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Rafael Mattoso Por Rafael Mattoso, historiador Curiosidades sobre o subúrbio carioca

Ano Novo começa entre Folias de Reis e outras encruzilhadas

Tradições e saberes populares que compõem a identidade festeira do carioca

Por Rafael Mattoso 7 jan 2022, 15h46

O ano de 2022 acaba de chegar e a primeira semana de janeiro já desponta trazendo esperança, festa e devoção. Nesta última quinta-feira, 6 de janeiro, celebramos o Dia de Santos Reis.

As Folias de Reis ou Reisados remontam nossa herança colonial e representam a tradição natalina de promover cortejos em homenagens aos três reis Magos Baltazar, Gaspar e Belchior. Segundo a tradição cristã, eles foram os primeiros guiados pelo Espírito Santo, através de uma estrela cadente, a chegarem para saudar e presentear o menino Jesus.

Atualmente, os devotos e foliões mantêm a tradição desfilando, tocando e cantando pelas ruas nos campos ou cidades.

As Festas de Reis ocorrem desde o dia 24 de dezembro até o dia 6 de janeiro, mas em alguns locais, principalmente no Rio de Janeiro, se estendem até o dia 20 e se juntam às celebrações da São Sebastião, padroeiro da cidade.

O mês de janeiro é muito simbólico para a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, foi em 1° de janeiro de 1502 que a expedição colonial portuguesa, conduzida pelo navegador Gaspar de Lemos, descreveu e denominou pela primeira vez a entrada da Baía de Guanabara como “Ria de Janeiro”. Acredita-se que o cartógrafo Américo Vespúcio tenha sido o responsável por denominar inicialmente a região como “Ria”, um acidente geográfico que caracteriza a entrada de uma baía. Esta versão descarta a suposta lenda que os navegadores teriam confundido a entrada de cerca de 8 Km da Guanabara com a foz de um rio.

A mesma expedição também chegaria e denominaria como Angra dos Reis o município da Costa Verde que acabou de completar 520 anos.

Além dos Santos Reis, que na prática não foram canonizados pela Igreja católica, mas santificados pela devoção popular, em janeiro também cultuamos São Sebastião sincretizado no Orixá Oxóssi. Representado na Umbanda e no Candomblé como o Guerreiro de uma flecha só, a figura de Oxóssi se conecta claramente a nossa ancestralidade indígena e africana pois ele carrega em suas mãos um arco e uma flecha sendo considerado um guardião e caçador das florestas.

Para aprofundar os debates sobre a importância cultural dessas festas convidamos o professor Luiz Gustavo Mendel Souza, autor do livro Giros Urbanos: uma etnografia da festa do arremate da Folia de Reis no estado do Rio de Janeiro.

Segundo Luiz: A cultura popular brasileira é fruto de uma encruzilhada! Ela foi escrita e reescrita por corpos atravessados pela violência colonial europeia, mas, parafraseando Vinícius de Moraes, mesmo ela sendo ‘branca na poesia ela é preta e indígena demais no coração’. Desta mesma forma, nasceu a Folia de Reis em nosso país, não que não houvesse um ancestral em comum nas terras de Camões, mas o reisado assumiu um caráter próprio na zona tropical.

No Brasil, as Folias de Reis nasceram das práticas de evangelização jesuítica. Eram formas de teatralização das passagens bíblicas para popularizar e converter os povos originários. Com o passar do tempo, os expectadores se tornaram os atores e assumiram o papel dos Três Reis Magos. O que iniciou como uma performance das sagradas escrituras saiu do roteiro original e tornou-se uma peregrinação de devotos cantadores que se deslocam de casa em casa para a anunciação da boa nova do nascimento do menino Deus. Os negros e negras escravizadas e/ou libertas também incorporaram o festejo ao calendário litúrgico de suas irmandades leigas. As Folias de Reis é um exemplar histórico da capacidade inventiva dos povos subalternizados de transgredir a violência colonial pela festa, tal como aponta Luiz Antônio Simas.”

