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Esquinas do Esporte

Por Alexandre Carauta, jornalista e professor da PUC-Rio
Pelos caminhos entre esporte, bem-estar e cidadania
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“Rio tem vocação para virar um grande centro de esportes eletrônicos”

Criador da divisão de e-sports do Flamengo considera belezas naturais um trunfo da cidade na tendência global de agregar games e experiências ao ar livre

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Atualizado em 3 Maio 2021, 11h18 - Publicado em 1 Maio 2021, 00h09

Gabriel Duarte é desses executivos prodígios com tino de craque. Antevê a jogada. Mesmo antes de concluir Publicidade, na PUC, embarcou na onda crescente dos esportes eletrônicos, um mercado hoje na casa de dois bilhões de dólares por ano. Desde que arquitetou a divisão de e-sports do Flamengo, há cinco anos, o diretor de Novos Negócios da Final Level convive com empreendimentos voltados à consolidação dessas modalidades como estilo de vida:

“Os esportes eletrônicos são um movimento cultural associado, por exemplo, ao rap e às rodas de rimas. Representam um estilo de vida cada vez mais aberto a experiências presenciais. O Rio, com suas belezas naturais, se afina à tendência global de agregar games e atividades ao ar livre”, avalia o especialista. Gabriel vai debater os rumos do setor na próxima terça, às 18h, em webinar aberto ao público organizado pelo Ecoa PUC-Rio (inscrições em https://ecoa.puc-rio.br/e/1320).

Gabriel Duarte, da Final Level
(Divulgação/Reprodução)

Num papo por telefone, o carioca de 29 anos, fiel a pedaladas noturnas no Aterro, explica por que a cidade tem vocação para se tornar um grande centro de esportes eletrônicos:

O Rio é vocacionado para o lazer ao ar livre. Os esportes eletrônicos, cada vez mais praticados também por cariocas, são compatíveis com esta vocação?

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Muito. Nos próximos cinco anos os esportes eletrônicos vão se associar cada vez mais a experiências presenciais e se consolidar como entretenimento familiar. Neste movimento global, as belezas naturais do Rio são um trunfo para conciliar os games com a vida ao ar livre. O Rio tem esse enorme potencial, acompanhando o que foi feito, por exemplo, em 2017, com atividades envolvendo a [série de jogos eletrônicos] Counter Strike num resort da ilha de Mykonos, na Grécia.

Esta é a bola da vez: consumar os jogos e os esportes eletrônicos como uma órbita para diversas experiências, inclusive presenciais?

Exatamente. Por isso países como Estados Unidos, Canadá, China e Holanda estão investindo forte no que podemos chamar de game center: área com várias opções de lazer ancoradas no videogame. A arena temática do [game] Fortnite na Carolina do Norte (EUA), o novo centro recreativo canadense e o CT da Liquid na Holanda ilustram esta tendência. O Brasil deve acompanhá-la, por ser o terceiro mercado mais engajado nos esportes eletrônicos, com 25 milhões de espectadores, atrás só dos Estados Unidos e da China.

É questão de tempo para os esportes eletrônicos ganharem o Maracanã?     

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Não descarto esta possibilidade. Aliás, o Maracanãzinho acolheu em 2014 uma grande final de CBLoL (Circuito Brasileiro de League of Legends). Mas, como eu disse, há um movimento global de expandir as experiências associadas aos jogos e esportes eletrônicos com atividades presenciais e ao ar livre. O patrimônio natural do Rio enriqueceria essas experiências. Uma diferença marcante em relação aos outros países. Locais como a Marina da Glória, o Pão de Açúcar e a Floresta da Tijuca são perfeitos para explorar esse potencial.

Passada a pandemia, o Rio tende a consagrar o casamento entre esportes eletrônicos e experiências ao ar livre?

