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Esquinas do Esporte

Por Alexandre Carauta, jornalista e professor da PUC-Rio
Pelos caminhos entre esporte, bem-estar e cidadania
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“Nada integra mais o gramado e a arquibancada do que cantar”

Criador do Movimento Verde Amarelo, Luiz Vasco explica por que a música é decisiva para avivar encontro entre o Brasil das esquinas e o Brasil dos campos

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4 out 2023, 18h54

Dizem que a seleção não desperta o entusiasmo de outrora. Coroada pelos cinco títulos, ainda reina no imaginário. Mas andaria afastada da rua, do encanto, do peito. A percepção é debatida há mais de duas décadas por pesquisadores como o sociólogo Ronaldo Helal, coordenador do Laboratório em Estudos de Mídia e Esporte da Uerj.

Helal e Antonio Soares discutem, no artigo “O declínio da pátria de chuteiras: futebol e identidade nacional na Copa do Mundo de 2002”, a influência da imprensa para um esfriamento entre o brasileiro e o símbolo da nossa identidade cultural. Por razões que extrapolam o jejum de canecos, a mística da seleção estaria desbotada.

Num caminho oposto investe o fundador do Movimento Verde Amarelo (MVA), Luiz Carvalho, o Vasco (referência ao clube do coração). Criada em 2008 por universitários decididos a incrementar o apoio ao escrete nacional, a torcida organizada expande-se a outros esportes, multiplica-se por dezenas de embaixadas pelo Brasil e no exterior, e ganha uma estrutura corporativa.

“Adotamos uma gestão empresarial para atender às demandas crescentes. Viramos, por exemplo, torcida oficial dos comitês olímpico e paralímpico”, orgulha-se Vasco.

O diretor-executivo do MVA revela, num papo por vídeo, bastidores da inciativa ora debruçada sobre as disputas pré-olímpicas e as eliminatórias da Copa. Ele conta as estratégias para avivar o encontro entre o Brasil das esquinas e o Brasil dos campos, ginásios, piscinas. Autor de sucessos nas arquibancadas, como “Mil gols, só Pelé”, Luiz Vasco explica por que a música é decisiva para incendiar a galera.

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Quais as principais mudanças e conquistas nesses 15 anos de apoio organizado à seleção ou às seleções nacionais?

Ao completarmos dez anos, em 2018, mudamos de patamar. Ganhamos visibilidade e adesões expressivas na grande mídia e nas redes sociais. Esse crescimento se deve, em grande parte, às músicas que se popularizaram nas Copas de 2014 e 2018: “Mil gols, só Pelé” e “Único penta é o Brasilzão”. Fiz “Mil gols” em 2010, mas ela estoura em 2014. Vira uma vinheta da Copa no Brasil.

A música revela-se o grande motor da torcida?

Certamente. A música é protagonista, embala a experiência de torcer. É a alma da arquibancada. Sem música, ninguém canta. Se ninguém canta, não se torce. Espectador não é torcedor. Torcer significa estar integrado ao espetáculo, ao jogo, à equipe, o que contribui para o desenvolvimento esportivo.

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Com os cânticos irreverentes e vibrantes, alguns eternizados no imaginário, a galera joga junto…

Exato. Além de potencializar a experiência de torcer, os cantos incentivam os atletas, ajudam a superar as dificuldades e a celebrar os méritos. A música exerce também um papel de representação. “Único penta é o Brazilzão”, por exemplo, representa o sucesso do Brasil nas Copas. Outro exemplo é “Voa, Canarinho, voa”, composta para o Mundial de 1982. Esta música cantada por Júnior retrata a identidade nacional simbolizada pelo futebol. Isso fortalece a autoestima brasileira e a identificação do torcedor com a seleção.

Falando nisso, que estratégias o MVA tem desenvolvido para aproximar a torcida pela Canarinho da paixão pelo clube do peito?

Adotamos uma gestão profissional, alinhada a uma maior capilaridade de atuação. Reunimos hoje cinco diretorias, como administrativa, financeira, jurídica; comitês especializados, como o referente à inclusão feminina no esporte; e 174 embaixadas, no país e no exterior. Elas reúnem centenas de voluntários. Esses avanços contemplam a expansão do MVA a outras modalidades, impulsionada pelas parcerias com os comitês Olímpico e Paralímpico do Brasil.

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Tanto que vocês têm apoiado as disputas pré-olímpicas…

Isso mesmo. A bola da vez agora são o pré-olímpico de vôlei masculino, no Rio, e o Pan-americano, no Chile. Mas é claro que mantemos um apoio forte ao Brasil nas eliminatórias da Copa e planejamos uma participação especial no Mundial de 2026.

Cada modalidade exige adaptações no jeito de torcer?

Sim, torcer para o futebol é diferente de torcer para o tênis de mesa, a natação, a ginástica. Temos de ajustar a torcida à cultura de cada esporte. No futebol de cegos, por exemplo, é adequado torcer só antes do jogo, no intervalo e na hora do gol.

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Diferenças culturais manifestam-se também nas próprias torcidas nacionais, algumas mais efusivas, outras mais comedidas. Quais você considera inspirações para a torcida brasileira?

As torcidas do Marrocos e da Grécia. Cantam muito, sem parar. Integram-se profundamente ao espetáculo esportivo nos estádios. O MVA busca construir essa cultura nos torcedores brasileiros. É um processo. Na Copa do Catar, em 2022, a nossa torcida já ficou entre as que mais cantaram.

A elitização dos estádios, apontada por analistas esportivos, constitui uma barreira nesse processo?

Acredito que sim. Quando o estádio é afastado do seu caráter popular, isso pode se refletir em comportamentos mais frios, menos conectados com o jogo e a sua atmosfera carnavalesca. Seria como, num show de rock, ficar parado, sem pular, sem cantar alto.

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Alexandre Carauta é jornalista e professor da PUC-Rio, doutor em Comunicação, mestre em Gestão Empresarial, pós-graduado em Administração Esportiva, formado também em Educação FísicaOrganizador do livro “Comunicação estratégica no esporte”.

 

 

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