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Lu Lacerda

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Jornalista apaixonada pelo Rio

De próprio punho: Silviano Santiago e o “Chester de Natal”

"As tias solteironas compreenderiam meus atos de insubordinação"

Por lu.lacerda
22 dez 2024, 07h00
Silviano Santiago
 (IA/Arquivo pessoal)
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Há uns 30 anos, na década final do século 20, portanto, resolvi escrever um conto natalino. Nele, domina a figura do patriarca a fatiar o animal sacrificado e o compartilhar com a família. Os tempos eram outros. A ovelha Dolly nascia clonada de células da glândula mamária. Escrevi um conto intitulado “O chester de Natal”, onde domina a figura da matriarca. Seu filho tinha nascido de inseminação artificial. Para epígrafe lembrei de um verso ousadíssimo de Fernando Pessoa (“E a sua mãe não tinha amado antes de o ter”) e toquei o barco, valendo-me claro do vocabulário daqueles anos.

Aqui está:

A infância alicerçou a noite de Natal no território feminino da família. Por mais  que a mamãe e as professoras se esforçassem por me convencer que o Natal era a festa  do Menino Jesus e do Papai Noel, não me sentia incluído na noite e o papai não se  julgava à vontade para entregar a cada um, pessoalmente, os presentes escolhidos por  ele e comprados com a sua grana.

À mesa, mamãe era a dona do chester assado. Ao manobrar com rara felicidade  o garfão e a faca afiada, destrinchava a ave rechonchuda como se fosse um açougueiro de plantão. Distribuía as partes nobres pelos vários pratos, demonstrando conhecimento  das preferências individuais. Sabia até quem desdenhava a farofa incrementada do  recheio, minha favorita. Ao lado do pinheiro iluminado, ela fazia questão de que a  lembrança natalina passasse por suas mãos antes que o legítimo destinatário dela  tomasse posse.

Oferecido o presente, sapecava delicados beijinhos no agraciado.

Minhas duas tias por parte de pai eram solteironas e lhe faziam coro. Soltavam  as exclamações de praxe e, com o movimento do pescoço e dos olhos, indicavam a  pessoa que as provocavam − mamãe. Felicitavam o irmão mais velho por ter esposa tão  carinhosa e prendada. Ele tinha tirado a sorte grande. Dos avôs, restava a Vovó, mãe  dela, que ficava sentada na cadeira de balanço, alheia aos familiares e ao mundo. Apesar  de entregue à doença de Alzheimer, também entrava na roda. Ao mais insignificante dos  brindes levantados à mesa, os olhos das três mulheres não deixavam de enquadrá-la.

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Podem imaginar a razão pela qual − durante e depois da ceia de Natal − eu  reunia forças para dar apoio estratégico ao papai. Meu respaldo não se manifestava por  atos. Só por palavras de agradecimento e de afeto, sussurradas no ouvido dele. Eu não  recusava as coxas do chester, que me cabiam por gosto e por decisão materna. Seria  grosseria pedir para trocá-las por outro pedaço da ave. Papai Noel não deveria perder a  identidade ancestral, mas como entregar de volta às mãos paternas o presente oferecido  pela mamãe? Não se justificava o desrespeito à função assenhoreada por ela. E mamãe muito me amava (disso não tenho dúvida).

Tanto mais a mamãe me amava porque cheguei tarde à vida dos dois. Teriam  formado o clássico casal sem filhos, e dele sido feliz exemplo, se o ginecologista da mamãe não tivesse batido as botas e ela não tivesse encontrado substituto à altura.

Depois de ter acolhido a nova cliente na Clínica de Reprodução Humana e  escutado as queixas da futura paciente, o Dr. Augusto Severo não só lhe enxugou as  lágrimas com palavras de fé e esperança, como lhe garantiu o êxito do procedimento médico, se feito, é claro, sob sua responsabilidade.

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Dizem que mamãe não esperou a hora do jantar para soltar a bomba. Tão logo  papai cruzou o batente da porta do apartamento, ela saltou para os braços dele,  conduzindo-o à sala de visitas. Passou-lhe detalhes e mais detalhes sobre a possibilidade  do filho poder ser gerado por inseminação artificial. Palavra do novo ginecologista. A  partir daquele momento, tudo dependeria da aquiescência do marido, e era por isso que tomara a liberdade de incluí-lo na próxima consulta ao Dr. Augusto.

No correr dos anos, arquivei na memória o que escutava e o que adivinhava no  escutado. Não havia como esconder o sol com a peneira. Mamãe se sentia injuriada por  não poder ter filho. Não aguentava mais os comentários da mãe, que lhe exigia um neto  pelo menos. Não era fértil o sêmen do papai. Por haver paralelismo entre as lições que recebia na escola sobre sexualidade e as novas domésticas sobre minha concepção, eu  estranhava a fecundação sem o sentimento do amor. Não é o êxtase celestial dos  cônjuges que impregna o futuro bebê de felicidade? Eu era produto das manipulações  do Dr. Augusto e como tal me sentia.

Bebê de proveta. A expressão era e ainda é chocante. De tal forma chocante, que  os programas de televisão procuram suavizá-la, recobrindo-a com humor em sketches apimentados. Não dizem que rir é o melhor remédio? Para pai e filho não era.

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Papai se sentia infeliz com a viravolta familiar criada pela esposa aos 38 anos de  idade. Graças ao louvável know-how do Dr. Augusto, o famoso advogado criminalista  se transformara num chefe de família, cujo pátrio poder tinha sido exposto à visitação  pública dos inimigos. Enquanto o casal consegue manter o silêncio conivente, não se  sabe a que cônjuge recai a culpa pela esterilidade. Do momento em que, na  maternidade, a barriga da mãe explode e expulsa o bebê, resta pouca dúvida, e surgem  outras dúvidas.

Teria sido eu procriado in vitro com o sêmen paterno? Dificilmente. Houve  consulta e recurso a um banco de sêmen? Certamente. Qual é o nome do doador do  sêmen fecundo? Era solteiro e hoje é casado? Já morreu? Sabe que eu existo?

Para evitar angústia maior, paro de desdobrar as dúvidas em perguntas. Vou direto ao que passou a inquietar-me do momento em que me julguei dono do próprio  nariz. Como nenhum ser humano brota do nada, queria conhecer meu procriador.

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Já perceberam que não fui menino de coragem. Tampouco fui adolescente atrevido. Durante as sucessivas ceias de Natal, quando éramos mais de três à mesa,  minha indisciplina se manifestava pelo sussurro de palavras afetuosas no ouvido do  papai. Eram de agradecimento aos vários presentes que mamãe me entregara. Na puberdade, poderia ter-me dado ao luxo da malcriadez ou dos comentários estapafúrdios. As tias solteironas compreenderiam meus atos de insubordinação, tanto  mais porque vinham de onde vinham, e a vovó, bem, ela nem se daria conta do pirralho  que lhe fazia concorrência em diabruras. Realmente, não sou capaz de atos claros, que  carreiam significados precisos.

A adolescência sedimentou no território feminino da família a noite de Natal. Ao atingir a maioridade, ganhei coragem e fiz a pergunta que não queria calar.  Papai se fechou em copas. Mamãe virou um túmulo. Não havia porta no mistério  familiar, a não ser a que se abria para a felicidade alheia. A vovó tem seu neto, as tias  solteironas, seu sobrinho e a mamãe, o seu filho.

Silviano Santiago é escritor, professor, pensador, poeta, tradutor, com mais de 30 livros publicados e inúmeros prêmios (Oceanos, Machado de Assis, Jabuti [três], Casa das Américas, Faz Diferença, Camões).

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