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Julia Golldenzon Por Julia Golldenzon, estilista carioca

Como não amar os figurinos das novelas de Gilberto Braga?

 Em homenagem ao autor, uma entrevista com duas de suas grandes parceiras: as figurinistas Marília Carneiro e Helena Gastal

Por Julia Golldenzon Atualizado em 4 nov 2021, 10h07 - Publicado em 4 nov 2021, 09h48

As novelas sempre foram talvez o veículo mais poderoso para lançar moda, estilos, truques de styling no Brasil. Os figurinos têm papel fundamental na construção do imaginário do público. Quando o personagem e seu look fazem sucesso, logo vemos pessoas nas ruas se vestindo igualzinho. A TV ainda é a maior vitrine do país, especialmente na moda comercial. E como não amar os figurinos das novelas de Gilberto Braga? O autor, que faleceu na terça-feira passada, era um esteta, segundo duas de suas grandes parceiras de trabalho, as figurinistas Marília Carneiro e Helena Gastal. “Ele era detalhista e gostava do belo”, lembra Marília.

Para Helena, as novelas do Gilberto apresentaram o mundo dos ricos cariocas como ele é, descontraído e elegante, sem estereótipos de vestir todos os homens de paletó em festas. “O Gilberto tinha a pegada de falar sem pudor de cachorras, das periguetes, dos vilões, da disputa de poder. Os personagens apimentados e politicamente incorretos faziam o maior sucesso, porque ele expunha as mazelas todas”, comenta Helena. As duas profissionais foram responsáveis por alguns dos figurinos de maior sucesso da televisão brasileira e relembram abaixo os figurinos icônicos das novelas e séries de Gilberto Braga, como as meias de lurex de Julia Matos em “Dancin’Days” e o figurino “cachorra” de Bebel em “Paraíso Tropical”, que foi reproduzido até por Anitta em seu bloco de carnaval em 2020.

Dancin’Days (1978), figurino de Marília Carneiro: “Gilberto, um dia, já exausto de tanto falar das meias de lurex, desabafou: ‘Eu pensei que estava escrevendo sobre duas irmãs e não sobre meias’. A verdade é que ele só viu prontas as meias de lurex, não chegou a participar da criação –  Daniel Filho (diretor), que participou. O Gilberto opinava pouco, mas dizia quando não gostava do que eu tinha feito. Por exemplo, ele ficou muito decepcionado com a “virada” da Sonia Braga quando ela apareceu de cabelo curto e encaracolado, já uma prévia dos cachos que viraram moda nos anos 80 e 90. Ele estava sonhando com a figura da “Dama do Lotação”, onde Sonia usava madeixas longas à la Rita Hayworth e fez um grande sucesso. Mas ele não brigava, não. Só me contava da sua decepção.”

Água Viva (1980), figurino Helena Gastal: “O figurino de ‘Água Viva’ era chique, apresentava uma maneira descontraída dos homens mais poderosos se vestirem. Se você vai a festa de ricos sabe que ninguém está vestido de paletó. Tive uma parceria maravilhosa com a Tônia Carrero. Ela era rica, só usava grifes de fora, era um desafio. E teve o sucesso do brinco de raio da Gloria Pires quando ela perde a mãe e corta o cabelo. Desenvolvi aquele brinco junto com o Antonio Bernardo, que na época ainda não era famoso, era um incrível artesão. Eu encomendei uma coisa que lembrasse a força da natureza, surgiu o brinco de raio. E a personagem ssava só de um lado, foi super copiado”.

Anos Dourados (1986), figurino Helena Gastal: “Esta minissérie resgatou o romantismo, aqueles bailes, com aqueles vestidões. E houve um revival dos bailes de debutantes no Brasil. A Betty Faria foi criada a partir da Gina Lollobrigida, cabelo curtinho”

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Vale Tudo  (1988), figurino de Helena Gastal: “Este é o trabalho de que mais gosto. Beatriz Segal, rica, metida e poderosíssima, só usava marcas importadas. O Reginaldo Faria, um homem poderoso mas também do mar, bem esportivo. A Lídia Brondi era um fenômeno, com as gravatinhas, as obreiras, os blazers grandes com minissaia e meias coloridas. Ela era uma “Cleópatra ruiva” com aquela franjinha. Tudo tinha que ter cara de ser importado. O Gilberto me brifava o tempo todo, então não tinha erro. Ele ligava para mim sem parar, dizia o que não tinha gostado e o que gostava. Ele tinha um conhecimento de cinema e teatro fora do normal, e trazia muitas referências, descrevia cenas inteiras.”

Anos Rebeldes (1992), figurino Marília Carneiro: “Tive prazer em fazer todos os figurinos do Gilberto, mas em ‘Anos Rebeldes’ senti mesmo uma emoção, porque falava da minha geração. Claudia Abreu era meu alter ego. Só não entrei para luta armada, mas chorei quando ela morreu com os olhos abertos do Che Guevara. Foi tudo muito emocionante”.

Celebridade (2003), figurino de Marília Carneiro: “Nunca mais vou esquecer a Malu Mader de terno branco da Gucci apresentando seu personagem Maria Clara no primeiro capítulo.  Eu sempre achei o Gilberto louco pela Malu, mas depois de ‘Celebridade’, ele ficou muito apaixonado pela Claudia Abreu também, e passou a amar as duas”

Paraíso Tropical (2007), figurino de Helena Gastal: “A sinopse sinaliza a história, mas quando os atores abrem a boca e andam é que você visualiza e a narrativa vai te conduzindo O Wagner Moura fazia um executivo. Gilberto estava preocupado porque ele só usava bermuda e sandálias. E eu o tranquilizei: ‘Deixa que eu vou botar ele arrumado’. O Gilberto ficava vigiando, ligava para falar da altura da gravata, dos detalhes. E o Wagner ficou elegante, mas tinha uma postura mais descontraída mesmo, abaixava um pouco a cintura da calça na hora de gravar. A Bebel também foi um fenômeno. Eu criei de uma maneira, o estilo começou regional, de engana-mamãe de crochê e ciganinha, e depois ela foi mudando e ganhando materiais mais modernos, com saias de placas de metal, botas de vinil, maiôs metalizados. Aquele vestido rosa metalizado, que foi um dos mais marcantes, eu criei a partir de uma modelagem de maiô.”

 

 

 

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