Crônica, por Eduardo Affonso: Norma, a culta
"D. Norma está proibida, por ordem médica, de ler os jornais"

Ela tem idade indefinível: está naquele limbo etário do entreaberto caixão, entrefechada cova. Foi, por décadas, professora de português – da geração que não admitia oração começada por pronome oblíquo, exigia mesóclises e (pasme!) dominava a regra do hífen.
Aposentada (a contragosto), Norma Ferro passou a se dedicar, em horário integral, a copidescar (verbo que ela odeia) os clássicos. Sim, porque os mestres também erram. Sua edição de “Dom Casmurro” traz sublinhados, com caneta vermelha, os trechos “Antes dela ir para o colégio” e “são sempre melhor ensinadas naquelas casas” – e, à margem, as correções:
“Com efeito, Joaquim Maria! “Antes DE ELA ir para o Colégio”. Onde já se viu sujeito preposicionado?”
“Homessa! Usar o advérbio “melhor” como comparativo de superioridade antes de particípio é o fim da picada! Tome tento, sr. Machado! “São sempre MAIS BEM ensinadas”, está ouvindo?”
Machado, já morto, não ouviu. Mas Guimarães Rosa deve ter recebido a missiva em que d. Norma reescrevia frases inteiras, deixando-as “mais conformes às regras do bom redigir”. Por exemplo:
‘Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.’ > Não foi nada. Os tiros que o senhor ouviu não foram resultado de uma briga de homens, Deus me livre.
“Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem.” > Explicar-lhe-ei: o Mal está no interior do ser humano, em suas imperfeições e contradições.
“Mas, não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia.” > Mas não me diga que o senhor, pessoa sensata e instruída, acredita na existência do diabo? Não? Agradeço! Sua opinião reforça o que penso.
“E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento… Estrumes…. O diabo na rua, no meio do redemunho…” > Também está nos costumes, nas plantas, nas águas, na terra, no vento e nos dejetos… O Mal está nas ruas, no meio da confusão…
– Não ficou muito melhor, dr. João Guimarães? – perguntava, retoricamente, antes de apor sua assinatura (porque ela não assinava: apunha a assinatura).
Escreveu a vários laureados com o Prêmio Nobel:
“Sr. Gabriel,
Muito apreciei sua obra “Cem anos de solidão”. Porém, achei-a assaz confusa, o que pode afastar leitores mais exigentes. Apresento-lhe algumas sugestões de melhoria que, como o senhor parece ser uma pessoa inteligente, há de acatar:
Começar a narrativa expondo o que vai acontecer no desfecho é – francamente! – um disparate. Qual a graça de se ler o livro se, já na primeira linha, o senhor adianta que o protagonista será fuzilado?”
Outra é repetir os nomes dos personagens. Que falta de imaginação! Em vez daquela interminável sucessão de Josés Arcádios e Aurelianos, proponho: José Arcádio > Aureliano e Diego Augusto > Jorge Luis e Carlos Daniel > Juan Pablo e Gonzalo Fernando, e assim por diante.
(Seguem-se cinco páginas de correções das inverossimilhanças encontradas na saga dos Buendía em Macondo.)
“Sr. José,
Bem haja. Muito me espanta que o senhor, pessoa aparentemente alfabetizada (tanto que escreveu vários livros), não saiba usar vírgulas! Nem travessões! Estão em greve os revisores aí em Portugal? Segue, anexa, uma de suas obras, devidamente endireitada. E ainda dizem que nós, brasileiros, é que estamos a maltratar o idioma. Pois sim. Passar bem!”
(Junto, ia um volume salpicado de pontinhos vermelhos, como se todas as páginas estivessem com sarampo.)
D. Norma está proibida, por ordem médica, de ler os jornais.
