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Julia Golldenzon

Por Julia Golldenzon, estilista carioca
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Patrick Demarchelier: retrato de uma era

Fotógrafo francês se tornou um ícone para além de suas fotos a ponto de se tornar personagem de si mesmo no cinema

Por Julia Golldenzon Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 2 Maio 2022, 11h33 - Publicado em 20 abr 2022, 13h02

A moda perdeu um dos maiores fotógrafos de todos os tempos este mês. O francês Patrick Demarchelier, que morreu no ultimo dia 31, aos 78 anos, foi um dos mais frequentes autores de ensaios e capas da Vogue, Elle e Harper’s Bazaar americanas. O auge de sua carreira de seis décadas começou nos anos 80, quando ele passou a assinar campanhas de todas as principais marcas internacionais, entre elas, Dior, Louis Vuitton, Céline, Tag Heuer, Chanel, Yves Saint Laurent, Lacoste, Calvin Klein, Ralph Lauren. Nos anos 90, foi escolhido pela princesa Diana para ser o primeiro fotógrafo oficial não britânico a clicar um membro da família real. E nos anos 2000, ele já havia se tornado um ícone a ponto de ser personagem de filmes ligados ao mundo da moda.

Sua obra, especialmente dos anos 90, é um retrato de uma era, já que ele fotografou todas as principais supermodelos que marcaram a cultura de moda deste período. De Kate Moss a Christy Turlington, passando por Cindy Crawford a Claudia Schiffer. Entre as brasileiras que mais trabalharam com Demarchelier, estão Gisele Bündchen e Carol Trentini, que fez dezenas de ensaios com ele para a revista Vogue nas últimas duas décadas.

Sua fama era tamanha nos anos 2000, que ele passou a ser personagem de si mesmo no cinema. Era um ícone da moda. O fotógrafo é citado numa das cenas do filme O Diabo Veste Prada, quando Miranda Priestly pergunta à sua assistente se “Demarchelier confirmou?”. O fotógrafo aparece também em cena no longa Sex and The City fotografando Carrie Bradshaw num ensaio de noiva para a Vogue.

Demarchelier virou fotógrafo por acaso depois de ganhar uma câmera Eastman Kodak de seu padrasto aos 17 anos. Praticamente sozinho, ele começou a desenvolver séries de filmes e retocar negativos, desenvolvendo um profundo conhecimento na prática das técnicas que envolvem a fotografia. Assim que se mudou para Nova York, nos anos 70, quando já tinha mais de 30 anos, Demarchelier foi freelancer no estúdio de Henri Cartier-Bresson, a quem sempre considerou seu grande mestre.

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Trabalhar a forma das roupas e acessórios na fotografia era um de seus traços mais marcantes, bem como a sofisticação  da luz e a simplicidade, especialmente no uso restrito de filtros e modificação digital. Demarchelier sabia como poucos fazer um look ganhar vida e expressão ao criar formas inusitadas no movimento e no corpo das modelos.

Até o fim de sua atuação na fotografia de moda reflete o retrato de uma era. Seus quase 60 anos de carreira foram de enorme sucesso até que, em 2018, ele foi acusado de assédio sexual por sete mulheres em uma carta pública, mostrando que Demarchelier representava um tempo que mudou. Desde então, mesmo negando as acusações, ele foi banido da editora Condé Nast, que publica a revista Vogue.

A punição acabou por coincidir com sua aposentadoria. Infelizmente, a indústria da  moda tem um longo histórico de relatos de abuso, quando homens todo-poderosos se achavam no direito de assediar jovens modelos. Demarchelier não foi o primeiro a sofrer estas acusações, nem será o último, e isso é um sinal de que as mulheres não estão mais dispostas a silenciar e de que a indústria está tentando evitar que isso se repita. O banimento de um dos maiores fotógrafos da moda da maior revista do mundo foi um claro sinal de que o mundo está mudando.

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