundo seu idealizador. Com performances e acrobacias aéreas no salão, o baile será uma espécie de “cabaré contemporâneo”, ou “uma experiencia carnal”.
Os cenários prometem transformar completamente o Monte Líbano, com esculturas de Cabelo, em uma junção inédita criativa do artista com o coletivo espanhol Penique Production, responsável pelo desfile da coleção Primavera/Verão 2024 da Louis Vuitton. Ou seja, pode-se esperar algo muito inusitado e incrivelmente belo. “O Monte Líbano vai estar completamente modificado, e as pessoas não vão entender onde elas estão”, avisa Wagner.
É por tudo isso que o Sarongue é um dos bailes mais esperado do Rio, envolvido em seus mistérios e novidades, guardadas a muitas chaves. Literalmente, pois para entrar no baile é preciso obter a sua chave, que a cada ano é vendida em diferentes endereços anunciados pouco a pouco. A deste ano vem numa lindíssima caixa dourada. Além da chave – que é o convite para acesso ao baile –, há uma surpresa: uma capa dourada, feita com tecido mylar. E há um propósito nisto.
Mylar é uma espécie de tecido plástico de alta tecnologia, como um filme de poliéster muito resistente e com características únicas. Esse é também o material que será usado na cenografia. Por isso, a capa dourada deve ser usada pelos foliões durante o baile, formando um corpo único com o ambiente. “É como um pedacinho do cenário! Nós queremos uma performance coletiva com esse elemento dourado, como um só corpo, um corpo comum. Acredito que essa interação vai gerar uma experiencia muito especial”, diz Marcus Wagner. Portanto, foliões, fiquem atentos pois é para levar a chave e a capa.
Aliás, tudo no Sarongue é pensado e criado para que o folião tenha uma vivência única. “A intenção é valorizar esse conceito – ‘venha realizar a sua fantasia’. Nos inspiramos nos bailes antigos, mas com uma pegada contemporânea, dentro de uma ideia de ter ao mesmo tempo um baile tradicional, de crooner e orquestra, mas com elementos muito atuais. Onde o folião é a peça fundamental”, define Wagner.

Com Luz Del Fuego no centro de tanta novidade, esse será um baile à fantasia como “uma ode ao despir-se, interpretar o nu, carnavalizar”, afirma seu organizador. Então corra, dê asas à sua imaginação e faça sua fantasia. Se quiser inspiração, dez looks foram apresentados em um desfile-concurso no Arpoador, em frente ao Quiosque Alalaô, com a participação de diferentes figurinistas e designers. Todos tinham o mesmo desafio: criar looks que fossem inspirados em Luz Del Fuego, usando o mylar, batizado de “a substância”, trocadilho com o filme que concorre ao Oscar e também uma provocação. “O que mais surpreendeu é que, com o mesmo material, vieram tantas criações diferentes. O maior desafio era o próprio uso do material”, diz Marcus Wagner. O Atelier Exos levou o troféu, com a fantasia vencedora adornada por um adereço-alegoria de dupla serpente, confeccionado com unhas postiças douradas.
Os endereços para aquisição das chaves só são conhecidos através das redes sociais do projeto, geralmente na véspera de início da venda do lote. O baile não conta com nenhum patrocínio: é a venda dos ingressos que paga por tanta criatividade e badalação. Então, bora encontrar essa chave, vestir a capa dourada e se aventurar nas ousadas inspirações de Luz Del Fuego, a criadora da Ilha do Sol.
Rita Fernandes é jornalista, escritora, presidente da Sebastiana e pesquisadora de cultuar e carnaval.