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Manual de Sobrevivência no século XXI

Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman
Psiquiatria
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Sete lições que o BBB 21 já ensinou

Por que o Big Brother está dando tanto o que falar em tão pouco tempo?

Por Elizabeth Carneiro
Atualizado em 9 fev 2021, 20h29 - Publicado em 9 fev 2021, 17h43

Ok, você pode não simpatizar com o Big Brother ou qualquer outro reality. É compreensível achar uma perda de tempo – com tanta série boa no streaming, pra que atravessar os meses acompanhando a vida de exibicionistas (quase) anônimos?

No entanto, este ano o programa invadiu a vida das pessoas de tal modo que sequer é preciso estar acompanhando o reality para ouvir falar em Lucas e Karol Conka, por exemplo. No táxi, na rua, nas redes sociais: só se fala de Big Brother. E os pacientes no consultório não fogem à regra. Muitas das questões que abordo abaixo foram trazidas ou elaboradas em conjunto com eles. Mas afinal, o que há de mobilizador no programa de TV, capaz de segurar a atenção de Neymar, Luciano Huck, Debora Secco, Bruna Marquezine e outros milhões de espectadores em casa, dando a melhor marca de Ibope ao Big Brother nos últimos sete anos?

A resposta talvez resida no fato que a escalação dos participantes acaba por criar um painel do pensamento e do comportamento do brasileiro. Para quem tem filhos jovens em casa, como eu, o programa levanta assuntos que rendem muitas (e esclarecedoras) conversas.

Em 2020, confinados em casa pela pandemia, o país assistiu as participantes darem uma lição contra o machismo, mostrando a cara do novo feminismo, defendido e praticado pelas mulheres das novas gerações. Mas e agora? Por que o Big Brother Brasil 21 está dando tanto o que falar em tão pouco tempo?

Listo abaixo alguns pontos que podem dar umas pistas:

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1) Cancelando o cancelamento – Um dos comportamentos mais nocivos dos últimos tempos, fruto das redes sociais, o hábito de “cancelar” uma pessoa foi colocado no paredão. A cada gesto de cancelamento feito por algum integrante da casa, os espectadores rechaçavam imediatamente. A novidade é que a empatia está falando mais alto do lado de fora da casa. Nos dias atuais, o cancelador está sendo visto como um “grande julgador”, alguém que se coloca acima do bem e do mal e se autoriza a apontar o comportamento alheio como digno de nota negativa. Isso é uma forma de tentar não deixar que sua vulnerabilidade apareça, apenas a do outro. Uma verdadeira falta de auto responsabilidade sobre a vida.

2) Autoridade x Abuso Psicológico – Talvez impressionadas pela força das meninas do BBB do ano passado, as atuais moradoras da casa se investiram de uma pseudo autoridade feminina e um discurso político-feminista de prateleira, que a cada dia se revela mais como arroubos de tirania. “Minha força não é bruta”, já escreveu Rita Lee. Não é o que vemos no festival de brutalidades no programa: Lucas foi censurado, boicotado e escanteado. Faltou sensibilidade aos participantes para entenderem que o jovem não estava se adaptando ao confinamento e pedia socorro de forma silenciosa. Resultado: os espectadores fora da casa se solidarizaram com a fragilidade de Lucas, antes mesmo de ele pedir para deixar a casa. Mas o que mais impressiona é como a maldade que existe em todos nós é capaz de contagiar um grupo a ponto de as piores expressões de crueldade eclodirem a partir de quem não se espera. Ou seja, ao invés de os perseguidores serem questionados, rapidamente outro membro do grupo se une ao tal perseguidor e a maldade se dissemina.

3) As pessoas não pensam iguais só porque são negras – Infelizmente, estamos pouco acostumados a ver negros com protagonismo na televisão brasileira. Quando eles estão lá, temos quase a sensação que é para cumprir uma cota, como gays, deficientes ou idosos. Geralmente, as reivindicações da comunidade negra chegam ao grande público de forma uniforme, como se todos tivessem absolutamente os mesmos pontos de vista. No atual BBB, é diferente. Dos 20 participantes, nove são negros. E o que o Brasil descobriu? Que os negros discordam entre si! Vários negros que são referências em suas áreas de atuação vieram a público repreender a forma como Karol, Lumena e Nego Di trataram Lucas. Desde já o BBB 21 é o programa que explicitou o óbvio: não é porque as pessoas são negras que concordam em tudo!

4) Se beber… não jogue – Toda edição do Big Brother é a mesma coisa. Festa, música, azaração e… álcool. Uma combinação bombástica. Quantas vezes já assistimos participantes se arrependerem amargamente no dia seguinte de algo que falaram ou fizeram? Desta vez não foi diferente. Logo na primeira festa, Lucas bebeu mais do que devia e propôs um complô dos jogadores negros para tirar os brancos da casa. A ideia reverberou mal em vários Brothers e começou aí o calvário de Lucas. A verdade é que consumo excessivo de álcool dificilmente combina com bom senso e ideias ponderadas – seja dentro ou fora da casa. O álcool é um liberador do freio da censura e faz com que não sejamos senhores do nosso próprio comportamento.

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5) Faça o que eu digo, não faça o que eu faço – Quem se especializa em criticar os outros, raramente tem a capacidade de fazer uma autocritica sincera. Os espectadores do programa – e as redes sociais! – estão chocados com a arrogância de Lumena e Karol Conka em apontar o dedo para o defeito de todos os participantes, mas de não olharem para suas próprias atitudes com o mesmo afinco. Um outro aspecto é o fato de que falar mal do outro é tão tentador que mesmo pessoas que racionalmente sabem que estão sendo filmadas perdem o autocontrole e falam coisas que, no fundo, sabem que serão utilizadas contra elas próprias. Ou seja: falar mal parece um grande prazer que não se consegue refutar.

6) Lacradores no paredão – A atual edição está cheia de exemplos de arrogância travestida de “lacração”, para ficar na palavra da moda. “Suas ideias não correspondem aos fatos”, escreveu Cazuza há mais de 30 anos. E agora, finalmente, o público em casa parece ter se cansado de discursos vazios.

7) Sempre é tempo de reconhecer nossos limites e recomeçar – Ao decidir abandonar o programa, depois de um massivo bullying, Lucas deixa uma lição que, no fundo, serve a todos os participantes e, por que não?, aos espectadores também: sempre é tempo de recomeçar. Aceitar nossa fragilidade, não se envergonhar da nossa vulnerabilidade e abrir mão da arrogância de manter uma máscara social são atos de bravura e não de fraqueza. O que Lucas fez foi respeitar suas necessidades mais profundas de ser cuidado. Aprender com os erros, orgulhar-se dos acertos, levantar a cabeça e recomeçar é um verdadeiro ato de coragem nesta grande exposição que é o Big Brother.

Elizabeth Carneiro é psicóloga supervisora do Setor de Dependência Química e Outros Transtornos do Impulso da Santa Casa do Rio, especialista em Psicoterapia Breve e Terapia Familiar Sistêmica, diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química e treinadora oficial pela Universidade do Novo México em Entrevista Motivacional.

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