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Luisa Mascarenhas Por Luisa Mascarenhas, psicóloga e escritora Autora do livro 'A Vida Virtual Como Ela é'

Lutos, lutas e muitas saudades

Que me desculpem os aflitos, mas falar da morte é fundamental

Por Luisa Mascarenhas 6 Maio 2022, 21h21

Há 25 anos meu pai morreu. Um quarto de século. Eu ia dizer que ele partiu, mas usar palavras menos “pesadas” não ameniza em nada minha dor e não corresponde ao que aconteceu. Ele não partiu, porque ele não queria ter ido. Fez de tudo para ficar. Queria viver muito mais. Mas precisou ir décadas antes do que considerava aceitável. E do que eu hoje considero aceitável também. Aos dezenove anos, eu mesma não dimensionava o tanto que ele – e nós juntos – tínhamos ainda para viver.

Há pouco mais de dois meses, meu padrinho, que foi o maior amigo do meu pai, também morreu. Assim como meu pai, ele queria muito continuar aqui, vivo. Lutou com todas as suas forças. Vinte e cinco anos entre uma morte e outra, mas ambos batalharam com a mesma garra. Agora podem estar juntos em algum lugar.

Vi minha grande amiga, filha dele, sofrer muito com tudo que meu padrinho passou e sentindo muito a morte dele. A dor parece semelhante à minha em vários aspectos. Certamente há o consolo de ter compartilhado grande parte da vida com um pai ali presente, mas mesmo assim vejo o quanto tem sido dura essa perda.

Será que algum dia é possível aceitar o luto dos pais com tranquilidade? Talvez num primeiro momento até pareça que sim, porque uma parte racional pode pensar que a pessoa “descansou” e parou de sofrer. Mas acho que a falta vem. É muita história, muito amor.

Não há um luto meu ou de alguém próximo a mim que não me remeta à morte do meu pai. É algo visceral essa conexão. Como lidar com a ausência de alguém que nos constitui como pessoa? Somos uma parte (muito significativa) dos nossos pais, e eles são uma parte nossa. Uma parte enorme, aliás.

Um tio meu, muito querido, também morreu há poucos dias. Guerreiro “master”. Passou por muita coisa, mas sempre com astral lá em cima e muito carinhoso e divertido. Alguns podem dizer que ele já estava perto da “idade de ir”, mas ele era muito animado, apegado demais à vida, aos que o cercavam. Uma pessoa alegre e com muita disposição para aproveitar tudo. Também queria viver bem mais e batalhou MUITO para isso. Foi até onde pôde.

Três homens que lutaram e que acabaram tendo que se retirar antes do que imaginavam e do que desejavam. Meu pai muito antes, é verdade, mas todos queriam viver mais. Deram seu melhor. Ao longo da vida e também na batalha para tentar evitar a morte. Fizeram DE TUDO. São vitoriosos porque souberam viver intensamente e deixaram seus legados, cada um a seu modo.

Também muito recentemente soube do falecimento (súbito) de uma pessoa que, para mim, era parte do meu pai. A Elda. Digo o nome dela porque gosto muito de dizer, me traz algo bom só de falar, e sei que ela gostaria de ser citada aqui. A Elda trabalhou décadas na casa do meu pai, até ele falecer.

Não vou dizer que a Elda era “como se fosse da família”. Ela era da família. Muito mais do que muitos parentes meus. Senti demais sua morte, e quando penso me emociono. Acho que me pegou num lugar vulnerável. Fico criança imediatamente quando lembro da Elda. Uma pessoa absolutamente cativante, acolhedora, inteligente, figura, carinhosa. Seu sorriso e seu abraço são inesquecíveis.

A Elda cuidava de mim quando eu estava na casa do meu pai, longe da minha mãe. Eles se separaram quando eu tinha meses, e ela era meu porto-seguro na casa dele. Meu pai era maravilhoso, mas quem cuidava mesmo, no sentido de “ficar de olho”, dar comida, botar para dormir, era ela. E que delícia que eram esses momentos.

