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Fabiane Pereira Por Fabiane Pereira, jornalista

Entre caixas: Zé Manoel, livros, eleições e Casa de Francisca

Renovação e memória: o segredo do sucesso da música popular brasileira

Por Fabiane Pereira Atualizado em 6 nov 2020, 10h23 - Publicado em 6 nov 2020, 10h14

Sentada num canto do sofá, único espaço sem caixas que restou no apartamento que foi minha morada por doze anos, escrevo esta coluna. Sim, estou mudando de casa e toda mudança é sempre um sopro de esperança. Pelo aplicativo de música baixado no celular, ouço o novo disco do Zé Manoel. Disco é outra coisa. “Do meu coração nu” é uma obra prima. O álbum se chamaria “Meu coração escuta e dita em silêncio”, o que também seria de uma beleza rara, mas após uma sugestão do amigo Arthur Nogueira, músico interessantíssimo cuja relação com as palavras é estreita, Zé batizou de “Do meu coração nu”. Ao ouvir o coração desnudado de Zé, meu coração também se despiu. As nove faixas autorais nasceram depois de escutas atentas a vários discos de artistas pretos. É um álbum dedicado as lembranças e desconheço acalanto maior do que nossas memórias.

 

 

Ao colocar meus livros e discos em caixas para serem transportados até meu novo endereço, recordei vários momentos que carregarei com afeto pra sempre. Trechos sublinhados, letras de música, flertes, paixões não correspondidas e correspondidas. Uma imensidão sob um teto todo meu. O último livro a ser encaixotado foi o que li recentemente. “Afiadas”, de Michelle Dean, editado pela Todavia. Uma espécie de compilação biográfica que conta a história de dez escritoras afiadas. Dez mulheres que se afirmaram como escritoras num ambiente bastante desfavorável, em que eram tratadas com extrema condescendência pelo establishment cultural dominado pelos homens. Qualquer semelhança com a história da influencer Mariana Ferrer não é mera coincidência.

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Numa semana em que, novamente, mulheres precisaram recorrer as redes sociais para implorar por respeito, Trump afirma que as eleições norte-americanas estão sendo fraudadas. Sabemos que ele se elegeu, em 2016, legitimado por Fake News e parece que ele quer se reeleger usando a mesma tática. Não aceitar o resultado das urnas é a prova cabal de um líder totalitário. E já que falei em memórias, vale lembrar que Aécio Neves pediu a recontagem dos votos no 2º turno das eleições que reelegeu Dilma Roussef e, após nova conferência, inconformado, arquitetou o golpe. E aí deu no que deu e estamos entubando um déspota tupiniquim desde 2018.

No meio de tudo isso, penso na sorte que tenho em converter minhas fobias em trabalho (na maioria das vezes menos rentável do que eu mereço, mas ainda assim rentável). Penso na minha bolha e lembro do Rubens Amatto, Rubão para os íntimos, o idealizador da Casa de Francisca, espaço extraordinário dedicado ao fomento da nova cena musical contemporânea. Acredito que tenhamos um Rubão em cada cidade deste país porque senão duvido que ainda estaríamos aqui. É preciso viver de sonhos. É saudável realizá-los. E é empático dividir a realização desse sonho com a sociedade. A Casa de Francisca já foi um sonho e hoje é uma realidade que precisa do nosso apoio para continuar fomentando arte e cultura. Num país que criminaliza a própria cultura, Rubão é Deus. Pelo menos pra mim.

E já que falei de Rubão e da Casa de Francisca, amanhã tem show ao vivo, sem plateia, com João Donato. A live será filmada pelo cineasta Luan Cardoso e faz parte do projeto “Até o fim, cantar” que tem curadoria cinematográfica e afetiva de Laís Bodanzky e direção artística do próprio Rubão. João Donato é daqueles artistas que renova a música brasileira cada vez que sobe num palco. Pra quem perder a live amanhã, às 21h, pode assisti-la no domingo, às 18h. Os ingressos estão sendo vendidos aqui.

Sou uma entusiasta dos que têm coragem e dos que fazem dela uma arte. Viva Zé Manoel e Rubão!

 

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