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Por Patrícia Lins e Silva, pedagoga
Educação
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O encanto do conhecimento

Aristóteles dizia que ‘todo homem, por natureza, deseja aprender’. Já que ele nos garante, só precisamos descobrir como atender a este desejo dos alunos

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Atualizado em 27 jul 2022, 18h23 - Publicado em 27 jul 2022, 17h54

Nos meus dois anos finais na escola, a rotina das aulas me parecia absurda, sem graça, sem sentido. O conhecimento que me interessava discutir raramente sincronizava com o que a escola propunha. Alguns professores, excepcionalmente, se preocupavam em relacionar o que ensinavam com a nossa vida contemporânea. Por isso mesmo costumavam ser os mais admirados.

O horário das aulas também me parecia insensato, uma em seguida da outra, sem relação entre elas, como se o cérebro ligasse em Geografia para desligar 50 minutos depois e religar em Matemática nos seguintes 50 minutos, e o liga-e-desliga se repetia durante todo o ano letivo.

Mesmo que houvesse alguma relação entre as áreas de conhecimento não se falava disso. Se em História ouvíamos sobre a origem do mundo e em Geografia também, alguns alunos saíam pensando que o mundo tinha duas origens e não apenas uma contada de pontos de vista diferentes. Mas quem vai discutir com a escola? Ela tem suas idiossincrasias, os adultos decidem e os alunos acham que é assim estranho mesmo.

Certamente tudo mudou muito desde que eu era jovem. Naquele tempo, a instituição escolar era bastante ortodoxa, apesar de Anísio Teixeira já ter assinado, junto com Fernando de Azevedo e outros diversos intelectuais, o Manifesto da Educação Nova.

Proponho fazermos aqui uma reflexão rápida e curta sobre o professor na sala de aula hoje, principalmente os de Fundamental 2 e Ensino Médio. A maioria, certamente, se indaga sobre a função do professor, como apoiar a aprendizagem de seus alunos, o que fazer com seu conhecimento. Mas é um assunto que sempre merece reflexão. Até porque o mundo muda cada vez mais depressa, e os alunos mudam junto.

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Como um professor se prepara em 2022 para dar aulas para esses jovens cada vez mais diferentes do que eles, professores, foram? Como lidar com uma geração que nasceu imersa na tecnologia digital e, como diz Howard Gardner, pensa que, caso não exista um app para alguma coisa, é porque ela não existe? De que habilidades e capacidades esta geração vai precisar para viver num mundo muito diferente daquele de antes das tecnologias da informação e da pandemia? Para funcionar, a sociedade da tecnologia vai precisar de que tipo de pessoas? Como mostrar para os alunos os encantos do conhecimento no mundo da correria e variedade do tiktok?

Acredito que o primeiro objetivo do professor é encantar o aluno com o conhecimento. Quando frequentou uma faculdade, o professor escolheu alguma área que o interessava mais do que as outras. Deve ter se encantado muitas vezes com os saberes aprendidos naqueles anos de academia. Será que transmite seu encanto para os alunos? Eles percebem seu interesse por sua área? Ser professor não obriga ninguém a ser um repetidor de conteúdos. É uma pessoa desejante e inteligente, como seus alunos. Todos estão ali pelo conhecimento, que deve ser interessante a ponto de mudar a maneira de ver o mundo.

Ao ir para uma classe, penso que hoje o professor deixa do lado de fora da sala a “palestra” que daria para a turma.  Entra com o seu saber, que tem enigmas, histórias, curiosidades, problemas e tudo o mais que acha interessante e produtivo para os alunos pensarem e discutirem. Não num discutir por discutir, mas para aprenderem a pensar juntos em soluções para questões. Pensar juntos, uns com os outros, é a tendência da construção de conhecimento do mundo virtual. É um trabalho que desenvolve uma inteligência coletiva, mais ampla e fecunda do que separadas individualmente. A escola promove esta individualização há dois séculos e começa a rever a necessidade de cooperação no desenvolvimento da inteligência e na construção de conhecimento. Conheci uma escola pública fora do nosso país em que os alunos se sentavam em mesas redondas, em grupos, onde debatiam falando alto. O professor cumpria sua função de indicar como desenvolver uma discussão, apoiando os grupos, e também ficava atento aos alunos que, por qualquer razão, não conseguiam participar.

O professor, como qualquer pessoa, é curioso, está sempre aprendendo e é interessado no mundo. Conversa com os alunos sobre o que lê, o que descobre, o que o impressiona, do que gosta. Embora não seja proibido falar de outros conhecimentos, espera-se que prefira os temas ligados à sua área.

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Será que o professor conta para seus aprendizes porque sua matéria é a melhor e mais interessante do mundo? Lembro-me de um texto do filósofo da educação Jerome Brunner em que ele conta que seu interesse por educação começou nas aulas de uma professora de Química que se mostrava muito mais interessada no fato de a água ferver do que com a temperatura em que ela fervia. Perguntava aos alunos, admirada, ‘por que será que a água ferve’? O que acontece para que mude para o estado de ebulição? Saber que ferve a 100 graus é fácil; é muito mais interessante investigar como se dá o fenômeno da fervura da água.

Às vezes, o professor pode até ter a curiosidade de perguntar o que aconteceu na aula anterior para perceber algum gancho para usar na sua. Acredito que todos nós, professores, procuramos tornar nossas aulas mais significativas para os alunos, para que desenvolvam a capacidade de refletir, raciocinar, argumentar e relacionar os assuntos com a vida. Saber contextualizar o conhecimento é fundamental, não apenas para os alunos, mas para os adultos também.

Gosto de usar a palavra divertido ao lado da palavra conhecimento. O meu divertido significa desejo, paixão, interesse. Não é o divertimento de uma brincadeira inconsequente, mas de uma atividade muito atraente que, mesmo que exija muito esforço, envolve, nos deixa ativos, ligados no assunto.

Se um professor acha que dar aula é entediante, dificilmente conseguirá convencer seus alunos de que aprender é muito bom, é divertido. Nós, adultos, temos que trazer para os alunos o encantamento do conhecimento, do desejo de saber. Aristóteles já dizia que ‘todo homem, por natureza, deseja aprender’. Já que Aristóteles nos garante, só precisamos descobrir como atender a este desejo dos alunos, que é também nosso.

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A escola precisa evitar que os alunos relacionem conhecimento com tédio. Porque é uma mentira. A obrigação de todos os que trabalham na escola é criar o ambiente e as condições para tornar o conhecimento como a realização mais interessante da vida dos alunos. É o que vincula uns aos outros naquele espaço, que é o melhor lugar do mundo porque lá estão os colegas e professores com conversas e reflexões infinitas, que divertem com aprendizagens fascinantes e inesquecíveis.

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