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Quando eu me sentia mal por algum motivo, ela ficava comigo no quarto dela, me dando colo, no escurinho, até eu melhorar. Ela deixava a TV ligada com o volume bem baixo, e a gente ficava ali, juntas, no maior chamego.

O macarrão da Elda é o gosto da minha infância. E tinha também o inesquecível frango ao curry, que ninguém consegue superar. Sem falar na pipoca (de verdade…) que ela fazia para a criançada. Lembro de uma vez que uma pipoca pulou da panela no olho da Elda e machucou. Engraçado como certas coisas ficam marcadas. Parece que foi ontem.

Quando as crianças da casa pediam para lanchar no McDonald´s, e meu pai não queria levar, ele brincava dizendo que era dia de McDonEld´s. A comida seria da Eldinha, como eu a chamava em muitos momentos. A brincadeira deixava tudo mais divertido.

A Elda era uma mãezona. Para os seus filhos nem se fala, mas era uma mãezona para muita gente. Ela deixou um legado de amor, de ternura, de solidariedade, de bons valores, de alto astral, de cuidado, de caráter, de resiliência. Era uma mulher forte, carismática, batalhadora, mas ao mesmo tempo leve e alegre. Estou escrevendo e “ouvindo” a voz e a risada dela. Lembro tão bem dessa risada. Depois que meu pai morreu, a Elda passou um período morando em NY, e eu perguntei se ela já estava falando inglês. Ela respondeu: “un poquito”. Só ela…

Queria ter estado com a Elda pelo menos uma vez mais. A gente se viu em dezenas de ocasiões depois da morte do meu pai. Ela sempre esteve presente de alguma forma em minha vida. Trocávamos mensagens e, mais raramente do que deveríamos, falávamos por telefone. Combinamos da última vez que, assim que a pandemia acabasse, quando as coisas acalmassem um pouco, a gente marcaria de se ver. Não deu tempo. Quando a Elda morreu eu já estava com saudade. E não vai passar.

Fica a lição de não deixar para depois, e a certeza de que esse erro ainda vai se repetir, mesmo que eu queira evitar. A gente sabe que não consegue dar conta de ver todo mundo que nos importa com a frequência que desejamos. Precisamos cultivar nossos afetos e fazer o máximo para estarmos perto deles, mas também precisamos aceitar que vamos deixar a desejar, mesmo não deixando de desejar.

Falar de perdas não é fácil. Mas eu quis deixar aqui minha homenagem ao meu pai, que há 25 anos faz uma falta infinita, apesar de estar sempre em meus pensamentos e em tudo que sou. E também a essas pessoas queridas que se foram recentemente.

Meu “muito obrigada” ao meu padrinho, que eu admiro demais e de quem guardo lindas lembranças; ao meu tio, querido e guerreiro, que sempre me fazia sorrir quando estávamos juntos, e que é para mim um exemplo de força e vontade de viver, apesar dos desafios todos; e à Eldinha, esse anjo que Deus colocou na minha vida e da minha família. Que todos eles estejam bem onde estiverem! E que a gente possa conseguir falar mais da morte e das perdas sem sentir a culpa que sinto agora por estar compartilhando um tema doído.

A gente tende a querer evitar certos assuntos, e eles viram tabus. A morte é um deles. Se a gente fala sobre ela, parece que o clima pesa. Vira “papo brabo”. Mas somos feitos de chegadas e partidas. Algumas delas desejadas, outras muito temidas. Por mais que a gente não queira cutucar essa ferida, o luto faz parte da nossa luta diária. Não há quem não conviva com uma ou muitas perdas, pelo menos na idade adulta. E elas se acumulam ao longo dos anos e, quando vemos, estamos assim, como eu agora, lidando e falando de lutos variados, alguns recentes e alguns emblemáticos, que são um antes e depois na nossa história.

Hoje foi dia de três coisas que deveríamos fazer mais: homenagear, agradecer e escrever chorando. Todas fazem um bem danado. Recomendo.

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