Crônica, por Eduardo Affonso: Os princípios do prazer e da realidade
“Dinheiro não compra felicidade, mas paga o médico na velhice.” Quem dizia era a minha avó.

“Dinheiro não compra felicidade, mas paga o médico na velhice.” Quem dizia era a minha avó, menos ocupada em viver o agora do que em estar pronta para as adversidades que o futuro lhe poderia reservar.
Impossível não trazer à lembrança seus ensinamentos num momento como este, em que uma decisão difícil precisa ser tomada.
Sim, a vida é uma caixinha de surpresas, e nem todas são agradáveis. Poupar não é só um ato de inteligência, mas de amor por si mesmo e pelas pessoas que dependem de nós. “É preciso pensar vários lances adiante”, diria meu avô, enxadrista. Longe do tabuleiro, minha avó traduziria a frase, à sua maneira: “É melhor prevenir do que remediar”.
Adiar uma gratificação hoje pode parecer doloroso, mas é como plantar uma árvore (metáfora do meu outro avô): no início, o esforço parece não valer a pena, mas com o tempo, a árvore cresce, dá sombra e frutos. “Cada centavo economizado é uma semente plantada no jardim do seu futuro”, repetia ele. Pode ser difícil resistir ao desejo imediato, mas ele exemplificava, com uma espiga madura nas mãos: “Se eu der este milho hoje às galinhas, estarei matando sua fome por um dia; se eu plantar as sementes, daqui a três meses haverá alimento para um ano”.
“Uma reserva financeira é como um paraquedas que nos protege das panes inesperadas da vida” – afirmava meu pai. O carro quebra, o emprego vai embora, a saúde dá um susto – são momentos que nos pegam de surpresa, mas para quem poupou, o impacto é menor. “É na calmaria” – completava minha mãe – “que se prepara para a tempestade”.
Penso, então, no futuro: o que almejo? Envelhecer com dignidade, realizar sonhos, viajar sem preocupações ou, quem sabe, apenas dormir tranquilo, com a certeza de que está tudo sob controle. Ouço ainda a lição do meu tio: “O futuro é o que você faz dele”.
“A vida é um somatório de escolhas” – ouvi do meu padrinho – e poupar é uma das escolhas mais inteligentes que podemos fazer. Há que pensar na segurança financeira, cuidar dela, vê-la florescer em forma de tranquilidade e realizações. Como dizia meu ex-sogro, analista, “Reconheça que o princípio do prazer busca o imediato, mas é o princípio da realidade que constrói os alicerces para uma felicidade verdadeira e sustentável”.
“Quem faz hoje, colhe amanhã”, me diz Tico. “E o amanhã começa agora”, ecoa Teco. Essa legião de vozes, essa alcateia de opiniões, esse cardume de lembranças, essa cáfila de ensinamentos me invade neste momento.
Hesito, confesso.
Mas danem-se Tico, Teco, meus avôs, minhas avós, a moderação, a temperança, a velhice tranquila, a casa própria, a poupança, o sonho de poder ajudar os netos: vou comprar essa lata de azeite, e pronto!
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Nota do editor: O autor deve estar se referindo à lata de 500 ml de azeite virgem. Para o extravirgem ou de 750 ml, seria necessária a hipoteca da casa ou a venda de um rim, o que parece fora de cogitação – até porque nem a casa nem o rim, a esta altura do campeonato, parecem estar em tão boas condições assim.
