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Esquinas do Esporte

Por Alexandre Carauta, jornalista e professor da PUC-Rio
Pelos caminhos entre esporte, bem-estar e cidadania
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O mar que habita a nossa campeã mundial de canoagem

Colecionadora de pódios, e façanhas, Carmen Lucia celebra, aos 57 anos, os encontros com a natureza e com a humanidade que o esporte ajudou a desenvolver

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Atualizado em 13 ago 2022, 18h29 - Publicado em 13 ago 2022, 17h41

Carmen Lucia reluz a força da natureza, brilho que se impõe às dores do mundo. Os dias lhe correm azuis. Carmen é mar, jamais ilha. Aos 57 anos, a campeã mundial de canoagem oceânica integra-se às ondas, à mata, às comunidades com a mesma simplicidade e o mesmo apetite da garota que nadava sem freio pelo litoral de Angra.

Os anjos sempre acudiam a mãe aflita. Sabiam que nada deteria o ímpeto expresso nos 90 quilômetros percorridos da Barra Mansa natal até aquele recanto da costa fluminense transformado em lar. Ali a alma líquida da menina de 12 anos encontrava o Céu. Expandia-se em remadas, corridas, pedaladas.

“Quando ingressei na corrida de aventura, não estranhei nem um pouco. Já fazia aquilo desde criança. Só não tinha esse nome”, recorda.

Carmen inaugurou a modalidade no Brasil, ao participar do EMA 98. Brilhou nos circuitos nacionais e estrangeiros de corrida de aventura. Malásia, Fiji, Patagônia, Chapada Diamantina. Praia, floresta, sertão.

Os perrengues lhe oxigenavam. Eram pedagógicos:

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“Situações extremas ensinam a valorizar as pequenas coisas, como comer arroz e feijão. Testam a capacidade de nos inserirmos na natureza e de cooperarmos uns com os outros. Na aventura, não há como fazer tipo. O egoísta, por exemplo, fica mais egoísta. Em compensação, muitos se colocam na pele do outro”.

O aprendizado inscreve-se nos sucessivos títulos de canoagem oceânica: 21 brasileiros; um sul-americano, em 2017; e o Mundial conquistado ano passado, na Espanha. Antes de perseguir o bi nas águas portuguesas, em outubro, ela mergulha, fim de semana que vem, na etapa de Saquarema do Aloha Spirit, maior festival de esportes aquáticos do globo.

Busca repetir as vitórias das etapas de Ilhabela e Angra, onde mora desde 1988. Anima-se com a perspectiva de novo sucesso na prova de surfski, Fórmula 1 do remo oceânico. Mas os olhos de Carmen reviram, sobretudo, pelo carnaval de barcos e de gente:

“Fiquei louca na primeira participação, há muitos anos. Queria fazer tudo: stand-up, canoa open, pedal board. Hoje me dedico ao surfski. O legal é interagir com atletas de diferentes modalidades. Eu me sinto numa festa”.

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Não terá tempo de esticá-la. Emenda o Aloha Spirit com a regata do Colégio Naval, dia 21. Irá disputá-la pela equipe Amazônia Azul, formada por remadores civis e militares.

A maratona de treinos e competições não lhe cansa. Pelo contrário. Dela extrai energia para incorporar na rotina trabalhos de arquiteta, aulas de canoa havaiana, no clube NoaCanoa Outrigger, e, claro, prosas com a mãe, já refeita dos sustos, e o filho de peixe Luiz Wagner Pecoraro, também craque da canoagem verde-amarela. Com ele, Carmen bateu o recorde de 200 quilômetros remados durante 24 horas, em 2015, quando comemorava 50 anos.

“Ensinei meu filho a pegar onda de traineira. Ele criou gosto, começou a competir e chegou à seleção brasileira na canoagem de velocidade. Depois ficou na oceânica. E fez oceanografia”, orgulha-se.

Destino inevitável para quem transborda oceano no sangue, no coração, e o sorve dia a dia tal qual a primeira vez a descobri-lo. Para quem o festeja menos nos troféus do que nos encontros com o sal da vida, com as delicadezas, a brisa no rosto, como se celebrasse a luminosidade de Caetano ou os votos renovados na democracia.

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Celebração que nasce sob as estrelas. Ainda é madrugada quando Carmen Lucia arreda da cama para os 15, 20 quilômetros mar afora, depois de passear com os vira-latas do peito. “Sou cachorreira. Eles me acordam”, conta feliz.

Nas remadas até Ilha Grande, apura a técnica inspirada em dois bambas: a carioca Simone Duarte, primeira brasileira num Mundial de canoagem (Bulgária, 1989); e o multicampeão de surfski Oscar Chalupsky, sul-africano íntimo dos nossos trópicos. “Hoje faço menos força que aos 20, com um desempenho melhor”, compara.

As manobras de Carmen ao amanhecer, em meio às marolas das embarcações, viram atração turística. As horas mal espreguiçam, ela navega para a arquitetura. Desloca-se de caiaque até as obras supervisionadas em condomínios da região. Não larga o remo, tampouco o sorriso.

Então chega o imprescindível descanso. Só que não. Seguem-se exercícios na academia, por obrigação atlética; e passeios de canoa havaiana, doce rima entre diversão e responsabilidade social. Reúnem atletas, moradores, idosos, crianças.

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“É uma forma de o esporte melhorar a saúde física e mental de todas pessoas. Isso é o mais importante”, enfatiza.

A canoísta Carmen Lucia da Silva

(Foto de Fábio Mota/Divulgação)

Embora tenha amealhado incontáveis pódios, recordes, façanhas, Carmen logo percebeu recompensas acima do ouro. Avistou-as desde que partia escondida, de ônibus, mochila nas costas, até o Arpoador, para encarar o Desafio Samoa, prova de maratona aquática nos anos 80. Nada lhe cintila mais do as conexões com a alma líquida, com a natureza, com o que temos de melhor:

“O mar é meu templo e a remada, a minha oração. No contato com a natureza, descobri habilidades múltiplas. A mata me absorve e eu viro uma onça, igual à Juma”, brinca. “A humanidade que desenvolvi foi a coisa mais maravilhosa que o esporte me trouxe”, completa.

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Faz lembrar um dos sambas eternizados por Clara Nunes, outra joia artística da safra de 1942. Não à toa o mar, às vezes num rasgo de segundo, inclina-se a serenar quando Carmen aporta. Por reverência recíproca, cumplicidade. Comungam a mesma matéria. Igualmente poéticos, desbravadores, inspiradores.

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Alexandre Carauta é doutor em Comunicação, mestre em Gestão Empresarial, pós-graduado em Administração Esportiva, também formado em Educação Física.

 

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