Outros carnavais: Quem define o que um bloco de carnaval é ou pode ser?
A identidade atribuída aos blocos mudou muito ao longo dos séculos

Um cortejo embalado por DJs pode ser reconhecido como um bloco de carnaval?
Ou só é bloco se tiver ritmista?
Pra ser considerado tradicional, o bloco só pode tocar samba e marchinha?
Afinal, quem define o que um bloco é ou pode ser?
É importante dizer que a identidade atribuída aos blocos mudou muito ao longo dos séculos. Se, nos anos 1910, havia quem achasse que bloco era coisa de gente chique, elegante e formosa, nos anos 1930, tinha gente defendendo que os blocos deviam ser conjuntos exclusivamente masculinos. Por isso, quando falamos da tradição, é importante perguntar: de que época estamos falando?

No meu livro “Os Blocos do Carnaval Carioca”, recentemente lançado, descubro que os primeiros blocos surgiram em 1906, quase que, ao mesmo tempo, no Rio e Recife. Ou seja, dois importantes polos culturais do país, que, desde o início, já produziam diferentes sentidos pra essa forma de festejar o carnaval.
No que se refere ao ritmo, os blocos surgiram antes de o samba alcançar o posto de símbolo da cultura nacional, sendo inclusive anteriores à gravação do primeiro samba, só em 1916. Até então, o que acontecia nos blocos era uma grande mistura musical, que lembra até o cenário que nós vemos hoje em dia: dançavam-se polcas, mazurcas e tangos, cantavam-se trovas sertanejas e cantigas populares, ao som de castanholas, gaitas, flautas e outros tantos e diferentes instrumentos e ritmos. A liberdade era tanta que havia até o Bloco dos Acadêmicos Poetas, em que não se cantava nem dançava: eram recitados poemas.

A coisa começaria a mudar de forma mais acelerada quando os blocos ficaram cada vez mais interessados em participar de concursos que definiriam quem seria o melhor bloco ou o bloco campeão de cada carnaval. Adequando-se às regras dessas disputas em troca de validação social e divulgação de seus grupos, os blocos e a imprensa promoveram um diálogo que acabaria ajudando a criar uma identidade mais particular ao que um bloco de carnaval poderia ser.

Mas, como os blocos sempre foram formados por grupos de diversos interesses, toda hora surgia uma ideia nova, em diálogo com a moda, com a política, com o cinema, criando novas formas de festejar. Enquanto isso, aqueles mais apegados ao seu gosto particular diziam que os blocos tinham morrido, quando, na verdade, quem morreu foi o tipo de bloco que ele preferia.



Nas últimas décadas, com o progressivo desinteresse em participar de concursos, livre de regulamentos restritivos, os blocos se reinventam, criando novas tradições e questionando outras. Tudo isso em meio a um diálogo tenso e festivo com as restrições do poder público, com os interesses da mídia e com as relações estabelecidas com os outros blocos coirmãos, numa disputa que é menos sobre “quem está certo” e mais sobre qual o sentido atribuído aos blocos que vai prevalecer.

No fim, tanto a tradição quanto a vontade de inovar são partes indispensáveis para a existência desses grupos. Até porque, diferentemente dos blocos de pedra ou de gelo, os blocos de carnaval não são um objeto estático, mas um lugar em movimento, guiado pela importância que damos a ele.
Tiago Ribeiro é jornalista, doutor e mestre em Arte e Cultura Contemporânea (UERJ). Professor de pós-graduação da disciplina História do Carnaval, com passagens pela Universidade Veiga de Almeida e Faculdade Censupeg.