Acredito que sim. O Rio tem um histórico de eventos ligados a essa cultura, como o Game XP e o Rock in Rio. Pode acolher muito mais. Até porque o público já existe. O consumo de games alcança 85 milhões de brasileiros. O carioca faz parte desse público crescente, para o qual os jogos e esportes eletrônicos são um estilo de vida.

A disseminação de tecnologias como a realidade virtual impulsiona ainda mais os hábitos em torno dos games?

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A realidade aumentada e o 5G estão efetivando os jogos e esportes eletrônicos como um movimento cultural, um estilo de vida. Isso foi amadurecido com a Geração Z, a partir do uso intenso das plataformas móveis. Os novos avanços tecnológicos aprofundam a relação com o universo dos games. Ela vai beirar o infinito nas próximas gerações.

O imaginário coletivo ainda associa jogos e esportes digitais ao sedentarismo e à cultura nerd. Mas a realidade hoje é outra, não?

Esses estereótipos estão defasados. Os jogos e esportes eletrônicos hoje estão ligados a um estilo de vida em que o game é só uma parcela do todo. Um estilo de vida voltado também para a rua, do qual fazem parte, por exemplo, as rodas de rima, o rap, os tours de namoro adolescente. O gamer deixou de ser nerd, sedentário. Virou cool. Artistas como Alok e Projota representam essa mudança.

A cultura gamer cultiva a perspectiva de mobilidade socioeconômica, o que historicamente é associado ao futebol profissional…

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Sim, tem transformado a vida de jovens da periferia. O Free Fire, por exemplo, é um movimento de massa que, além de gerar milhões de reais, vem mudando a perspectiva de jovens como o Piuzinho: um menino pobre do interior, frentista, que se tornou um grande influenciador. Seus conteúdos sobre jogos digitais atraem mais de dez milhões de seguidores. Minha missão como executivo da área é essa: transformar a vida das pessoas.

Os esportes eletrônicos representam uma mudança também para os clubes de futebol, que incorporam essas modalidades para renovar o público. O que mudou desde que você introduziu, há cinco anos, a divisão de e-sports no Flamengo?

O processo se consolidou. Todos os clubes precisam estar no esporte eletrônico. Senão, deixam de falar com as novas gerações. Num primeiro passo, incorporam o futebol virtual. Em seguida, ampliam o cardápio de modalidades digitais. O Corinthians é campeão mundial de Free Fire. O Cruzeiro investe no LoL. O Atlético Mineiro está ligado ao Counter Strike. Os clubes cariocas seguem o caminho, ampliando a capilaridade das experiências atreladas às marcas, estreitando os canais com as novas gerações. Muitos fãs, por exemplo, do Flamengo, não querem consumir futebol ou exclusivamente futebol.

Isso não seria uma contradição? Essas marcas são o que são graças ao futebol…

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Marcas como o Flamengo envolvem bem mais do que o futebol. São movimentos culturais articulados à cidade, ao país. A incorporação dos esportes eletrônicos no conjunto de experiências em torno dessas marcas não enfraquece a modalidade principal, ou seja, o futebol. É uma soma, não uma ameaça ou uma contradição. Aumenta o valor da marca, que se torna mais capilar e comunica o que não comunicava antes, com canais diretos com o público.

Periga o torcedor do futuro gostar mais de games do que futebol?

Uma experiência não exclui a outra. Mas é inegável que jovens torcedores não raramente preferem jogar com os amigos do que ver uma partida de futebol. Isso não diminui a paixão pelo clube. Se a filiação com o clube inclui experiências além do futebol, como games, o vínculo se fortalece.

Por falar em vínculo, como a cidade influenciou e influencia seu mergulho profissional nos esportes eletrônicos?

Jamais abandonei o espírito carioca, mesmo quando morei em São Paulo por um ano e meio. Em termos profissionais, a guinada começou com o desenvolvimento dos esportes eletrônicos para o Flamengo, que é um símbolo do Rio.

O que você mais gosta de fazer quando não respira e-sports?

Passear de bicicleta no Aterro. Pedalo 20 quilômetros por noite.

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