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Patricia Lins e Silva Por Patrícia Lins e Silva, pedagoga Educação

Educação moral não é moralista

A principal função da escola, no momento, é discutir moral e ética com os alunos, para ajudá-los no enfrentamento dos desafios de um mundo turbulento

Por Patricia Lins e Silva 30 jun 2022, 09h34

A civilização vive uma crise ética e moral. As palavras ‘ética’ e ‘moral’ costumam ser usadas como sinônimos uma da outra. Mas aqui preferimos usar a explicação que lemos numa entrevista do professor Yves de la Taille, especialista em educação Moral e Ética, professor da matéria na USP-SP, que propõe que a ética responde à pergunta ‘quem queremos ser?’ ou ‘que vida queremos ter?’ e a moral responde à pergunta ‘como devo agir?’, que remete a regras e normas.

Se a ética nos pergunta ‘quem queremos ser?’, não surpreende que estejamos numa crise ética. Mergulhados numa mentalidade de consumo que hipervaloriza o indivíduo e os bens materiais, logo nós, da espécie humana, animais gregários, que precisamos dos outros para existir, sentimos a falta dos outros em nossa vida para construir um mundo justo, que dê à vida sentido pleno, com quem nos afeta ou poderá afetar.

Quem queremos ser, que vida queremos levar no mundo das tecnologias digitais que trouxeram rupturas em todas as instâncias? Da ciência ao divertimento, da inteligência à arte, surge uma nova realidade, uma nova visão de mundo que aponta para uma mudança de era. No momento, estamos no tempo de transição, quando ainda não sabemos se a humanidade vai lutar para salvar o planeta ou se deixará acontecer uma extinção em massa da vida. E sabemos que sempre pode aparecer algum outro evento surpreendente. Antonio Gramsci, filósofo italiano, dizia que é no intervalo entre a morte do velho e o nascimento do novo que surgem os monstros.

A crise ética tem consequências na moralidade. Se a moral responde à pergunta ‘como devo agir?’ e diz respeito a regras, a humanidade se sente sem referências com tanta novidade e deseja retornar no tempo, na ilusão de que algum dia no passado tudo foi mais fácil, menos complexo.

Nosso país segue a tendência das crises. Entre outras, um pastor, ex-ministro da Educação, foi preso porque fazia negócios escusos com colegas religiosos dentro do próprio ministério. Aqueles que estudam, pesquisam, trabalham e passam a vida verdadeiramente educando alunos têm todo o direito de se sentirem desrespeitados depois que o cargo de ministro da Educação foi ocupado por cinco ministros em 4 anos, todos com discursos que desqualificavam as instituições de educação – da escola às universidades – com afirmações mentirosas sobre ideologias de gênero e devassidões, mostrando ignorar a seriedade do que é educar e produzir conhecimento.

As crianças costumam pautar suas ações pelo que observam à sua volta. Se os adultos próximos mentem, agridem, roubam, elas interpretam que estes são comportamentos usuais, que é assim que as pessoas agem no mundo. Uma sociedade pode chegar a se portar como as crianças, mirando-se no exemplo de quem a lidera.

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Como o desenvolvimento cognitivo é inseparável do desenvolvimento moral, a escola é lugar onde também se constrói, além da família. Educação moral não é educação moralista, punitiva, fundamentada no temor do castigo imposto por alguém poderoso, como pai, mãe, professor, chefe, diretor, entidade religiosa.

A construção de uma moral autônoma implica um processo longo de reflexão para construir um modo de pensar e de se comportar que leva à capacidade de agir por compreensão própria e não por temor de castigo ou poder de outro. Durante toda a escolaridade, a discussão dos grupos sobre justiça, responsabilidade pelas transgressões e reparação não cessa. Decidir por um tipo de ação é fruto de raciocínio e não medo de punição. E passa pela consciência do pertencimento a um grupo porque a ação de cada um pode ter consequências para os outros. Nunca se pode perder a referência do grupo, da coletividade. Por isso, o desenvolvimento moral é um processo interminável e complexo de entendimento, e não uma questão de erro e punição.

O educador e pensador norte-americano Lawrence Kohlberg desenvolveu uma prática que chamou de ‘comunidades justas’. Reunia alunos e trazia problemas morais e éticos para o grupo discutir. Eram os célebres “dilemas de Kohlberg”. Um dilema típico é o “dilema de Heinz”, que está com a mulher morrendo com uma doença grave. Os médicos informam que um farmacêutico descobriu uma fórmula que poderia salvar sua mulher. Mas ele cobra muito caro. Heinz o procura e diz que conseguiu arrecadar metade da quantia entre amigos e parentes. Pede ao farmacêutico para pagar o resto depois. Ele não aceita. Naquela noite, Heinz invade a farmácia e rouba o remédio. A partir daí, o grupo discute e Kohlberg faz perguntas que vão  além de poder ou não roubar, como, por exemplo, “E se Heinz não amasse a mulher?”, “E se a pessoa que estava morrendo fosse um desconhecido”?

O objetivo das discussões nas ‘comunidades justas’ é tornar o julgamento moral dos alunos mais racional, mais maduro. A técnica de fazer os alunos discutirem dilemas éticos desenvolve uma moral democrática, que amplia a autonomia do pensamento, a consciência da responsabilidade e a necessidade de reparação. Não é uma escolha exclusivamente individual. É uma escolha pessoal, sim, mas que leva em conta as consequências para os outros.

Para Kohlberg, o centro da moralidade é a justiça. As pessoas passam por três estágios de evolução moral e não necessariamente percorrem todos eles. Podem parar no primeiro. São três principais estágios:  pré-convencional, convencional e pós-convencional, cada um deles com duas etapas. No primeiro, o sujeito obedece para não ser castigado e, caso seu pensamento moral evolua, no último, o sujeito se guia por princípios universais. Todas as teorias são passíveis de críticas, mas segundo Yves de la Taille, as investigações de Kohlberg ainda são uma referência importante quando se fala de Educação moral na escola.

A educação moral não é moralista, não julga se é feio ou bonito, pecado ou não. Mas reconhece a capacidade de reflexão dos alunos sobre comportamentos e a necessidade de assumirem responsabilidades por suas ações e como repara-las. É claro que quanto menor a faixa de idade, mais precisam do apoio de adultos.

Talvez a principal função da escola, no momento, seja discutir moral e ética com os alunos, para ajuda-los no enfrentamento dos desafios de um mundo turbulento, que passa por uma pandemia, por uma guerra localizada, porém preocupante, alta polarização política, líderes agressivos e transgressores. Mais do que tudo, a humanidade está gravemente ameaçada pelo aquecimento global, provocado por nossa maneira de viver. A consequência está, entre outras, nas mudanças climáticas críticas, que transformam definitivamente os ecossistemas habitados pelos seres vivos. Injustamente a solução ficou para as novas gerações, com suas discussões, decisões, cooperação e trabalho que vão exigir sacrifícios para mudar hábitos e comportamentos para manter o ambiente em condições de assegurar a continuidade da vida.

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