Opinião, por Rafael Dragaud, diretor de “Tempo Rei”, de Gilberto Gil
Roteirista trabalhou por mais de 30 anos na Globo e foi o segundo marido de Preta Gil

Confesso logo que tentei não ser monotemático. Fiz o possível. Mergulhei até o pescoço na direção artística deste espetáculo sobre o tempo, sobre Gilberto Gil, sobre o ‘Tempo Rei’. Tentei me distrair com os arranjos, com as luzes que dançam no palco, com aquela voz que parece nascer de algum lugar mais antigo que o próprio homem que a possui. Mas não adianta. As árvores me chamam, sempre. E hoje voltei a elas, porque, afinal, o que é o Gil senão uma dessas árvores-gente, enraizado e altíssimo, bebendo profundo no solo da Terra e esticando seus galhos para o mais além?
Então retorno ao meu tema dileto – árvores, plantas, a força desse mundo verde e silencioso que nos observa há milênios – para falar do Iroko (árvore e orixá). Ironia deliciosa: enquanto dirijo artisticamente um show chamado ‘Tempo Rei’, venho falar justamente da árvore que, para os iorubás, é a primeira de todas, a que representa o próprio tempo. Não há coincidências para quem presta atenção.
O Iroko, meus amigos. Chlorophora excelsa para os botânicos. Essa majestade que pode chegar a 50 metros de altura e viver mais de 500 anos. Os cientistas dirão que sua madeira escura e resistente foi explorada à exaustão pelos colonizadores europeus, que seu tronco maciço pode alcançar dois metros de diâmetro, que suas folhas são ovais e ligeiramente pontiagudas. Mas pergunte a um velho sacerdote de candomblé e ele lhe contará outra história. Porque o Iroko não é apenas uma árvore – é um orixá, é o próprio tempo encarnado em raízes e folhas.
É Iroko, o senhor do tempo, o que existia antes mesmo que a noção de ‘antes’ existisse. Outro dia, num terreiro aqui do Rio – não direi qual, pois há mistérios que pedem discrição –, vi o Iroko dançar. Sim, vi o tempo dançar encarnado num corpo que não era mais apenas corpo, mas tronco, raiz e mistério. Movimento lento, profundo, como se cada gesto atravessasse séculos. O tempo dançando diante dos meus olhos humanos, demasiado humanos. Dizem os antigos que Iroko foi enviado ao mundo por Olodumare, o Criador, para guardar a passagem do tempo e dos segredos. Dizem que seu tronco é o caminho por onde os espíritos sobem e descem entre os mundos. Dizem que quem corta um Iroko sem os devidos rituais de permissão encontrará mais que madeira – encontrará sangue e infortúnio.
Olho para a janela agora, vejo o sol descendo no horizonte do Rio. Penso no tempo que passa. Penso em Gil cantando sobre ele. Penso no Iroko que dançava no terreiro, aquela presença antiga e calma. E me pergunto se não é essa a verdadeira arte: fazer o tempo dançar, como Gil faz em suas canções, como o Iroko faz em sua existência centenária. Volto amanhã aos ensaios, à correria de dirigir um espetáculo sobre o tempo com o próprio tempo correndo contra nós. Mas levo comigo a imagem da árvore-tempo, esse guardião silencioso que estava aqui muito antes de mim e estará muito depois. Porque, no fundo, o que fazemos nós, cronistas, músicos, diretores, senão tentar dar forma ao tempo, esse mistério que o Iroko conhece tão bem? E quem sabe não seja esse o segredo: ser um pouco árvore, um pouco raiz, um pouco Iroko – estar plantado no agora, bebendo do passado, esticando galhos para o futuro. Tempo rei, ó tempo rei… como diria o Gil. E como saberia dizer o Iroko, se as árvores precisassem de palavras para falar do que já são.
O roteirista Rafael Dragaud, ex-marido de Preta Gil, é o diretor artístico de “Tempo Rei”, turnê de Gilberto Gil, com quatro shows esgotados na Farmasi Arena, na Barra, com os dois últimos sábado e domingo (04 e 05/04). Depois, só na Marina da Glória, dias 30 de maio e 1º de junho. O texto é uma analogia sobre o ex-sogro e amigo com o Iroko, termo que pode se referir a uma árvore, a um orixá ou a um álbum musical. Dragaud trabalhou na Globo por mais ou menos 30 anos como diretor-executivo do núcleo de variedades da emissora, responsável por programas, como “Conversa com Bial”, “Mais Você”, “Encontro”, “É de Casa” e “Altas Horas”.
