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Analice Gigliotti

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Comportamento
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Mais uma dose? Não há níveis seguros para consumo de bebidas alcoólicas

Cai por terra a teoria de que uma taça de vinho é benéfica à saúde

Por Analice Gigliotti
Atualizado em 12 jul 2024, 09h26 - Publicado em 9 jul 2024, 12h06

Em artigo interessantíssimo no jornal The New York Times, a jornalista Susan Dominus compartilhou com os leitores uma experiência bastante pessoal. Segundo ela, uma amiga começou a evitar seus convites para sair e beber alguma coisa. Em outra ocasião, durante uma caminhada, ele revelou que não estava a evitando por nenhuma razão pessoal, apenas havia parado de consumir álcool. A tal amiga não bebia muito – tomava uma taça de vinho no jantar ou um Aperol spritz -, mas havia se informado de que mesmo uma pequena quantidade de álcool era muito pior para sua saúde do que dose nenhuma.

A tal amiga da jornalista estava impactada pelas novas mensagens de saúde pública acerca do consumo de álcool. Por muitos anos, ela pode ter sentido que estava fazendo uma escolha saudável ao tomar uma taça de vinho ou uma cerveja no jantar. Este foi o comportamento, aliás, de muita gente. No início dos anos 1990, a mídia popularizou a ideia de que beber moderadamente estaria ligado a uma maior longevidade. A causa dessa associação não era clara, mas o vinho tinto, teorizaram, poderia ter propriedades anti-inflamatórias que prolongariam a vida e protegeriam a saúde cardiovascular. As principais organizações de saúde e alguns médicos alertaram sempre que o consumo de álcool estava associado a um maior risco de cancêr, mas a mensagem predominante que os consumidores moderados de álcool ouviam era de encorajamento.

Com o surgimento da pandemia, o consumo de álcool e a atenção sobre as bebidas também. Notícias de qualquer tipo sobre bebida alcoólica parecem despertar maior interesse nos últimos anos. As bebidas não alcoólicas ganharam força em uma vida noturna que começa e acaba cada vez mais cedo nas grandes cidades. Além disso, mais pessoas relatam que passaram a consumir mais cannabis do que álcool – o que se não é uma notícia boa, inegavelmente denota uma mudança de comportamento.

No ano passado, a Irlanda tornou-se o primeiro país a aprovar legislação que exige uma advertência sobre o cancêr em todos os produtos alcoólicos, assim como já acontece nos cigarros: “Existe uma ligação direta entre o álcool e os cancêres fatais”, lê-se na mensagem. Já no Canadá, uma organização financiada pelo governo propôs orientações atualizadas sobre o álcool, anunciando: “Agora sabemos que mesmo uma pequena quantidade de álcool pode ser prejudicial para a saúde”. As novas diretrizes propostas caracterizam um a dois drinques por semana como de “baixo risco” e três a seis drinques como de “risco moderado”.

Em outras palavras, o que associações médicas, governos e autoridades estão tentando dizer agora é: está claro que nenhuma quantidade de álcool é boa. Mas a dúvida que fica é: quão ruim o álcool pode ser?

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Pesquisas têm se dedicado a comprovar a ideia de que beber moderadamente não é bom para a saúde. Uma grande meta-análise que reexaminou 107 estudos ao longo de 40 anos chegou à conclusão de que nenhuma quantidade de álcool melhora a saúde; e em 2022, um estudo bem elaborado descobriu que consumir mesmo uma pequena quantidade trazia algum risco à saúde do coração, botando por terra toda aquela história que tentava associar a saúde cardíaca ao consumo de vinho tinto. A revista Nature também publicou um artigo afirmando que consumir apenas uma ou duas bebidas por dia (ainda menos para as mulheres) estava associado ao encolhimento do cérebro – um fenómeno normalmente associado ao envelhecimento e ao risco de demência.

Pesquisadores detectaram ainda um aumento estatisticamente significativo no risco de mortalidade por todas as causas – o risco de morrer por qualquer razão, seja ela médica ou acidental – para mulheres que bebiam pouco menos de dois drinques por dia e para homens que consumiam mais de três drinques por dia.

O álcool está culturalmente vinculado ao prazer e à sociabilidade. Por algum tempo, conseguiram associá-lo também à ideia de saúde. Este conceito está mais do que comprovado ser um erro, colocando-o muito mais próximo do cigarro do que de algo positivo. Como o álcool irá se sustentar apenas associado ao prazer, agora que está esclarecido que não há níveis seguros para o uso dessa substância, é o que iremos assistir nos próximos anos.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

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