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Rita Fernandes Por Rita Fernandes, jornalista Um olhar sobre a cultura e o carnaval carioca

As bossas da Lapa e os 18 anos do Casuarina

Grupo que participou ativamente da revitalização da Lapa comemora a maioridade com disco novo e live

Por Rita Fernandes Atualizado em 28 ago 2020, 11h12 - Publicado em 28 ago 2020, 10h46

Sábado passado, 22 de agosto, assisti emocionada a live do Casuarina, transmitida direto do Teatro Riachuelo. Foi um derrame de lembranças, emoções e saudades, como um filme que passa na cabeça sem você ter nenhum controle sobre as imagens. Me transportei para a Lapa do fim dos anos 1990, início dos 2000, vendo aqueles músicos tão queridos que celebravam seus 18 anos de carreira. Sim, o Casuarina chegou à maioridade. Sinônimo de que o tempo está passando para cada um de nós também.

Pelo repertório apresentado nas duas horas de música revisitei em minha memória cada um daqueles lugares que frequentei naqueles anos em que a Lapa começava timidamente a mostrar de novo a sua cara. Primeiro com o Antiquário 100, do Lefê Almeida, quando era tão somente um bairro de passagem povoado de antiquários, brechós, oficinas mecânicas, botequins pés-sujos (na origem da palavra, mesmo) e prostituição. Bairro associado à malandragem, à boemia marginalizada, não aquela em que se tornaria nos primeiros anos do século 20.

O Casuarina vem de uma linhagem de artistas que deu nova vida àquele lugar, que já abrigava o Circo Voador e a Fundição Progresso, com seus shows incríveis desde o início da década de 1980, uma espécie de ilha cultural que desbravou aquele ambiente. A cena musical que surgiu ali a partir dos anos 2000 foi responsável pelo ressurgimento e uma nova popularização do samba na cidade.

Gênero que andava meio de lado nos anos 1980, em que a disco music e a música internacional (as várias vertentes do rock, o funk, o hip hop) dominavam o cenário e a gravadoras, o samba foi sendo aquecido aqui e ali, em casas como o Carioca da Gema e Semente, que se tornaram celeiros de novos e múltiplos artistas, hoje totalmente consagrados.

O bar Semente, na Lapa, marcou o início de carreira de vários sambistas, como Teresa Cristina. Guto Costa/Divulgação

Teresa Cristina, Pedro Miranda, Alfredo Del Penho e o próprio Casuarina saíram dali para o mundo, dando partida em suas carreiras musicais, colocando na roda o resgate de autores pré-Bossa Nova, sambas que não tocavam nas rádios e que começavam a ser cantados por todos nas animadas rodas. Tudo isso gerou um novo estado de espírito e reconfigurou aquele lugar.

O Semente, talvez de todos o que mais lançou novos músicos, fechou as portas em 2017. O Carioca da Gema, do empresário Thiago Cesário Alvim, resiste bravamente, mas há muito tempo deixou de ser uma casa exclusivamente do samba. O Beco do Rato, que fica no bairro vizinho da Gloria, é um dos que ainda resiste com força no gênero.

Casuarina e Lapa

Não à toa, a comemoração dos dez anos do Casuarina foi ali mesmo, em palco a céu aberto montado na praça, em frente à Fundição e ao Circo Voador, dois ícones do lugar. O show foi gravado em frente aos famosos arcos, e contou com a participação de artistas que, como eles, tinham ligação com o bairro, e resultou no CD-DVD “Casuarina – 10 Anos de Lapa”. Ali, o grupo ainda era formado por cinco músicos, tendo João Cavalcanti, filho do cantor Lenine, como um dos vocalistas, ao lado de Gabriel Azevedo, que também assume o pandeiro, além do competente trio de cordas formado por Daniel Montes (violão de 7 cordas), João Fernando (bandolim) e Rafael Freire (cavaquinho). João Cavalcanti deixou o grupo em 2017 para seguir em carreira solo.

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Essa trajetória está no novo disco “Casuarina 18 anos – ao vivo”, que o grupo apresentou na live. Estão ali nove sambas garimpados nos primeiros discos e mais a primeira gravação de Meu Apelo, de Wilson Moreira. Uma homenagem ao mestre, grande referência do Casuarina, que morreu em 2018.

O Casuarina participou da revitalização da Lapa no início dos anos 2000. Foto Leo Aversa/Divulgação

Alguns desses sambas foram revestidos de arranjos tão marcantes que passaram a ser reconhecidos como “sambas do Casuarina”, como escreveu Renato Terra no texto de apresentação do disco. É o caso de “Jornal da Morte”, do compositor e jornalista Miguel Gustavo e “É isso Aí”, de Sidney Miller.

“Esse nosso disco foi um balanço de tudo o que fizemos até aqui. Acho que entre perdas e ganhos, o saldo desses 18 anos é muito positivo. É muito difícil levar uma vida de músico, ser artista no Brasil, principalmente com o tipo de música que a gente gosta e faz. Tudo ficou mais difícil a partir de 2016, com as mudanças que aconteceram no país, e principalmente com a saída do João [Cavalcanti] do grupo, um impacto muito grande na nossa estrutura”, avalia Gabriel Azevedo. Um desafio que, segundo ele, acabou unindo ainda mais a banda, que se reorganizou e deu um gás novo ao trabalho.

Sobre o reconhecimento do grupo e a conexão direta com a revitalização da Lapa, inevitável, Gabriel afirma que eles sentem muito orgulho de terem sido um dos responsáveis por esse movimento. “Foi importante para nós, e acredito que principalmente para a história da própria cidade. A gente insiste em levantar essa bandeira e, por isso, voltamos a tocar lá desde 2018, no Baródromo, a convite do Felipe Trotta”, diz.

A próxima live está marcada para outubro, enquanto outros planos de futuro ainda aguardam as boas notícias de uma vacina e a imunização das pessoas, que os meninos do Casuarina esperam venha logo, para que possam voltar à normalidade da vida, e principalmente à rua. Que é o que a gente, gosta, né Casuarina? Vida longa ao samba e a vocês.

Rita Fernandes é jornalista, escritora, presidente da Sebastiana e pesquisadora de cultura e carnaval.

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