Clique e Assine a partir de R$ 9,90/mês
Cristiana Beltrão Por Cristiana Beltrão, restauratrice e pesquisadora de gastronomia e alimentação

Um café, três mariachis e a conta

Minha passagem pela Cidade do México e os mariachis em restaurantes

Por Cristiana Beltrão Atualizado em 23 ago 2021, 13h39 - Publicado em 21 ago 2021, 22h47

Meu pai dizia que eu tinha ouvidos de tísico.

Pra quem não conhece a expressão, é um ouvido hiper sensível, que tudo capta. Tenho mesmo.

No restaurante, é muito prático. Além da capacidade de ler lábios para entender as angústias dos clientes, sou capaz de ouvir, lá da mesa 15, o que dizem baixinho, na mesa 1 (tenham medo).

Então vem o Covid e uma viagem para o México.

Primeiro você acha típico, engraçado, colorido como a cultura. Depois, já que prefere refeições ao ar livre por conta da peste, começa a se irritar com os mariachis.

Há uns bons, talentosíssimos, e outros péssimos, desafinados, com um violão que parece daqueles que eu tinha quando criança, com umas cordas banguelas fazendo BRÉÉM, BRÉÉM.

Não tem escapatória.

Tem um trio que faz reunião de planejamento na padaria ao lado do meu hotel, às 7 da manhã. Eu juro.

Fazendo aqui um aparte, já que essa coluna é sobre comida, no período pré-hispânico não existia o trigo. Os pães eram feitos de farinhas de milho ou amaranto socadas com mel. Só nos séculos 17 e 18, com as técnicas de panificação francesas e italianas, o trigo e o açúcar entraram na história e chegamos à profusão atual de ‘pandulces’ mexicanos. A concha, um dos meus preferidos, é uma adaptação do brioche francês, maciazinha por dentro.

Continua após a publicidade

Voltei.

Pois então, não adianta querer comer sua concha, em silêncio. Lá vêm eles, às 8:15hs, colados no seu café, feito biscoitinhos.

Têm a maior auto-estima do mundo. Levam 50 nãos e um suado sim, no valor de duas ou três moedas, mas não desanimam por nada. Vêm por trás da barreira de plantas, da muretinha, brotam do poste, chegam com o couvert.

De início, gostava de um uivo agudo de um deles, aíííííííííííííííííííííííííííííííí!!!!!, no meio da música. No terceiro dia, queria que aquele uivo fosse de dor.

Ainda assim, atravessava a rua com o que tivesse no bolso, para dar.

Tem ali muito músico talentoso, desempregado. Há outros péssimos, que só cantam seu desespero.

É triste.

Os mariachis das ruas não têm nada a ver com a expressão cultural riquíssima, com a música orgulhosa que nasceu da fusão de instrumentos ancestrais indígenas com outros, espanhóis. São nosso encontro barulhento com a pobreza, com o pedinte, com a crise. É a miséria que não se cala, que berra na sua cabeça, que não se tranca do lado de fora.

É preciso ajudar, aqui ou acolá.

Eu sempre tive ouvidos de tísico.

Continua após a publicidade

Publicidade

Essa é uma matéria exclusiva para assinantes. Se já é assinante, entre aqui. Assine para ter acesso a esse e outros conteúdos de jornalismo de qualidade.

Essa é uma matéria fechada para assinantes e não identificamos permissão de acesso na sua conta. Para tentar entrar com outro usuário, clique aqui ou adquira uma assinatura na oferta abaixo

Saiba tudo o que acontece na Cidade Maravilhosa. Assine a Veja Rio e continue lendo.

Impressa + Digital

Plano completo da Veja Rio! Acesso aos conteúdos exclusivos em todos formatos: revista impressa, site com notícias e revista no app.

Acesso ilimitado ao Site da Veja Rio, diariamente atualizado.

Resenhas dos melhores restaurantes, bares e endereços de comidinhas do Rio.

Receba mensalmente a Veja Rio impressa mais acesso imediato às edições digitais no App Veja, para celular e tablet

a partir de R$ 12,90/mês

Digital

Plano ilimitado para você que gosta de acompanhar diariamente os conteúdos exclusivos no site e ter acesso a edição digital no app.

Resenhas dos melhores restaurantes, bares e endereços de comidinhas do Rio.

a partir de R$ 9,90/mês

ou

30% de desconto

1 ano por R$ 82,80
(cada mês sai por R$ 6,90)