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Esquinas do Esporte

Por Alexandre Carauta, jornalista e professor da PUC-Rio
Pelos caminhos entre esporte, bem-estar e cidadania
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“Clubes e marcas precisam entender as peculiaridades das torcedoras”

Organizadora do Futsummit, Izabel Barbosa associa desenvolvimento do mercado futebolístico a avanços em diversidade e igualdade

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Atualizado em 8 mar 2024, 11h40 - Publicado em 8 mar 2024, 07h37

O Dia Internacional da Mulher, 8 de março, realça o alerta quanto às violências e discriminações de gênero. A urgência em estancá-las impõe um engajamento coletivo – inclusive da indústria esportiva, dominada por padrões masculinos e machistas.

O desafio se insere nos debates sobre aperfeiçoamentos do setor, como o Futsummit 2024, 27 e 28 deste mês, no Museu do Amanhã (gratuito para quem acompanha pela internet). A diversidade integra as discussões entre gestores e profissionais da área. Delas participam, por exemplo, o eterno Zico, conselheiro do clube japonês Kashima Antlers; o diretor de seleções da CBF, Rodrigo Caetano; o presidente do Fluminense, Mario Bittencourt; o diretor-executivo do Vasco da Gama, Alexandre Mattos; os jornalistas Mauro Beting e Benjamin Back.

“Assim como no mundo corporativo, o desenvolvimento e a evolução da indústria do futebol passam pela diversidade e pela igualdade. Precisamos difundir e aplicar as boas práticas, aprendendo com cada experiência e resultado colhido”, destaca a empresária Izabel Barbosa, organizadora do Futsummit, ao lado do marido, o ex-jogador e apresentador Getúlio Vargas. Especialista em branding, a coautora de “Mulheres no Seguro” acrescenta que clubes e marcas “precisam entender as peculiaridades das torcedoras, o que elas buscam, e oferecer meios reais para exerçam a sua paixão”.

Que discriminações e barreiras você venceu nos universos empresarial e esportivos?

Izabel Barbosa: Sou filha de uma mulher que, já na década de 1980, era uma líder corporativa. Mulheres como a minha mãe desbravaram caminhos e pavimentaram as bases para que nós encontrássemos um mercado corporativo um pouco mais igualitário. Quando entrei no mundo dos negócios, a pauta da equidade de gênero não era amplamente discutida dentro das empresas. Hoje, não só é pauta, como integra as diretrizes de boas práticas das maiores empresas e instituições. A diversidade faz parte da estratégia de crescimento de cada companhia e está integrada à sua missão, sua visão, seus valores, sem contar com os resultados financeiras de organizações que atuam de forma genuína no tema. Já encontramos muitas líderes corporativas, inclusive no mercado esportivo.

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Em que aspectos precisamos ainda avançar?

Ainda há um longo caminho para que não só tenhamos oportunidades iguais a homens e mulheres, mas oportunidades diferentes, respeitando as habilidades, o conhecimento, as trajetórias e as capacidades das mulheres na indústria esportiva e em tantas outras. Mas a evolução é inegável.

Que barreiras travam essa evolução?

Ao liderar movimentos em prol da equidade de gênero, percebo que uma das barreiras que mais impedem o avanço das mulheres em posições de liderança é a própria síndrome da impostora. Muitas, por mais que estejam preparadas para enfrentar grandes desafios, não acham que o seu preparo é suficiente. A autoconfiança na nossa capacidade profissional levará as mulheres a conquistarem cada vez mais espaços no mundo dos negócios e no esporte.

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Como dirimir os preconceitos que persistem na indústria do futebol, em especial contra a mulher?

Sempre acreditei que a maior ferramenta de transformação são a educação e o exemplo. Precisamos falar mais sobre a importância da equidade de oportunidades. Precisamos ver mais mulheres em posições de liderança.

A que tipo de exemplo ou inspiração você se refere?

Minha geração não tinha, por exemplo, uma Marta como referência na infância. Mais do que atleta, a Marta é um símbolo de que o sonho de ser jogadora de futebol é possível. O impacto disso no desenvolvimento social não tem preço. O mesmo vale às posições de gestão ao redor da indústria do futebol. Hoje vemos mais mulheres no circuito da tomada de decisão. Mas é claro que, numa indústria predominantemente masculina, mudanças culturais são paulatinas. Fico feliz de estar à frente de um projeto que democratiza o acesso ao conhecimento, difundindo casos inspiradores e experiências de mulheres que chegaram ao topo apesar dos desafios inerentes à indústria.

