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Por Julia Zardo, professora de empreendedorismo e gerente de ambientes de inovação
Inovação e Sociedade: uma conversa sobre desafios, oportunidades e impactos das práticas inovadoras na vida de todos nós
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Indústria Criativa: a história no mundo e no Brasil

Estamos tratando de um segmento naturalmente orgânico, vivo e delimitá-lo, talvez, seja a menor das prioridades.

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Atualizado em 5 jan 2024, 15h00 - Publicado em 27 dez 2023, 11h47

A criatividade nunca foi exclusividade de artistas. Arquitetos, pesquisadores, cientistas, matemáticos, engenheiros e tantos outros se valem da criatividade em seus desafios. Mas é inegável que o atributo se valorizou muito nos tempos atuais e se tornou uma habilidade desejada no meio corporativo. 

Nos últimos anos a criatividade deixou de ser algo exclusivo dos artistas. O profissional criativo se tornou aquele que apresenta ideias inovadoras, originais e imaginativas para resolver problemas, impulsionar o crescimento e se destacar em um ambiente competitivo, construir soluções únicas, novos produtos e serviços, sugestões para melhorias de processos, estratégias diferenciadas, propor uma cultura organizacional mais dinâmica, adaptável, que resulta em modelos de negócios inovadores e mais atrativos em um mundo cada vez mais exigente. A criatividade também deixou de ser vista como um dom, uma capacidade com a qual você nasce ou não. Pesquisas mostram que diversos fatores influenciam no desenvolvimento do potencial criativo e que ela pode ser trabalhada em diferentes fases da vida. 

O projeto Creative Nation, desenvolvido pelo governo australiano em 1994, apresentou as ocupações criativas como componente fundamental para o desenvolvimento econômico de uma nação. Em 1997, com o trabalho realizado pelo Reino Unido identificando e sistematizando seus segmentos criativos mais competitivos, o conceito ganhou notoriedade pelo mundo. O Departamento de Cultura, Mídia e Esporte – DCMS, propôs um conceito em que as Indústrias Criativas seriam “aquelas que se baseiam em criatividade, habilidade e talento individual, […] também têm o potencial de criar riqueza e empregos através do desenvolvimento e exploração da propriedade intelectual”. A partir desta proposição, diversos outros estudos foram realizados. Em 2001, o professor John Howkins apresentou uma lista de quinze atividades que seriam o núcleo da economia criativa: publicidade, arquitetura, artes, artesanato, design, moda, cinema, música, artes cênicas, publicação, pesquisa & desenvolvimento, software, brinquedos & jogos, TV & rádio e games. Em 2005, John Hartley em suas discussões sobre indústria criativa, incorpora elementos como as rápidas e intensas mudanças tecnológicas, as novas dinâmicas da economia global, o comportamento do consumidor e o contexto de novas tecnologias de mídia “dentro de uma nova economia do conhecimento, para o uso de cidadãos-consumidores interativos”. Assim, tantos outros países tendo como referência a Austrália e o Reino Unido, começaram a pensar sobre suas aptidões, competências e seus setores criativos, como a indústria criativa pode ser uma alida no desenvolvimento econômico, social e impulsionar a transformação de territórios. Em 2002, Richard Florida apresenta o termo “classe criativa”, se referindo a trabalhadores envolvidos no desenvolvimento de novas tecnologias e conteúdos criativos e em 2008 Charles Landry apresenta outro termo, “cidade criativa”, em que refere-se ao espaço urbano que cultiva novas tendências nas artes e cultura, promovendo indústrias e inovações através da ação inovadora de artistas, criadores e cidadãos comuns.  

Ao olhar para o Brasil, a principal referência para esse segmento é o estudo desenvolvido pela Firjan, o Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil, publicado desde 2008.  O material compreende a Indústria Criativa de forma ampla, organizando-a em quatro grandes áreas criativas onde estão distribuídos 13 segmentos:  Consumo (Design, Arquitetura, Moda e Publicidade), Mídias (Editorial e Audiovisual), Cultura (Patrimônio & Artes, Música, Artes Cênicas e Expressões Culturais) e Tecnologia (Pesquisa & Desenvolvimento, Biotecnologia e Tecnologia da Informação e Comunicação). 