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Folia de Reis caminhando rua
Luiz Gustavo Mendel Souza/Arquivo pessoal

Em sua pesquisa, Luiz Gustavo identifica práticas características dessas manifestações e nos explica como ocorrem o chamada de giro: “A epifania dos Santos Reis marca o início de uma jornada sagrada da meia noite do dia 24 de dezembro até o dia 6 de janeiro, dia dos Santos Magos. Um intervalo de doze dias que ritualiza a sequência se iniciando com a missão sagrada da visitação dos Três Reis Magos à Sagrada Família e ao menino Jesus. Seguida temos os rituais de fuga da perseguição pelos soldados de Herodes, a entrega dos presentes e o retorno ao Oriente anunciando a boa nova, a vinda do messias.

Neste período, os devotos foliões assumem a missão sagrada deixada pelos Santos Reis de anunciarem o nascimento do menino Deus. Em meio a estes dias há uma peregrinação festiva cantada e tocada por foliões instrumentistas que colorem e dão às ruas das cidades e dos campos o contorno da devoção popular.

A própria existência das Folias de Reis revela aos mais desavisados a contradição do catolicismo hegemônico. Um estrangeiro, seja nas anotações dos viajantes do século XIX ou no ano de 2022, despertaria uma curiosidade para entender a organização estrutural da prática religiosa.

Atualmente, as Folias de Reis são formadas por devotos cantadores e instrumentistas compostas por homens e mulheres, idosos e crianças dão corpo à peregrinação festiva. A frente do cortejo vai a bandeireira (ou bandeirista) carregando a bandeira de Reis o símbolo máximo da folia (a representação do santo), ao seu lado estão o mestre e o contramestre, ambos são os guardiões do fundamento, em resumo, o conjunto de narrativas bíblicas sobre a vida dos Santos. Eles regem a cantoria com os seus versos, as chamadas profecias. Geralmente, o grupo é formado por doze instrumentistas, representando os apóstolos de cristo. Mas a figura que mais se destaca em meio à jornada é o palhaço de Reis. Ele é a representação dos perseguidores de Cristo que se arrependeu e se travestiu de demônio para proteger os Santos e os foliões.

Seja na evangelização jesuítica ou nas peregrinações cantadas atuais, a Folia de Reis continua expondo a encruzilhada que é a cultura popular brasileira. De acordo com Luiz Rufino, somos fruto de uma colonização cruel e violenta que transformou nosso país no canteiro de obras da modernidade europeia. Porém, dos destroços da exploração os corpos indígenas, negros e brasileiros reconstruíram devoções que transgridem pela festa a dura realidade. A Folia de Reis com sua cantoria sacraliza as ruas do Brasil, influencia o ritmo de escolas de samba e transforma seus perseguidores históricos em palhaços! É na encruza que o mundo gira e se encontra, é na encruzilhada que as Folias de Reis fazem os seus giros sagrados.”

Nesta última quinta feira, a jornalista Regina Zappa aproveitou a data para promover um belo encontro virtual em homenagem as Folias de Reis, durante o programa Estação Sabiá da TV 247. Regina convidou Ronaldo Junior, mais conhecido por Juninho começou na Folia de Reis aos 7 anos de idade como palhaço. Filho de Ronaldo Silva atual mestre da Folia de Reis Penitentes do Santa Marta e neto de José Diniz um dos responsáveis por trazer a Folia para a favela de Botafogo. Júnior faz parte de uma família que é referência na cultura popular, depois de 35 anos como palhaço de Folia, Júnior desde 2015 é o diretor Administrativo da Associação das Folias de Reis da Cidade do Rio de Janeiro (AFRERJ).

O encontro também contou com as ilustres presenças de Mestre Fumaça e de Luiz Gustavo Mendel Souza professor de História do IFBA e da UNEB/Unead, Antropólogo e escritor.

Para acompanhar essa ótima e super informativa entrevista basta entrar no link: Estação Sabiá – Folia de Reis, uma festa popular – YouTube

Cartas da live sobre Folias de Reis da Estação sabiá na TV 247
Divulgação/Arquivo pessoal

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