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Quais os próximos passos para expandir o futebol feminino no país?

Participo do ecossistema do futebol há cinco anos, desde que tive o encontro de vida com o meu marido, Getúlio Vargas, ex-atleta e hoje apresentador. Sempre conversamos que o futebol feminino é mais do que esporte. É um símbolo de que as mulheres podem e devem ocupar novos espaços e posições se assim quiserem. Se compararmos a atenção recebida pelo futebol feminino há 10 anos com a visibilidade e o interesse que desperta hoje nas marcas, a evolução é inquestionável. Temos muito a caminhar, mas é preciso celebrar as conquistas.

De que forma o alinhamento à cartilha ESG, apregoado por clubes e investidores, pode concretizar uma efetiva inclusão e valorização feminina no mercado da bola?

Quando falamos em diversidade e inclusão, não precisamos reinventar a roda. Há boas práticas consolidadas que podem ser seguidas por todos os stakeholders da indústria do futebol. A difusão da cartilha ESG é fundamental para o desenvolvimento do mercado. Assim como no mundo corporativo, a evolução da indústria do futebol passa pela pauta da diversidade e da igualdade. Precisamos difundir e aplicar as boas práticas, aprendendo com cada experiência e resultado colhido.

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Como os clubes podem explorar dinâmicas digitais para melhorar a relação de consumo com as mulheres?

Vou dar um exemplo interessante. Dos cinco participantes mais engajados na edição passada do Futsummit (integralmente online), quatro eram mulheres. Isso corresponde ao que já vemos nos estádios. Existem muitas mulheres apaixonadas por futebol. Clubes e marcas precisam entender as peculiaridades que elas buscam e oferecer meios para que possam exercer a sua paixão. Ter mulheres em posições de liderança nos clubes também é fundamental. A diversidade no olhar faz com que a comunicação, os produtos e as experiências também sejam pensados pela ótica feminina, em vez de seguirem estereótipos daquilo que esperam das mulheres.

Que valores associados às principais marcas do nosso futebol mais cativam o público feminino?

Acredito que o principal pilar seja o pertencimento. Torcedores são plurais, com desejos e necessidades multifacetados, com diferentes formas de torcer e se engajar ao time do coração. A diversidade não pode ficar só no discurso. Mulher não é a companheira que vai junto ao estádio. Ela é torcedora, que vibra, que cobra, que engaja, que carrega paixão pelo esporte. Clubes e marcas precisam entender esses aspectos e criar mecanismos para contemplá-los.

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Quais desafios você superou para consolidar o Futsummit?

O Futsummit começou com uma estratégia de branding consistente. Éramos iniciantes, mas com ampla visão de futuro e clareza dos diferenciais que guiariam os passos seguintes. Um passo de cada vez. A primeira edição foi desenvolvida de forma simples, mas nos tornamos o maior evento online da América Latina, chegando a todos os estados brasileiros e 20 países. Este lastro chamou a atenção do mercado. Em 2021, criamos um evento híbrido, com tecnologias que melhoraram a experiência dos participantes. Agora em 2024, com o naming rights da Superbet, teremos uma edição também presencial. Estou animada.

Que contribuições à indústria futebolística – sobretudo para as demandas femininas – você espera legar com a edição deste ano? 

O evento ser liderado por uma mulher já fala muito sobre o seu DNA. O Futsummit foi criado a partir do conhecimento e da rede de relacionamentos do Getúlio, somados à minha experiência de branding e live marketing. Seu traço feminino se manifesta na atenção aos detalhes, na valorização das relações e no propósito de dar acesso à conteúdos de qualidade para aqueles sem condições de arcar com os grandes eventos do setor. Neste ano, teremos um painel dedicado à força feminina na indústria do futebol, compartilhando experiências que inspirem cada vez mais mulheres a trabalharem com o futebol, tanto nos campos quanto nas mesas de decisões.

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Alexandre Carauta é jornalista e professor da PUC-Rio, integrante do corpo docente da pós em Direito Desportivo da PUC-Rio. Doutor em Comunicação, mestre em Gestão Empresarial, pós-graduado em Administração Esportiva, formado também em Educação FísicaOrganizador do livro “Comunicação estratégica no esporte”.

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