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São anos de discussão teórica em que organicamente o conceito de indústria criativa evolui, adequando-se ao contexto, às novas dinâmicas sociais, às novas tecnologias, às novas profissões e ocupações e a tantos outros elementos. Percebe-se a necessidade de dar um passo além, e tangibilizar a aproximação da indústria criativa e dos profissionais criativos de forma mais efetiva da indústria clássica. Um dado do Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil publicado em 2022 mostra que 1 a cada 5 profissionais criativos estão na indústria clássica. O profissional criativo é arrojado, agrega valor em produtos, serviços e processos, trabalha com tendências, novas tecnologias, dados. Por que não ter mais profissionais criativos inovando na indústria clássica?  

Reconhecendo a economia criativa como alternativa para desenvolvimento econômico do Rio de Janeiro e do Brasil, a Firjan foi pioneira na elaboração de um estudo que pudesse fazer um retrato da contribuição da indústria criativa, sistematizando informações oficiais sobre emprego e participação no Produto Interno Bruto (PIB). A primeira publicação em 2008 possibilita uma série histórica que mostra a crescente evolução e contribuição desse setor na economia do país. Ao longo dos anos, além do Mapeamento da Indústria Criativa, foram diversas iniciativas com o objetivo de levantar informações e dados sobre esse setor no mundo e no Brasil. 

A UNCTAD entende economia criativa como a interseção entre criatividade, cultura, economia e tecnologia para promover o desenvolvimento sustentável e o crescimento econômico, também reconhece que esses setores não apenas geram riqueza econômica, mas também promovem a diversidade cultural, fortalecem a identidade local, criam empregos, estimulam a inovação e contribuem para o desenvolvimento social e humano.  

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O IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada apresenta uma mensuração da economia criativa no Brasil, tanto a formal quanto a informal, medida a partir de duas dimensões: setorial (setor de ocupação) e ocupacional (ocupação do trabalhador) e considera três variáveis: empresas e ocupações formais, valor adicionado e informalidade. O GEM Brasil (Global Entrepreneurship Monitor), realizado através da parceria do Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade com o SEBRAE com sua última publicação em 2019, já apresenta um olhar para a economia criativa e a criatividade como habilidade para novos modelos de negócio, desenvolvimento, diferenciação e inovação. O estudo mais recente voltado para o setor é o desenvolvido pelo Itaú Cultural, que entende criatividade como recurso da cultura e arte: um conjunto de atividades que envolvem o potencial criativo, as manifestações culturais e o conhecimento como principais recursos para o desenvolvimento econômico e social. O Itáu Cultural trata Economia Criativa como sinônimo de Economia da Cultura. 

Por fim, é importante citar o Ministério da Cultura, nossa principal instância para a elaboração de políticas públicas. O MinC compreende economia criativa como um elemento motor da superação de desigualdades históricas do país e visa integrar os setores culturais e criativos com a economia. Para isso, pretende formar no início de 2024 um Programa Nacional de Economia Criativa com metas como a internacionalização da cultura brasileira, além de estabelecer diretrizes para a atuação do Governo Federal e definir ações para os setores criativos brasileiros. 

Não existe um consenso no mundo sobre a definição de indústria criativa nem das áreas e setores que a compõe. Estamos tratando de um segmento naturalmente orgânico, vivo e delimitá-lo, talvez, seja a menor das prioridades. A pluralidade nas formas de entender indústria criativa nos faz perceber a adaptabilidade do conceito, dialogando com o propósito das instituições que se propõem a entender como ela pode ser aliada em uma economia cada vez mais digital e que tem como desafio ser também mais humana, sustentável e diversa. 

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