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Patricia Lins e Silva

Por Patrícia Lins e Silva, pedagoga Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Educação
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Arrogância moral: ostentação e exibição

Isso prejudica o diálogo que procura entender e resolver problemas morais nas sociedades

Por Patricia Lins e Silva Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 28 jan 2021, 16h24 - Publicado em 28 jan 2021, 14h17

                 Todos nós já erramos, já recorremos a um discurso arrogante, já desqualificamos quem discorda de nós e já fizemos afirmações indefensáveis, sempre com o objetivo de ostentar uma imagem de firme indignação com a injustiça, de  defesa intransigente de causas justas, de inflexível integridade moral. Para exibir esta imagem, chegamos a exageros.

     Isso acontece hoje no discurso público, especialmente na Internet, afirmam os filósofos norte-americanos Justin Tosi e Brandon Warmke, que estudam e escrevem sobre a arrogância moral ou a ostentação moral. Afirmam que a moral arrogante não é apenas maçante, mas é também perigosa. Num ambiente de polarização política, a arrogância moral prejudica a possibilidade de conversa, distancia ainda mais pessoas de espectros opostos e atrapalha a possibilidade de dialogar para que se alcance um engajamento mútuo.

     Os autores mostram que esse tipo de discurso moral é usado para impressionar. Costumamos ter uma boa opinião de nós em uma série de áreas, como inteligência, amizade e ambição, por exemplo. Mas essa boa opinião se acentua quando se trata de moralidade. Achamos que nossa indignação com a injustiça é mais intensa, que nossa solidariedade com vítimas de transgressões é mais veemente, e que temos maior percepção moral do que a média. Em termos de moralidade, nós nos avaliamos muito bem, mas não nos basta. Queremos que os outros fiquem impressionados com isso.

     Existem muitas formas de ostentação moral. O desejo de impressionar pode levar a acusações morais inventadas. E não se toleram discordâncias, pois quem discorda está obviamente errado. Mas uma forma particularmente lesiva de arrogância moral é a que os autores chamam de ‘escalada’.

     A escalada se dá quando alguém afirma que uma pessoa – em geral pública – se portou mal, que deve ser publicamente censurada. O que escuta concorda e diz que não vai tolerar isso e propõe uma moção contra o acusado. O primeiro responde que sempre lutou pela justiça social e sugere um processo criminal. As acusações ficam cada vez mais graves, um tentando superar o outro em inteireza moral e cuidado com a justiça. As punições vão ficando cada vez mais extremas e a discussão se transforma numa “corrida armamentista” moral, como chamam Tosi e Warmke. É a “escalada”, resultado perigoso da arrogância moral.

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     A escalada moral leva à adoção de pontos de vista extremados e implausíveis, sem possibilidade de escuta para o outro lado. O crescendo nos ataques contribui para a polarização do grupo e impede a possibilidade de um consenso, de um acordo. E cada oponente da “corrida armamentista” moral se acha justo e puro e, portanto, ninguém pode se comprometer com o moralmente suspeito. É uma consequência muito ruim para a democracia.

     Outra consequência preocupante é o cinismo que se propaga porque as pessoas deixam de levar a sério as afirmações morais dos discursos públicos. A ostentação desvaloriza a moeda social do discurso moral. No entanto, o objetivo do discurso moral público é ajudar a entender e resolver problemas morais nas sociedades. É preciso evitar a arrogância moral para que se reconstrua uma conversa pública, com argumentos que levem a esclarecimentos. Esclarecer não significa aderir. Conversar é a maneira de fazer valer a pena participar da praça pública.

     Assim como é difícil saber se alguém está mentindo intencionalmente ou apenas repetindo alguma coisa falsa, também é difícil dizer se alguém está ostentando moral. Nunca se sabe o suficiente para uma acusação. Então, é melhor pensar em arrogância moral como um incentivo à reflexão, para avaliarmos por quê e como falamos uns com os outros sobre questões morais e políticas. Podemos pensar se a nossa própria conversa moral é consistente ou se estamos apenas tentando convencer os outros de que somos campeões da moralidade.

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