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Analice Gigliotti Por Analice Gigliotti, psiquiatra Comportamento

A detenção de Djokovic na Austrália e o “jeitinho brasileiro”

Passagem do tenista pela Austrália é uma lição de como o poder público deve proceder – independentemente se o infrator é um dos maiores atletas do planeta

Por Analice Gigliotti Atualizado em 12 jan 2022, 14h22 - Publicado em 12 jan 2022, 14h10

O mundo acompanhou nesta semana a queda de braço do jogador de tênis Novak Djokovic e as autoridades australianas. Sem ter tomado qualquer vacina contra a Covid-19 – além de defender uma ferrenha e constrangedora postura antivacinação – o atleta desembarcou no país para disputar o Grand Slam no Aberto da Austrália, mas foi detido pelas autoridades sanitárias locais.

Em seguida, o tenista foi levado para um hotel de imigrantes em Melbourne por vários dias antes que um juiz revertesse a decisão, afirmando que o cancelamento “não é razoável”, e ordernasse sua liberdade.

A verdade é que desde que pôs os pés na Austrália, a passagem de Djokovic pelo país é uma grande lambança, que criou embaraços diplomáticos e esportivos. A entrada do atleta no país foi dificultada por um erro burocrático em sua declaração de viagem: estava marcada a opção “não” na caixa de resposta relativa à pergunta sobre se ele havia viajado para qualquer lugar nas duas semanas que antecederam sua chegada. Djokovic tinha ido da Sérvia, seu país natal, para a Espanha. Fornecer informações erradas no formulário acarreta uma pena máxima de 12 meses na prisão mais multa e pode levar ao cancelamento do visto do infrator.

O visto do tenista foi inicialmente cancelado pois o atleta não foi vacinado e seu pedido de dispensa – baseado no fato de que ele contraiu Covid-19 no mês passado – não foi considerado satisfatório.

A Austrália tem uma política de impedir a entrada de não cidadãos e não moradores no país a não ser que estejam totalmente vacinados contra a Covid-19, apesar de oferecer exceções e dispensas médicas. “Regras são regras, especialmente quando se trata de nossas fronteiras. Ninguém está acima dessas regras. Nossas fortes políticas fronteiriças têm sido cruciais para a Austrália ter uma das menores taxas de mortalidade no mundo do COVID”, afirmou o primeiro-ministro da Austrália, Scott Morrison.

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A declaração do primeiro-ministro é especialmente saborosa para nós, brasileiros. Crescemos e somos educados em um país que vive sob os ditames de uma espécie de hierarquia de castas. Adaptando a frase de Morrison à nossa realidade, poderíamos dizer que no Brasil “ninguém está acima das regras, a não ser que tenha dinheiro e poder suficiente para adaptar as regras aos seus interesses”.

Em setembro do ano passado, quatro jogadores argentinos foram barrados pela Anvisa durante o jogo com o Brasil pelas Eliminatórias da Copa. Eles teriam entrado de forma irregular no país, sem declarar que haviam passado pelo Reino Unido anteriormente, impedidos de entrar no país à época. A Argentina decidiu tirar o time de campo e o árbitro suspendeu o jogo. Um membro da delegação argentina chegou a definir o episódio como uma “palhaçada”.

Não é à toa que nossa identidade como nação é atravessada pela alcunha do “jeitinho brasileiro”, expressão de caráter dúbio, que tanto pode significar um jogo de cintura e fair-play, como uma esperteza ruim, à disposição das pequenas vantagens e privilégios.

E se fosse no Brasil? Será que Novak Djokovic estaria numa queda de braço com as autoridades locais há mais de uma semana?

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

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