De próprio punho: Silviano Santiago e o “Chester de Natal”
"As tias solteironas compreenderiam meus atos de insubordinação"

Há uns 30 anos, na década final do século 20, portanto, resolvi escrever um conto natalino. Nele, domina a figura do patriarca a fatiar o animal sacrificado e o compartilhar com a família. Os tempos eram outros. A ovelha Dolly nascia clonada de células da glândula mamária. Escrevi um conto intitulado “O chester de Natal”, onde domina a figura da matriarca. Seu filho tinha nascido de inseminação artificial. Para epígrafe lembrei de um verso ousadíssimo de Fernando Pessoa (“E a sua mãe não tinha amado antes de o ter”) e toquei o barco, valendo-me claro do vocabulário daqueles anos.
Aqui está:
A infância alicerçou a noite de Natal no território feminino da família. Por mais que a mamãe e as professoras se esforçassem por me convencer que o Natal era a festa do Menino Jesus e do Papai Noel, não me sentia incluído na noite e o papai não se julgava à vontade para entregar a cada um, pessoalmente, os presentes escolhidos por ele e comprados com a sua grana.
À mesa, mamãe era a dona do chester assado. Ao manobrar com rara felicidade o garfão e a faca afiada, destrinchava a ave rechonchuda como se fosse um açougueiro de plantão. Distribuía as partes nobres pelos vários pratos, demonstrando conhecimento das preferências individuais. Sabia até quem desdenhava a farofa incrementada do recheio, minha favorita. Ao lado do pinheiro iluminado, ela fazia questão de que a lembrança natalina passasse por suas mãos antes que o legítimo destinatário dela tomasse posse.
Oferecido o presente, sapecava delicados beijinhos no agraciado.
Minhas duas tias por parte de pai eram solteironas e lhe faziam coro. Soltavam as exclamações de praxe e, com o movimento do pescoço e dos olhos, indicavam a pessoa que as provocavam − mamãe. Felicitavam o irmão mais velho por ter esposa tão carinhosa e prendada. Ele tinha tirado a sorte grande. Dos avôs, restava a Vovó, mãe dela, que ficava sentada na cadeira de balanço, alheia aos familiares e ao mundo. Apesar de entregue à doença de Alzheimer, também entrava na roda. Ao mais insignificante dos brindes levantados à mesa, os olhos das três mulheres não deixavam de enquadrá-la.
Podem imaginar a razão pela qual − durante e depois da ceia de Natal − eu reunia forças para dar apoio estratégico ao papai. Meu respaldo não se manifestava por atos. Só por palavras de agradecimento e de afeto, sussurradas no ouvido dele. Eu não recusava as coxas do chester, que me cabiam por gosto e por decisão materna. Seria grosseria pedir para trocá-las por outro pedaço da ave. Papai Noel não deveria perder a identidade ancestral, mas como entregar de volta às mãos paternas o presente oferecido pela mamãe? Não se justificava o desrespeito à função assenhoreada por ela. E mamãe muito me amava (disso não tenho dúvida).
Tanto mais a mamãe me amava porque cheguei tarde à vida dos dois. Teriam formado o clássico casal sem filhos, e dele sido feliz exemplo, se o ginecologista da mamãe não tivesse batido as botas e ela não tivesse encontrado substituto à altura.
Depois de ter acolhido a nova cliente na Clínica de Reprodução Humana e escutado as queixas da futura paciente, o Dr. Augusto Severo não só lhe enxugou as lágrimas com palavras de fé e esperança, como lhe garantiu o êxito do procedimento médico, se feito, é claro, sob sua responsabilidade.
Dizem que mamãe não esperou a hora do jantar para soltar a bomba. Tão logo papai cruzou o batente da porta do apartamento, ela saltou para os braços dele, conduzindo-o à sala de visitas. Passou-lhe detalhes e mais detalhes sobre a possibilidade do filho poder ser gerado por inseminação artificial. Palavra do novo ginecologista. A partir daquele momento, tudo dependeria da aquiescência do marido, e era por isso que tomara a liberdade de incluí-lo na próxima consulta ao Dr. Augusto.
No correr dos anos, arquivei na memória o que escutava e o que adivinhava no escutado. Não havia como esconder o sol com a peneira. Mamãe se sentia injuriada por não poder ter filho. Não aguentava mais os comentários da mãe, que lhe exigia um neto pelo menos. Não era fértil o sêmen do papai. Por haver paralelismo entre as lições que recebia na escola sobre sexualidade e as novas domésticas sobre minha concepção, eu estranhava a fecundação sem o sentimento do amor. Não é o êxtase celestial dos cônjuges que impregna o futuro bebê de felicidade? Eu era produto das manipulações do Dr. Augusto e como tal me sentia.
Bebê de proveta. A expressão era e ainda é chocante. De tal forma chocante, que os programas de televisão procuram suavizá-la, recobrindo-a com humor em sketches apimentados. Não dizem que rir é o melhor remédio? Para pai e filho não era.
Papai se sentia infeliz com a viravolta familiar criada pela esposa aos 38 anos de idade. Graças ao louvável know-how do Dr. Augusto, o famoso advogado criminalista se transformara num chefe de família, cujo pátrio poder tinha sido exposto à visitação pública dos inimigos. Enquanto o casal consegue manter o silêncio conivente, não se sabe a que cônjuge recai a culpa pela esterilidade. Do momento em que, na maternidade, a barriga da mãe explode e expulsa o bebê, resta pouca dúvida, e surgem outras dúvidas.
Teria sido eu procriado in vitro com o sêmen paterno? Dificilmente. Houve consulta e recurso a um banco de sêmen? Certamente. Qual é o nome do doador do sêmen fecundo? Era solteiro e hoje é casado? Já morreu? Sabe que eu existo?
Para evitar angústia maior, paro de desdobrar as dúvidas em perguntas. Vou direto ao que passou a inquietar-me do momento em que me julguei dono do próprio nariz. Como nenhum ser humano brota do nada, queria conhecer meu procriador.
Já perceberam que não fui menino de coragem. Tampouco fui adolescente atrevido. Durante as sucessivas ceias de Natal, quando éramos mais de três à mesa, minha indisciplina se manifestava pelo sussurro de palavras afetuosas no ouvido do papai. Eram de agradecimento aos vários presentes que mamãe me entregara. Na puberdade, poderia ter-me dado ao luxo da malcriadez ou dos comentários estapafúrdios. As tias solteironas compreenderiam meus atos de insubordinação, tanto mais porque vinham de onde vinham, e a vovó, bem, ela nem se daria conta do pirralho que lhe fazia concorrência em diabruras. Realmente, não sou capaz de atos claros, que carreiam significados precisos.
A adolescência sedimentou no território feminino da família a noite de Natal. Ao atingir a maioridade, ganhei coragem e fiz a pergunta que não queria calar. Papai se fechou em copas. Mamãe virou um túmulo. Não havia porta no mistério familiar, a não ser a que se abria para a felicidade alheia. A vovó tem seu neto, as tias solteironas, seu sobrinho e a mamãe, o seu filho.
Silviano Santiago é escritor, professor, pensador, poeta, tradutor, com mais de 30 livros publicados e inúmeros prêmios (Oceanos, Machado de Assis, Jabuti [três], Casa das Américas, Faz Diferença, Camões).