O primeiro dia de Rock in Rio sob a ótica de um chato assumido

As semelhanças entre a primeira noite do festival e a inesquecível derrota do Brasil para a Alemanha por 7 a 1 na última Copa

Ivete Sangalo: um grupo de fãs dela, vendo a minha desenvoltura naif com o celular, se ofereceu para me ensinar a usar o Snapchat e o stories do Instagram, que são a kriptonita dos quarentões

Ivete Sangalo: um grupo de fãs dela, vendo a minha desenvoltura naif com o celular, se ofereceu para me ensinar a usar o Snapchat e o stories do Instagram, que são a kriptonita dos quarentões (Rock in Rio/I Hate Flash/Veja Rio)

Bastaram cinco minutos na Cidade do Rock para confirmar as suspeitas do meu filho de oito anos: sou um dinossauro. Mal entrei e já estava procurando uma sombra e reclamando do sol, do calor e do som alto. E das distâncias, é claro, afinal tenho o joelho meio ferrado. Pedi uma bengala para a administração mas disseram que estão todas reservadas para o público do The Who. Que se dane, é o primeiro dia, ainda não é hora de dar vexame.

A sensação de ser um fóssil vivo aumentou ainda mais no show da Ivete Sangalo. Toda aquela extroversão saltitante, aquela euforia sem fim me deu uma certa melancolia. Tipo internet no elevador, faltou conexão. E não é só isso: se entrar nessa de sair do chão meu joelho reclama e se ficar levantando poeira fico com alergia, o que confirma a outra suspeita do meu filho, a de que sou um tanto quanto chato. O contrário do público da Ivete, que é muito simpático: um grupo de fãs dela, vendo a minha desenvoltura naif com o celular, se ofereceu para me ensinar a usar o Snapchat e o stories do Instagram, que são a kriptonita dos quarentões. Uns amores os meninos. Ou meninas, sei lá.

Vieram os Pet Shop Boys. Desses me lembro, os fãs originais são tão dinossauros quanto eu, a diferença é que eles usam filtro solar e não largaram a academia, o que os faz parecer décadas mais novos. Taí um mistério: depois que os heteros passam dos quarenta a barriga não sai nem com pé de cabra, já os gays mantém o tanquinho até o fim dos tempos. Um amigo, gay, me explica que isso se deve ao fato de mulher ser mais calórica que o homem. Seu comentário me faz desconfiar que o sarcasmo também emagrece. Fiz sucesso no público dos tiozinhos ingleses. O pessoal ficou olhando para mim e comentando entre si: “olha o que a gente ia virar se fosse hetero”. Fiquei lisonjeado: o desprezo é um tipo torto de admiração.

A banda seguinte eu nunca tinha ouvido antes. 5 Seconds Of Summer. O nome é bom e por aí acabam suas qualidades. É um Menudo Nutella. Esperei pela versão premium/diferenciada de “não se reprima” mas não rolou. Mesmo assim as mocinhas, e alguns mocinhos também, adoraram. Cheguei a dormir no final da apresentação, só acordei quando um grupo de adolescentes me cutucou para informar: tio, o The Who é só semana que vem. Os fãs da Ivete são mais gentis.

O show do Maroon 5 foi ok, um blockbuster musical, mas uma decepção para quem estava se montando há meses para encarar a Lady Gaga. Tipo 7×1 no Mineirão. No final passei por um grupo, não sei dizer se de homens, mulheres ou trans fluidos, que estava olhando desconsolado para o palco. Me aproximei e comentei: Lady Gaga teria sido bem melhor. Surpresos com a minha solidariedade jurássica, me abraçaram e começaram a chorar. Uma cena até comovente.

Um dinossauro, mas um dinossauro fofo.

Comentários
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  1. Sonia Zaghetto

    Excelente, meu velho (foi proposital). Um T-Rex, sim, mas com domínio de texto, coisa rara nos dias de hoje. 😉

  2. Collins Freitas

    Muito bom, hahaha. Gosto dos dinossauros que têm plena consciência do momento, era atual e ainda levam com um bom humor.